Aproveitando a deixa do post anterior, que conta a historia da moca que saiu do cemiterio pra dancar num baile de carnaval. Vou contar pra voces minha aventura quase inversa.
Entao, a historia foi a seguinte. Eu tinha ido, de manha, encontrar umas adoraveis e divertidas blogueiras, com quem tive um delicioso brunch num bistro descolado (que pertence a um dos 4 integrantes do ABBA, o Cafe Rival).
Tivemos algumas horas agradabilissimas, trocamos muitas figurinhas e nos despedimos mais ou menos as duas da tarde. De la’, ainda dei uma voltinha pelo centro de Estocolmo, queria fazer umas fotos, mas o dia estava particularmente nublado, nao dava pra ver nada.

Peguei o metro de volta pra casa, mas ao sair da estacao, olhei o portao do cemiterio (segunda foto) e pensei: “Hoje e’ um dia perfeito pra uma visita ao tumulo de Greta Garbo!”, isso sem que ninguem tivesse a minima ideia de onde eu estava.
Esse portao ao lado, na verdade, e’ de um cemiterio menor, que fica perto do apartamento da gente. Cruzando todo o caminho, ate’ os fundos, a gente chega ao famoso Skogskyrkogården (algo como “Cemiterio Florestal”), que nao e’ um cemiterio comum, mas um patrimonio da humanidade, segundo a UNESCO.
Em 1915, dois jovens arquitetos (Gunnar Asplund e Sigurd Lewerentz) ganharam um concurso para projetar o cemiterio que viria a ser considerado um dos icones da arquiterura em espacos abertos (Icons of Twentieth-century Landscape Design).
Bom, essa conversa toda e’ pra justificar o que eu fui fazer num cemiterio, num sabado a tarde, ao inves de passear por Gamla Stan, fazer compras em Drottningatan ou corujar as gemeas super lindas.

O local e’ um espetaculo mesmo e coberto de neve, com a neblina e a (nao) luz de Estocolmo no inverno, parecia magico.
O problema e’ que eu nao lembrei que, na Suecia, as 4 da tarde, nessa epoca do ano, ja e’ quase noite.
Quando eu ainda estava no primeiro cemiterio (a ante-sala), comecei a pensar nesse medo atavico que a gente, que nasceu e cresceu num pais tao perigoso quanto o Brasil tem. No quanto a gente fica paranoica, mesmo estando em lugares relativamente seguros, como a Suecia.
Tava perdida nesses pensamentos, quando lembrei que as meninas, no brunch, tinham dito que Estocolmo esta’ cada vez mais perigosa, falaram em casos de estupro, assassinato.
Tava comecando a encanar com isso, quando passou um carro velho, azul claro, grande e meu olhar cruzou com o do motorista. Um homem de uns 50 anos, com uma camisa comum (nao era uniforme, com certeza) e seu olhar me deu calafrios. Mas, sabe como e’… “isso e’ paranoia de brasileira” e, ao inves de voltar pra casa, apressei o passo e continuei.
A primeira imagem do cemiterio principal (o Skogskyrkogården) foi de dar arrepios (foto acima). Era tudo uma enorme area aberta, com tudo branquinho e mal dava pra ver alguns metros a frente.
Continuei andando. Beeeeeeeeem ao fundo, tinha uma cruz (foto ao lado) e resolvi ir somente ate’ la’.
Depois de andar muito, cheguei ate a cruz. Ao lado, fica uma capela moderna e minimalista, com essa escultura “da ressurreicao”.
Na Capela, tinha um mapa que mostrava o lugar exato do tumulo de Greta Garbo, que me pareceu ficar nao tao longe. Resolvi arriscar e continuei andando cemiterio adentro, ignorando a escuridao cada vez maior. Comecei a ver os primeiros tumulos do Skogskyrkogården. Simples e austeros como os suecos.

Fiz algumas fotos, caminhei ao redor com todo respeito.
Pensei que todos aqueles corpos enterrados ali, que foram de pessoas que, um dia, tiveram muita historia contar.
Tiveram brinquedos, celebraram aniversarios, namoraram, trabalharam. Em nenhum momento tive medo de estar la’, por causa delas.
Quando estava mais ou menos no meio do cemiterio, vi o mesmo carro esquisito passar. Eu podia ver o carro e ele podia me ver, mas ele estava em outra “rua”.

Eu estava completamente perdida, nao tinha nenhum mapa por perto e escurecia rapidamente.
So’ ai, eu percebi que estava absolutamente sozinha num lugar enorme e que, se alguem tentasse me atacar, ninguem ia ouvir.
Lembrei que, pelo mapa, aparentemente, deveria ter um Centro de Visitantes logo a frente. Eu estava menos perdida do que pensei e consegui chegar ao centro.
Acontece que, como muitas coisas na Suecia, o Centro estava fechado – durante todo o inverno. Alias, em todo tempo que estive la’, nao vi uma unica pessoa, nem funcionarios, ninguem, alem do tal carro e mais uns dois carros que passaram pelo meu caminho (excesso de mao de obra nao e’ exatamente caracteristica sueca, muito pelo contrario).

Quando eu estava atras da casa onde fica o Centro (fechado), ouvi o barulho de um carro estacionar e uma porta abrindo e fechando.
Depois, alguns passos. Olhei pelo lado da casa e vi a cor. Era o carro que eu tinha encontrado varias vezes.
Claro, mais uma vez, eu pensei que poderia ser um vigia, um funcionario do cemiterio, querendo falar comigo, perguntar se eu precisava de ajuda. Mas, o carro nao tinha nenhuma identificacao, nao parecia nada oficial, era velho, esquisito e o homem nao tinha uniforme. Dava pra arriscar?
Quando fui assaltada, em Olinda, na praia, ao meio dia, eu tive a intuicao que os rapazes numa bicicleta poderiam ser assaltantes, mas decidi arriscar e me dei mal. Dessa vez, revolvi que nao ia esperar pra ver se era um vigia ou nao e comecei a correr feito louca.

Me senti personagem de um filme de terror. Corri entre os tumulos e, confesso, muitas vezes bem em cima deles, me escondi atras de arvores e o tal carro, cruzou comigo mais umas quatro, cinco vezes, ainda que, em nenhuma delas, ele estivesse realmente perto de mim.
Algumas vezes, ouvia o barulho do carro, e me escondia atras das arvores. Ele parava o carro, desligava o farol e depois continuava de novo.
Como eu estava com um casaco preto, andar no meio da neve (na calcada ou no meio da rua) era virar alvo facil. Entao, resolvi entrar no meio das arvores e caminhar entre elas.

Eu sou perdida ate’ em shopping center, imaginem num lugar assim, sem nenhuma referencia, apenas com neve, arvores e tumulos. E, ainda, por cima, cada vez mais escuro.
Enquanto estava a ponto de me desesperar, exausta, com os pes congelados e molhados e, ao mesmo tempo, pingando de suor de tanto correr, encontrei um muro lateral, altissimo, de onde podia ouvir o barulho do trem do metro.
Resolvi seguir o muro ate o final, porque sempre tem uma saida aos fundos.
O cemiterio e’ gigantesco e em todo caminho, ao lado do muro, tinha um matagal, resolvi caminhar por ele.
Caminhei muito, muito e, ao chegar ate o final, ao fundo do cemiterio, percebi que… o muro nao tinha nenhum portao (como a gente pode ver nesse mapa – a entrada e’ em cima e eu andei pelo muro lateral da esquerda). Na verdade, tem tres portoes laterais, mas na minha agonia, nunca vi nenhuma delas.
De repente, me veio a ideia de que o cemiterio poderia fechar. Eu nao tinha nenhum celular comigo, nem sabia o numero do telefone de ninguem, pro caso de achar um telefone publico.
Nao tinha nada a fazer, mas voltar todo caminho que eu tinha feito, de novo.
Pensem que, em todo esse tempo, nao vi uma unica pessoa, alem de das que estavam em alguns carros, que pareciam estar dando voltas e os via algumas vezes, de novo e de novo.
Resumindo, voltei para o ponto de chegada me escondendo atras de arvores e ate me baixando do lado de uma pedra, quando os carros, inclusive o tal carro velho azul, passavam por mim.
Claro que podia ser pura paranoia, o cara podia ser um vigia e os outros carros, estavam visitando seus defuntos. Mas, e se nao fosse nada disso?
O pior foi o caminho de volta, entre a capela e a entrada, porque e’ um vao enorme, uma grande colina, sem arvores, tudo branquinho e eu, com meu casacao preto, tinha simplesmente que correr, sem parar. Quando ja’ estava chegando perto da entrada (ou saida), vi o carro azul saindo pelo portao. Se era um vigia, porque ele estava indo embora?

Enfim, cheguei ate a rua, com as pernas bambas, o coracao saindo pela boca. Olhei pro portao do outro cemiterio menor, a minha frente, que eu precisaria atravessar pra chegar em casa e pensei “no way! basta! nao vou passar por outro susto desses”.
Por sorte, ao lado, fica uma estacao de metro. Entrei la’ e peguei um trem ate a nossa proxima estacao (cerca de 2 minutos!).
Isso tudo, durou mais de duas horas. Cheguei em casa morta de cansada e sem acreditar no que tinha passado, parecia que tinha sido com outra pessoa. Estava “anestesiada”.
Pra completar, Ted cismou de dizer que eu nao deveria ter pisado nos tumulos e acordou de madrugada dizendo que estava ouvindo alguem escrevendo algo numa folha de papel, com muita forca, e amassando papeis. Era so’ o que me faltava.
Bom, ja avisei a ele que, quando a gente voltar a morar em Estocolmo, pode procurar outro apartamento, porque ali eu nao moro mais, de jeito nenhum… “yo no creo en brujas pero…”
Ah e eu nunca achei o tumulo da Greta Garbo…











