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    As Viúvas na India

    Denise | Cinema,Feminismo,India | Tuesday, 08 September 2009

    casadasviuvas1.jpg

    “Quase tudo que fazemos parece insignificante, mas é muito importante que façamos. Você precisa ser a mudança que você deseja ver no mundo.” Mahatma Gandhi

    (Post originalmente publicado em 24 de junho de 2006)

    Ontem fui assistir ao filme Water, o último da trilogia política da cineasta Deepa Mehta (os outros são Fire e Earth), sobre a vida das viúvas na india. Fiquei chocada. Já tinha ouvido falar na situação dessas mulheres, mas ainda assim, o filme é uma saculejada na gente e bota nossos problemas cotidianos na sua exata dimensão.

    Pesquisando, hoje, sobre o tema, pra escrever esse post, descobri que ontem estava sendo celebrado o “Dia Internacional das Viúvas”, instituído pelas Nações Unidas, justamente para lembrar ao mundo as crueldades cometidas contra essas mulheres (não apenas indianas, mas de muitos outros países), cujo único crime cometido foi se tornar viúva, como se pudessem se responsabilizar pela vida de seus companheiros.

    water_india.jpg“Water” não é um filme revolucionário em sua linguagem, mas é uma história muito bem contada e extremamente comovente. Ao acabar, precisei de uns bons minutos sentadinha no escuro do cinema, pra me recompor e tentar dissipar aquele nó na garganta.

    Apesar de ser uma obra de ficção, que se passa há quase 70 anos, infelizmente, essa ainda é a realidade de muitas mulheres na India. E isso é o que é mais doloroso.

    O filme se passa em 1938, na India Colonial, onde os poderosos (britânicos e indianos) vêem a ascenção de Mahatma Gandhi, com suas idéias de liberdade e de mudança das tradições arcaicas às quais os indianos ainda se agarravam. As viúvas já não eram forçadas a queimar numa fogueira, com a morte do marido, mas ainda tinham que pagar, vivendo em total ostracismo e miséria, por toda vida.

    Tudo começa com a morte do marido de Chuyia, uma menininha esperta de oito anos de idade, que nem entende que é casada.

    water_india3.jpg

    Ao se tornar “viúva”, Chuyia tem suas pulseiras quebradas, seu cabelo raspado, perde todas suas roupas e é vestida com um sari branco, que será sua única veste, para diferenciá-la, afinal, ela agora é uma pária, “impura” e não pode ter contato com outras mulheres e crianças.

    Os pais deixam Chuyia numa casa de viúvas hindu, onde deve viver o resto dos seus dias em penitência.

    Em 1938, e ainda hoje, em muitas lugares da India, a viúva é vista como um peso e como uma mulher sexualmente perigosa. A família do noivo quer vê-la distante, para poder tomar as propriedades do seu marido, e não tem interesse em assumir a responsabilidade de sustentá-la. Sua própria família, após o seu casamento, sente-se livre de qualquer responsabilidade em relação a ela.

    Por todo preconceito e superstições que cercam uma mulher viúva, ela também não consegue trabalho para se sustentar e acaba tendo mesmo que viver nessas Casas de Viúvas (prédios centéntários, caindo aos pedaços), por toda vida. Para se “purificar”, precisa abandonar qualquer vínculo com prazer e viver em sofrimento. Dorme no chão, repete canções e orações seis horas por dia, e não pode, sequer, comer frituras, consideradas alimentos “quentes”. Estima-se que existam 20 mil viúvas, mendigando, apenas à beira do rio Ganges.

    casadasviuvas2.jpgAos poucos, vamos conhecendo as mulheres com quem Chuyia deverá conviver. A velhinha (foto)que está na casa desde os sete anos e cujo único sonho é comer, novamente, os docinhos que provou na sua festa de casamento (o marido morreu um mês depois). Shakuntala, a mulher de meia idade, esperta, inteligente e que sofre ao perceber que está envelhecendo e está sempre dividida entre a revolta pela sua situação e o medo por não se comportar como deveria.

    Tem a poderosa Didi, que comanda a casa e tem regalias que as outras não têm, e a belíssima Kalyani. Aos 17 anos de idade (está lá desde os oito), ela é a única mulher que tem a permissão para usar cabelos longos e que, sustenta o “luxo” de Didi e a Casa de Viúvas, sendo levada de barco, no escuro da noite, pelo eunuco gulabi, para prostituição.

    water_india4.jpg

    A chegada de Chuyia, o aparecimento de um lindíssimo indiano nacionalista, o amor de Kalyani, a revolta de Shakuntala e a ascenção de Ghandi, mexem com a Casa de Viúvas… mas não existem milagres. O resto, só vendo o filme…

    A realidade atual

    widows_india2.jpg

    Segundo o censo de 1991, 8% de todas as mulheres da India são viúvas, o que significa cerca de 34 milhões de pessoas. Como o costume é o casamento das meninas muito novinhas, 50% das viúvas têm menos de 50 anos de idade.

    No grupo acima de 60 anos, 64% das mulheres são viúvas, enquanto que apenas 6% dos homens são viúvos. Essa diferença brutal de gênero existe por causa da alta incidência de viúvos que se casam novamente, enquanto que um novo casamento, na prática, continua sendo uma opção bastante improvável para as mulheres.

    Apesar dos números, sabe-se pouco sobre a vida dessas mulheres, na India. A marginalização as torna invisíveis. O que sabemos é que elas vivem em completa pobreza, desemprego, sem acesso aos meios de produção, sem educação formal e sofrendo por superstições que ainda estão bastante arraigadas na cultura indiana.

    Já em 1956, um ato hindu estabeleceu que as viúvas devem ser consideradas iguais a todas as mulheres, mas a tradição fala mais alto.

    Por causa de todas privações que passam, as viúvas têm um índice de mortalidade 85% maior que as mulheres casadas. Apesar das péssimas condições dessas Casas de Viúvas, muitas preferem viver nelas do que ficar com a família do ex-marido, sendo constantemente abusadas sexual e fisicamente.

    widows_india3.jpg

    As Casas de Viúvas são empreendimentos mercenários, existem denúncias de que, apesar das mulheres viverem em completa miséria, os administradores fazem muito dinheiro, pedindo ajuda financeira e vendendo serviços sexuais das jovens viúvas.

    “Sem um homem ao seu lado, uma mulher não tem respeito na sociedade indiana. Isso é parte da cultura patriarcal”, afirma uma militante do movimento de mulheres.

    Parece incrível, mas isso tudo continua acontecendo hoje. Será que a gente não tem mesmo nada a ver com isso? Quando eu fui pra India, escrevi sobre a situação da mulher por lá (vejam ai abaixo), falando sobre as mulheres queimadas por causa dos dotes, e uma criatura me criticou porque eu devia me preocupar com as mulheres do Brasil.

    Não consigo estabelecer fronteiras para a humanidade. Me preocupo do mesmo jeito com minhas amigas que vivem em favelas, no Brasil as viúvas indianas e as mulheres com AIDS na Africa. Somos todas irmãs.

    O que é que a gente pode fazer? falar no assunto, procurar saber o que fazem os grupos de mulheres. Se você faz doação, considerar doar para grupos que trabalham com essas mulheres. No mais, pelo menos se sensibilizar, acho que é um bom começo.

    E o nó na garganta, continua aqui… isso é o que acontece quando a gente vê um filme que faz pensar…

    Veja mais:

  • Widows’ Rights International
  • International Widows Day – June 23
  • Trailler de “Water”
  • Site oficial de “Water”
  • Vrindavan Widows Are Still Sexually Exploited — Study
  • India’s Outcast Widows Have New Havens
  • Status of Widows of Vrindavan and Varanasi
  • Grief and Renewal
  • O risco de ser mulher na India – SdeE
  • O risco de ser mulher na India – Parte 2 – SdeE
  • Curiosidade:

    holi.jpg
    Nessa linda cena do filme, as mulheres estão celebrando o Holi, festa onde todos brincam jogando um pó super colorido, uns nos outros. Em 1999, por uma coincidência abençoada, eu estava no Nepal, no dia do Holi. Estava sozinha, mas pude aproveitar muito e ver a festa, que é uma das coisas mais lindas que se pode imaginar.

    Pitaco de vocês:

    “Uma informação boa: dirigi do interior da Bahia hoje cedo até a capital, vi um out-door com o anúncio da Festa das Viúvas. Foi um forró pé-de-serra genial no interior , para onde convergiram os pretendentes livres e um monte de viúvas que ainda querem dançar, namorar e ser feliz. Que pena que a ìndia discrima suas viúvas, que pena que as viúvas das aldeias portuguesas se condenam ao eterno negrume das vestes e que bom que se pode dançar, beber, brindar e namorar na Bahia. Embora outros problemas haja.” Alena.

    Vejam também o excelente post da Regina do blog Always por um Triz sobre o filme Water: Deepa Mehta: uma mulher de coragem.

    Fotos: Em preto e branco, são registros de uma Casa de Viúvas, feitos pelo fotógrafo Frederik Renander. As fotos coloridas são cenas do filme Water.

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    Gloria na India

    Denise | India,Televisao | Sunday, 20 April 2008

    gloria_sari.jpgA escritora Gloria Perez vai fazer uma novela relacionada com a India (e Dubai) e esteve por lá, fazendo pesquisa. Gente, que saudades da India. Adoro ver gente escrevendo sobre esse país, principalmente quando é com muito respeito e buscando entender a cultura do povo tão absurdamente diferente da nossa.

    Confiram lá no blog dela, as fotos e os posts interessantíssimos!

    Com certeza, vai ser uma novela muito colorida :-)

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    India elege primeira mulher presidente

    Denise | Feminismo,India,Política | Saturday, 21 July 2007

    pratibha.jpg

    Apesar da India ter sistema parlamentarista e o cargo não ter tanto poder, acredita-se que Pratibha Patil, de 72 anos, poderá contribuir decisivamente para melhorar a terrível situação das mulheres indianas – uma mulher é morta, estuprada ou abusada a cada três minutois, no país.

    Leia mais sobre a India e a situação das mulheres na India nesses posts, que fiz ao visitar o país.

    ps.: O sistema é parlamentarista mas o cargo é chamado de “presidente”, mesmo.

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    O risco de ser mulher na India – Parte 2

    Denise | India | Friday, 03 June 2005

    indianasentada.jpgLogo que chegamos aqui, recebemos, por coincidência, a visita de um aluno de PhD de Ted, indiano, que está passando uns dias em Washington. Foi uma oportunidade interessante de perguntar a ele se tudo que tenho lido é verdade.

    Ele afirmou que, infelizmente, sim. Os dados estatísticos mostram que a diminuição do número de meninas em relação a meninos menores de cinco anos, na India, é indicativo do aumento do aborto seletivo (por causa do uso de ultrassom, relativamente novo) e da prática de infanticídio.

    Casamentos arranjados e dote

    Também confirmou que a maioria dos casamentos continuam sendo arranjados e o dote é uma regra geral. Explicou que o casamento, na India, não é visto como uma atitude de dois indivíduos, mas uma ação em família, que compromete a reputação das pessoas envolvidas por gerações e deve ser muito bem planejado, porque o divórcio, apesar de legal é extremamente estigmatizado.

    Um dos fatores que mais contribuem para a difícil situação da mulher é a exigência, por parte da família do noivo, de um dote que deve ser oferecido pela família da noiva, em dinheiro e que se diz tem como objetivo “ajudar os recém-casados em sua nova vida”.

    A explicação dada, muitas vezes é que o dote é como se fosse uma compensação à família do noivo pelas despesas que tiveram para educá-lo e prepará-lo para sustentar a noiva e sua nova família pelo resto da vida.

    Na verdade, muita gente vê o dote como algo prático, como uma verba que a mulher teria, como segurança, no caso de morte do marido, por exemplo. Claro que na maioria das vezes, a mulher nunca vai ter nenhum acesso a esse dinheiro.

    O dote acaba pesando muito e até desestruturando financeiramente uma família. Sendo assim, ter filhas meninas é visto como um problema e o motivo da plaquinha nas casas de ultrassonografia e aborto clandestino que dizem: “pague 500 rupees agora e economize 50.000 no futuro”.

    O dote é uma prática de todas as classes sociais e, nas famílias mais ricas, além de aumentar muito o valor do dote, os custos pra a realização de um casamento, sempre super luxuoso também é enorme e responsabilidade da família da noiva.

    Apesar de amplamente praticado, o dote é ilegal e seu recebimento torna o noivo passível de prisão.

    Numa matéria publicada pela BBC, mês passado, ficamos sabendo que a Suprema Corte indiana, pressionada por fazer pouco para acabar com a prática do dote (banido legalmente há mais de quarenta anos), acaba de exigir que o Governo proiba seus funcionários de

    Claro que o dote não é a causa de tudo. A India é uma sociedade patriarcal que oprime a mulher desde seu nascimento, explora sua força de trabalho, ignora os inúmeros casos de estupro e violência doméstica.

    spicesindia.jpg

    A Mulher Dalit

    Como expliquei no post sobre castas e , na India, dalit são as pessoas que estçao fora das quatro principais castas, seja por ter sido expulsas ou por já ter nascido uma dalit.

    Se a vida das mulheres na India não é fácil, a mulher dalit enfrenta dificuldades ainda maiores. Como são vistas como propriedade, a comunidade dalit não estimula que estudem, 90% delas trabalha na agricultura, para indianos de altas castas, que as explora e estupra. São obrigadas, pela religião e tradição, a limpar os restos dos animas das ruas, sem receber nenhum pagamento por isso. Trabalham muito mais que os homens dalit e ganham muito menos que eles.

    Essas mulheres são consideradas de valor inferior aos cachorros, e “intocáveis”, por serem impuras, mas, ainda assim, têm sido exploradas sexualmente e são as maiores vítimas da AIDS.

    São vítimas enquanto dalit e vítimas enquanto mulheres, duas vezes mais oprimidas.

    Sati

    No post em que comentei todas as dificuldades por que passam as mulheres na India, em toda sua vida, esqueci uma prática pavorosa, o Sati, ou a queima da viúva viva numa fogueira, junto com o corpo do marido morto.

    Ainda que seja raríssimo e tenha sido banido do país desde 1829, foi noticiado um caso de Sati em 2002, quando uma viúva de 68 anos cometeu suicídio, queimando-se viva com o marido. Desde os anos 40, vinte e cinco casos de Sati ainda foram registrados na India, inclusive meninas de 18 anos de idade.

    Grupos feministas se mobilizam para evitar a adoração a mulheres que cometeram esse sacrifício, como forma de evitar um ressurgimento dessa prática.

    São as mulheres, na India, sempre infelizes?

    indianarindo.jpgNão. Nem são sempre infelizes os casamentos arranjados, alguns até acabam funcionando muito bem, já que não existe a expectativa romântica que temos em relação às nossas uniões.

    É importante ter em mente que, o que pode ser muito chocante para nós, faz parte de uma cultura com a qual elas cresceram e, muitas vezes, a única que conhecem.

    Certamente, elas ficariam chocadas em saber de práticas que estão se tornando comuns e quase até “aceitáveis” na sociedade brasileira, como não ficarmos chocadas com o tráfico sexual e exploração de meninas de 10, 12 anos por gringos nos bares das grandes cidades. Não sei se estou errada, mas não vi esse tipo de comportamento na India (tem sim, e muito, na Tailândia).

    De qualquer forma, acho que existem direitos humanos universais que, sempre, devem ser considerados. No caso da India, as práticas como aborto seletivo, infanticídio, tortura e assassinato de noivas porque não têm mais dinheiro para dote, queima de viúvas vivas, não podem ser aceitas e merecem atenção da comunidade internacional.

    O que a gente pode fazer?

    Algumas pessoas me escreveram perguntando como a gente pode ajudar as mulheres indianas. Estarei participando de um workshop sobre gênero, aqui em DC, coordenado por uma indiana, Lakshmi e vou perguntar de que forma as pessoas podem contribuir para fazer alguma diferença na vida das mulheres indianas. Falo pra vocês se ela tiver algumas idéias.

    Leia Mais:

    Dahej or Hunda – Dowry and Bride-Price

    Marriage in India

    Hindu Marriage Ceremony

    India court urges dowry clampdown

    Uma perspectiva da Índia: homossexualidade permanece criminalizada por lei colonial da metade do século XIX

    Fotos: Lindas mulheres que encontrei na India.

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    Últimas sobre a India – Castas e Religião

    Denise | India | Wednesday, 01 June 2005

    menininhotemplo.jpgComo prometido, vou refletir um pouco sobre a situação e a história da India, tudo de uma forma bem superficial, porque é um tema complicado demais pra mim, que não sou especialista da área. São apenas impressões e coisinhas que andei ouvindo ou lendo, aqui e ali e gostaria de compartilhar com vocês.

    Apesar de ter sofrido várias invasões e ter vivido sob a colonização britânica até os anos 40, do século passado, a India manteve, relativamente estável, uma cultura que tem mais de 4 mil anos.

    A India é o segundo país mais populoso do mundo (atrás apenas da China), com uma densidade demográfica de 250 habitantes por km2. É um formigueiro humano. Um amontoado impressionante de gente que precisa de regras de convivência, mas, as usadas hoje já têm mais de 3 milênios e reproduzem um processo de exclusão sem saída.

    Sistema de castas (varnas)

    Essa é a maior praga da India e o que mais emperra o seu desenvolvimento. Sendo a base do hinduísmo, religião principal do país, o sistema de castas surgiu há mais de 3 mil anos, dividindo a população em quatro principais grupos:

    brâmanes – religiosos e nobres
    xatrias – guerreiros
    vaixias – camponeses e comerciantes
    sudras – escravos ou serventes.

    Cada casta corresponde a um grupo social hereditário que determina a profissão, os hábitos alimentares, o vestuário, entre outros comportamentos. Essas castas se subdividiram em inúmeros milhares de subgrupos, como forma de aumentar ainda mais a exclusão dentro das castas.

    À margem dessa estrutura social ficam os DALIT, como bem colocado pelo Gui, o termo politicamente correto para as palavras monstruosas “párias, “impuros”, ou “intocáveis” (porque até hoje, para alguns hindus, quem toca em um dalit fica impuro).

    Os dalit são pessoas nascidas da união de pessoas de castas diferentes ou expulsos de suas castas por terem violado as leis religiosas. Não podem viver nas cidades, ler os livros sagrados e banhar-se nas águas do Ganges. Essas pessoas são condenadas aos trabalhos mais degradantes, perigosos e mal pagos.

    Em 1998, foi lançada a Campanha Nacional pelos Direitos Humanos dos Dalits. veja entrevista com um dos ativistas do grupo aqui.

    A limpeza dos banheiros, por exemplo, é feita sempre por um dalit, ainda que se tenha uma pessoa trabalhando em casa com a limpeza e cozinha, tem-se que contratar alguém que tem como função, apenas, limpar o banheiro.

    Gandhi lavava banheiros, publicamente, na sua luta contra o sistema de castas, como forma de impressionar a população mas, apesar de várias leis terem sido criadas, as castas e a marginalização dos párias continuam fortes na sociedade de hoje.

    A religião tem, assim, um papel importantíssimo na “disciplina” da população, e como pertencer a uma casta específica é parte do karma que cada um carrega, todos devem ver sua situação com resignação.

    Com a modernização, existe maior mobilidade social, mas, na maioria da India as pessoas nascem e morrem na mesma casta. Se alguém de uma casta “superior” casar com alguém de uma casta “inferior” os dois são expulsos de suas castas e viram dalit.

    Não é incrível que ainda exista isso, hoje em dia?!

    Mas, vamos pensar bem… quantas das milhões de empregadas domésticas brasileiras têm filhas que passam para a “casta” de universitárias? hein?!

    Hinduismo

    O hinduísmo, praticado por 80% da população da India, é uma das religiões mais antigas do mundo, com referências antes de 2000 antes de Cristo. No geral, assenta-se na crença de uma trindade (trimurti) divina composta por Shiva, Vishnu e Brahma (o “absoluto”), que se manifesta numa infinidade de outros pequenos deuses.

    Eu sou fascinada pela expressão espiritual dos hindus e, sempre que posso, visito templos que não estão nos roteiros turísticos, apesar dos olhares de espanto dos guias. Esse templo da foto al lado encontrei por acaso, em Old Delhi, dei um grito: “Pára o carro!” e fui lá conferir. Incrível.

    Segundo Gitanjali Kolanad, que escreveu o livro “Culture Shock! India”, existem 330 milhões de deuses (devas) hindus, que, ainda segundo ela, são, todos imagens refratadas do grande Brahma, Ishwara ou Mahashakti. Esses deuses são personificação de fenômenos naturais, deificação de pessoas e cada pequena cidade tem seus próprios deuses.

    É uma religião zóolatra, com várias divindades que têm forma animal, como Hanumã, o macaco-rei; a vaca Sabba e ao elefante Ganpati e Ganesha.

    Para entrar num templo, precisa-se ter em mente alguns cuidados. Sempre deixar os sapatos fora, estar com roupas que cubram os ombros e, em alguns deles, a cabeça e demonstrar respeito pelo local. Não é permitido fotografar as imagens, mas a gente acaba dando um jeitinho, quando não tem ninguém olhando, nos templos menores. (ok, ok, é muito feio isso, mas não resisti…)

    Os indianos estão sempre se expressando religiosamente. Tem pequenos templos espalhados em todas as calçadas 3 dentro das lojas e casas. É comum encontrar todo tipo de doação nesses pequenos templos de rua, em alguns casos, mas parece um pic nic, já que até Coca-Cola faz parte das oferendas, além de frutas e muitas flores.

    Fundamentos Básicos do Hinduismo

  • Para o Hinduísmo, as pessoas possuem um espírito (atman), que é uma força perene e indestrutível. A trajetória desse espírito depende das nossas ações, pois a toda ação corresponde uma reação – Lei do Carma.
  • Enquanto não atingimos a libertação final – chama de moksha -, passamos continuamente por mortes e renascimentos. Este ciclo é denominado Roda de Samsara, da qual só saímos após atingirmos a Iluminação.
  • Os rituais se compõem de dois elementos principais: Darshan, que é a meditação / contemplação da divindade, e o Puja (oferenda).
  • A alimentação vegetariana é um dos pontos essenciais da filosofia hindu. Isso porque é livre da impureza (morte / sangue), e como todo alimento deve ser antes oferecido aos deuses, não se poderia ofertar algo que fosse “sujo”.
  • As preces são entoadas como cânticos no idioma sânscrito, língua “morta” que deu origem ao hindi e a um grande número de dialetos praticados na Índia.
  • Essas preces recebem o nome de mantras. Os mantras são dirigidos a diversas divindades, ou estimulam qualidades pessoais. Em geral, são entoados 108 vezes, e para sua contagem utiliza-se o japa-mala (colar de contas), uma espécie de “rosário”, confeccionado em sândalo ou com sementes de rudraksha (árvores consideradas altamente auspiciosas pela tradição indiana).
  • O mantra mais importante é o OM, “sílaba sagrada” que representa o próprio nome de Deus. OM é a semente de todos os mantras e princípio da criação. Foi dele que derivou toda a matéria – neste aspecto, podemos até traçar um paralelo com o gênesis da Bíblia: “E o som se fez carne”.
  • É impossível, em apenas um post, explicar o hinduismo, então sugiro a quem quiser saber um pouco mais, uma olhada nesse site ou nesse.

    Outras religiões na India

    Além do hinduísmo, são religiões na India. o islamismo, sikhsmo, cristianismo, budismo e Jainismo e Zoroastrianismo. Apesar de ser berço de Buda, o budismo só é abraçado por 17% da população indiana. Apenas 2,5% dos indianos e indianas são cristãos.

    CONTINUA em breve, com mais sobre a situação das mulheres…

    Mais sobre castas… update.

    Pesquisando mais, descobri esse blog da Rede de Solidariedade Internacional aos Dalit , que tem informações muito interessantes.

    Segundo artigos do blog, os Dalits vivem separados do resto da comunidade indiana, em Bihar e Rajasthan no Norte e em Tamil Nadu e Andhra Pradesh ao sul do país. Como eu disse, eles são proibidos de entrar nos templos, banhar-se nos rios e lagoas coletivos, retirar água dos poços da cidade e até andar em algumas ruas. Lanchonetes os colocam pra fora.

    Têm menor direito de possuir terras, que outros indianos, menor acesso à educação e são os mais pobres da nação, muitos acabam tornando-se budistas, por revolta pela opressão hindu.

    Casos de romance com pessoas de outras castas, são punidos com a morte, no caso de garotos dalit e estupro, no caso de garotas dalit. Aqui você pode ler o relato sobre um menino de 15 anos assassinado pela própria família por envolver-se com uma menina de uma casta.

    Na tentativa de melhorar a situação social dos dalit, o governo indiano criou as famosas cotas e passou a oferecer alguns benefícios como empréstimos mais baratos, nos bancos, menor impostos e outras facilidades.

    Segundo o autor do artigo, esses benefícios só estão ampliando, ainda mais, a separação entre os dalit e o resto da India. Como sou a favor das cotas para os negros no Brasil, teria que entender melhor a situação na India para dar minha opinião.

    Enfim, esse blog, é uma fonte muito interessante de informações para quem quiser entender melhor a situação dos dalit, na India.

    Leia mais:

  • Caste System – A Historical and Analytical Overview
  • Campanha Nacional pelos Direitos Humanos dos Dalits
  • International Dalit Solidarity Network (IDSN)

  • India’s Culture – Hindu Religion at the Foundation
  • The Caste System and the Stages of Life in Hinduism
  • Blog Dalit Solidarity News
  • Tsunami can’t wash this away: hatred for Dalits
  • Sociedade da Vida Divina Brasil

    ____________________________________________

    DebateFoto: feita por mim, de um menininho lindo de morrer, na frente desse tempo hindu, em Agra, India.

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    O risco de ser mulher na India

    Denise | India | Sunday, 29 May 2005

    brideindia.jpgViajar não é só apreciar as belezas de um lugar exótico, mas uma oportunidade de aprender muito mais sobre o povo. Sempre que viajo, procuro ler sobre o país e entender além do que é mostrado pelos guias.

    Acho que porque tenho uma filha que eu adoro, sempre me aproximei mais das meninas. As amigas de Bia sempre me adoraram e fui confidente de muitas delas.

    As meninas indianas são lindas, meigas e espertíssimas e conquistam a gente com aqueles olhos enormes. Tentei estabelecer algum contato com as meninas que fotografei, mesmo com o bloqueio da língua e elas são inesquecíveis.

    Sendo assim, procurei entender mais o que é a vida de uma indiana e, ainda que eu já soubesse muito disso, fiquei chocada com tudo que ouvi de alguns indianos com quem conversei (guia turístico, motoristas de taxi, funcionários do hotel) e pesquisando, na Internet, nas minhas madrugadas insones em Delhi.

    Esse é o lado triste e feio da história, que eu também precisava mostrar aqui.

    Aborto seletivo

    A India tem um dos menores índices de nascimento de mulheres do mundo. Segundo o censo de 2001, nascem apenas 927 mulheres para cada 1000 homens. No Estado de Haryana esse índice cai para 782 mulheres, enquanto que, em outros países, a estatística média é de nascimento de 1050 mulheres para cada 1000 homens. E, na India, essa diferença está aumentando a cada ano.

    São os “avanços da tecnologia” e suas consequências inesperadas. A diminuição do nascimento de meninas, na India, deve-se à proliferação de empresas clandestinas, em qualquer cidadezinha mais remota da India, que fazem ultrassom por apenas 10 dólares e, com uma taxa adicional, fazem um aborto, se o feto for do sexo feminino.

    A situação é tão grave que o governo proibiu a realização de ultrassom, com o objetivo de saber o sexo do bebê. Mas o apelo dessas empresas e a realidade social falam mais alto.

    Propagandas dessas clínicas afirmam: “pague 500 rupees agora e economize 50.000 no futuro”, numa referência ao dote que o pai da noiva precisa dar à família do noivo, no casamento.

    Infanticídio, descaso e suicídio de meninas

    Dos 15 milhões de meninas nascidas anualmente na India, cerca de 25% não vai sobreviver até seu aniversário de 15 anos.

    A prática de infanticídio ainda existe em algumas regiões da India. Bebês do sexo feminino são mortos através do consumo de arroz e leite envenenados, geralmente oferecidos pelo homem mais velho da família.

    Quando as meninas escapam de ser assassinadas, no primeiro ano de vida, são vítimas de um assassinato gradual. Não são enviadas à escola, trabalham duro em casa e morrem de desnutrição ou total abandono de cuidados de saúde.

    Os índices de suicídio, entre as meninas, são assustadoramente maior que entre os meninos. Estudo publicado no reconhecido jornal científico britânico The Lancet mostrou que o índice de suicídio entre as meninas, entre 10 e 19 anos é de 148 para cada 100.000 enquanto que entre os meninos esse número cai para 58 em cada 100.000.

    A média mundial é de 14.5 suiciídios para cada 100.000 meninos e meninas. Sendo que em países ocidentais, ao contrário da India, o índice de meninos que cometem suicídio pode ser até 3 vezes maior que de meninas.

    O fenômeno “Bride-Burning”

    Se a menina sobreviver a tudo isso, e conseguir que a família arranje um casamento, ela ainda estará correndo risco de ser queimada viva, no que se convencionou chamar de “bride-burning”, e que poderia ser traduzido por “queima da noiva”.

    Como vocês vão ler no meu próximo post, sobre o casamento na India, a família da noiva é obrigada a dar um dote e vários presentes para a família do noivo.

    Em muitos casos, quando a “fonte de dinheiro” se esgota, o noivo e sua mãe passam a considerar aquela noiva indesejável. E a matam, para que o noivo possa casar-se novamente e começar todo o processo de presentes de novo.

    O termo “bride-burning” começou a ser usado porque essas mulheres, geralmente, são mortas na cozinha, enquanto estão preparando a refeição da família, alguém joga querosene, outro acende um fósforo e a morte é reportada como “acidente doméstico” com o fogão a lenha.

    Dados oficiais do Governo da India apontam 7.000 mortes por “Bride-Burning”, por ano, ONGs afirmam que é o dobro. Um artigo chega a falar em 25 mil.

    Além da prática de assassinato das noivas, cujas famílias não dão a quantidade de dinheiro e presentes solicitada, é comum a tortura dessas mulheres, que apanham tanto da família do noivo que tornam-se portadoras de deficiências físicas, com ainda mais dificuldade para trabalhar duramente, como espera-se que faça.

    Muitas vezes, mesmo sabendo que corre risco de vida, a noiva não tem para onde ir. Os pais não a querem de volta e os abrigos governamentais não oferecem condições de moradia e é difícil conseguir uma vaga.

    Outros dados sobre as mulheres, na India:

    • Altíssimos índices de desnutrição, porque a tradição é que as mulheres se alimentem por último e menos que o resto da família, mesmo que esteja gravida ou amamentando. Mães desnutridas dão a luz à bebês desnutridos, perpetuando o ciclo.
    • Mulheres recebem menos cuidados de saúde que os homens, muitas vezes são forçadas a ter vários filhos, até um ser homem, não recebem cuidados adequados durante a gestação e saúde reprodutiva.
    • Para cada 100 mil nascimentos, morrem 540 mulheres indianas no parto ou em decorrência de complicações da gravidez. Muitos desses casos são consequencia de abortos ilegais. No Brasil, o índice de mortalidade materna é de 160 para cada 100.000 nascimentos. Na Suécia o índice é de apenas 5 mulheres para cada 100.000 nascimentos.
    • As meninas recebem muito menos educação formal que os meninos, são tiradas da escola para ajudar em casa ou por medo da violência.
    • Em termos de quantidade, a India tem um dos maiores índices de participação da mulher no mercado de trabalho. As mulheres trabalham mais horas e em tarefas mais árduas que os homens. Ainda assim, seu trabalho não é reconhecido.
    • Em lugares onde a vida da mulher vale tão pouco, é normal que o estupro não seja considerado crime grave e tenha índices altíssimos, especialmente nas cidades grandes, como Delhi.
    • Ainda que existam leis que protegem a mulher, elas não são cumpridas. Mulheres nunca têm direito à herança.

    Mas, porque isso tudo acontece? porque é tão arriscado ser mulher nesse país? é sobre isso que vou escrever no meu próximo post.

    Artigos e sites pesquisados:

    Comentários comentadosFoto: feita por mim no Taj Mahal. As mulheres costumam esconder o rosto com o sari. Ela já tinha o rosto coberto quando fotografei, não foi um reflexo para se esconder da cãmera.

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    MA-RA-VI-LHO-SO!

    Denise | India | Sunday, 29 May 2005

    O Taj Mahal é a coisa mais linda que já vi na vida. Sem tempo pra falar mais nada. Volto amanhã pra casa. Por enquanto, vocês podem dar uma olhada nas fotos maravilhosas (não por competência da fotógrafa, que é fraquinha, mas vamos combinar que esse lugar é muuuuuuuuuuito fotogênico… )

    eunotaj.jpgNovos álbuns de fotos:

    Caminho para o Taj Mahal

    O Taj Mahal

    Templo Hindu

    Tumba de Itimad-ud-Daul

    Isto é India (Incompleto)

    Beijos e volto em breve!

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    Choque Cultural do Outro Lado do Mundo

    Denise | India | Friday, 27 May 2005

    Existem várias formas da gente se chocar e chocar os outros pelo mundo afora. No geral, não me choco mais com nada. Estou aberta a todas as experiências e só me divirto. Mas já choquei muita gente, sem querer. hehehe…

    Primeiro, que eu sou muito beijoqueira e isso é sempre (quando estou acompanhada, claro!) um problema, porque me esqueço das regras das regrinhas básicas de convivência, bem mais restritas por aqui.

    Na India, preciso fazer um esforço danado pra lembrar que demonstrações de carinho público são absolutamente indesejáveis. Claro que todos pensam que eu sou amante de Ted, por causa da diferença de idade e por que esposa não se pendura no pescoço do marido, né? pelo menos, não aqui.

    cobra.jpgAo mesmo tempo que esses beijos podem chocar, no Nepal (e aqui na India), cansei de ver homens andando de mãozinhas dadas (e ainda balançando as mãozinhas, sabe como é?) .

    Em Bakhtapur, cidade onde nasceu Buda, no mesmo país, vi homens sentados no colo dos outros, que os enlaçavam pela cintura. Sem nenhuma conotação sexuall. Mas imagine o quanto isso chocaria qualquer um mais conservador no Brasil.

    Choque cultural e sentimento de inadequação são constantes pra nós, pobres ocidentais, viajantes desprovidos de informação sobre esses paises maravilhosos.

    Brasileiro gosta de reclamar que os americanos não sabem a capital do nosso país, Rapidinho, qual a capital da Malásia? mesmo que você saiba que é Kuala lampur, imagine quantos brasileiros acertariam…

    Mas, vamos aos meus micos:

    Bangladesh

    Sempre achei que os saris são roupas sensualissimas, aqueles tecidos todos, sem nenhuma costura, apenas dobrados e jogados por cima de uma mini-blusa que deixa o umbigo de fora… e ainda tem o Kama Sutra (indiano, mas pra mim era tudo a mesma coisa)… e como essa é a roupinha típica de Bangladesh lá fui eu achando que era um paraiso sensual….

    Ninguém me disse que esse é um país maciçamente muçulmano, portanto, fundamentalista, conservador.

    Saio, um dia, pelas ruas de Dhaka, com uma saia no joelho que me parecia hiper comportada (foto aqui), mas que mostrava minhas pernocas branquésimas e bem grossinhas… a cena foi hilária…

    Juro por Deus! as pessoas paravam na rua na minha frente e apontavam, as mulheres cochichavam e algumas, gargalhavam apontando pras minhas pernocas! hahahaha… quando a gente paga mico na Asia é sério, eles não têm pudor de rir na sua cara hehehe…

    Minha saia, que parecia pra lá de inocente em qualquer país ocidental era o equivalente a andar de fio dental no centro de São Paulo. Quando é que a gente imaginar uma coisa dessas? (aliás, a mesma coisa aconteceu comigo na Africa).

    Filipinas

    Outro choque foi quando viajei pras Filipinas. Já tinha ido à Tailandia três vezes e sempre voltava com as malas abarrotadas de roupinhas maravilhosas, coloridíssimas e baratésimas.

    Então, decidi que ia levar praticamente nada nessa viagem porque no primeiro dia, em Manila, iria às compras e assim teria mais espaço na mala pra trazer tudo que quisesse. Ganância por espaço nas malas…

    Acontece que, mais uma vez, meus conhecimentos da historia asiática eram precários. Confesso que não sabia que as Filipinas, são um país católico, e conservador.

    Uma religiosidade cristã que está mais pra Espanha de Franco do que pra o Brasil de Boff. As Filipinas foram invadidas diversas vezes, perdendo toda referência cultural após diversas colonizações predatórias (se é que existe outro tipo!).

    tigrinhos.jpgÉ um país de carolas religiosas e, praticamente, não existem templos budistas ou hindus, apenas igrejas católicas de arquitetura espanhola, e as pessoas se vestem mais ou menos como as atrizes de Cría Cuervos, do Saura (sobre o qual falei aqui, dia desses).

    Bem, aí fui às compras e tudo que eu encontrava nas lojas era preto, marrom, cinza e muito, muito feio. Pra piorar, as mulheres são muito menores que eu, que sou grandona pra todos os lados. Então, absolutamente nada cabia em mim. Passei 12 dias trabalhando com as mesmas três roupinhas, que usava e lavava direto, e aprendi a lição.

    Nepal

    O calor era enorme, então decidi que não seria problema nenhum sair de Penang pra Kathmandu de mini vestido (gente, hoje eu tenho consciência do quão MINI era hehehe), porque a van do hotel iria estar me esperando e não teria problema em sair do aeroporto ditreto pro hotel e lá trocar de roupa pra sair.

    O aeroporto de Kathmandu é daqueles onde ninguém entra, apenas os passageiros, mas tem uma vidraça gigante que separa a rua do ambiente interno. Acontece que atrasei um pouco na alfândega e quando cheguei na porta principal não tinha mais ninguém, só eu.

    Bom, quando eu olho pra vidraça, tinha, sem exagero, uns 200 homens com a cara colada no vidro. Em estado de choque. Eles e eu. hahahaha….

    Pra sair foi uma novela, o motorista da van entrou pra ir me buscar e, no curto caminho do aeroporto até o carro nunca me senti tão vulnerável. Eles não fizeram nada, claro, nem teve mão boba, mas era uma pressão ao redor, um mundo de homens falando ao mesmo tempo e todos os hormônios em ebuliçáo hahahahaha… nem imaginam a situação…

    Pra completar – juro por Deus – cheguei a ouvir alguém dizer “brazilian, brazilian” hahahahaha… não sei se a nossa fama chegou tão longe ou eles têm informantes na alfândega… mas quase morro de rir com isso… meu vestidinho não contribuiu em nada pra fama das compatriotas…

    Malásia

    No meu primeiro dia de trabalho, na Malásia sai com a equipe pra almoçar. Me levaram pra uma rua cheia de barraquinhas de alumínio (como as de churros, no Brasil) e lá, cada um escolheu o que queria, entre comida indiana, malaia ou chinesa (as três povos que formam o país). Quase tive um troço… “como assim? eu vou comer… aqui???”. Pra mim, no fundo, parecia uma ofensa, já que, quando a gente tem visitas, no Brasil, leva pros melhores lugares pra comer, não é?

    Isso foi há uns 8 anos, claro que, de lá pra cá, mudei muito, mas foi um choque a primeira vez. Ainda maior quando o pessoal resolveu mandar comprar as comidas, pra gente almoçar no escritório, assim ia economizar tempo, e o arroz veio enrolado num papel de jornal. Claro que tinha um plasticozinho entre o jornal e o arroz, mas imagine meu choque quando vi a cena, o povo abrindo aquelas folhas de jornal e tirando arroz de dentro.

    Sem falar que todo mundo comia com a mão (como aqui em Bangladesh, no Nepal, na Tailandia…) e não estou falando de pessoas pobres, não, mas de profissionais de altíssimo nível, todo mundo, incluindo eu. metendo a mão naquelas letilhas, arroz e verduras (deliciosos!).

    Em alguns restaurantes, o prato era uma folha de bananeira… todo mundo trazia, na bolsa, um lencinho pra limpar a poeira da folha que ainda estava lá, desde quando foi retirada do pé…

    ISSO é choque cultural hehehe

    elefantinhos.jpgComo a Malásia (Ilha de Penang) foi o país que visitei mais vezes e onde fiquei mais tempo, foi também, onde tive as experiências mais fantásticas.

    Uma vez, por exemplo, uma colega d etrabalho deu um piti porque eu costumava passar por ela e tocar a cabeça dela, de leve (como a gente faz pra dizer um OI, às vezes). Nos paises budistas, a cabeça é sagrada e ninguém deve tocá-la.

    Engraçado foi quando me disseram que é ofensa gravíssima apontar a cabeça de alguém com o pé… e eu ficava imaginando como seria possivel esse constorcionismo. Mas, por exemplo, colocar o pé na cadeira no cinema, na Asia, nem pensar…

    Comprei até um livro que fala da etiqueta, como se comportar nos templos budistas ou em relação às imagens de Budha. Qualquer dia traduz umas coisas pra vocês, mas uma dica simples é que você não pode, nunca, carregar uma imagem de Buda pela cabeça… interessante, né? e nunca esqueço disso quando estou em uma loja.

    Enfim, são apenas alguns exemplos do que é sair da nossa concha e cair num mundão velho sem porteira que é muito doido pras nossas referências, mas também somos pras deles. Não podemos esquecer disso.

    O segredo pra boa convivência (que aprendi a duras penas, como vocês podem ver) é simples… respeito, respeito, respeito… E pra ter esse respeito, a gente precisa de informação.

    Então, antes de viajar pra qualquer país que seja, procuro saber tudo sobre ele e usar aquela “máxima” velha e sábia… “Em Roma, como os romanos”.

    Namastê…

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    Fotos: Radicalizando na “máxima”, no Nepal e Tailândia. (Desculpem a repetição de algumas fotos, que já foram publicadas no blog, mas é que elas me pareceram perfeitas pro post)

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    Ps.: Agora, deixa eu correr senão perco mesmo o trem pra Agra, onde fica o Taj Mahal! depois conto tudo, como foi lá, pra vocês!

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    Apaixonada pela India!

    Denise | India | Thursday, 26 May 2005

    hollyfood.jpgDesde ontem estou batendo pernas, vendo as coisas mais lindas, mais impressionantes de Delhi.

    Não consegui escrever mais, ando mortinha de cansaço, mas li e adorei todos os recados que vocês deixaram por aqui.

    É muito legal viajar assim, porque eu não me sinto sozinha. Cada coisa que eu vejo penso que preciso mostrar e contar pra vocês. É muito mais divertido. Obrigada pela companhia maravilhosa :)

    Dá uma pena danada, mas as coisas mais incríveis, não dá pra fotografar… Tenho um pudor enorme de fotografar as pessoas. Não quero que pensem que estou sendo desrespeitosa, que estou tratando-as como se fossem bichos exóticos.

    Vi, aqui, uma prática comum na Tailândia e no Nepal. O povo tomando banho na rua. É muito engraçado, você tá andando na calçada e tem uma pessoa apenas com uns panos que parecem uma fralda gigante, tomando o maior banho, na boa. Daria uma excelente foto, mas não dá né?! mesmo na calçada, as pessoas merecem alguma privacidade…

    Ontem

    Fiz minha primeira tour “oficial” em Delhi. Ligamos do hotel e o carro veio buscar a gente. Eu e a Mel uma arquiteta americana, bem novinha, super legal. Ela vive em Austin, Texas e descobrimos que eu fiquei hospedada num hotel onde trabalham todos seus amigos, o San José, que é um templo hippie da cidade.

    A excursão era apenas pra nós duas, que nos rebelamos contra a tirania do Guia… hehehe… a gente não parava de tagarelar e levou várias broncas do guia, compenetradíssimo em seu trabalho.

    cloudmosque.jpgFomos para Old Delhi. Primeiro, visitamos Jami Masjid, a maior mesquita da India, também conhecida como a Mesquita das Nuvens, por causa dos três domos em mármore branco e preto. Mel não queria tirar os sapatos, então ficou fritando no carro.

    Eu aceitei o desafio e lá fui queimar os pezinhos. Tudo em Delhi paga-se. Tive que pagar 150 rupees (cerca de 3 dólares) apenas pra entrar com uma câmera na mesquita. Mais 10 rupees pro cara que guarda meu sapato.

    A mesquita é belíssima, como vocês podem ver nas fotos. Uma coisa que eu admiro na religião muçulmana é a sua adoração aos livros sagrados. Perceba que nos “altares”, existem livros, ao invés de imagens. Interessante, né?

    O chão estava pegando fogo, então eles têm uns caminhozinhos com um tapete por onde as pessoas vão andando, em fileiras. Quentíssimo mas, pelo menos, suportável, já que toda mesquita tem piso de mármore, que tira o pedaço dos pezinhos a 44 graus centígrados.

    Esse menininho lindo da foto andou atrás de mim o tempo todo, me pedindo pra tirar foto dele. Fazendo charme. Eu não tinha dinheiro pequeno, mas ele encheu tanto o saco que tirei a foto. Aí ele foi atrás de mim pedindo dinheiro pela foto. O guia me emprestou 2 rupees.

    De lá fomos pro “Lal Qila” (Forte Vermelho). Construído no final do século XV, era lá que os imperadores viviam e tinham audiências diárias, sentados nesse trono de mármore trabalhado. foi sede do império, até o último imperador, que foi deposto em 1857.

    redforte.jpgDois detalhes interessantes nesse local. Primeiro, esse soldado, engraçadissímo, que fica na entrada do forte com essa arma “poderosa” e minúscula apontada pra porta. É muito engraçada a imagem de um forte gigantesco, com essa arma fininha guardando a nossa segurança… hehehehe…

    Pedi pra tirar uma foto e ele ainda fez pose todo orgulhoso… hehehe

    Outra coisa fofa eram os grupos enormes de famílias indianas, visitando o forte. Provavelmente de outros estados indianos. Eles ficavam impressionados com a gente (Eu e mel) e pediam pra gente tirar fotos com eles, com suas câmeras. Claro que eu aproveitava e tirava com a minha também. Muito fofos.

    Depois fomos pro local onde estão as cinzas de Ghandi. Meio sem graça, lembrei de um post da Ana Lucia sobre turismo mórbido, que inclui cemitérios e, nesse caso, o templo com as cinzas do pacifista.

    Mas, rendeu algumas fotos interessantes, mesmo assim, principalmente do cara que limpava o chão num show contorcionista. O povo aqui é o que existe de mais fotogênico!

    Isso foi suficiente pra gente chegar no hotel e desmaiar, depois do passeio. Quando Ted chegou do trabalho, fomos ao ar do hotel bater um papo com um colega dele, britânico, que também está hospedado aqui.

    Tomei dois copos de “mango lassi”, finalmente! Essa é uma bebida feita com polpa de manga e iogurte que eu AMO. Já estava desistindo de tomar e esperando voltar pra DC, mas o chief fez um, especial pra mim!

    Essa é uma das coisas engraçadas em viagens. Churro espanhol, pizza na Italia, comida chinesa na Malásia (cujo 1 terço da população é chinesa)… nenhum deles é tão bom no seu local do “origem”, como no Brasil.

    Eu sempre tomei muito mango lassi em restaurantes da Suécia e EUA e ninguém aqui nunca nem ouviu falar!

    Hoje

    floresindia.jpgResolvi reconquistar minha independência. Sou rebelde demais para excursões. Ontem, percebi que, na frente do forte tinha um templo interessantíssimo, além de uma rua absurda, cheia de gente e carros. Voltei lá, sozinha.

    A rua é a Chandni Chowk, onde encontram-se lojas de material eletrônico, roupas e, nas calçadas, vende-se tudo que se imaginar. É o lugar mais absurdo que já fui. Não dá pra explicar, só olhando as fotos.

    Quando já estava voltando pro hotel, percebi esse templo e botei a cabecinha pra ver o que era. Alguém veio falar comigo e dizer que eu era muito benvinda lá, que não iriam me pedir dinheiro e ainda poderia tirar fotos. Tudo que eu queria da vida.

    Sisganj Gurudw (pode clicar, acho que as fotos, modéstia à parte, estão bem legais!) é o templo de Tegh Babadur, o nono guru Sikh.

    Cobri a cabeça com a “estola” da minha roupa, deixei os sapatos lá e comecei a explorar o local, que é enorme, tendo, inclusive uma pousada e um hospital para os seguidores do Baba.

    Pra entrar no templo, eles pedem que a gente lave os pés, numa “pocinha” que fica no pé da escada. Imagino que muitos gringos sentem-se mal em molhar os pés com a mesma água de todo mundo, eu sou tranquila com essas coisas, além do mais, com o calor que estava, era um alívio a água friazinha.

    Em todo o templo ecoa a música que está sendo tocada no templo. A sensação na sala principal é de muita paz. Sentei no chão e aproveitei um pouco daquele clima espiritual. Delicia.

    Aí veio alguém me oferecer um guia, que “não teria nenhum custo”, apenas “trabalhava por Deus”. O guia parecia um relações píublicas dos Sikhs e eu lembrei das bombas nos cinemas. Eles devem, realmente, estar tentando melhorar sua imagem com os estrangeiros.

    templosikh.jpgMeu guia explicou que os Sikhs são uma religião muito “open minded” e que prega a igualdade entre homens e mulheres (yeah, right…). O templo fica aberto 24 horas e, segundo ele, pessoas de todas as religiões são benvindas.

    Ele me levou para conhecer a cozinha, onde eles fabricam a comida que depois é “beatificada” e distribuída com todos que vierem para o templo. Esse cara, do meu lado, na foto acima, fica na porta do templo distribuindo a iguaria que eu, confesso, resolvi não provar. Ando com o estômago meio castigado de tanta comida indiana.

    No final, meu guia me perguntou se eu queria fazer alguma doação ao templo… ok, ok, tinha que acontecer, tava muito bom pra ser verdade. Falei que tinha muito pouco dinheiro, ele perguntou quanto eu ia dar, eu falei que podia doar 100 rupees (menos de 3 dolares). Ele me enrolou, mostrou o livro sagrado e, discretamente, me levou pra trás do templo e disse que eu podia faezr a doação agora… olhando pros lados apreensivo, claro…

    Bom, visitar esse templo foi uma experiência FANTÁSTICA e uma das coisas mais bacanas que me aconteceram aqui. Só pode ser aproveitada por pessoas que enfrentam Delhi sozinhas. As excursões nunca incluem esse templo e outros menosres, que são os mais interessantes, pra mim.

    Adoraria explicar melhor quem são os Sikhs e posso fazer isso ao voltar pra casa. Por enquanto, estou mortinha de cansada e caindo de sono (ontem fui dormir às 8 da noite e acordei às 2 e meia da manhã, estou de pé desde então (são nove da noite agora). Portanto, se o post não fizer muito sentido, dêem um desconto. É o sono e cansaço.

    Beijo enorme pra todo mundo e, aguardem, quando acordar, vou escrever sobre as minhas experiências de choque cultural na Asia, como prometi no post de uns dias atrás.

    Ps.: também perdoem erros de digitação e português, não vou revisar nada, OK? aliás, escrevi esse post deitada na cama e, de vez em quando, confesso que dei uma cochilada entre uma palavra e outra hehehehe…

    Ps2.: percebam as minhas bochechas que estão ficando cada vez maiores e mais redondinhas, quando voltar pra DC vou ter que malhar muito pra queimar a comida indiana hehehehe…

    Comentários comentadosPs3.: Acordei à 1.40h da manhã (já desisti de ajustar meu relógio biológico, já que volto em 4 dias e ia ter que reajustar, de novo…) e dei uma revisada no texto. Quem leu antes disso encontrou umas coisinhas incompreensíveis, por causa do meu sono… hehehe… sorry…

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    India – Dia sobre a Terra ou Um Taxi em Delhi

    Denise | India | Tuesday, 24 May 2005

    2405pequena1.jpgHoje, pela primeira vez, consegui começar o dia cedinho.

    Aproveitei aquele maravilhoso café da manhã do hotel e peguei um taxi, que me cobrou 8 dólares pra ir para “onde eu quisesse” (vocês vão entender as aspas, em breve), durante umas 4, 5 horas…

    Taxista gente fina, fez a pergunta fatídica:

    - De onde você é?

    - Brasil.

    - Como?

    - Brasil…

    - Não entendi…

    - Ronaldo, Futebol…

    - Ahhhhhhhhhhhhh… Braaaassil!!!! muito bom!!!!

    Pausa pra tico e teco se refrescarem… continua…

    - Qual a população do seu país?

    Eu, acostumada a responder essa questão a belgas e suecos, respondi, toda orgulhosa:

    - 180 milhões de habitantes!!!!

    Ele, decepcionado:

    - ah… pouquinho, pouquinho… país muito pequeno…

    A India tem um bilhão.

    Mas, a luta diária substitui o papo amigável. Os taxistas daqui são rebeldes e não se convencem que você é quem sabe do seu destino. E eu, que detesto que me digam o que fazer, não deixo por pouco.

    Eu dizia:

    - Quero ir pra o “Government Emporium”

    Ele dizia:

    - Sim, sim, pro “Kashmir Emporium”…

    Depois de mandar parar o carro, apontar o mapa e, de cara muito feia, dizer que não vou pra lugar nenhum que não seja aquele que estou repetindo, ele concorda… mas com a condição de que, depois, eu vá pro “Kashmir Emporium” (onde ele recebe uma comissão da loja).

    Relaxei e me deliciei com as coisas lindas de morrer do Government Emporium (onde fui só checar os preços, pra voltar depois, e ainda pretendo tirar umas fotos pra vocês).

    O bazar é dirigido pelo Governo da India, com produtos do país inteiro, não é super barato, mas é um dos poucos lugares que tem preço fixo e ar condicionado, super luxo, por aqui.

    palika.jpgSaindo de lá, eu monto uma estratégia e engano meu amigo taxista dizendo que quero ir pra rua tal, sem dizer o porquê… ao chegar na rua tal, pulo do taxi e corro pra o Palika Bazar, super popular (algo como uma mistura do Mercado de São José com Atacado dos Presentes) sob protestos do taxista que me acompanha até a entrada do bazar (que é subtrerrâneo!) jurando que eu ia ser assaltada ou esfaqueada…

    Aí eu encontrei o que procurava. Povão de verdade e pechinchas inacreditáveis. Fiz uma festa. Mas, haja disposição pra barganhar… é o milagre da multiplicação dos rupees. As estolas de pashmina custavam 45 dólares, mas acabei comprando duas por 40. Centenas de pulseirinhas a preço de pitomba. Saris por cinco dólares.

    Barganha, na Asia, é uma arte que eles adoram desfrutar e a gente precisa aprender. Dizem o preço, sabendo que vai haver discussão. Em alguns lugares é até insulto não pechinchar, como se você se achasse superior a eles.

    Na Tailândia, diziam o preço mostrando na calculadora. Aí você tem que colocar o seu preço nela também, que vira um bloquinho de notas, e é um verdadeiro jogo de sedução. Minha tática, seja em que país for (no Peru, morriam de rir comigo) é dizer:

    - Sou brasileira… pobrezinha… não tenho dinheiro (o que sempre é verdade), vocês precisam me vender baratinho, cobra caro dos americanos, eles, sim, têm dinheiro, eu não… hehehe…

    Funciona sempre.

    Aprendi que, na India, deve-se pedir a metade do preço por tudo. Sempre começo as viagens com ótimas compras, depois de alguns dias já tô cansada e pago qualquer coisa (ou melhor, páro de comprar…)

    takmahalmarmore.jpgAssim, prechinchando muito, hoje, comprei coisas bem bonitinhas e com precinho ótimo, a(o)s curiosa(o)s podem ver as fotos lá no álbum.

    Acabando minha farra, voltei pro taxi, onde meu amigo me esperava contrariado e sentindo-se, visivelmente traido.

    Ele sabia que., depois de eu ver os preços no Palika Bazar a possibilidade de comprar alguma coisa, na loja para a qual ele queria me levar, diminuía consideravelmente.

    Como fiquei com pena da cara de tristeza dele, e não aguento ver ninguém assim, cedi e lá fomos nós pro tal Kashmir Emporium. O lugar era indecente. Tudo custava cerca de 10 vezes mais que no bazar anterior.

    A única coisa engraçada era ver um monte de gringos torrados de sol, acompanhados dos seus respectivos taxistas e comprando tudo sem pensar duas vezes. Bom, eles podem né? têm dinheiro… mas eu sou do tipo que, mesmo que fosse rica, ia adorar uma pechincha.

    Claro que não comprei nada. Mas aí meu amigo lembrou de “outro lugar” e, como eu estava me sentindo culpada por tê-lo “enganado” e estava de muito bom humor, topei ir lá, com ele. Mesmo sabendo o que me esperava.

    Pensem nisso tudo num calor de 44 graus, torrando meus miolos, com uma garrafinha de água mineral literalmente morna e sem poder ouvir mais meu MP3 porque até os fones de ouvido estavam pegando fogo.

    Enfim, fui lá no outro empório, dei uma volta na loja, demorei 5 minutos, ainda perguntei como eles tinham coragem de vender tudo tão caro e dei o ultimato ao meu taxista… agora eu queria, mesmo, ir ao templo hindu.

    templo2405.jpgAo chegar lá, confiscaram minha câmera e meus sapatos (não se pode entrar em nenhum templo hindu de sapatos).

    Acontece que o sol tava tão quente, mas tão quente, que não dava pra andar no chão de mármore do templo sem queimar os pés. Desisti. Voltei pro taxi. Ainda parei pra almoçar (Ted estava no trabalho) e voltei pro hotel.

    Ao chegar aqui, desmaiei na cama e dormi umas duas horas. Ted chegou e aí a gente pode dar uma voltinha legal, já que à noitinha o calor ameniza um pouco (baixa pra uns 35 heheheh).

    Compramos uns livrinhos e paramos pra jantar em nosso restaurante preferido, que é a coisa que eu gostei mais, até agora, em Delhi.

    Restaurante de trabalhador, com copo e prato de aluminio e gente com o coração enorme. Somos os únicos turistas que arriscam o lugar e isso já está nos fazendo ganhar os clientes e donos da bodega.

    refeicaoindi.jpgServem uma comidinha incrível – arroz, dal (lentilha), sobji (vegetais com curry), arroz branco e naan (esse pãozinho maravilhoso), mais uma entrada na qual nunca nem tocamos, por apenas UM dólar.

    Dia desses, pedi um pouco mais de dal, achando que ia pagar. Não só eles não cobraram, como agora temos direito a refill. Vai acabando, eles vão enchendo o prato, de novo.

    Tudo por um dólar (mais 50 cents da coca diet) e sob os olhares curiosos e orgulhosos dos frequentadores do “Subhash”, cuja placa avisa que está ali desde 1957.

    Enfim, voltamos pro hotel felizes da vida, num autorickshaw, que é um triciclo a motor, verdinho e amarelo, muito usado pra distâncias curtas.

    O calor é brabo e nem tá dando pra fazer tudo que eu quero, mas tem tempo, só voltamos na segunda-feira… e aprendi a ser uma turista sem pressa…

    Fotos de hoje (poucas, e não tão boas, porque o calor estava derretendo meus miolos e a câmera tava pegando fogo…) podem ser vistas aqui.

    Continuação do post abaixo, em breve…

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    Aventuras de uma brasileira superando o choque cultural nas terras do curry

    Denise | India | Tuesday, 24 May 2005

    primeiravez.jpgEsse jet lag tá me matando. Ontem, consegui não dormir durante o dia. Fui pra cama umas 10 da noite. De repente acordo toda animada, pensando que já era de manhãzinha… e eram 11 e meia da noite!!

    Tinha dormido míseras uma hora e meia!!! Como não estava com sono nenhum, resolvi começar a escrever esse post que, por estar muito grande vai ser dividido em duas ou três partes.

    A idéia era responder ao meu amigo Flavio Prada, que perguntou: “Voce tem tido contatos com a gente. Eles recebem bem o turista?”.

    Bom, nao vou falar apenas dos indianos, mas dos povos da Asia que visitei, um bem diferente do outro, mas com algumas caracteristicas que estao presentes em todos eles… e escrevo esse post pensando nos amigos Lucia Malla, Guilherme, Jackie que, cada um à sua maneira, conhecem bem a Asia, ainda melhor que eu e, certamente, podem contribuir com esse post.

    Levando-se em consideração, sempre, que não sou especialista em Asia… são apenas experiências e impressões pessoais e a Asia que eu conheci é muito pobre (India, Bangladesh, Nepal) ou não tão rica (Tailândia, Filipinas, Malasia, Singapura), tudo bem longe do que é o Japão (sobre o qual a querida Gabi tá sempre dando aulas), por exemplo. Ou a China, que, na minha opinião, não parece com nada.

    E acrescentando, a todas as minhas impressões, um “jet leg” brabo, que sempre esteve presente em minhas viagens, turvando ainda mais a mente e deixando tudo ainda mais esquisito e mágico.

    O primeiro a gente nunca esquece

    O primeiro pais asiatico, a gente nunca esquece. Estou adorando a India, mas o fator surpresa não existe mais, eu já tinha uma idéia do que ia encontrar por aqui.

    O primeiro, não, o choque é muito grande e fica grudado como chiclete na sua memória, porque mexe com todos seus sentidos. A primeira vez, pra mim, foi Bangkok, Tailândia em 1996.

    Depois de um vôo Recife/Sao Paulo/Joahnnersburgo/Bangkok, que durou séculos, e de um fuso horario de 12 horas de diferenca, cheguei à cidade com um grupo de amig@s, para um Forum Mundial de Amamentacao.

    Eu, literalmente, delirei. Um cheiro caracteristico, que não dá pra explicar e que é amplificado pela extrema humidade e calor, muita gente, muito barulho, caos, um exagero de cores e dourado, um taxi que mal tinha espaço pro passageiro de tanto badulaque pendurado e um taxista maravilhoso, fazendo de tudo pra se comunicar.

    A Festa de Babette

    roman.jpgComo ainda não encarava a culinaria local, nessa primeira vez, em Bangkok, perdi 12 quilos em 18 dias. Comia exclusivamente melancia, enquanto trabalhava como uma louca, na primeira semana.

    Sim, porque a culinária é um capitulo à parte. No meu caso, levou algums viagens até me acostumar a arriscar as coisas mais estranhas, que acabavam sendo experiências gastronômicas maravilhosas. Mas, não é fácil. As coisas podem ser esquisitas demais.

    Foi quando me apaixonei pela comida indiana e voltei a ser conservadora. Em qualquer cidade da Asia, procuro meu caminho pra Little India. Pra mim, é a melhor comida do mundo.

    Mas doces sempre são um problema. Ted tem a teoria de que doces são registros emocionais muito fortes que fazemos na infância, então, somos mais resistentes ao novo e tendemos a gostar do que conhecemos bem.

    É verdade, pra mim, nunca consegui gostar dos docinhos dessas bandas de cá e sempre viajo com um pequeno estoque de chocolates, pras horas de desespero. Porque tem lugares onde a gente, realmente, não encontra nenhum tipo de comida ociedental

    Aqui nesse hotel na India, o café da manhã é uma festa. Além de todas as coisinhas indianas, tem frutras, muitas frutas. Muita manga, cerejas, melancia, um tipo de pitomba e uma fruta que eu adoro mas é difícil (caro) de encontrar no Recife: romã! essa foto, aí acima, mostra umprato enorme de romã, com a qual me divirto toda manhã…

    Gente boa

    meninoindia1.jpgMas, não é só a comida que é maravilhosa, por aqui. A gente é muito boa.

    Uma caracteristica que eu acho geral, em todos os paises que visitei, é uma amigabilidade, uma genbtileza e, ao mesmo tempo, uma curiosidade não disfarçada (nem um pouquinho) em relação a(o) visitante.

    Em todos esses paises as pessoas comuns, na rua, nas feiras, nos restaurantes, são muito, muito gentis.

    No Nepal, talvez um pouco mais desconfiadas, por ser um país que ainda (pelo menos em 1997, quando estive lá) sofreu bem menos influencia ocidental que a Malásia, por exemplo.

    Em todos lugares que fui, os asiaticos tratam os turistas bem até demais. Claro que isso não significa que não vão lhe enrolar, sempre que possível. Isso é a Asia, o melhor e o pior de tudo.

    Aqui na India, pegar um taxi é uma tortura, porque eles praticamente nos obrigam a visitar lojas caríssimas, de onde eles tiram uma boa comissão se você comprar algo. Chega a ser engraçado, ontem a gente teve que brigar porque o motorista levou a gente pra um lugar diferente e a gente disse que não descia do carro… hehehe…

    Ao mesmo tempo, em Dili Haat, eu comentei com um rapaz de uma loja onde comprei minha saia que tinha perdido todos os cordõezinhos que amarram minhas calças, usadas com as batas indianas e pergiuntei se ele vendia separado. Ele tirou quatro cordões das calças que ele estava vendendo e me deu, assim, de graça… com um lindo sorriso no rosto…

    Com altos e baixos, não é fácil pra @ ocidental não se chocar com as profundas diferenças.

    Parece que estamos num outro planeta e todas as nossas referências são trituradas num liquidificador e a nossa capacidade de enfrentar o novo, sem preconceito, é desafiada a cada instante.

    Continuo amanhã, com umas historinhas que aconteceram comigo nesse outro lado do mundo…

    Você tem alguma experiência sobre a Asia pra compartilhar com a gente??? sinta-se minha (meu) convidada (o)!

    Fotos: Templo douradíssimo, em Bangkok (Outrras fotos da Tailandia aqui). Romã e menino em Delhi.

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    Comentários comentadosE por falar em Ásia, a queridissima Lucia Malla está fazendo uma super cobertura da visita de Lula à Coreia, com fotos exclusivas e tudo… imperdivel!

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    India – cansada. demais. dormir.

    Denise | India | Monday, 23 May 2005

    amanhã. conto. mais.

    florista.jpg

    Fotos da nossa segunda-feira à tarde aqui. As fotos dos docinhos são, especialmente, pra Juci.

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    India – Deu no Indian Times…

    Denise | India | Monday, 23 May 2005

    … que a temperatura em Delhi, ontem, chegou a 47 graus centigrados. Portanto…

    piscinanaindia.jpg

    Mais fotos da nossa segunda-feira de manha (feriado na India), aqui.

    Vou ali e volto ja’…

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    Buddha Purnima

    Denise | India | Monday, 23 May 2005

    buddha2.jpg

    Voltei apenas pra lembrar que hoje e’ “Buddha Purnima” ou “Vasak”, o dia do nascimento, iluminacao e morte de Buda. Infelizmente, nao pude ir a nenhuma celebracao, aqui. A India tem uma grande comunidade budista, mas sua religao principal e’ o hinduismo.

    Leia mais sobre Buda aqui

    Parabolas Budistas

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    India – Calor, Dilli Haat, comprinhas…

    Denise | India | Sunday, 22 May 2005

    dilihaat.jpg

    Calor

    Querid@s, o calor aqui e’ muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito… mas nao da’ nem pra voces imaginarem o que e’ 44 graus, em Delhi, ao meio dia, pra alguem como eu, que abomina o calor!

    Vim agora pra aproveitar que Ted esta’ aqui a trabalho, mas nunca mais venho por aqui no verao… hehehe… ok, e’ tudo muito especial, a comida e’ dos deuses, tem coisas lindas pra se ver, mas o desconforto e’ quase insuportavel.

    Fomos ao Dilli Haat, um bazar gigante, mas depois de 15 minutos eu ja’ estava passando mal. Consegui aguentar umas boas horas, mas `a custa de muita agua mineral.

    Dilli Haat

    puppetsindia.jpgDilli Haat e’ um aglomerado de lojinhas. Logo na entrada tem um cartaz avisando que essa e’ uma area “plastic free”, onde tudo e’ artesanal e tambem nao tolera-se “comportamento indecente”… considerando as diferencas culturais, precisei controlar meus “beijinhos sem ter fim”…

    Tudo era lindo, mas estou aprendendo a me controlar. Quando fui ao Nepal comprei tanta bugiganga que, por anos, minha casa parecia de uma indiana. Enjoei. Mudei o estilo, que esta muito mais clean. Preciso pensar que, talvez, aquele boneco maravilhoso nao fique bem na minha sala, mesmo que seja baratissimo.

    Roupas tambem sao uma tentacao. Ainda mais que a moda nos EUA, agora, e’ “bohemian”, nada mais que o velho estilo riponga, revisitado (e carissimo). Essa moda chegou por ai tambem?

    comprinhasindia1.jpgComo ja’ tenho um bom numero de roupas “bohemian”, que nao uso nunca, fiquei somente com uma saia maravilhosa, envelope, longa e bem larga que custou cinco dolares (somente porque o calor estava muito grande pra barganhar), uma bolsinha vermelha, cheia de espelhinhos por dois e umas pulserias amarelas (bangles), pra usar com meu sari, por 2 dolares. Gastei menos de 10 dolares!!!

    comprinhasindia2.jpgTambem compramos presentes lindos, uns bloquinhos de notas “pintados” com pedras semi-preciosas (gemstone painting) e feitos de papel reciclado, com uma canetinha dourada. Mas, nao posso dar o preco desses dai, porque vai ter futur@ presentead@ lendo, ne? hehehe…

    Pra mim, esse e’ um dos artesanatos mais lindos da India. Ted ja’ tinha me dado uma caixinha com esse processo manual e eu tinha me apaixonado pela delicadeza dos detalhes. Agora, pense que essa pintura e’ feita com o po’ de pedras como ametista, jasper, turquesa, agata. Tem ainda um um vidro que protege a “pintura”. Veja mais sobre as pedras aqui.

    Aguardem que vou sortear um desses bloquinhos no aniversario do blog (setembro).

    Comentários comentadosVejam as fotos, da nossa viagem pra India, aqui.

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