As Viúvas na India

“Quase tudo que fazemos parece insignificante, mas é muito importante que façamos. Você precisa ser a mudança que você deseja ver no mundo.” Mahatma Gandhi
(Post originalmente publicado em 24 de junho de 2006)
Ontem fui assistir ao filme Water, o último da trilogia política da cineasta Deepa Mehta (os outros são Fire e Earth), sobre a vida das viúvas na india. Fiquei chocada. Já tinha ouvido falar na situação dessas mulheres, mas ainda assim, o filme é uma saculejada na gente e bota nossos problemas cotidianos na sua exata dimensão.
Pesquisando, hoje, sobre o tema, pra escrever esse post, descobri que ontem estava sendo celebrado o “Dia Internacional das Viúvas”, instituído pelas Nações Unidas, justamente para lembrar ao mundo as crueldades cometidas contra essas mulheres (não apenas indianas, mas de muitos outros países), cujo único crime cometido foi se tornar viúva, como se pudessem se responsabilizar pela vida de seus companheiros.
“Water” não é um filme revolucionário em sua linguagem, mas é uma história muito bem contada e extremamente comovente. Ao acabar, precisei de uns bons minutos sentadinha no escuro do cinema, pra me recompor e tentar dissipar aquele nó na garganta.
Apesar de ser uma obra de ficção, que se passa há quase 70 anos, infelizmente, essa ainda é a realidade de muitas mulheres na India. E isso é o que é mais doloroso.
O filme se passa em 1938, na India Colonial, onde os poderosos (britânicos e indianos) vêem a ascenção de Mahatma Gandhi, com suas idéias de liberdade e de mudança das tradições arcaicas às quais os indianos ainda se agarravam. As viúvas já não eram forçadas a queimar numa fogueira, com a morte do marido, mas ainda tinham que pagar, vivendo em total ostracismo e miséria, por toda vida.
Tudo começa com a morte do marido de Chuyia, uma menininha esperta de oito anos de idade, que nem entende que é casada.

Ao se tornar “viúva”, Chuyia tem suas pulseiras quebradas, seu cabelo raspado, perde todas suas roupas e é vestida com um sari branco, que será sua única veste, para diferenciá-la, afinal, ela agora é uma pária, “impura” e não pode ter contato com outras mulheres e crianças.
Os pais deixam Chuyia numa casa de viúvas hindu, onde deve viver o resto dos seus dias em penitência.
Em 1938, e ainda hoje, em muitas lugares da India, a viúva é vista como um peso e como uma mulher sexualmente perigosa. A família do noivo quer vê-la distante, para poder tomar as propriedades do seu marido, e não tem interesse em assumir a responsabilidade de sustentá-la. Sua própria família, após o seu casamento, sente-se livre de qualquer responsabilidade em relação a ela.
Por todo preconceito e superstições que cercam uma mulher viúva, ela também não consegue trabalho para se sustentar e acaba tendo mesmo que viver nessas Casas de Viúvas (prédios centéntários, caindo aos pedaços), por toda vida. Para se “purificar”, precisa abandonar qualquer vínculo com prazer e viver em sofrimento. Dorme no chão, repete canções e orações seis horas por dia, e não pode, sequer, comer frituras, consideradas alimentos “quentes”. Estima-se que existam 20 mil viúvas, mendigando, apenas à beira do rio Ganges.
Aos poucos, vamos conhecendo as mulheres com quem Chuyia deverá conviver. A velhinha (foto)que está na casa desde os sete anos e cujo único sonho é comer, novamente, os docinhos que provou na sua festa de casamento (o marido morreu um mês depois). Shakuntala, a mulher de meia idade, esperta, inteligente e que sofre ao perceber que está envelhecendo e está sempre dividida entre a revolta pela sua situação e o medo por não se comportar como deveria.
Tem a poderosa Didi, que comanda a casa e tem regalias que as outras não têm, e a belíssima Kalyani. Aos 17 anos de idade (está lá desde os oito), ela é a única mulher que tem a permissão para usar cabelos longos e que, sustenta o “luxo” de Didi e a Casa de Viúvas, sendo levada de barco, no escuro da noite, pelo eunuco gulabi, para prostituição.

A chegada de Chuyia, o aparecimento de um lindíssimo indiano nacionalista, o amor de Kalyani, a revolta de Shakuntala e a ascenção de Ghandi, mexem com a Casa de Viúvas… mas não existem milagres. O resto, só vendo o filme…
A realidade atual

Segundo o censo de 1991, 8% de todas as mulheres da India são viúvas, o que significa cerca de 34 milhões de pessoas. Como o costume é o casamento das meninas muito novinhas, 50% das viúvas têm menos de 50 anos de idade.
No grupo acima de 60 anos, 64% das mulheres são viúvas, enquanto que apenas 6% dos homens são viúvos. Essa diferença brutal de gênero existe por causa da alta incidência de viúvos que se casam novamente, enquanto que um novo casamento, na prática, continua sendo uma opção bastante improvável para as mulheres.
Apesar dos números, sabe-se pouco sobre a vida dessas mulheres, na India. A marginalização as torna invisíveis. O que sabemos é que elas vivem em completa pobreza, desemprego, sem acesso aos meios de produção, sem educação formal e sofrendo por superstições que ainda estão bastante arraigadas na cultura indiana.
Já em 1956, um ato hindu estabeleceu que as viúvas devem ser consideradas iguais a todas as mulheres, mas a tradição fala mais alto.
Por causa de todas privações que passam, as viúvas têm um índice de mortalidade 85% maior que as mulheres casadas. Apesar das péssimas condições dessas Casas de Viúvas, muitas preferem viver nelas do que ficar com a família do ex-marido, sendo constantemente abusadas sexual e fisicamente.

As Casas de Viúvas são empreendimentos mercenários, existem denúncias de que, apesar das mulheres viverem em completa miséria, os administradores fazem muito dinheiro, pedindo ajuda financeira e vendendo serviços sexuais das jovens viúvas.
“Sem um homem ao seu lado, uma mulher não tem respeito na sociedade indiana. Isso é parte da cultura patriarcal”, afirma uma militante do movimento de mulheres.
Parece incrível, mas isso tudo continua acontecendo hoje. Será que a gente não tem mesmo nada a ver com isso? Quando eu fui pra India, escrevi sobre a situação da mulher por lá (vejam ai abaixo), falando sobre as mulheres queimadas por causa dos dotes, e uma criatura me criticou porque eu devia me preocupar com as mulheres do Brasil.
Não consigo estabelecer fronteiras para a humanidade. Me preocupo do mesmo jeito com minhas amigas que vivem em favelas, no Brasil as viúvas indianas e as mulheres com AIDS na Africa. Somos todas irmãs.
O que é que a gente pode fazer? falar no assunto, procurar saber o que fazem os grupos de mulheres. Se você faz doação, considerar doar para grupos que trabalham com essas mulheres. No mais, pelo menos se sensibilizar, acho que é um bom começo.
E o nó na garganta, continua aqui… isso é o que acontece quando a gente vê um filme que faz pensar…
Veja mais:
Curiosidade:

Nessa linda cena do filme, as mulheres estão celebrando o Holi, festa onde todos brincam jogando um pó super colorido, uns nos outros. Em 1999, por uma coincidência abençoada, eu estava no Nepal, no dia do Holi. Estava sozinha, mas pude aproveitar muito e ver a festa, que é uma das coisas mais lindas que se pode imaginar.
Pitaco de vocês:
“Uma informação boa: dirigi do interior da Bahia hoje cedo até a capital, vi um out-door com o anúncio da Festa das Viúvas. Foi um forró pé-de-serra genial no interior , para onde convergiram os pretendentes livres e um monte de viúvas que ainda querem dançar, namorar e ser feliz. Que pena que a ìndia discrima suas viúvas, que pena que as viúvas das aldeias portuguesas se condenam ao eterno negrume das vestes e que bom que se pode dançar, beber, brindar e namorar na Bahia. Embora outros problemas haja.” Alena.
Vejam também o excelente post da Regina do blog Always por um Triz sobre o filme Water: Deepa Mehta: uma mulher de coragem.
Fotos: Em preto e branco, são registros de uma Casa de Viúvas, feitos pelo fotógrafo Frederik Renander. As fotos coloridas são cenas do filme Water.





A escritora Gloria Perez vai fazer uma novela relacionada com a India (e Dubai) e esteve por lá, fazendo pesquisa. Gente, que saudades da India. Adoro ver gente escrevendo sobre esse país, principalmente quando é com muito respeito e buscando entender a cultura do povo tão absurdamente diferente da nossa.
Logo que chegamos aqui, recebemos, por coincidência, a visita de um aluno de PhD de Ted, indiano, que está passando uns dias em Washington. Foi uma oportunidade interessante de perguntar a ele se tudo que tenho lido é verdade.
Não. Nem são sempre infelizes os casamentos arranjados, alguns até acabam funcionando muito bem, já que não existe a expectativa romântica que temos em relação às nossas uniões.
Como prometido, vou refletir um pouco sobre a situação e a história da India, tudo de uma forma bem superficial, porque é um tema complicado demais pra mim, que não sou especialista da área. São apenas impressões e coisinhas que andei ouvindo ou lendo, aqui e ali e gostaria de compartilhar com vocês.
Viajar não é só apreciar as belezas de um lugar exótico, mas uma oportunidade de aprender muito mais sobre o povo. Sempre que viajo, procuro ler sobre o país e entender além do que é mostrado pelos guias.
Novos álbuns de fotos:
Ao mesmo tempo que esses beijos podem chocar, no Nepal (e aqui na India), cansei de ver homens andando de mãozinhas dadas (e ainda balançando as mãozinhas, sabe como é?) .
É um país de carolas religiosas e, praticamente, não existem templos budistas ou hindus, apenas igrejas católicas de arquitetura espanhola, e as pessoas se vestem mais ou menos como as atrizes de Cría Cuervos, do Saura (sobre o qual falei aqui, dia desses).
Como a Malásia (Ilha de Penang) foi o país que visitei mais vezes e onde fiquei mais tempo, foi também, onde tive as experiências mais fantásticas.
Desde ontem estou batendo pernas, vendo as coisas mais lindas, mais impressionantes de Delhi.
Fomos para Old Delhi. Primeiro, visitamos
Dois detalhes interessantes nesse local. Primeiro,
Resolvi reconquistar minha independência. Sou rebelde demais para excursões. Ontem, percebi que, na frente do forte tinha um templo interessantíssimo, além de uma rua absurda, cheia de gente e carros. Voltei lá, sozinha.
Hoje, pela primeira vez, consegui começar o dia cedinho.
Saindo de lá, eu monto uma estratégia e engano meu amigo taxista dizendo que quero ir pra rua tal, sem dizer o porquê… ao chegar na rua tal, pulo do taxi e corro pra o Palika Bazar, super popular (algo como uma mistura do Mercado de São José com Atacado dos Presentes) sob protestos do taxista que me acompanha até a entrada do bazar (que é subtrerrâneo!) jurando que eu ia ser assaltada ou esfaqueada…
Assim, prechinchando muito, hoje, comprei coisas bem bonitinhas e com precinho ótimo, a(o)s curiosa(o)s podem ver as fotos lá no álbum.
Ao chegar lá, confiscaram minha câmera e meus sapatos (não se pode entrar em nenhum templo hindu de sapatos).
Servem uma comidinha incrível – arroz, dal (lentilha), sobji (vegetais com curry), arroz branco e naan (esse pãozinho maravilhoso), mais uma entrada na qual nunca nem tocamos, por apenas UM dólar.
Esse jet lag tá me matando. Ontem, consegui não dormir durante o dia. Fui pra cama umas 10 da noite. De repente acordo toda animada, pensando que já era de manhãzinha… e eram 11 e meia da noite!!
Como ainda não encarava a culinaria local, nessa primeira vez, em Bangkok, perdi 12 quilos em 18 dias. Comia exclusivamente melancia, enquanto trabalhava como uma louca, na primeira semana.
Mas, não é só a comida que é maravilhosa, por aqui. A gente é muito boa.



Dilli Haat e’ um aglomerado de lojinhas. Logo na entrada tem um cartaz avisando que essa e’ uma area “plastic free”, onde tudo e’ artesanal e tambem nao tolera-se “comportamento indecente”… considerando as diferencas culturais, precisei controlar meus “beijinhos sem ter fim”…
Como ja’ tenho um bom numero de roupas “bohemian”, que nao uso nunca, fiquei somente com uma saia maravilhosa, envelope, longa e bem larga que custou cinco dolares (somente porque o calor estava muito grande pra barganhar), uma bolsinha vermelha, cheia de espelhinhos por dois e umas pulserias amarelas (bangles), pra usar com meu sari, por 2 dolares. Gastei menos de 10 dolares!!!
Tambem compramos presentes lindos, uns bloquinhos de notas “pintados” com pedras semi-preciosas (gemstone painting) e feitos de papel reciclado, com uma canetinha dourada. Mas, nao posso dar o preco desses dai, porque vai ter futur@ presentead@ lendo, ne? hehehe…