
Aviso: esse post, além de longo (pode ser lido apenas partes
, não pretende ser um apanhado da época, mas é apenas fruto das minhas lembranças, sem nenhuma pesquisa bibliográfica, portanto, todas as datas e fatos podem estar embaralhadas na minha mente…
Depois desse post, vou voltar pra Letônia… já foi uma overdose de anos 80 pra todo mundo… hehehe…
A Pré-história
Em janeiro de 1980, eu tinha 15 aninhos, mas já saindo de uma super overdose de MPB. Desde bem novinha, fui apaixonada por música. Dia desses, encontrei o ingresso amassado de um show histórico que fui do Jards Macalé e Moreira da Silva, no Projeto Pixinguinha, no dia 20 de julho de 1978… eu ainda nem tinha feito 14 anos!
Adorava Caetano, Chico, Gal (Vapor Barato!), Elis Regina, Moraes Moreira, Geraldinho Azevedo, Francis Hime, Fatima Guedes, Angela Rôrô, Zizi Possi, Jackson do Pandeiro, Adoniran Barbosa, Cartola, Kid Moringueira… Raul Seixas, Rita Lee (cuja música Ovelha Negra eu ouvia como mantra…) e os geniais Mutantes…
Mas, a minha impressão é que era tudo dolorido demais, fruto de anos de repressão da ditadura militar, que, claro, também influenciava o comportamento das familias. Faltava música brasileira pra os jovens daquela época…
Como tudo começou
Até que, um dia, eu estava de farda, gazeando aula do São Bento, ali na Praça do Carmo e um amigo de São Paulo (olheiro do MR-8, na minha escola, longa e interessantísima história, que fica pra outro post… hehehe…), por quem eu era apaixonadissima, falou de uma banda que cantava algo como:
“Amor, pede mais uma porção de batata frita… OK… você venceu batata frita…”
Corri pra Disco 7, comprei o disco da Blitz e, em 1982, entrei nos meus anos anos 80. Foi uma pequena revolução pra mim.
New Wave
Com a banda carioca, eu, e mais milhões de brasileiros jovenzinhos encontramos alguém que falava a nossa língua. A partir daí, fomos descobrindo que tinha um monte de coisa sendo feita e que a gente nem sabia… Gang 90 e as Absurdettes, Lobão e os Ronaldos, Kid Abelha, Barão Vermelho, Legião Urbana, Ira, Capital Inicial, Sempre Livre, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso, Titãs…
Gente, era muuuuuuuito bom ouvir algo assim, despretensioso, e que, falava exatamente do que a gente estava sentindo, depois de toda a “profundidade” dos anos 70!
“Eu tenho o gesto exato, sei como devo andar, aprendi nos filmes pra um dia usar, um certo ar cruel de quem sabe o que quer, tenho tudo planejado pra te impressionar. Luz de fim de tarde, meu rosto em contra-luz, não posso compreender, não faz nenhum efeito, minha aparição será que errei na mão, as coisas são mais fáceis na televisão…”
Dessa turma, o que conseguiu se superar, sempre, foi o Lobão*, que é gênio… mantém a mesma postura honesta em relação à sua música, atualmente discute a música digital e pirataria e não tem medo de pegar briga com peixe grande. Além de tudo isso, foi ele quem fez essa musiquinha que eu adoro:
“Você está me conquistando, menina quer brincar de amar…”
Na verdade, depois dessa, ele nem precisava ter feito mais nada.
Fora Lobão, que era o meu preferido absoluto, eu gostava muito do Paralamas, Kid Abelha e Barão vermelho na época de Cazuza e, claro… Cazuza muito e sempre. O grande poeta da minha geração.
A Inglaterra no Recife
“Love, love will tear us apart again…”.
Mas, como tudo muda muito rápido, nessa fase da vida da gente, entrei na faculdade de Sociologia da Federal, conheci Jô e nós ficamos amigas de Fred Zero 4 e Renato L, uns meninos estranhos que andavam com alfinetes de segurança na roupa e falavam de umas bandas da Inglaterra.
Na época, meu irmão, ainda Zé Carlos, que tinha somente uns 12 aninhos, começou a ir pra Universidade comigo, ficou amigos dos punks de Candeias (Renato e Zero 4), virou H.D. Mabuse e começou a produzir, com Renato, o programa de radio Década, na 99.9 FM de Recife. E assim, meio que caí fora do cenário de rock nacional e fui introduzida à famosa cena britânica dos anos 80.
Abre parêntesis. Quase 10 anos depois, esses dois meninos da faculdade, junto com Mabuse e um amigo dele ali de Rio Doce, Chico Science, viriam a criar o Manifesto Caranguejos Com Cérebro e, com o Movimento Mangue Bit, causaram uma pequena revolução na música brasileira (papo pra outro post!). Fred é vocalista do Mundo Livre S/A. Fecha parêntesis.
“Yesterday I got so old I felt like I could die, yesterday I got so old, it made me want to cry, go on, go on, just walk away, go on, go on, your choice is made”
Nos anos 80, eram os Smiths, Cure, Joy Division e Bauhaus que traduziam a nossa dor de crescer, lá nos trópicos. Mas a gente também penava ao som do Killing Joke, Siousxie and the Banshees, Sisters of Mercy, Talking Heads, David Bowie, Echo & the Bunnyman, Danse Society, Psychodelic Furs.
Mas, de todas, nenhuma banda foi mais importante pra mim que o Style Council. Acho que eu não sofria o suficiente pra ir ao fundo do poço com os Ians Curtis e McCulloch. O Style Council era mais elegante, light, suave e engajado politicamente, o que eu adorava.
“Whenever honesty persists, youll hear the snap of broken ribs, of anyone wholl take no more, of the lying bastards roar, in Chile, in Poland, Johannesburg, South Yorkshire, a stones throw away: now were there.”
Na linha so Style Council, um pop mais “relaxado”, também gostava demais de Sade Adu e do Everything But the Girl que era o que alguns rotulavam de “new bossa nova”.
As tribos musicas dos anos 80
Como eu casei em 85, com 20 aninhos, com um homem bem mais velho, que achava aquilo tudo ridículo, minha impressão é que fui obrigada a “amadurecer” (o que deu, né? hehehe) muito rápido. Me tornei algo como uma “Garota Interrompida”. Nunca fiz parte de tribo nenhuma. Ainda bem, né? porque olhando, de longe, era muito engraçado mesmo.
Começando pelos “darks”.

Darks eram legiões de adolescentes pálidos, vestidos de preto, cultuando Baudelaire e ouvindo o Bauhaus cantar “Bella Lugosi is Dead… I’m dead, I’m dead, I’m dead…”… isso num Recife coloridíssimo e pegando fogo… hehehe… algo, vagamente, como os atuais seguidores de Marylin Manson…
E os punks de Recife? espalhavam alfinetes de segurança pela roupa, mas só depois de sair de casa, pra mãe não brigar… sempre muito revoltados com o sistema e ouvindo London Calling. (Perdão, Renato! hehehe…)
As outras tribos sempre foram meio incomprensíveis pra mim. Agradecerei muito se alguém puder me ajudar a explicar o que eram os pós-punk, pós-psicodélicos, punk pós-industrial, positive punk etc… eu não tenho a mínima idéia.
Outros sons
Ainda nos 80, comecei a explorar outros sons. Foi quando descobri Laurie Anderson e seu Superman, em Big Science, sobre quem já escrevi aqui, quando fui pro seu show, ano passado.
“‘Cause when love is gone,
there’s always justice.
And when justice is gone,
there’s always force.
And when force is gone,
there’s always Mom. Hi Mom!
So hold me, Mom, in your long arms.
So hold me, Mom, in your long arms.
In your automatic arms.
Your electronic arms.”
Nessa época também descobri coisas como Erik Satie, John Cage, Ryuichi Sakamoto, mas Laurie Anderson era imbatível.
E depois…
Por um lado, acabei virando uma mulher ocupada demais pra pensar nessas coisas, que eu acho são fundamentais na nossa vida, como música… tava sempre trabalhando, cuidando de Bia ou viajando. Por outro, a gente está sempre negando o passado recente, por isso, de certa forma, andei dando uma apagada de algumas coisas dos anos 80 da minha vida.
Mas agora, que está mais distante, posso ver tudo com mais bom humor e, com o emule, estou capturando muita coisa que não tinha, da época.
Poderia continuar citando dezenas de grupos que eu também ouvia naquela época… Kraftwerk, Madonna, Cindy Lauper, Police, Lou Reed, Boy George, Nina Hagen, Huey Lewis and the News, Blondie, Frankie Goes to Hollywood, Eurythmics, Cabaret Voltaire, New Order, Pretenders, Simnple Minds, UB40… mas agora eu quero mesmo é saber quais as músicas que embalaram os seus anos 80…
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Imagens: (1) Dolores Descartável, quadro de Adir Sodré, da Exposição “Como Vai Você Geração 80?”, (2) capa do primeiro disco da Blitz, (3) Lobão, (4) Joy Division, (5) Style Council, (6) Peter Murphy, do Bauhaus, cantando “Bella Lugosi is Dead” no filme super cult “Fome de Viver” e (7) Laurie Anderson, cantando “Superman”…
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* Puxe aqui uma entrevista genial de Lobão pra Playboy. Gentil contribuição do Guilherme, do ¡Ay, Caramba!
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