O cacete que Xuxa e Sasha levaram no Twitter
e o preconceito linguístico
“EU NÃO ESTOU GRITANDO, NEM QUERO SER MAL EDUCADA, GALERA. SEMPRE QUE ESCREVO NO COMPUTADOR, ESCREVO ASSIM. É O MEU JEITINHO!”
Assim teve início a incursão de Xuxa no Twitter, na semana passada.
Pra mim, Xuxa é um desastre ambulante. Nela, tá tudo errado. A infantilidade e insegurança que não são exemplo pras nossas meninas, nem meninos; a educação visivelmente equivocada que dá a sua filha; o apego ao que já passou, a dificuldade de se reciclar, mudar, criar algo novo; a incapacidade de mover para etapas seguintes, de ser uma mulher de quase 50 anos.
Ainda bem que nunca tive nenhuma dificuldade pra afastar Bia da nefasta influência do seu programa, nenhum d@s amiginh@s dela assistiam.
Mas, voltando ao Twitter. Pra quem não sabe, a loira criou uma conta e se empolgou com ela, escrevendo sem pensar duas vezes (risco que todos nós corremos, no início). E a coisa degringolou.
Com seu “jeitinho” desorientado e sua visão destorcida da realidade (na qual ela é o centro do universo), pra começar, ela só escrevia em caixa alta (letra maiúscula) o que, até minha mãe já sabe, significa que você está “berrando”, na internet.
Algumas pessoas avisaram a Xuxa que esse “jeitinho” não era o mais aceitável. Ela se impacientou algumas vezes “PÔ PAREM DE CRITICAR”, mas acabou se resignando a seguir as regras de educação, não sem antes sair-se com essa pérola:
“eu adoro esse jeitinho, mas falaram tanta coisa feia q tô eu aqui de igual prá igual”.
É que, amig@s, Xuxa não está acostumada com a neutralidade digital, onde todo mundo, a princípio, pode estar no mesmo nível. Ela tinha que “gritar”, para deixar claro que ela é a rainha no twitter também. Lamentável. Vergonha alheia on.
A essa altura, “É O MEU JEITINHO!” virou o bordão do Twitter, mas ainda tinha mais.
Eu fui dar uma olhada no Twitter dela (que foi apagado e agora tem outro) e, mesmo conhecendo a peça, quase não acredito que era real. Uma coisa mal escrita e desconexa.
Ela está gravando um filme (corram pras montanhas!) e resolveu ir tuitando sobre ele, o que pode ser um uso interessante do Twitter, mas como era Xuxa, ela saiu-se com essa informação preciosa:
“sasha filmou com um bode e agora vai filmar com uma cobra”.
A frase já não é das mais sensatas e dá espaço pra muita piada, mas foi a filha quem piorou tudo:
“Sou eu Sasha. Estou aqui filmando e vai ser um ótimo filme. Tenho que ir… Vou fazer uma sena com a cobra”. (Assim mesmo, uma *sena*, não *cena*)
Aí, a comunidade brasileira do Twitter foi ao delírio. A mensagem de Sasha espalhou-se como fogo no canavial. Todo mundo ria das duas e se perguntava… como é que pode? elas devem ter recebido mil grosserias, não vi nenhuma, mas quem eu sigo continuava se perguntando… “como é que pode?”
Xuxa irritou-se:

Como eu disse, a mulher é um desastre, um trem descarrilhado. Precisa urgentemente de orientação, porque ela não pensa antes de escrever, e pra uma celebridade do seu porte, isso é pedir pra ser esculachada.
Preconceito Linguístico
Acampanhando o imbróglio acima, lembrei do livrinho “Preconceito Linguístico” de Marcos Bagno e que eu ADORO (Compre, é baratinho e delicioso de ler). Em determinado momento, ao analisar o preconceito contra quem troca o L por R, como “probrema”, “Craudia” etc. ele diz:
“…assim o problema não está naquilo que se fala, mas *em quem fala o quê*. Neste caso, o preconceito lingüístico é decorrência de um preconceito social.”
A princípio, eu detesto quem critica erros de português na internet. Acho arrogante e preconceituoso. Prefiro que mais pessoas escrevam – errado ou não – do que que se bloqueie a criatividade, em nome de uma gramática que pode ser bem elitista. Escrevam mal, mas escrevam, lê quem quer.
O preconceito linguístico é terrível porque tira das pessoas seu direito a expressão, as mantém caladas pra que não sejam vítimas de escárnio. E isso acontece tanto por classe social quanto por região. Como já comentei aqui no blog, conheço nordestinos que não se sentem à vontade nem pra perguntar o preço de uma roupa, num shopping center carioca, por causa do seu “sotaque”. Também conheço blogueiras que pararam de escrever depois de receber insultos pelos seus erros gramaticais. Odeio isso.
Pensei em fazer esse post porque, apesar de ter me divertido muito com o escracho coletivo às duas, me incomoda muito a crítica aos erros na escrita, que podem calar muita gente.
Mas, será que o que aconteceu com a Sasha também foi “preconceito linguístico”?
Antes de dar minha opinião, deixa dizer que tive pena da menina. Apesar dela parecer uma garota fadada a ser insuportável, fora da realidade, quase um personagem creepy de filme noir, ela é uma criança de 11 anos e o que aconteceu foi um bullying de dimensões gigantescas.
Sasha faz parte de um grupo altamente privilegiado. Ela e a mãe representam muito bem o que existe de pior no “Brazil, que não conhece o Brasil”. O estilo de vida ostensivamente milionário e elitista das “rainha e princesa” é uma vergonha, num país que ainda tem tanta miséria.
Nesse contexto, pegar no pé das duas e, mais importante ainda, ser ouvido e atingi-las em cheio – o que só foi possível graças à estrutira democrática da internet – foi uma vingança, catarse coletiva contra tudo que elas representam.
Afinal, a menina tem acesso às melhores escolas e a tudo o mais que uma pessoa pode precisar para ter uma educação formal de primeira qualidade e comete um erro que, como disse alguém, nem seu filho de seis anos, que estuda em escola pública, faria?
Pra mim, apesar de cruel, não foi um caso de “preconceito linguístico”, mas uma espécie de “acerto de contas”.
(Da mesma forma que eu não acho que exista *preconceito* contra brancos ou heterossexuais… mas isso é uma outra longa história, que um dia vira post aqui no blog
E vocês, o que acharam?




