Vida de Imigrante – Cada um(a) com seu cada qual
Faz quase oito anos que moro fora do Brasil, mas ainda parece que foi ontem que tudo começou. Estou sempre percebendo uma coisinha ou outra a mais, sobre a vida de imigrante.
Algumas coisas, eu demorei mais a compreender. Eu adoro novidade, então, cheguei na Suécia cheia de excitação, descobertas, opiniões e muitas conclusões apressadas.
Por isso, na Coreia, estou indo devagar (já faz um ano e nove meses que moramos aqui!), incorporando mais do que “aprendendo” e falando menos, do que falei outras vezes.
E é nesse ritmo que pretendo contar a minha experiência num país tão absolutamente diferente do meu e onde, ao mesmo tempo, me sinto mais próxima da minha tribo do que nos 7 anos anteriores.
Conheço gente que está aqui há 20 anos e ainda confessa que “não entende nada”. Não é pra entender tudo mesmo, cada um de nós tem a sua própria Coreia.
Em 2002, eu escrevia muito sobre “o que é a Suécia”. Hoje, entendi que a experiência de migrante não se transfere, de jeito nenhum. No máximo, a gente compartilha a nossa, conta como vê as coisas, e tenta respeitar a perspectiva dos outros (coisa rara na blogosfera).
O que cada um compreende e vive de um país é resultado de muito mais do que o que se vê nos jornais, nas ruas, nos escritórios, escolas e faculdades. É uma alquimia, cujo principal ingrediente é a sua própria história, a que começou a escrever no seu país de origem.
Você vê as coisas com a sua percepção do mundo e isso será decisivo para sua compreensão das coisas. Tem sua ideologia, sua filosofia de vida, suas crenças. E tem também o seu contexto no novo país, a sua disposição para se adaptar, nível de tolerância. Cada um(a), com seu cada qual.
No começo do blog, até me aventurei a dar “dicas” sobre como EU acho que a vida de imigrante poderia ser aproveitada mais “prazerosamente”. Esses posts correram mundo mas, hoje em dia, entendi que essa “receita pronta” é difícil de seguir.
Se você tem 20 anos, nunca saiu de casa, ou se nunca morou em outro país, vai direto pra um país estranho, como a Coreia, ainda mais se estiver sozinha, sua experiência será completamente diferente da minha. Por mais que eu diga pra relaxar, evitar o banzo, controlar a saudade, nunca vai ser a mesma coisa que é pra mim.
O que eu vejo com excitação e curiosidade pode parecer extremamente irritante ou até insuportável para você.
Todos os dias, quando boto o pé fora de casa, sinto uma enorme satisfação por estar tendo essa oportunidade de conhecer e conviver com pessoas tão diferentes de mim.
Estou vivendo em meu quarto continente e, pra mim, isso vale mais que um mega salário e uma casa na praia =)
Nem sempre o convívio com o diferente é agradável, mas nem sempre as chatices do dia a dia têm a ver com o fato deles não serem iguais a você.
Brasileiros no exterior têm uma tendência a esquecer todas as agruras do Brasil. A terrinha não é tão fácil assim, também. Pelo menos, nunca foi pra mim. Mau humor nas lojas e empurra-empurra nos ônibus não é privilégio de coreanos.

Quando resolvi emigrar, já tinha casado, descasado, era independente financeiramente, tinha uma filha de 16 anos, que estava comigo e já tinha viajado para uns 25 países, inclusive asiáticos (a maioria, a trabalho). Minha carreira profissional tinha me propiciado um background valioso para facilitar a minha adaptação pelo mundo afora.
Em 96 (quase 15 anos atrás!), fui convidada a coordenar uma campanha mundial de amamentação. Durante alguns anos, viajei pelo mundo afora, fazendo um trabalho que era, basicamente, compreender e gerenciar as crises causadas por profundas diferenças culturais de grupos de 120 países, que eram diferentes mas tinham como objetivo comum promover a amamentação. Eu era uma facilitadora.
Convivia com situações mais diversas e delicadas, organizei e coordenei fóruns e seminários em vários países e trabalhei algumas vezes no escritório central da rede, na Ilha de Penang, Malásia.
Lá, eu aprendi também a adorar comer em folhas de bananeira, pegando o arroz com a mãos. Ou que as colegas se ofendiam se eu tocasse na cabeça ou apontasse meus pés para elas. Entendi que sapato dentro de casa, nem pensar, por higiene e respeito. Que elas arrotavam com orgulho depois do almoço e isso era sinal de saúde, não falta de educação…
E mesmo depois de me afastar um pouco do movimento de amamentação, tenho mantido um trabalho mais ou menos constante com um grupo chinês e outro da India, com os quais aprendo mais a cada dia.
Tudo isso faz parte da minha bagagem, além do que trouxe de livros, fotos e lembranças.
Quando mudei pra Coreia, depois de ter passeado ou trabalhado em vários países asiáticos (Malásia, Filipinas, Tailândia, Bangladesh, India, China, Nepal e Singapura), eu trouxe essas experiências e uma sistemática busca pela tolerância, respeito e real compreensão das diferenças culturais.
O que quero dizer é que não é que tenho uma visão “cor de rosa” da vida na Coreia, como agumas pessoas acham, apenas não consigo ver nada tão dramaticamente ruim, aqui. Não adianta.
Vejo os defeitos, sim. Mas entendi também que é ilusão achar que a vida na Suécia, por exemplo, é mais fácil. Não é. Vida de imigrante não é moleza em lugar nenhum. Contei aqui que quando trabalhei por duas semanas na Suazilândia, percebi a enorme tensão com imigrantes de Mozambique, país vizinho. Essa tensão existe em todo lugar.
Na minha opinião, a única saída é, como imigrante, fazer a sua parte, respeitando e procurando absorver a cultura local. Claro que cobrando respeito também, mas é complicado fazer isso se você vê o outro como “inimigo”.
E respeitar também não é ser condescendente, não é pensar que “entende” como eles são, quando na verdade se sente superior (isso é muito comum aqui, mas é assunto pra outro post) ou inferior a eles .
É quando essas diferenças começam a ser tão normais pra gente, que não chamam mais atenção. Ou se percebemos, não temos julgamento de valor. E, obviamente, é não ridicularizar, não ironizar, não desdenhar. É superar o complexo de Narciso. Aquele que acha feio tudo que não é espelho.
Claro que a Coreia não é perfeita, não é tudo cor de rosa, apesar das lindas fotos de cerejeiras, que coloquei aí abaixo.
O ritmo é diferente do que estamos acostumados, existe muito racismo, xenofobia, mulheres são vítimas de violência doméstica e tratadas como inferiores, existe um problema gravíssimo com alcool, todo mundo fuma e muitas vezes em lugares inadequados. Nem sempre são pacientes com os que vivem em seu país sem falar (ou falando mal) seu idioma e por aí vai…
Como eu trabalho por conta própria, não tenho a experiência – que, com certeza, é mais complicada – no local de trabalho. Mas, Ted tem e está muito feliz aqui. As coisas podem ser um pouco enroladas por causa do idioma e das diferenças culturais, do jeito de corpo, mas ele (que já trabalhou em uns 50 países e viveu no Yemen nos anos 70) tira de letra, respeita os colegas e é respeitado por eles. Como eu, Ted ADORA morar aqui.
Aliás, a questão do trabalho na Coreia também é assunto pra outro post, porque rende muita conversa. Só adianto que me CANSA ver americanos – que têm uma relação de extrema exploração do trabalho imigrante, em seu país – chegar aqui reclamando de tudo e falando dos coreanos com0 se fossem bárbaros. Tem muita gente que precisa olhar o próprio rabo.
Enfim, esse é só um post introdutório (ainda que longo, sorry), não para falar da Coreia em si, mas pra começar lembrando que vocês podem ler tudo sobre a vida dos expatriados, em blogs que contam maravilhas ou horrores de outros países, mas nada que a gente fala pode dar uma idéia do que seria essa experiência pra você.
Por enquanto, só repito que eu e Ted não poderíamos estar mais felizes.
Não é perfeito, mas também não é nada tão pior que qualquer outro lugar onde vivemos.
Anyasayo…
Fotos: Um pouco da Coreia que eu vejo.






Essa notícia me lembrou que, quando eu estava na Suazilândia, fiquei impressionada com o nível de preconceito e ódio contra os moçambicanos, imigrantes no país.

Nesse final de semana, andei matutando sobre uma pergunta que me fazem, de vez em quando, aqui no blog, ou por email, e nem sempre tenho tempo de responder direitinho.




6. Por isso me seguro pra manter uma postura crítica ao Brasil, em alguns momentos. Acho que esse nosso “ufanismo” tá muito próximo a uma profunda insegurança e a uma baixíssima auto-estima que nos faz repetir o tempo todo o quanto somos maravilhosos. Eu sei muito bem que temos muitas virtudes e belezas e não preciso ficar repetindo cada uma delas pra me convencer disso.
A situacao da violência e da miséria do povo, no Brasil, é impossível de se aceitar, é dolorosa. Todo mundo fala nisso, mas parece que nós, que vivemos fora do país, perdemos automaticamente o direito e/ou a capacidade de fazer críticas…
A reunião foi organizada pela Eliana, psicóloga, que está nos EUA há 30 anos e, recentemente, trabalhou em um capítulo sobre famílias brasileiras para o livro “Ethnicity and Family Therapy”

Tive que dar uma paradinha pra colocar isso aqui pra vocês… pesquisando umas coisas, encontrei essa frase que achei genial:
Ontem foi feriado, aqui nos EUA. Dia do Trabalho. Mais um choque cultural pra mim, que esperava ver passeatas e manifestações,