A Questão Palestina e o discurso-disco-emperrado
Bom, depois de um fim de semana imersa nas dores palestinas, ando cansada de pensar nisso e espero não voltar a falar em Gaza, ainda que continue acompanhando tudo.
Quero apenas dizer que me cansa a reação robotizada da maioria da comunidade judaica.
Ainda bem que não são todos assim, como vimos no post anterior, e tem muitos judeus que ainda mantém alguma visão crítica da questão, mas, os outros, precisam mudar o disco.
A estratégia de repetir que ninguém entende a questão palestina – além deles, claro – chega a ser infantil.
Não, eu não sou PhD em assuntos do Oriente Médio (nem são os que repetem os mesmos argumentos estapafúrdios, again and again and again), mas tenho mais de 20 anos de conhecimento da causa, que descobri bem antes de entrar na faculdade e isso é tempo suficiente pra formar minha opinião que, a essa altura, é irredutível.
Sendo uma nação organizada ou não, os sionistas não fundaram Israel numa terra desabitada. O fato da região ter sido colonizada antes e terem vivido sob o julgo de outros povos, não autoriza Israel a fazer o mesmo (ainda pior, porque não só tomaram a terra, como quiseram expulsar os que estavam lá).
Tinha gente na Palestina, uma cultura, famílias que foram desintegradas e a limpeza étnica na região já é reconhecida inclusive por vários judeus que veem o tema racionalmente, como o Ilan Pappe, na entrevista que publiquei há alguns dias.
As amigas judias questionam, várias vezes, o fato de tant@s blogueir@s, jornalistas e até meios de comunicação conservadores como a CBS (que entrevistou o médico no vídeo que estou postando ai abaixo) estarem condenando o monstruoso ataque de Israel à Palestina.
Bom, eu costumo escrever, aqui em meu blog, sobre várias agressões e injustiças sofridas por povos em outras regiões, mas eu acho que é bem óbvio o motivo de uma comoção mundial em relação a essa guerra. Eu não me lembro de ter visto nada tão desigual e com proporções tão devastadoras quanto essa, em nossos tempos.
“O subsecretário-geral da ONU, John Holmes, assegurou hoje que está “horrorizado” com o fato de ainda não ter sido declarado um cessar-fogo em Gaza, apesar da resolução adotada na quinta-feira pelo Conselho de Segurança pedindo o fim imediato das hostilidades.
‘Estou horrorizado com a continuidade de uma violência destas proporções e com as conseqüências que isso gera’, disse o diplomata britânico em entrevista coletiva. (…)
O subsecretário considerou ‘verossímeis’ os números de vítimas da ofensiva israelense divulgados por fontes palestinas, que situam em 884 os mortos e 3.860 os feridos, dos que mais de 42% são mulheres e crianças.” (G1)
A essa altura, esses números já estão desatualizados e, em breve, será alcançada a terrível soma de mil mortos palestinos… quantos israelenses morreram até o momento? vinte? só isso não seria motivo suficiente pra perceber que tem algo de muito desigual nessas contas?
Não acho que a gente tem de ficar sem tomar partido, não. Existe um massacre e, do mesmo modo que a classe média brasileira se horrorizou ao ver o filme Hotel Rwanda ou ao saber do genocídio em Darfur, precisa ter consciência do que está acontecendo em Gaza.
A essa altura, não é mais nem o momento de discutir como chegamos a esse ponto. Precisamos é não deixar que esse massacre seja ignorado e contribuir como podemos para que Israel sofra todo tipo de pressão internacional para sair da região e para deixar a ajuda humanitária assumir a situação, tentando evitar que os milhares de feridos, mutilados, pelo menos continuem vivos para ajudar a reconstruir a cidade.
Francamente, diante desse quadro, vocês ainda vão vir repetir que o Hamas é um grupo terrorista e que usa as crianças como escudo? Vocês acham mesmo que a mãe desse bebê, da foto acima, deixou que os “monstros do hammas” o usasse como escudo? vocês também acreditam em bicho papão?
Israel está atacando, ferozmente, e comarmas cruéis, uma região densamente povoada, onde a metade das pessoas tem menos de 17 anos, essas crianças não estão sendo empurradas para a frente das bombas, elas não tem para onde fugir, dá pra entender isso?
Desculpem, mas hoje perdi a paciência.

Acordei com a notícia de que médicos noruegueses encontraram traços de fósforo branco, material considerado “arma de genocídio”, nos corpos de vítimas dos ataques à Gaza e especialistas confirmaram que a substância está sendo usada nos ataques. Pra gente uma idéia do que isso significa:
“Quando entra em contato com a pele humana, o fósforo branco pode se transformar em ácido e causar queimaduras, explicou o professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo Koiti Araki. A gravidade depende do tempo de exposição. Caso seja colocado em um ambiente fechado, pode acabar com o oxigênio do local. Além disso, o produto não pode ser apagado como fogo. ‘Tem de ser raspado. Enquanto isso não acontece, vai consumindo a pele’, disse Castro. (…)
Esse não seria o primeiro caso de utilização desse tipo de armamento por Israel. Em 2006, pela primeira vez, o país reconheceu o uso (…) durante a guerra contra o Hezbollah” Abril – Veja vídeo aqui
O povo Palestino está sendo massacrado, com crueldade, e não me venham falar mais no que significa o Hamas. Essa guerra vai ficar pra história como um dos maiores crimes cometidos a um povo que não tem como se defender nem para onde fugir. Estão encurralados.
Com essa matança, a única coisa que Israel vai conseguir é deixar uma terrível impressão, em todo o mundo, de que é um estado predador, criminoso e que, truculantremente, está dizimando centenas de vidas inocentes em Gaza. Não é em vão que George W. Bush apóia a investida.
Eu sinto muito por todos os amigos judeus que não tem nada a ver com isso, tem de suportar essa vergonha e enfrentar situações como as que a Miroca descreveu num post anterior. Pra vocês, também vai minha solidariedade.
Bom, por mim, tá dito. Não aguento mais o assunto.
PS.: Se ainda assim, as amigas ainda acham que é preciso espalhar aula de história, pela blogosfera, tem muitos links pro assunto em vários lugares, sugiro aos visitantes do SdeE que leiam essa página, sobre as origens do conflito entre Israel e Palestina. Numa linguagem simples e com fontes e referências garantidas.






A Força de Defesa Israelense permite 3 horas de acesso por dia. Esse é um período de cessar fogo mas é bem limitado, devido ao acesso restrito de caminhões e a falta de distribuição interna de alimentos, remédios, água e outros serviços e produtos essenciais.