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    Vida de Imigrante – Cada um(a) com seu cada qual

    Denise | Coreia do Sul,Vida de Imigrante | Thursday, 06 May 2010

    Faz quase oito anos que moro fora do Brasil, mas ainda parece que foi ontem que tudo começou. Estou sempre percebendo uma coisinha ou outra a mais, sobre a vida de imigrante.

    Algumas coisas, eu demorei mais a compreender. Eu adoro novidade, então, cheguei na Suécia cheia de excitação, descobertas, opiniões e muitas conclusões apressadas.

    Por isso, na Coreia, estou indo devagar (já faz um ano e nove meses que moramos aqui!), incorporando mais do que “aprendendo” e falando menos, do que falei outras vezes.

    E é nesse ritmo que pretendo contar a minha experiência num país tão absolutamente diferente do meu e onde, ao mesmo tempo, me sinto mais próxima da minha tribo do que nos 7 anos anteriores.

    Conheço gente que está aqui há 20 anos e ainda confessa que “não entende nada”.  Não é pra entender tudo mesmo, cada um de nós tem a sua própria Coreia.

    Em 2002, eu escrevia muito sobre “o que é a Suécia”. Hoje, entendi que a experiência de migrante não se transfere, de jeito nenhum. No máximo, a gente compartilha a nossa, conta como vê as coisas, e tenta respeitar a perspectiva dos outros (coisa rara na blogosfera).

    O que cada um compreende e vive de um país é resultado de muito mais do que o que se vê nos jornais, nas ruas, nos escritórios, escolas e faculdades.  É uma alquimia, cujo principal ingrediente é a sua própria história, a que começou a escrever no seu país de origem.

    Você vê as coisas com a sua percepção do mundo e isso será decisivo para sua compreensão das coisas. Tem sua ideologia, sua filosofia de vida, suas crenças. E tem também o seu contexto no novo país, a sua disposição para se adaptar, nível de tolerância. Cada um(a), com seu cada qual.

    No começo do blog, até me aventurei a dar “dicas” sobre como EU acho que a vida de imigrante poderia ser aproveitada mais “prazerosamente”. Esses posts correram mundo mas, hoje em dia, entendi que essa “receita pronta” é difícil de seguir.

    Se você tem 20 anos, nunca saiu de casa, ou se nunca morou em outro país, vai direto pra um país estranho, como a Coreia, ainda mais se estiver sozinha, sua experiência será completamente diferente da minha. Por mais que eu diga pra relaxar, evitar o banzo, controlar a saudade, nunca vai ser a mesma coisa que é pra mim.

    O que eu vejo com excitação e curiosidade pode parecer extremamente irritante ou até insuportável para você.

    Todos os dias, quando boto o pé fora de casa, sinto uma enorme satisfação por estar tendo essa oportunidade de conhecer e conviver com pessoas tão diferentes de mim.

    Estou vivendo em meu quarto continente e, pra mim, isso vale mais que um mega salário e uma casa na praia  =)

    Nem sempre o convívio com o diferente é agradável, mas nem sempre as chatices do dia a dia têm a ver com o fato deles não serem iguais a você.

    Brasileiros no exterior têm uma tendência a esquecer todas as agruras do Brasil.  A terrinha não é tão fácil assim, também. Pelo menos, nunca foi pra mim. Mau humor nas lojas e empurra-empurra nos ônibus não é privilégio de coreanos.

    Quando resolvi emigrar, já tinha casado, descasado, era independente financeiramente, tinha uma filha de 16 anos, que estava comigo e já tinha viajado para uns 25 países, inclusive asiáticos (a maioria, a trabalho). Minha carreira profissional tinha me propiciado um background valioso para facilitar a minha adaptação pelo mundo afora.

    Em 96 (quase 15 anos atrás!), fui convidada a coordenar uma campanha mundial de amamentação. Durante alguns anos, viajei pelo mundo afora, fazendo um trabalho que era, basicamente, compreender e gerenciar as crises causadas por profundas diferenças culturais de grupos de 120 países, que eram diferentes mas tinham como objetivo comum promover a amamentação. Eu era uma facilitadora.

    Convivia com situações mais diversas e delicadas, organizei e coordenei fóruns e seminários em vários países e trabalhei algumas vezes no escritório central da rede, na Ilha de Penang, Malásia.

    Lá, eu aprendi também a adorar comer em folhas de bananeira, pegando o arroz com a mãos. Ou que as colegas se ofendiam se eu tocasse na cabeça ou apontasse meus pés para elas. Entendi que sapato dentro de casa, nem pensar, por higiene e respeito. Que elas arrotavam com orgulho depois do almoço e isso era sinal de saúde, não falta de educação…

    E mesmo depois de me afastar um pouco do movimento de amamentação, tenho mantido um trabalho mais ou menos constante com um grupo chinês e outro da India, com os quais aprendo mais a cada dia.

    Tudo isso faz parte da minha bagagem, além do que trouxe de livros, fotos e lembranças.

    Quando mudei pra Coreia, depois de ter passeado ou trabalhado em vários países asiáticos (Malásia, Filipinas, Tailândia, Bangladesh, India, China, Nepal e Singapura), eu trouxe essas experiências e uma sistemática busca pela tolerância, respeito e real compreensão das diferenças culturais.

    O que quero dizer é que não é que tenho uma visão “cor de rosa” da vida na Coreia, como agumas pessoas acham, apenas não consigo ver nada tão dramaticamente ruim, aqui. Não adianta.

    Vejo os defeitos, sim. Mas entendi também que é  ilusão achar que a vida na Suécia, por exemplo, é mais fácil. Não é. Vida de imigrante não é moleza em lugar nenhum. Contei aqui que quando trabalhei por duas semanas na Suazilândia, percebi a enorme tensão com imigrantes de Mozambique, país vizinho. Essa tensão existe em todo lugar.

    Na minha opinião, a única saída é, como imigrante, fazer a sua parte, respeitando e procurando absorver a cultura local. Claro que cobrando respeito também, mas é complicado fazer isso se você vê o outro como “inimigo”.

    E respeitar também não é ser condescendente, não é pensar que “entende” como eles são, quando na verdade se sente superior (isso é muito comum aqui, mas é assunto pra outro post) ou inferior a eles .

    É quando essas diferenças começam a ser tão normais pra gente, que não chamam mais atenção. Ou se percebemos, não temos julgamento de valor. E, obviamente, é não ridicularizar, não ironizar, não desdenhar. É superar o complexo de Narciso. Aquele que acha feio tudo que não é espelho.

    Claro que a Coreia não é perfeita, não é tudo cor de rosa, apesar das lindas fotos de cerejeiras, que coloquei aí abaixo.

    O ritmo é diferente do que estamos acostumados, existe muito racismo, xenofobia, mulheres são vítimas de violência doméstica e tratadas como inferiores, existe um problema gravíssimo com alcool, todo mundo fuma e muitas vezes em lugares inadequados. Nem sempre são pacientes com os que vivem em seu país sem falar (ou falando mal) seu idioma e por aí vai…

    Como eu trabalho por conta própria, não tenho a experiência – que, com certeza, é mais complicada – no local de trabalho. Mas, Ted tem e está muito feliz aqui. As coisas podem ser um pouco enroladas por causa do idioma e das diferenças culturais, do jeito de corpo, mas ele (que já trabalhou em uns 50 países e viveu no Yemen nos anos 70) tira de letra, respeita os colegas e é respeitado por eles. Como eu, Ted ADORA morar aqui.

    Aliás, a questão do trabalho na Coreia também é assunto pra outro post, porque rende muita conversa. Só adianto que me CANSA ver americanos – que têm uma relação de extrema exploração do trabalho imigrante, em seu país – chegar aqui reclamando de tudo e falando dos coreanos com0 se fossem bárbaros.  Tem muita gente que precisa olhar o próprio rabo.

    Enfim, esse é só um post introdutório (ainda que longo, sorry), não para falar da Coreia em si, mas pra começar lembrando que vocês podem ler tudo sobre a vida dos expatriados, em blogs que contam maravilhas ou horrores de outros países, mas nada que a gente fala pode dar uma idéia do que seria essa experiência pra você.

    Por enquanto, só repito que eu e Ted não poderíamos estar mais felizes.

    Não é perfeito, mas também não é nada tão pior que qualquer outro lugar onde vivemos.

    Anyasayo…

    Fotos: Um pouco da Coreia que eu vejo.

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    Pelo direito de ir e vir

    Denise | Vida de Imigrante | Monday, 08 February 2010

    A blogueira convidada dessa vez é a Lelei Oliveira, paulista que vive em Londres desde 2002, onde escreve o blog Mrs Think Too Much. Sigo a Lelei no Twitter. Bem vinda, Lelei!

    Semana passada, ruma amiga me contou que a sua faxineira brasileira tinha sido a última ‘vítima’ do Home Office (equivalente à Polícia Federal no Brasil aqui no Reino Unido). Policiais bateram na sua porta às 5 da manhã, e a levaram pro centro de detenção de imigrantes, à espera de um vôo para deportá-la de volta pro Brasil. Sem tempo nem de ligar para o filho, a história ainda tem um formato de fofoca – onde cada um aumenta um ponto e não se sabe ainda o que aconteceu com detalhes.

    Sendo uma pessoa que não arriscaria ficar em país ilegalmente, seria fácil pra mim julgar aqueles que se arriscam. Mas como saber os motivos de cada um? Como saber se a vida que levam aqui é melhor ou pior que no Brasil? Como saber o nível de necessidade que suas famílias precisam dessa ajuda? Então eu não julgo. Eu fico triste por saber que as escolhas que uma pessoa honesta – senão pelo motivo de quebrar as leis de imigração – faz, não pode ser realizada por uma lei que não é igual para todos e beneficia aqueles que são desonestos.

    Por exemplo, aqui se você é Chinês ou Árabe, e fica mais tempo do que o vistou autorizou (ou chegou ilegalmente) e “perde” seu passaporte, quando a polícia te acha, você só leva uma multa e é permitido ficar no país – porque as nações desses povos não emitem passaporte novo pra quem perde o passaporte.

    É claro que devem existir controles, senão todo mundo migraria pros países onde teoricamente a vida seria melhor. Minha indignação é com os processos que acham os buracos na declaração dos direitos humanos pra fazer esse direito diminuir, e exercer um controle quase que divino sobre as vidas das pessoas.

    Diz a carta dos direitos humanos:

    Artigo XIII.

    1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.

    2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

    Artigo XIV.

    1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.

    2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.

    Mas, o último direito claro, é que prende os Estados a ditarem quem pode e quem não pode e suas próprias regras, não importa o que os direitos 13 e 14 ditam.

    Artigo XXIX.

    2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.

    E é aí que eles se colocam no poder de segurar processos de imigração por quase 2 anos (aconteceu comigo), recusar ou atrasar processos de asilo (eu ainda não entendo como QUALQUER processo vindo do Oriente Médio ou China como asilo podem ser recusados, área de Guerra deveria ser sempre aceitos. Que mais perseguição que a não-democracia e estar em área de Guerra é necessário?). E ainda por cima, órgãos sendo recompensados por tamanha quebra dos direitos humanos é inacreditável.

    Não acredita que a polícia aqui pega pesado com imigrantes ilegais? olha aqui e aqui.

    Está na hora dos Estados pensarem em uma melhor maneira de controlar suas fronteiras, e recompensar àqueles que enriquecem seus países e controlarem melhor a maneira que lidam com quebra as suas leis, dentro ou fora do país.

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    O caso da barriga da brasileira e de todos nos

    Denise | Vida de Imigrante | Thursday, 12 February 2009

    “Barriga” quase compromete o Brasil

    Por Rui Martins, de Berna (Suíça) em 13/2/2009
    Observatorio de Imprensa

    A moça brasileira tinha seus problemas e provavelmente se autoflagelou. É triste.

    Mais triste é o quadro da nossa imprensa irresponsável que mobilizou o país, levou o ministro das Relações Exteriores Celso Amorim a criticar um país amigo e o presidente Lula a quase criar um caso diplomático. É hora de denunciar a nossa grande imprensa sem deontologia, sem investigação, que afirma e desafirma sem qualquer cuidado e sem checar as notícias.

    A agressão racista contra Paula Oliveira não foi um noticiário iniciado em Zurique, local da suposta agressão. Estourou no Brasil, detonada por um pai – e isso é muito compreensível – preocupado com sua filha distante. E a maior rede de televisão do Brasil, a Globo, vista por mais de uma centena de milhões de brasileiros, não teve dúvidas em transformar o caso na grande manchete do dia, fazendo com que outros milhões de brasileiros, no exterior, já acuados pela Diretiva do Retorno, se solidarizassem e imaginassem passeatas e manifestações.

    (Continue lendo aqui)

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    Onda de ataques a imigrantes matou 56 na África do Sul

    Denise | Vida de Imigrante | Tuesday, 27 May 2008
    Essa notícia me lembrou que, quando eu estava na Suazilândia, fiquei impressionada com o nível de preconceito e ódio contra os moçambicanos, imigrantes no país.
    Será que a gente não consegue mais conviver com a imigração em lugar nenhum do mundo?
    A onda de ataques contra imigrantes na África do Sul deixou 56 mortos e 650 feridos nas últimas duas semanas, de acordo com dados anunciados pelo ministro de Segurança da África do Sul, Charles Nqakula, nesta segunda-feira.

    Ainda segundo o ministro, no mesmo período, cerca de 30 mil pessoas deixaram as suas casas de maneira forçada ou simplesmente por medo de serem atacadas.

    Informações de agências humanitárias que atuam na região indicam que grandes números de imigrantes, principalmente do Zimbábue, que viviam na África do Sul estão indo para Zâmbia, Moçambique e Botsuana.

    (Continue lendo aqui)

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    Os latinos nos EUA

    Denise | Televisao,Vida de Imigrante | Tuesday, 02 January 2007

    williamfrey.jpg

    Nos próximos 50 anos, a população latina triplicará nos EUA. Clique na foto acima, para ver a entrevista com o geógrafo americano William Frey, que fala, para o programa Milênio, sobre a nova configuração demográfica do país com a imigração.

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    Mulheres imigrantes ganham menos
    e mandam mais dinheiro pra casa

    Denise | Vida de Imigrante | Thursday, 14 September 2006

    mulher_imigrante.jpg

    É o que afirma o relatório “A Passage to Hope: Women and International Migration”, da UFNPA (Fundo de População das Nacões Unidas), que acaba de ser lançado.

    Segundo ele, já são 95 milhões de mulheres e meninas migrantes (quase metade do número total) e, ao contrário dos homens, que investem mais em objetos de consumo, as mulheres costumam mandar, em média, três quartos dos seus salários para sustentar suas famílias no Brasil, contribuindo, substancialmente, para a economia dos países de origem.

    Em 1999, mulheres do Sri Lanka foram responsáveis por 62% dos mais de 1 bilhão de dólares enviados ao país por imigrantes. E um estudo com mulheres de Bangladesh, que trabalham no Oriente Médio, mostrou que elas foram responsáveis por 72% do envio de dinheiro para familiares que ficaram no seu país.

    O relatório revela ainda que, apesar das mulheres migrantes contribuirem com bilhões de dólares em dinheiro e serviços, ajudando a fortalecer a economia dos países em que vivem e seus países de origem, continuam sendo as maiores vítimas de exploração, abuso, tráfico humano.

    Há algum tempo, participando de um seminário organizado pelo UNIFEM (Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Mulher) vi uma palestrante explicar porque existem tantos projetos de apoio às mulheres.

    Estávamos discutindo “gênero” e um homem questionava o porquê da prioridade às ações dirigidas às mulheres, em órgãos das Nações Unidas. A resposta da representante da UNIFEM foi que, além delas encontrarem-se em situação de maior vulnerabilidade, os recursos investidos na educação, formação de lideranças, capacitação profissional, bem estar e saúde da mulher era revertido, automaticamente, em melhoria das condições de vida de toda a familia. Esse estudo só vem reforçar essa afirmação.

    Só fico penalizada ao pensar no quanto essas mulheres imigrantes sacrificam da sua própria saúde e bem estar para ajudar a família que ficou no seu país e o quanto esse sacrifício não é reconhecido pelos que estão aqui e, muitas vezes, nem pelos que estão lá.

    Foto: feita por mim, numa manifestação a favor dos imigrantes, aqui em Washington, DC, na frente do Capitólio.

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    A difícil decisão de sair do seu país

    Denise | Vida de Imigrante | Monday, 08 May 2006

    Leia ouvindo Tudo Bem, de Lulu Santos.

    eu_e_ted_decisao_1.jpgNesse final de semana, andei matutando sobre uma pergunta que me fazem, de vez em quando, aqui no blog, ou por email, e nem sempre tenho tempo de responder direitinho.

    Então, pega um cafezinho com tapioca (ai que sonho!), que esse post vai ser longo…

    Muita gente, principalmente mulheres que estão passando pela mesma situação que eu, quer saber como foi a minha decisão de morar fora do Brasil. Não foi fácil e quem precisou largar tudo pra começar uma nova vida fora do Brasil sabe do que eu estou falando.

    Namoro à distância

    Me separei em 2000, comecei a namorar com Ted no mesmo ano, mas somente em 2003 decidimos a nossa vida. Conheci Ted trabalhando com amamentação, como eu. Sabia muito bem quem ele era e que tínhamos muitas afinidades. Ainda assim, tinha minhas dúvidas.

    O namoro à distância sempre dá uma certa insegurança porque é uma situação muito especial. É claro que, sempre que a gente se encontrava, era tudo maravilhoso… mas como seria no dia a dia? Essa era uma das minhas dúvidas. Fora do Brasil, morando juntos, ele continuaria sendo tão gentil e atencioso? (resposta: é cada vez melhor!)

    Fico imaginando como deve ser para quem se conhece em chats e mantém um relacionamento assim, por muito tempo. Conheço vários casos que deram certo, pessoas que se apaixonaram “virtualmente”, primeiro, e depois se encontraram e vivem felizes juntos, mas a maioria dos casos é decepcionante mesmo. Pra essas pessoas só diria que todo cuidado é pouco. Nada de largar tudo e sair correndo pra viver com alguém que não conhece!

    Filhos

    Pra quem tem filhos, a situação complica ainda mais, porque qualquer decisão, que a gente tomar, vai envolver não só a gente, mas também uma outra pessoa (ou outras).

    Quando Ted me pediu pra casar e mudar com ele pra Suécia, Bia tinha 13 anos, uma idade complicada, de afirmação da identidade, ela não queria sair de perto dos amigos e eu nunca pensei em deixá-la no Brasil. Ou ela vinha comigo, ou eu ficava lá.

    A idéia de não acompanhar seu dia-a-dia era insuportável pra mim. Sei que muita gente precisa mesmo deixar os filhos e não condeno ninguém por isso, de jeito nenhum, e admiro quem tem tanta coragem, mas eu sei que não conseguiria, jamais.

    Acho que, entre 11 e 14 anos, eles se sentem muito mais perdidos, confusos, e eu achava que ela precisava, primeiro, se fortalecer no Brasil, entre amigos e pessoas que gostam dela, se sentir mais segura, pra aí poder enfrentar a vida em outro país e acho que foi uma decisão muito sensata.

    Além disso, tinha também o pai da Bia. Ele é filho único, não tem família, Bia era tudo na vida dele (agora ele está casado, de novo). Apesar de estarmos separados, gosto muito dele, é um homem admirável, e a idéia de tirar a filha única de perto dele me parecia uma “maldade” terrível.

    Mas, aí ela fez 14, 15, 16… começou a sair pras baladas, chegar em casa de madrugada (tudo com meu apoio e consentimento) e a gente começou a se preocupar muito com a violência e os riscos que ela estava correndo, além do que percebíamos que as perspectivas profissionais, para ela, no Brasil não seriam das melhores. No mínimo, viver fora do Brasil por um tempo seria uma experiência interessantíssima, pra ela.

    Um dia, meu ex perguntou se eu ainda pensava em casar com Ted e mudar pra Suécia e disse que achava que era isso que eu devia fazer, que seria o melhor para Bia e ele ia aguentar a saudade. Dessa forma, interessantemente, foi o meu ex-marido quem “abençoou” a nossa imigração. Fiquei surpresa e acho que foi uma grande prova de amor pela filha, por parte dele.

    Bom, decidido, então, que eu “podia” mudar, sem carregar a culpa de afastar a filha do pai, a questão agora era convencer Bia a vir e, surpreendentemente, dessa vez não foi difícil.

    Ela já tinha 16 anos e já conseguia perceber que era uma experiência que seria muito dolorosa no início (ela sempre viveu cercada de amigos, no Brasil), mas muito gratificante a longo prazo.

    Claro que tinha, além de tudo isso, também a saudade da minha mãe, meu irmão, dos sobrinhos (que eu não vejo crescer), dos amigos, mas tudo tem um preço, como se diz em inglês “no pain, no gain” (algo como, “sem dor, sem ganhos”). E tem a internet pra matar as saudades, o que facilitou muito.

    Vida profissional

    Bom, resolvida a questão “familiar”, eu sabia que iria enfrentar um outro problema: as mudanças na minha vida profissional. Esse foi mais um motivo pra não sair do Brasil, no início.

    Eu levei mais de 15 anos, construindo uma reputação, sendo reconhecida, contribuindo para a amamentação no país. Na minha área todo mundo me conhecia, eu estava em todos os eventos, adorava meu trabalho e não era fácil abandonar tudo isso.

    Sabia, também, que teria que passar um bom tempo sem viajar, porque não podia deixar Bia num país estranho, sem falar o idioma (na época ela não falava nem inglês nem sueco), ou seja, não só meu trabalho no Brasil, mas em nível internacional, seria interrompido.

    Uma diferença que eu vejo em relação à minha experiência e a de outras moças, mais jovens, que saem do Brasil, é que eu já tinha conquistado muita coisa, dentro da minha área, alcancei resultados inesperados até pra mim mesma, então não tinha mais nada a provar a ninguém, nem a mim mesma.

    De qualquer forma, o recomeço em outro país, sem um trabalho, sem o reconhecimento, sem uma contribuição produtiva, deixa a gente sem identidade e isso é algo que as pessoas precisam se preparar, antes de tomar uma decisão.

    Entrar num mercado de trabalho em outro país não é fácil, existe a barreira do idioma (muito mais na Suécia, claro!) e aqui, como no Brasil, tudo depende muito de “networking”.

    Vi uma matéria sobre o mercado de trabalho nos EUA, essa semana, e esse era um ponto fundamental, as pessoas precisam conhecer outras pessoas, e é assim que se cresce profissionalmente. Claro que, para o(a) imigrante, essa é uma questão ainda mais complicada, mas não é impossível e temos muitos casos de imigrantes bem sucedid@s em suas áreas de atuação, pelo mundo afora.

    No meu caso, tenho o privilégio de escolher o que quero fazer, por isso, continuo trabalhando como “free-lancer” e procurando um trabalho aqui exatamente como eu quero, mas nem sempre isso é possível. Em muitos países os diplomas conseguidos a alto custo no Brasil não são nem reconhecidos. Tudo isso precisa ser avaliado.

    Enfim, poderia escrever por horas sobre esse assunto, mas acho que o melhor é passar a bola pra frente… seria bacana ouvir a experiência de quem também teve que largar tudo pra recomeçar em outro país. Talvez nossas experiências possam ajudar muita gente que está com essa decisão a tomar…

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    Mas, que cara é essa?!

    Denise | Discriminção,Vida de Imigrante | Sunday, 23 April 2006

    tpm_mostrasuacara.jpg

    A princípio, a idéia da exposição, divulgada pela TPM, parecia boa: mostrar a cara das mulheres brasileiras que vivem na Inglaterra. Olhando a galeria de fotos, direitinho, percebi que, estranhamente, só tem uma negra (loira) e a maioria das que “venceram fora do Brasil” é formada por brancas, lindas e jovens. Nada contra as moças que foram fotografadas, claro, a maioria parece gente boa mesmo. Mas, será essa a cara da brasileira na Inglaterra e em outros países?

    Lendo a matéria, a coisa pareceu ainda pior. Num festival de preconceitos, a jornalista Erika Sallum afirma:

    “Não fazem parte da mostra fotos de imigrantes ‘cucarachas’ sofridas que só pensam em juntar dinheiro e voltar para o Brasil. O fotógrafo mineiro Luiz Fernando Gomes, que mora em Londres desde 2004, quis fugir dos estereótipos negativos que rondam a imagem dos brasileiros no exterior.”

    Eu não tenho nenhum problema em me identificar com “imigrantes ‘cucarachas’ sofridas”, muito pelo contrário. Tenho um orgulho danado dessas mulheres brasileiras, salvadorenhas, mexicanas, que estão ralando pra sustentar suas famílias. Eu não preciso lavar pratos pra garantir minha sobrevivência por que sou uma pessoa privilegiada, sempre tive sorte na vida (ou vocês acham que nascer numa família que têm possibilidades de lhe colocar nas melhores escolas não é puramente uma questão de sorte?), mas não sou nem um pouco melhor que elas.

    Também não acho que é indigno pensar em “juntar dinheiro e voltar pro Brasil”. Pra começar, muitas delas nem teriam saído de lá se tivessem tido as mesmas oportunidades que eu e muitas de nós tivemos. E se pensam em voltar é porque não se sentem integradas, sendo marginalizadas, não somente pelos americanos, mas pelos próprios brasileiros que vivem aqui.

    paisdeimigrantes.jpg

    Parece que, para o tal fotógrafo brasileiro, sinônimo de estar de bem com a vida, é ter dinheiro, posição social e frequentar os lugares descolados da capital londrina.

    Tenho amigas que vivem em favelas, no Brasil, e posso garantir que têm lá os seus momentos de muita felicidade, quando vão pra o pagode ou quando se reúnem com a família. Uma delas, que vive num lugar barra pesadíssima, é a mulher mais feliz que eu conheço, com todas as dificuldades que enfrenta, estando desempregada e sem muita perspectiva de melhorar de vida.

    Da mesma forma, aqui nos EUA, também, as “cucarachas sofridas” são mulheres batalhadoras, que também têm seus momentos de estar “de bem com a vida” e que podem ser consideradas tão vitoriosas quanto (ou muito mais) a “patricinha” que estuda Artes em Londres.

    Ainda assim, vejo muita brasileira, fugindo dessas “pobres coitadas” como quem foge da cruz. É o medo de ser contaminadas pelo estigma de pobreza e ilegalidade.

    A Ana Lúcia abordou isso muito bem nesse post:

    “Infelizmente, uma vez tendo imigrado na França (devem existir outros exemplos em relação a quem esteja na Alemanha ou outros países europeus), o brasileiro reproduz em solo ‘estrangeiro’ o mesmo comportamento que teria diante do morador da favela que está ali debaixo do seu nariz.”

    O problema é que, basta pisar em solo estrangeiro e alguns brasileiros, privilegiados, fazem tudo pra se diferenciar dos que não são “vitoriosos”. Dia desses, o Leo, que também vive em Montreal, como a Ana Lúcia, perguntava porque a gente não vê brasileiros nas passeatas de protesto de imigrantes por aqui.

    É que aqui, os favelados e nordestinos são os brasileiros que não tem documentos legais e os outros latinos, especialmente salvadorenhos, mexicanos, bolivianos, peruanos. “Não somos latinos, somos brasileiros”. Sei…

    Com certeza, é isso que a jornalista pensa, quando diz:

    “Se você estiver a caminho de Londres não deixe de dar uma espiada lá. Não é sempre que a gente se orgulha de ser brasileiro quando está fora do país.”

    “A gente” quem, cara pálida? não preciso ver foto de brasileira auditora da Ernest & Young na Inglaterra pra ter orgulho do meu povo.

    Enfim, acho isso tudo muito, muito triste e vergonhoso. Aqui em Washington, DC, a quantidade de latinos é enorme. No meu prédio tem uma senhorinha pernambucana que trabalha como doméstica na casa de uma americana bem velhinha. Tem 70 anos e está aqui há 30.

    Ela fala pouco inglês, porque sempre viveu cercada de brasileiros e nunca pôde estudar, porque precisava trabalhar o dia todo. Mas é uma batalhadora que conseguiu uma vida digna e a quem eu admiro muito, adoro conversar com ela, sem medo nenhum de que os americanos esnobes do meu prédio me “confundam” com uma “cucaracha sofrida”.

    Também me divirto muito, batendo papo com essas mulheres “invisíveis” que fazem limpeza, que nos servem nos restaurantes, que cuidam das velhinhas no meu prédio, que fazem a faxina nos banheiros dos shopping centers… “Hablo en portuñol” e adoro arrancar muitos risos delas com minha pronúncia infame.

    Essas, sim, são as verdadeiras vitoriosas e só temos a aprender com elas, com sua força e sua coragem…

    “Shame on you, Mr. Gomes, shame on you!”

    PS.: Além de tudo isso, a jornalista que fez matéria deu uma mancada inacreditável, ela diz: “Atualmente, cerca de 100 mil brasileiros vivem – legal ou ilegamente – somente em Londres e seus arredores. Trata-se do país com o mais número de brasileiros em todo o mundo.” É piada, né? Somente aqui, na região que a embaixada brasileira de DC tem jurisdição, são mais de 60 mil brasileiros registrados, fora todos os ilegais. A TPM já foi melhor…

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    Gema

    Denise | Literatura,Poesia,Vida de Imigrante | Thursday, 02 February 2006

    esmeralda_gem.jpg

    Regina Camargo
    Setembro, 2005

    Sou paulistana da gema,
    Gema preciosa
    Essência multicor
    Por onde flutuam
    Pensamentos, palavras e sentimentos
    Em línguas várias
    Sou brasileira tupiniquim
    Latina viviendo sin fronteras
    Auslander/Foreigner/Estrangeira
    Cidadã do mundo que gosta de ouvir
    MPB, funk e jazz
    Swissgrove Radio pela internete
    De dançar ao som de bangra, raï,
    Eletrônica and drum’n'bass
    Ojos de Brujo, Femi Kuti
    Amina, Cheb Mami
    Home is where the heart is
    So they say
    Mas meu coração errante
    Il est partout
    São Paulo, Curitiba,
    New York, Berkeley,
    Salvador, Paris,
    Berlim, Amsterdam
    Quem sabe um dia
    Dakar e Dehli.
    Alma cigana que sonha em visitar o Mali,
    Bamako de Salif Keita e Boubacar Traore
    Mas que nem por isso se esquece de Caetano,
    Chico, Gil, Milton, Lo Borges, Lenine
    E de tantos mais.
    Minha boca se enche d’água
    Quando sinto o cheiro de samosas,
    Naan e mango lassi,
    Tandoori chicken, Sushi,
    Pad-Thai, chiles rellenos,
    Hummus, baba ganush,
    Pita bread, pão de queijo
    Moqueca de peixe, farofa,
    Tutu de feijão, virado de couve,
    Mandioca, escarola, agrião,
    Doce de leite, beijinho,
    Suco de maracujá, jabuticaba,
    É fruta que não se acaba.
    Minha certidão de nascimento diz
    Que a minha cor é branca
    Eu sempre achei isso muito mal contado
    O lado português,
    Tão vangloriado pelo meu pai,
    Nunca enganou a minha avó materna:
    Cara de índio, nariz chato,
    Pele morena, cabelo assanhado.
    Aqui renasço enquanto
    “Person of color.”
    Já limpei casa com piscina
    Cuidei de filho alheio,
    Fiz coisas que
    Faculdade nenhuma ensina
    Camaleoa que sou
    Vou me adaptando pela vida afora
    Dependendo de onde estou.
    Com filhos que são americanos,
    Mas que também são brasileiros e alemães
    Marido afro-deustch
    Alemão com cara de brasileiro
    Whatever that means
    Filhos com sotaque de gringo
    Para quem Saci, Maus,
    Caipora e Nikolaus
    Habitam o mesmo universo de
    Dr. Seus, Tin Tin e Asterix
    Minha vida é marcada
    Por uma sucessão de adeuses:
    Aeroportos e passaportes,
    Abraços ao vento.
    Mas também de boas-vindas:
    Janelas abertas,
    Portas por abrir,
    Good wishes.
    Saudade que nunca se finda.
    Ainda assim
    É em sendo estrangeira
    Que adoto uma pátria
    Onde cabe a humanidade inteira.
    Uma pátria sem fronteiras
    Onde cada um festeja
    As cores de suas bandeiras
    O resto são fragmentos da memória
    Cheiros, sons, paisagens
    Mais lã no novelo da minha história.

    _________________________________________________

    reginaefamilia.jpg

    Regina Camargo vive, há quase 20 anos, nos Estados Unidos, atualmente, em Berkeley, na California, com um marido afro-alemao, dois filhos tri-nacionais, dois gatos americanos e um lagarto que nao sabe de onde veio. Seu coracao esta espalhado entre o Brasil, Berkeley e a Europa. No Brasil, era jornalista, aqui virou tradutora e outras coisitas mais. Recentemente, começou a trabalhar na area de multiculturalismo e educacao bilingue e bicultural.

    Esse poema foi a coisa mais linda que já li sobre nossa vida de imigrante. Me sinto exatamente como a Regina. Tudo que ela disse, brilhantemente, eu assinaria embaixo. Obrigada, querida!

    Foto: Esmeralda, gema brasileira.

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    Sobre exílio voluntário ou “se tá na chuva, é pra se molhar”

    Denise | Vida de Imigrante | Monday, 05 September 2005

    “O melhor o tempo esconde, longe, muito longe, mas bem dentro aqui”. Trilhos Urbanos, Caetano Veloso.

    Esse post foi publicado no dia 31 de julho de 2004, eu (e a Lucia) gostamos muito dele, por isso resolvi relançar (revisado). Também porque é um tema que eu acho importantíssimo pra quem mora (ou pretende morar) fora do Brasil e, como temos muita gente nova visitando o blog, achei que seria legal trocar mais umas idéias com vocês.

    joaocamara1.jpg

    Há bastante tempo, uma pessoa escreveu o seguinte comentário pra mim num dos meus posts sobre os EUA: “Denise acho seu blog muito legal vc é muito bem informada, morei na Europa atuamente USA e adoro, mais eu particulamente acho que vc super valoriza o exterior e sua cultura criticando o brasil (brasileiro) sempre de forma muito elegante.”

    Como ela também foi elegante, na forma que fez esse comentário, achei que valia a pena responder, não tenho problemas em receber críticas e acho que elas até nos ajudam a pensar melhor sobre o assunto.

    Arrumando minhas idéias:

    1. Quando me dispus a escrever esse blog a idéia era falar sobre a minha experiência fora do Brasil. Até penso em escrever um blog sobre o Brasil, em inglês, um dia, se tiver tempo e paciência. Por enquanto, esse blog é, principalmente, sobre minha experiência na Suécia e nos EUA.

    2. Como expatriada, procuro tirar o melhor daqui. Sei que essa não é a postura de todo mundo e respeito todas as formas de lidar com a condicão de imigrante, uns reclamam, outros se descabelam, outro adoram, outros ignoram e tentam viver como se ainda estivessem no Brasil. Não critico ninguém.

    Pra mim, a minha forma de viver aqui é tentar ver o lado bom, o lado positivo, porque senão eu vou entrar numa nostalgia, numa melancolia que não me interessa. É, simplesmente, uma questão de sobrevivência.

    3. Repeti várias vezes que não existe um lugar perfeito, aqui não é o paraíso, percebo todos os problemas, mas também tinha problemas no Brasil. Acho que a gente precisa aprender a lidar com eles da melhor forma possível, para ser feliz, onde estiver.

    4. Tenho muito orgulho de ser brasileira, porque acho nosso país lindo, riquissimo culturalmente, tem uma música maravilhosa, tem Clarice e Chico e tem uma natureza de deixar qualquer pessoa babando, além de um povão arretado… mas, francamente?? tenho certeza que teria o mesmo orgulho da Suécia, se eu fosse sueca; do Nepal, se eu fosse nepali, de Mozambique, se eu fosse mozambicana… por favor, isso de “como adoro meu país” não é exclusividade brasileira…

    5. Não existe país nem povo superior ao outro. Os brasileiros sempre dizem que os cidadãos estadunidenses se acham superiores, mas se esquecem disso ao se referir ao Brasil, quando estão longe dele.

    Sempre detestei esse ufanismo que faz os brasileiros, no exterior, repetirem que “o brasileiro é o único povo que sabe se divertir”, “que enfrenta tudo com bom humor”, “que é criativo”, “que tem as mulheres mais bonitas do mundo”… parece Galvão Bueno narrando corrida de Ayrton Senna… insuportável, pra mim.

    joaocamara2.jpg6. Por isso me seguro pra manter uma postura crítica ao Brasil, em alguns momentos. Acho que esse nosso “ufanismo” tá muito próximo a uma profunda insegurança e a uma baixíssima auto-estima que nos faz repetir o tempo todo o quanto somos maravilhosos. Eu sei muito bem que temos muitas virtudes e belezas e não preciso ficar repetindo cada uma delas pra me convencer disso.

    7. Comecei esse blog, quando me mudei pra Suécia, e ele tem acompanhado toda a minha vivência fora do Brasil. Uma coisa que me chocou foi a tendência que algumas pessoas têm para resistir à integracão, a reclamar o tempo todo de tudo que tem no país que escolheram para viver. Eu não sabia que esse fenômeno ocorria e devo confessar que ele me irrita um pouco.

    Acho que cada um tem todo direito de reclamar do que quiser, acho que é uma forma de desabafo e compreendo perfeitamente que a gente tem que fazer isso, de vez em quando. Às vezes leio e até acho graça, outras concordo… mas eu não vou fazer isso aqui no meu blog e tem horas que me sinto cobrada como se eu não pudesse gostar tanto de viver fora do Brasil, sem que isso significasse que eu estou super valorizando a vida fora do meu país.

    8. E tem mais… não tenho banzo nenhum. Não tenho saudades do Brasil. Não tenho saudades de praia, nem da alegria, nem do verão, nem de sandálias havaianas, nem de feijão com arroz, nem do Alto da Sé, nem de nada… a não ser da minha familia e meus amigos, e mesmo assim, estou em contato diário com eles, pela Internet, não dá pra sofrer muito…

    Vou vivendo a minha vidinha, aqui, como em qualquer lugar, todo dia leio um pouco a Folha de São Paulo, assisto um pouco a Globonews, ouco música brasileira. Ouço gente falando português pela Internet, nos telejornais. Tenho contato diário com o Brasil, não dá pra ter saudade.

    9. Detesto o tom que parece esnobe ao se falar isso, mas acho que sou mesmo uma cidadã do mundo. Amo o Brasil, mas amo também a Suécia, amo o Nepal, que é o lugar mais lindo que já fui e aonde gostaria de viver um tempo, quando estiver bem velhinha… também amo o Peru, que é um país maravilhoso… e, pasmem, amo até os EUA, que não é só Bush e tem muito mais além da ignorância republicana…

    “Eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”… já aconteceu de eu estar num país estranho, num quarto de hotel e me pegar pensando… “eu viveria aqui o resto da minha vida, não precisava nem voltar pra pegar as roupas”…

    10. Enfim, não supervalorizo a Suécia ou os EUA, mas também não vou ficar aqui chorando as pitangas porque não posso estar na praia de Porto de Galinhas. Quero mais é procurar o que tem de bom aqui e ser muito feliz aqui, porque essa foi a minha opção e eu sou a única responsável pro ela!

    11.
    Também não vou passar a considerar que o Brasil é o paraíso, só porque não estou vivendo lá. Esse foi outro fenômeno que me impressionou muito. Como muitas pessoas perdem totalmente a perspectiva, ao sair do Brasil e tudo fica ideal por lá.

    joaocamara3.jpgA situacao da violência e da miséria do povo, no Brasil, é impossível de se aceitar, é dolorosa. Todo mundo fala nisso, mas parece que nós, que vivemos fora do país, perdemos automaticamente o direito e/ou a capacidade de fazer críticas…

    12. Por outro lado, sinto muito que incomode a algumas pessoas o que eu escrevo sobre a vida fora do Brasil. Não preciso dizer que não é fácil, que tem horas em que nos sentimos perdidas, desfocadas, tendo que lutar pra manter (ou encontrar) a nossa identidade, mas eu não vou fingir uma infelicidade, uma tristeza, que eu não tenho e mesmo que tenha, de vez em quando, luto pra afugentá-la.

    13. Paradoxalmente, nunca estive mais próxima “de casa”, como agora. Ando apaixonada pelas artes plásticas pernambucanas (como  João Câmara, dessas pinturas do post), pela nossa música, redescobrindo o mangue beat, nossa literatura. Mas, tudo sem saudosismo, apenas uma constatação do que cantou Caetano: “O melhor o tempo esconde, longe, muito longe, mas bem dentro aqui”… tudo continua “dentro aqui”, mas revisto e digerido de outras formas…

    14. Finalmente, esse blog não é o melhor lugar pra se encontrar tratados sobre a situação dos imigrantes no mundo, mas um lugar pra vocês me conhecerem melhor e acompanhar a minha reflexão sobre como tem sido, para mim, viver fora do Brasil…

    Mais uma coisinha:

    Só pra esclarecer… não estou dizendo que a gente não deve ter saudade ou banzo, de jeito nenhum… eu não tenho, mas isso não é coisa que se decide assim. Se tem, tem. A única coisa que defendo é uma visão positivo da “exílio voluntário”, tá na chuva, é pra se molhar…

    Leia mais aqui:

    Viver no Exterior

    Pinturas: Tríptico para a Cidade do Recife, de João Câmara, óleo sobre madeira, 1968.

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    Brasileiras no Bronx

    Denise | EUA,Vida de Imigrante | Sunday, 03 April 2005

    bronx0.jpg
    Rita, Luci, Suzana, Miriam, Beatriz, Sandra e eu
    Rosângela, Ana, Sueli e Eliana.

    Recebi um email da minha amiga Rita, na quinta feira passada, contando sobre uma reunião que aconteceria nesse sábado, no Bronx, Nova York, com mulheres muito interessantes e interessadas em discutir a vida da mulher brasileira imigrante nos EUA.

    Sem nem parar pra pensar já me ofereci pra participar e liguei pra Ted, que topou, na hora, me levar lá (são 5 horas de viagem, mas esse homem é um anjo!). Fomos apenas pra reunião, voltando no domingo, hoje, bem cedinho.

    bronx3.jpgA reunião foi organizada pela Eliana, psicóloga, que está nos EUA há 30 anos e, recentemente, trabalhou em um capítulo sobre famílias brasileiras para o livro “Ethnicity and Family Therapy”

    Eliana foi super gentil, abrindo a sua casa pra gente com um jantar de ótimos vinhos, um belo vatapá (feito com a Ana, com ela na foto), bolinhos de queijo trazidos pela Sandra e um mousse de maracujá delicioso, da Luci.

    Foi interessante conhecer essas mulheres, com histórias tão diferentes, mas quase todas há bastante tempo nos EUA. Eu era a caçula da imigração.

    Essa reunião foi, basicamente, pra gente se conhecer. Cada uma contou um pouco da sua história e falamos de um interesse de todas em atuar, de alguma forma, num grupo de mulheres imigrantes brasileiras nos EUA.

    Fui correndo pra essa reunião porque essa é uma questão que tem me interessado muito, ultimamente. Adorei trabalhar com amamentação por mais de 15 anos, pretendo continuar apoiando o Origem, e atuando com ações voluntárias, mas pra mim, esse é um ciclo que se fechou e pretendo canalizar minhas energias pra outras áreas.

    Aqui no meu prédio tem uma senhora brasileira que trabalha como faxineira em um dos apartamentos e está aqui há 30 anos, sem entender quase nada de Inglês. Também sabemos de vários casos de violência contra mulheres imigrantes, muitas vezes por elas não dominarem o idioma e se sentirem vulneráveis e perdidas. Um dos meus objetivos atuais é trabalhar, de alguma forma, apoiando essas mulheres.

    Espero que essa reunião, de ontem, seja o início de algo bonito que poderemos construir juntas. Aos poucos, vou contando pra vocês…

    Detalhe:

    Nossa reunião correu ao som de Maria Rita e, em determinado momento, enquanto a gente se apresentava, ela cantava:

    “Mexo, remexo na inquisição
    Só quem já morreu na carveira
    Sabe o que é ser carvão
    Eu sou pau pra toda obra
    Deus dá asas à minha cobra
    Minha força não é bruta
    Não sou freira nem sou puta

    Porque nem toda feiticeira é corcunda
    Nem toda brasileira é bunda
    Meu peito não é de silicone
    Sou mais macho que muito homem…”

    (Pagu, Rita Lee)

    Definitivamente, nem toda brasileira é bunda…

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    Travessias na De$ordem Global

    Denise | Discriminção,Vida de Imigrante | Tuesday, 25 January 2005

    migracao.jpg

    “A migração alarga o conceito de Pátria para além das fronteiras geográficas e políticas, fazendo do mundo a pátria do homem.”
    (J.B.Scalabrini)

    Eu queria muito escrever sobre o Fórum Social das Migrações, que acabou hoje, em Porto Alegre, e do qual participaram 600 pessoas, de 35 países, mas, infelizmente, estou super cansada, acabei de chegar e vou cair na cama…

    Mas, como não queria deixar esse evento, tão importante, em branco, vou deixar algumas informações interessantes, que li nos documentos do Fórum e um link pra uma página onde vocês podem encontrar ainda mais dados.

    • 175 milhões de pessoas, em todo o mundo, estão vivendo, como imigrantes, fora do seu país de origem e mais 16 milhões são refugiadas.
    • Cerca de 2 milhões de brasileiros vivem fora do Brasil. De 800 mil a 1 milhão só nos EUA, 300 mil no Japão e 300 mil no Paraguai. Dos nossos vizinhos na América do Sul, há 2,2 milhões de peruanos fora do Peru e 300 mil equatorianos morando só em Madrid, na Espanha.
    • Entre os temas abordados no I Fórum Social das Migrações estão a ética e migrações no contexto mundial, os impactos da globalização na redistribuição espacial da população, visão geral das migrações no mundo, emigrantes latinos no exterior, imigrantes no Brasil, discriminação e violência, refugiados, brasileiros no exterior, tráfico de seres humanos e trabalho escravo, entre outros.
    • “Atendemos cerca de 100 migrantes por dia nos centros das Pastorais, às vezes até mais. Destes, 30% são estrangeiros. Os que conseguem emprego fixo não passam de 5%. De 20% a 30% conseguem um bico, uma coisinha aqui, outro serviço ali. Os outros seguem viagem, vão embora para outros lugares” (Luiz Bassegio, do Serviço Pastoral dos Migrantes).
    • “A fronteira significa uma raiz exposta ao sol, é um terreno movediço onde o migrante está e não está. É um não-lugar onde o migrante é um não-cidadão. Mas é o melhor lugar para desenvolver o conceito de cidadão universal”…”O migrante que habita o não-lugar da fronteira é portador de um sonho de construção de um novo lugar” (Padre Alfredo, do Serviço Pastoral do Imigrante).
    • “A solidariedade aos migrantes é necessária, mas não se deve abdicar da luta. Ela só pode ter êxito se for combinada com a meta de libertação, que vai além do trabalho abstrato, além da mercadoria. Para isso, os obstáculos ideológicos têm de ser superados”, afirmou o historiador alemão Robert Kurz, hoje,(27/01) no seminário “Travessias na De$ordem Global”

    Leia mais sobre o Fórum Social das Migrações.

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    O país que a gente vive e o país que a gente vê…

    Denise | Vida de Imigrante | Thursday, 11 November 2004

    sueciagetty.jpg

    Às vezes tenho vontade de colocar um “disclaimer”, um aviso, aqui no blog, de que tudo que eu escrevo, tem a ver com a minha experiência pessoal e não pode ser levado como verdade absoluta, apresentada por mim. Mas, como isso é um blog, e não um tratado social e científico… fico achando que seria redundante.

    Até porque, por mais científico que seja, um artigo sobre um país vai vir sempre impregnado com o background de quem o escreveu. Com as suas idéias e até com a sua interpretação da realidade.

    Se vocês me pedirem para eu escrever sobre Olinda, e fizerem o mesmo pedido à minha mãe e à minha filha, com toda certeza, escreveremos coisas diferentes. Teremos perspectivas diferentes da cidade onde, juntas, e quase no mesmo lugar, passamos a maior parte da vida.

    Então, algumas pessoas questionam muito o amor que eu sinto pela Suécia. Eu tenho minhas razões. Eu comecei a namorar Ted há alguns anos, e mesmo antes, eu tinha viajado pra Suécia diversas vezes, a trabalho. Eu tenho uma história mais ou menos antiga com Estocolmo.

    Durante anos me preparei pra viver lá, ao chegar, me preparei pra ser feliz e pra reconstruir minha vida nesse país. Tenho poucos, mas bons amigos suecos, fui super bem tratada em todas as situações, recebi todo apoio do Governo, desde a minha entrevista para o visto, até a entrada da minha filha na escola, serviços médicos sempre foram excelentes…

    Além do mais, a “minha Suécia” é Estocolmo, apesar de conhecer outras cidades. O que é muito diferente de viver em uma cidade pequena, especialmente ao Norte, onde a mentalidade do povo é, naturalmente, diferente e podem reagir com mais estranheza em relação aos imigrantes.

    Estocolmo é uma cidade cosmopolita, moderna, linda, cheia de gente do mundo todo (10% da população é formada por imigrantes). Tem muita coisa pra se fazer, museus maravilhosos, shows, baladas (bem menos que aqui, em Washington, mas com certeza o suficiente pra mim).

    E eu adoro frio, o que me deixa muito mais positiva, em relação ao país. O que é motivo de reclamação pra uns é o maior prazer pra mim. Gosto dessa Suécia branquinha, da foto, silenciosa, escura… é um clima que sempre me encheu de uma sensação de “plenitude”, desde a primeira vez. Sol me irrita, me cansa, o frio me deixa mais introspectiva e eu gosto disso, porque já sou “pra fora” demais…

    Além de todas essas questões naturais, eu nunca me senti vítima de nenhum tipo de discriminação, por parte de nenhum sueco. E quase todas as pessoas com quem conversei, que viviam em Estocolmo, sentiam-se exatamente da mesma forma.

    Quanto ao idioma, acho até engraçado como algumas pessoas tentam usar isso como forma de desqualificar a minha opinião sobre a Suécia. Desde 97 visito o país, morei lá por um ano e sempre me comuniquei muito bem com inglês. Ao mudar, decidi começar a estudar o idoma apenas no segundo semestre, porque estaria super ocupada. No segundo semestre surgiu a possibilidade de mudar pros EUA, ai desisti de começar as aulas. Sueco é um idioma chato de aprender, cheio de exceções, claro que fico feliz de “escapar dele” hehehe…

    Mas, isso nunca me impediu de participar da sociedade, de discutir as notícias com meu marido, que traduzia tudo que estava acontecendo pra mim, de ler notícias publicadas em inglês, de conversar com os suecos, de trocar idéias sobre o país.

    Claro que eu iria me enfronhar ainda mais, se soubesse o idioma, mas, francamente, tenho inteligência, sensibilidade e perspicácia suficiente pra entender o país, apenas com o inglês, que, praticamente, todo mundo fala. Especialmente em Estocolmo. Portanto, me poupem do comentário “ah, é porque você não aprendeu o idioma”, que me parece um pouco manipulador.

    Eu nunca disse que não existe discriminação na Suécia. Esse é outro mito e não sei quantas vezes preciso repetir isso. O que eu disse, e repito, é que não existe país perfeito, que discriminação existe em todo canto. Que o Brasil não é melhor que a Suécia, nesse sentido. E que a Suécia não é pior que nenhum país europeu.

    Também me cansa um pouco as pessoas que vêem chifre em cabeça de cavalo. Alguém olha pra elas meio atravessado (acordou de mau humor, tá com TPM, sei lá o quê) e já acham que estão sendo discriminadas.

    Claro que é mais difícil arranjar emprego para um imigrante. Mas, como eu já escrevi aqui, antes, acho que existem muitos fatores a ser considerados… pessoas que não conseguiam emprego no Brasil, chegam na Suécia (ou outro país), achando que tem que conseguir um emprego imediatamente, ou estarão sendo vítimas de preconceito.

    Mas, repito, claro que é mais difícil para imigrante conseguir emprego e precisamos lutar contra isso, nas organizações sociais existentes, nos partidos etc. Apenas não gosto dessa vitimização do imigrante.

    Também acho que as que mais reclamam de sofrer preconceito fora do Brasil, são, ao contrário do que a maioria pensa, as filhinhas do papai, as brancas, loiras de olhos verde, graduadas ou pós graduadas, acostumadas a elogios e a ser “elite social” no Brasil e, de repente, se deparam com uma situação em que são iguais às outras… ou pior, são iguais aos “paraíba” no Rio de Janeiro…

    As negras e nordestinas, reclamam muito menos de preconceito na Europa. Elas já eram “minoria” e o que passam fora do país é moleza se compararmos com o que passavam no Brasil.

    Enfim, todas essas questões eu já discuti aqui e não vou me aprofundar porque já estão expostas em posts anteriores, o que eu queria dizer, apenas, é que por mais que eu tente pesquisar e informar dados estatísticos, a Suécia da qual que trato aqui é a minha Suécia, é a que eu experimentei.

    Realmente, eu amo esse país, por tudo que foi pra mim, no curto período em que lá fiquei. Admiro os suecos, com seu jeito esquisito (pra gente), mas não frio, como alguns vêem, tímidos talvez. Tanto é que basta uma boa dose de álcool pra se tornarem bem divertidos.

    Antes de mudar pra cá, nossas amigas do grupo Nafta (pró-amamentação), nos ofereceu um jantar que foi maravilhoso, caloroso, gentil. Quando casamos, o grupo da universidade, onde Ted trabalhava fez uma comemoração linda, com música ao vivo e ainda nos ofereceu uma apresentação em powerrpoint fofíssima, contando nossa história de amor (aqui vocês podem ver a festa e o Powerpoint).

    Então, a minha experiência com a Suécia e os suecos é cheia de ótimos momentos e de pessoas maravilhosas, gentis, amigas, solidárias… (apesar de ser tudo isso de um jeito diferente do nosso). E ninguém pode tirar isso de mim.

    Portanto, quando eu escrevo sobre a Suécia, essa é a minha Suécia… da mesma forma que, agora, estou falando sobre os meus EUA, também escrevo sobre o meu Brasil

    Eu convido cada um, que vem aqui, a acrescentar com sua própria experiência, uma cara nova a esses três países, incluindo as suas perspectivas, o que viveu… mas sempre respeitando a minha opinião e tendo clareza que cada um de nós tem uma experiência diferente e esse é o bonito da vida… não existir verdades absolutas…

    Não é porque o blog é “meu” que eu dou a palavra final… mas também não dou esse direito a ninguém. Estamos aqui para compartilhar.

    _____________________________

    Deixe um comentário ai embaixo ou reflita sobre o assunto lá no nosso Fórum de Discussões.

    Foto: A estonteante Estocolmo do Getty Images.

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    Tolerância, por Graciliano Ramos…

    Denise | Vida de Imigrante | Monday, 25 October 2004

    tolerancia.jpgTive que dar uma paradinha pra colocar isso aqui pra vocês… pesquisando umas coisas, encontrei essa frase que achei genial:

    “Desejo de ir além das aparências, tentar descobrir nas pessoas qualquer coisa imperceptível aos sentidos comuns. Compreensão de que as diferenças não constituem razão para nos afastarmos, nos odiarmos. Certeza de que não estamos certos, aptidão para enxergarmos pedaços de verdade nos absurdos mais claros. Necessidade de compreender, e se isto é impossível, a pura aceitação do pensamento alheio.” Graciliano Ramos

    Frase citada por Marilene Felinto no ensaio “Outros Heróis e esse Graciliano”, fundamental pra todo mundo, mais ainda mais pra quem mora fora do Brasil e convive com a diferença no cotidiano.

    Pra lembrar a cada momento e, se possível, lembrar aos outros…

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    Discriminação?!!! vá à luta!!!

    Denise | Vida de Imigrante | Tuesday, 07 September 2004

    globosepia.jpgOntem foi feriado, aqui nos EUA. Dia do Trabalho. Mais um choque cultural pra mim, que esperava ver passeatas e manifestações, como essa, em Estocolmo. Os americanos tiram o dia pra ir às compras… e lá fomos nós também, a um desses templos do consumo…

    No caminho, no metrô, como sempre fazemos, eu e Bia fomos conversando muito… Ted diz que não sabe como a gente pode ter tanto assunto.

    Fomos conversando sobre o que foi pra gente ser imigrante na Suécia e o que é ser imigrante nos EUA. Como estamos aqui há muito pouco tempo, claro que não dá pra aprofundar muito, mas dá pra gente ter uma idéia de como nos sentimos…

    Sem dúvida, aqui em Washington, passamos mais “desapercebidas”. Essa é uma cidade absolutamente cosmopolita. Tem gente literalmente do mundo todo, desde trabalhadores ilegais a funcionários de embaixadas e em uma quantidade enorme. O clima parece muito com o nosso em Recife, em alguns momentos esqueço que estou nos EUA.

    Ainda assim, dá pra perceber que essa é uma impressão bem generalizada e que podemos ter apenas em lugares mais centrais da cidade. Existe muita segregação… bairros e escolas apenas de negros, de brancos, de hispânicos, áreas com predominância de brasileiros…

    Escolhemos uma escola pra Bia que não tem predominância de nenhuma etnia, apesar da aparente maioria branca. Segundo informações da Bethesda Chevy Chase High School, 65,8% dos alunos são “brancos”, 13.4% de hispânicos, 14.6% afro-americanos, 6.0% de asiáticos e 0.2% de indios americanos.

    Ainda não deu tempo pra Bia perceber se existe discriminação na escola, aparentemente, por ter tanta variedade étnica, não existem grandes problemas e tensões.

    Na verdade, talvez por nunca termos morado em pequenas cidades, nunca sentimos nenhuma discriminação direta, mesmo na Suécia que tem uma hegemonia “branca” muito maior e onde, visivelmente, somos de origem estrangeira.

    Como eu sempre disse, claro que existe discriminação na Suécia, como em qualquer país europeu e como, certamente, aqui também… especialmente no que se refere ao mercado de trabalho e no que parece ser um medo de perder suas tradições culturais diluídas nesse grande calderão cultural que estão se transformando todos os países.

    Mas, hoje, queria falar sobre outro tipo de discriminação. Bia estava comentando comigo como discriminar os outros é uma prática que não é privilégio apenas dos mais favorecidos. Parece que existe um ciclo vicioso e os mais desfavorecidos sentem, também, a necessidade de discriminar até como uma forma de se valorizar perante outro ainda mais desfavorecido.

    O exemplo que ela estava dando é interessante… no setor da escola que ela estudava, em Estocolmo, a Fogelströmska, todos eram imigrantes. Os amigos dela eram do Congo, Sérvia, Polônia, Filipinas, Peru, Costa do Marfim, Líbano, etc.

    De certa forma, todos estão no mesmo barco. Mas, existe um bairro, na cidade, que foi construído nos anos 60, para abrigar imigrantes (numa época em que se achava que essa era uma solução!). Até hoje, muita gente mora lá e o bairro que era super distante da cidade, agora ficou pertinho e tem de tudo. Eu adoro ir por lá… mas essa região ficou estigmatizada e conhecida principalmente pelo grande número de árabes.

    Bia disse que os alunos que moravam nessa região ou até mesmo pegavam o metrô nessa direção eram alvos de muita gozação dos outros alunos (também imigrantes e muitas vezes pobres). Muitos ficavam até esperando todo mundo ir embora pra poder pegar seu metrô em paz. Imagina, se pode uma coisa dessas!?

    Aqui, nos EUA, as poucas vezes em que meu inglês foi mal compreendido e eu até ouvi gozação foi por parte de negros, em lanchonetes. Como eles são alvos de discriminação diária, repetem o mesmo comportamento com os latinos…

    Claro que poderíamos dizer que esse tipo de discriminação é bem mais “inofensiva” do que aquela que vem das classes dominantes, e que impede o acesso ao emprego e à educação, e isso pode ser verdade, mas qualquer tipo de discriminação é dolorosa e eu acho que demonstra bem como as pessoas reproduzem facilmente as formas de poder.

    O mesmo observei, várias vezes, no Brasil. As pessoas, de origem humilde, ao ter acesso a um cargo público que lhe dê algum tipo de poder, automaticamente passam a reproduzir o comportamento autoritário que viram – e sofreram – anteriormente. Muitas vezes, observei o olhar de desprezo de vendedoras, cobradoras de ônibus, funcionárias de postos de saúde, por pessoas ainda mais pobres que elas.

    O mesmo acontecia quando visitava o Rio de Janeiro, na minha adolescência, e os que eram mais explorados, eram os que mais gozação faziam com meu sotaque nordestino…. aliás, esse é o tipo de “bullying” mais “pé no saco” que existe!

    A única experiência desagradável que Bia sofreu, até agora, foi com um menininho paulista (que de humilde não tem nada, mas afinal de contas, mesmo rico, ele é um latino, aqui!) e que estuda na escola dela.

    Dia desses Bia chegou aqui morrendo de rir, porque a figurinha ficava repetindo tudo que ela dizia, carregando no sotaque…. eles estavam na fila do lanche, alguns brasileiros por perto… Bia virou pra ele e disse: “me respeite!”, lhe deu uma esculhambação, chamou de babaca e mandou se … vocês sabem… hehehe… todo mundo riu e a criatura desapareceu!

    Enfim, o que eu e Bia acabamos concluindo (toscamente) é que discriminação e “bullying” (essa gozação, que de inocente não tem nada) são coisas que existem em todo canto e que precisam ser combatidas, por todos nós, e exercido, incondicionalmente, o tempo todo, esse respeito ao outro, independente da sua classe social, etnia, região geográfica, sotaque, preferência sexual, condição física ou seja lá o que for…

    E não adianta mesmo choramingar, tem que denunciar, botar a boca no trombone e partir pra luta, como Bia, que botou o pirralho pra correr… hehehe…

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