
“Foi preciso esperar 45 anos para que uma mulher civil subisse ao espaço, munida de uma ferramenta de publicação instantânea como o blog, para poder compartilhar, através de palavras simples e sinceras, o verdadeiro sentimento do mundo”
– Ricardo Anderáos
Mas, aparentemente, é mais fácil fazer uma viagem espacial do que aturar as grosserias e frustrações que pululam na blogosfera. Vou contar uma histórinha muito interessante sobre isso…
Anousheh Ansari, iraniana, vivendo no Texas, 40 anos, acaba de se tornar a primeira mulher a ir até a Estação Espacial Internacional (ISS), pagando do próprio bolso. Também foi a primeira iraniana a fazer uma viagem espacial privada e a primeira mulher muçulmana no espaço.
Numa coletiva à imprensa, em Zvyozdnyi gorodok, Russia, Ansari disse esperar que mulheres e meninas das mais remotas partes do mundo ouçam falar sobre seu vôo espacial e acrescenta que “em muitos países, mulheres não são encorajadas a seguir carreiras em Ciência e Tecnologia, mas elas deveriam escolher o que realmente querem fazer e seguir seus sonhos”.
Desde criança, Anousheh Ansari já era apaixonada por ciências e o espaço. Após a revolução conservadora iraniana, seus pais decidiram mudar para os EUA, para que ela, na época com 16 anos e sem falar uma palavra de inglês, pudesse se dedicar aos estudos na área. A astronauta se formou em Engenharia da Computação e Eletrônica, virou mestra em Engenharia Elétrica e agora está fazendo outro mestrado em Astronomia.
Quando saiu da faculdade, convenceu o marido e o cunhado a usar todas as economias e resgatar os fundos de aposentadoria, para fundar, com ela, a Telecom Technologies, Inc.. Era um momento de explosão das telecomunicações nos EUA, ela sabia o que fazer, registrou patentes e eles ficaram milionários.
Na liderança da Telecom, ganhou vários prêmios. Depois, vendeu a empresa por 550 milhões de dólares e, entre outras coisas, vem investindo em apoio a ONGs que promovem a ciência, exploração espacial e educação de meninas, como a Ashoka.
Pois bem, como se não fosse pouco, mais um pioneirismo dessa mulher interessantíssima foi escrever um blog lá das estrelas.
Não é a primeira vez que um blog é escrito do espaço, antes dela, outras oito pessoas já fizeram isso. Mas foi a primeira vez que se abriu a caixa de comentários e que os posts foram escritos com a sensibilidade dessa mulher que foi contando o que acontecia nos 10 dias em que esteve no ar, de forma compreensível e agradável, sem jargões técnicos.
No dia 21, três dias depois do lançamento da nave espacial, ela faz um post contando como foi o dia do “embarque”. Conta que tomou café, ligou pra avó e assinou seu nome na parede do quarto, do lado do nome do “primeiro astronauta brasileiro, Mario Pontes” e dá detalhes engraçados dos últimos minutos antes de entrar no foguete:
“Aí fomos acompanhados de volta ao ônibus, enquanto acenávamos para a multidão e os repórteres. A próxima tradição foi uma parada para os garotos fazerem xixi
isso, aparentemente, também é uma tradição iniciada por Gagarin, que continua, hoje
felizmente, fui dispensada desse ‘exercício’ e pude apenas participar mentalmente”.
Continua, falando sobre suas primeiras reações no espaço:
Finalmente pude olhar para fora e ver a Terra pela primeira vez. Lágrimas rolaram pelo meu rosto. Minha respiração ficou descompassada. Só de pensar nesse momento me enche novamente de lágrimas. Aqui está esse lindo planeta girando graciosamente ao redor de si mesmo, sob o calor dos raios do Sol. Tão pacífico, tão cheio de vida, sem sinais de guerras, sem sinais de fronteiras, sem sinais de problemas, apenas pura beleza.
Como eu gostaria que todas as pessoas pudessem experimentar esses sentimentos em seu coração, especialmente aqueles que estão à frente dos governos em nosso planeta. Talvez essa experiência desse a eles uma nova perspectiva e ajudasse a trazer paz ao nosso mundo.
Acho que por ora é suficiente. Vou contar o que está acontecendo aqui em cima na próxima nota. Estou com fome de comida espacial, falo novamente com vocês na próxima órbita. Estamos sobrevoando o Oceano Pacífico e nos aproximando do México.

Apesar da imprensa ter tentado transformá-la em uma fútil “turista espacial”, ridicularizando seu comentário sobre o cheiro do laboratório na órbita (“era estranho… algo como biscoito de amêndoas queimado”), Ansari é uma cientista, com mestrado em engenharia e que fez fortuna em telecomunicações, graças à sua competência técnica e de administradora.
Ainda assim, ela não teve medo de se expor em seu blog e escrever mostrando suas vulnerabilidades, suas emoções e seu deslumbramento com as pequenas coisas que também fazem a viagem espacial. Graças à sua forma coloquial e pessoal de escrever, acabamos nos interessando por um tema que é, muitas vezes, árduo demais, e esse era seu objetivo, como deveria ser o de qualquer boa(bom) blogueira(o)!
Talvez por ter simpatizado tanto com tudo que ela escreveu, me senti ainda mais solidária e triste ao ler seu último post, publicado ontem, já depois de sua volta à terra (na última sexta-feira) e que tem o título: “Não consegui Dormir”… bem vinda à blogosfera, fia…

Ela diz:
“Eu ainda não escrevi no blog, sobre a última parte da minha viagem porque me distrai lendo todos os comentários postados. Eu estava recebendo apenas alguns deles, mais encorajadores, por email, quando estava em órbita, mas não tinha tido oportunidade de ler tudo.
Quando comecei a lê-los, ia de feliz e orgulhosa, a triste, chorando por me sentir tão desapontada e magoada… tem sido uma montanha russa emocional para mim e isso é exaustivo
Os que me conhecem dizem que eu tenho as emoções na cara. Eu não sei como fingir e, como alguns de vocês podem ver, pelo que eu escrevo, eu falo direto do coração
(…)
Quando eu decidi compartilhar minha experiência, para ser honesta com vocês, eu nunca esperei ter a atenção que o blog tem recebido. Eu não sou uma escritora profissional e tenho um vocabulário limitado, mas sabia que pooderia fazer o melhor possível. (….)
Bom, o blog tem muito sucesso e com o sucesso, vem o julgamento e escrutínio. Eu acho que tudo isso é bom Eu acredito que as pessoas têm direito de dar sua opinião e as ouço e tento ver seu ponto de vista. Mas eu tenho uma fraqueza. Eu não consigo suportar alguém com raiva de mim. Isso me incomoda por dentro
Eu sei que não posso fazer todo mundo feliz
mas isso nunca me impediu de continuar tentando (…)
Eu não vou entrar num diálogo ‘um-a-um’ para tentar convencê-los a ver as coisas do meu jeito. Eu sempre acreditei que o que conta, no final do dia, são os resultados. Não estou fazendo isso para ganhar popularidade e aprovação. (…)
Eu vou continuar meu blog por enquanto, até que eu me sinta exaurida demais pela negatividade, para poder escrever
“
Impressionante o quanto os vampiros emocionais da blogosfera estão por toda parte. Pessoas que vivem de sugar a energia dos que estão produzindo, escrevendo, compartilhando. Tem todo tipo de gente circulando pelas blogosfera. Mas um tipo comum é aquele que não tem coragem pra “peitar” o marido (ou a esposa), @ chefe, os vizinhos, a família, e vem descarregar suas neuroses anonimamente em nossos blogs.
Nem uma blogueira escrevendo lá do espaço escapa, quanto mais eu, aqui do meu bloguinho… por isso, decidi que, a partir de agora, os comentários passarão a ser, permanentemente, moderados. Abaixo vampiros, trolls, imbecis e invejosos… que vão sugar energia em outros lugares…
Complementando – sobre o machismo da imprensa
Os comentários de vocês estão interessantíssimos, vou comentá-los, assim que tiver um tempinho.
Eu não tinha visto nada sobre ela, na semana passada, porque estava em Seattle. Não vi televisão, nem li jornais todos os dias, mas quando me deparei com as notícias sobre Anousheh Ansari, ontem à noite, fiquei boba com o machismo ridículo como tudo era apresentado.
Impressionante o disparate do que se falou na imprensa e a história dela, como uma mulher imigrante (em sua roupa espacial tinha as bandeiras do Irã e EUA), batalhadora, que conseguiu tanto sucesso com seu próprio esforço e que tem, como objetivo, o estímulo das mulheres e meninas para que considerem carreiras nas áreas de ciências e tecnologia e exploração espacial. A relação de Ansari com a Ashoka (veja o site da instituição, em Português), é sua melhor referência, pra mim.
Perdemos uma excelente oportunidade de ter esse aspecto de incentivo às mulheres e jovens para a Ciência ressaltado, ao invés, o que se viu foi um festival de bobagem machistóide. Posso apostar que ali tinha muito preconceito não apenas por ser mulher, mas uma mulher imigrante iraniana (considerada cafona pelos padrões americanos), bonita e que resolveu expor sua experiência de uma forma compreensível e emocional.
Li, em algum lugar, um homem dizendo que há 25 anos acompanha os relatos de pessoas que vão ao espaço e só agora teve a sensação de entender um pouco mais o que é essa viagem, graças à forma que ela descreveu em seu blog. Mas, os jornais preferem ridicularizá-la, pinçando trechos do blog, como quando explica como se lava o cabelo), como se isso fosse a única coisa que a preocupasse na viagem espacial.
Pra fechar, a CNN diz que Ansari não teve permissão de levar maquiagem mas, na opinião dos seus colegas, mesmo sem “cosméticos decorativos” ela é muito atraente e fotogênica. Sei… alguém já viu a imprensa “séria” comentar os atributos físicos de algum dos homens que fez uma viagem espacial?!
Veja Também:
Site Oficial de Anousheh Ansari
A Terra é azul
Boldly sledding on the far side
Tourist’s blog gives taste of outer space
Space Blog Inspires Thousands
Blogs in space another first for Soyuz tourist
U.S.: Iranian-American To Be First Female Civilian In Space
Vale a pena dar uma espiada no Flickr da astronauta.
PS.: Aviso logo, antes que joguem pedras, que a tradução é tosca, feita às 3 da manhã, mas o suficiente pra vocês entenderem do que eu esotu falando…