Disco de Vinícius e Drummond – Poesia

Desculpem o sumiço. Ando muito cansada. Volto em breve.
Baixe os discos:

Ouça Comigo:



Desculpem o sumiço. Ando muito cansada. Volto em breve.
Baixe os discos:

Coisa mais linda nesse mundo
É sair por um segundo
E te encontrar por aí
E ficar sem compromisso
Pra fazer festa ou comício
Com você perto de mim
Na cidade em que me perco
Na praça em que me resolvo
Na noite da noite escura
É lindo ter junto ao corpo
Ternura de um corpo manso
Na noite da noite escura
A coisa mais linda que existe
É ter você perto de mim
O apartamento, o jornal
O pensamento, a navalha
A sorte que o vento espalha
Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim
Torquato Neto
Pintura: Reading In A Red Dress – Karen Cooper.
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Pra relaxar, estava arrumando todas as poesias aqui do blog em uma categoria única, enquanto isso, ia lendo, uma por uma. Tanta coisa linda, mas essa daí, pede pra ser re-editada. É maravilhosa!
E a foto sobre a qual o pessoal tava falando nos comentarios e’ essa ao lado.
Fiz esse post no dia 13 de maio de 2005, Ted tinha viajado pra India e eu fui encontra-lo por la’, depois. Mas ja’ tava com saudades
Mas agora, quando postei de novo, quis colocar uma imagem diferente. Achei essa pintura, la’ em cima, bem contemporanea e adoro as cores.

Haja hoje
para tanto
ontem.
Paulo Leminski
Mário Quintana

Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho,
amada,
que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.
Pintura: Reading on the Park Bench, Sally Rosenbaum.

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Pintura: Woman Reading, Malcolm Liepke.

Amar: Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer…
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…
O amor é quando a gente mora um no outro
Pintura: Woman Reading, Victoria Stusiak, 2007

A vida é tão bela que chega a dar medo.
Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita,
mas
esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
o jovem felino seguir para frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez, da gruta.
Medo que ofusca: luz!
Cumplicemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:
Adolescente, olha! A vida é nova…
A vida é nova e anda nua
vestida apenas com o teu desejo!
Foto: Girl reading, Julia Margaret Cameron, 1867.

Ai! Se Sêsse!
Zé da Luz
Ouça aqui, com o Cordel do Fogo Encantado.
“A gente vem lá do Sertão de Pernambuco, cidade chamada Arcoverde.
O poeta Zé da Luz, do início do século, escreveu uma poesia porque disseram pra ele que pra falar de amor era necessário um português correto, aí Zé da Luz escreveu uma poesia chamada ‘Ai se Sesse…’,
que diz assim:
Se um dia nós se gostasse
Se um dia nós se queresse
Se nós dos se impariásse
Se juntim nós dois vivesse!
Se juntim nós dois morasse
Se juntim nós dois drumisse
Se juntim nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
de São Pêdo não abrisse
a porta do céu e fosse
te dizê qualqué tulice?
E se eu me arriminasse
e tu com eu insistisse
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge toda fugisse!!!
Pintura: Mei-Yim Low
Paulo Leminski

e amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
Pintura: Reading Woman, circa 1900, Pierre-Auguste Renoir.

nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas ficam de pé
Pintura: Young Woman Reading a Letter, Jean Raoux.

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia
Pintura: Liseuse à l’ombrelle, 1921, Matisse.
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância
Hilda Hilst

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
ao invés de ganir diante do Nada.
Amor e seu Tempo
Carlos Drummond de Andrade

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
Mulher andando nua pela casa
Carlos Drummond de Andrade

Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo dágua.
O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.
Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.
À meia-noite, pelo telefone
Carlos Drummond de Andrade

À meia-noite, pelo telefone,
conta-me que é fulva a mata do seu púbis.
Outras notícias
do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
Fecha-se em copas:
Se você não vem depressa até aqui
nem eu posso correr à sua casa,
que seria de mim até o amanhecer?
Concordo, calo-me.
Pintura: “Uma garota lendo”, Pierre-Auguste Renoir, 1891.
O mundo é grande
Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
Pintura: “Jovem lendo na janela”, Delphin Enjolras.
Hipótese
Carlos Drummond de Andrade

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.
Ilustração: Punchstock.
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Se quiser, deixe uma poesia, também, pra gente começar bem a semana…

Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto
(…) Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas;
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
todas formando um rosário
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha;
entre uma conta e outra conta,
entre uma a outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.(…)
Foto: Jovem lendo, Ron Ogle, 2002.

Vou-me embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
(…) E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada (…)
Pintura: Mulher lendo, Seikichi Izawa, data desconhecida.

O Chope
Carlos Pena Filho
Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
tanto se foi transformando
Que, agora, às cinco da tarde
mais se assemelha a um festim,
O refrão tem sido assim:
são trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Pintura: Café na Calçada, Terry Miura, 2007.
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Você conhece alguma poesia da sua cidade ou estado de origem ou de coração? deixa aqui pra gente… (se não tiver na poesia, não esqueçam de mandar o nome da cidade ou estado)

Primeiro eu quero falar de amor
Chacal
Meu amor se esparrama na grama
Meu amor se esparrama na cama
Meu amor se espreguiça
Meu amor deita e rola no planeta.
Pintura: Sem título, Joseph Cornell.

Este Livro
Ana Cristina César
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.
Pintura: Mulher nua lendo, Robert Delaunay, 1915.

Cogito
Torquato Neto
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
Pintura: “The Reading Girl”, Théodore Roussel, 1886.

Poema ao mais Recente Amor
Leila Míccolis
Estar entre teus pêlos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte de teus líquens e teus rios
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
Pintura: Jovem Mulher Lendo, Valerie Gansz,
Atenção: Continua o debate sobre amamentação em público, no post aí abaixo, você pode continuar dando a sua contribuição.

O Amor no Éter
Adélia Prado
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Pintura: Girl Reading, Justin Clayton.
Tem uma poesia que você adora? deixe aqui pra gente, também…

Se
Alice Ruiz
se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse..
Pintura: Charles Perugini

A Alma Buscada
Dorothy Parker
Quando peso os prós e os contras
das coisas que meu amor encontra
uma boca curva, um punho de fogo
um cenho interrogativo, um belo jogo
de palavras tão batido quanto o pecado
uma orelha pontuda, um queixo rachado
membros longos, agudos e olhos oblíquos
nem frios, nem meigos, nem escurecidos
Quando então pondero usando a razão
nas superficialidades que satisfazem meu coração
sou surpreendida com tal banalidade
me maravilho com a minha normalidade.
Pintura: Laura den Hertog

Dez chamamentos ao amigo
Hilda Hilst
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Pintura: Joseph Alleman

Teu corpo seja brasa
Leila Mícollis
teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo
um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo
Pintura: Ruth Franklin
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Deixe uma poesia (ou prosa) também…
Levei um puxão de orelha da Lorenna, que escreveu reclamando que a nossa “seção de literatura” anda meio abandonada e ela queria ver, principalmente, mais poesia.
Eu também ando sentindo falta de mais arte no blog. Quero escrever sobre alguns livros que li (e outros que estou lendo), mas todos eles são de “não ficção”, geralmente sobre gênero e etnia. Fica pra depois.
Por enquanto, vou tentar, toda segunda-feira, postar uma ou mais poesia ou prosa que eu gosto.
E que tal cada um(a) de vocês ajudar a mim e a Lorenna, deixando aqui, na página de comentários, uma poesia, crônica ou prosa (curta) que vocês também gostam? Será uma ótima forma de compartilharmos um pouco de beleza e começar a semana com mais leveza… ou profundidade.
Não esqueçam de colocar o nome do autor(a) do poema e, se possível, a data. Vamos lá, participem.
Ana Cristina Cesar (expatriada, em Londres)

Segunda história rápida sobre a felicidade
descendo a colina ao escurecer meu amor ficou
longe, com seu ar de não ter dúvida, e dizia: meus
pais… não posso mais duvidar dos meus
passinhos, neste sítio você agora fala até mais
baixo, delicada que eu reparo mais que os outros
depois de um tempo fora é como voltar e achar as
crianças crescidas, e sentar na varanda para trocar
pensamentos e memórias de um tempo que passou
mas quando eu fui (aquele dia no aeroporto) ainda
havia ares de mistério agora, é agora, descendo
esta colina, sem nenhum, que eu conto então do
amor distante, e não imito a minha nostalgia, mas a
delicadeza, a sua, assim feliz.
Pintura: “Garota lendo embaixo de um Carvalho”,
Winslow Homer, 1879.
Alice Ruiz

vontade de ficar sozinha
só para saber
se você ia
ou vinha
quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria
do jeito que você queria
Pintura: “Vilma lendo no Sofá”, TF Simon, 1911.
Mario Quintana

A verdadeira arte de viajar
A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós
todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
Foto: Getty Images.
Vinícius de Moraes

Amor nos três pavimentos
Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.
Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.
Você quer fazer verso? É tão simples!… você assina
Ninguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.
Se você quisesse!… até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhas
Pra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você…
Pintura: “Jovem lendo”, de Jean-Honoré Fragonard, 1776.
Charles Baudelaire

Embriaquem-se!
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
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Primeira pintura: “A Leitora Azul”, Macke August, 1914
O “Vídeo do Dia” de hoje tem Vinícius de Moraes declamando a poesia mais bonita do mundo, pra mim.
Eu já postei “O Haver” duas vezes e agora vou postar de novo, só porque achei o vídeo, com a voz do mestre (e o violão e vocal de Edu Lobo), muito lindo, de arrepiar…
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido…
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter
Esse medo de ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de quem quer abalbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida
Resta essa comunhão com os sons
Esse sentimento da matéria em repouso
Essa angústia da simultaneidade do tempo
Essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinícius
Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas
Essa tristeza diante do cotidiano
Eu essa súbita alegria ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do malentendido
Essa imensa piedade de si mesmo
Essa imensa piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado de pequenos absurdos
Essa tola capacidade de rir à toa
Esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
Essa contemporaneidade com o amanhã
Dos que não têm ontem nem hoje
Resta essa faculdade incoercível de sonhar de transfigurar a realidade
Dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
E essa visão ampla dos acontecimentos
E essa impressionante e desnecessária presciência
E essa memória anterior de mundos inexistentes
E esse heroísmo estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança
Resta essa obstinação de não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo, esse terrível medo
De renascer dentro da treva
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares, sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz dos seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

Leia o post ouvindo e Feeling Good, com Nina Simone.
Nessa blogagem coletiva do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, me vi com um problema. Escrevo tanto sobre os direitos das mulheres nesse blog que hoje já nem sabia mais o que escrever (sem contar que estou passando o dia atualizando a lista de participantes da blogagem, que cresce a cada minuto). Como ando muito “poética”, vou falar um pouquinho sobre algo que tenho pensado, ao invés de fazer uma denúncia.
A questão é a famosa “loucura feminina”, que me veio à mente ao ver a Marta, de Páginas da Vida, acabar a novela (a pior de todos os tempos, diga-se de passagem), completamente louca. Sem falar na Alice, botando fogo, literalmente, nas coisas, ou Carmem tentando matar o marido e a amante. As mulheres “más” tem sempre a loucura ou o desequilíbrio emocional (mais que o “normal”) como castigo.
Mas isso não é novidade, vimos esse recurso em muitas novelas e esses autores, tão sem imaginação, beberam em fontes antigas. Desde o século XVIII, a literatura ocidental se refastela em mulheres enlouquecidas. Essa é a forma mais simples de se castigar as mulheres “más”, mas também de justificar as mulheres “difíceis”, aquelas que não se calam, que não se submetem.
“Em uma sociedade patriarcal que depende do silenciamento do outro para se manter funcional, os espaços de expressão pessoal reservados às mulheres são escassos e restritos. Assim, não chega a ser surpresa que tantos personagens dentro da ficção criada por mulheres enlouquecem de alguma maneira, em alguma medida.
Tampouco chega a surpreender que as mulheres loucas, na literatura como na vida, são extremamente perturbadoras. Elas o são não apenas pelo fato da loucura em si, mas porque lançam dúvidas sobre nossos conceitos de feminilidade.
Loucas não se comportam dentro do padrão de decência, pudor, inocência e doçura que é socialmente esperado de pessoas do sexo feminino, e assim as personagens elas são, freqüentemente, violentas, lascivas, descontroladas. Seu comportamento é, então, explicado nos termos de sua patologia medida necessária para que nossas certezas sobre a natureza das mulheres permaneçam intactas.” (1)
E a gente introjeta essa idéia. Eu lembro de, desde muito novinha, repetir “gente, eu sou muito louca”. Isso, significando que eu não me conformo, não me submeto, não obedeço, estou sempre procurando alguma coisa, tenho uma energia que não acaba nunca e corro riscos, muitos riscos, de todo tipo.
Claro que existe a loucura real, biológica, a depressão que acomete mais as mulheres, maiores vítimas de pressões sociais, de responsabilidades para criar os filhos, de prover a família enquanto o marido vai beber no boteco da esquina os últimos trocados que seria pra comida das crianças. Trabalhando em comunidades carentes ouvi muitos relatos de mulheres que enlouqueceram por não aguentar não ter o que dar de comer aos filhos.
Mas, a “loucura” da qual estou falando é aquele impingida às mulheres, especialmente por um tipo de homem (não sao todos, ainda bem!), inseguro e imbecil que tem como insultos favoritos: louca, descompensada, desquilibrada, tá precisando de um homem para se acalmar…
Sim, porque no pobre imaginário machista, um pênis é tudo que a mulher precisa para sair do seu estado constante de loucura, histeria e desespero. Claro que acham que seria o pênis deles (bom, ainda que isso fosse remédio pra alguma coisa, os deles nunca funcionariam, porque os machistas costumam ser de uma incompetêcia brutal nesses assuntos…).
Acontece que, se os homens fazem o que querem são “audaciosos”, mas se as mulheres fazem (ou dizem) o que querem é porque são “loucas”.
Por isso, amigas, minha mensagem para o 8 de março é: enlouqueçam!
Não desistam. Dêem-se ao direito de fazer sandices; de rir sem motivo; de viajar sem dinheiro; de mudar de profissão, se não estiverem felizes… ainda que isso pareça, vocês sabem… loucura…
Amem muito, quem você quiserem, quantas vezes quiserem, como e onde vocês quiserem (inclusive e principalmente dentro do mar, numa praia que nem precisa ser na Espanha).
Vistam-se como lhes aprouver, independente da idade; raspem a cabeça ou pintem o cabelo de azul. Amadureçam ou sejam eternas adolescentes, se assim sentir. Façam coisas sem planejar, saiam de casa e mudem seu roteiro no caminho, não temam o inesperado.
Mas, principalmente, nunca deixem a “pecha” de louca impedir vocês de fazer coisa alguma. Não precisamos ser o que esperam que a gente seja nem aos 20, nem aos 30, 40, 50, 60, 70, 80 anos.
Por fim, de presente para vocês, algumas mulheres maravilhosas que nos darão a benção da sua “loucura”, no dia de hoje (eu já li e reli, e não canso da lucidez dessas mulheres):
Anais Nin

Loucura
O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim
Que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa.
Mas não quero viver comigo mesma.
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos,
Beber um Benedictine ardente.
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.
Eu estava esperando.
Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,
Com estímulos sensuais em muitas direcções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
E entrei em erupção sem avisar.
Florbela Espanca

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se torce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
Alice Ruiz

já estou daquele jeito
que não tem mais concerto
ou levo você pra cama
ou desperto
*
à beira do insuportável
essa qualidade rara
ser insubordinável
*
que importa o sentido
se tudo vibra?
Dorothy Parker

Por que será que quando estou em Roma
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?
E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?
Patricia Galvão (Pagu)

Hoje me falaram em virtude
Tudo muito rito, muito rígido
Com coisinhas assim mais ou menos
Sentimentais.
Clarice Lispector

Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente, tudo se esclarece.
*
Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais
*
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
*
Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.
Ana Cristina Cesar

Pergunto se sou louca
Quem quem saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais se sou eu
*
Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías…
*
Não sou idêntica a mim mesmo
sou e não sou ao mesmo tempo,
no mesmo lugar e sob o mesmo ponto de vista
Não sou divina, não tenho causa
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Ou a própria lógica curcundante
Sylvia Plath

Canção de Amor de uma Jovem Louca
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura;
Beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas;
Abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Hilda Hilst

Do Desejo
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
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Eu fui pegar uma coisa na geladeira e vi esse ímã, que comprei na Suécia, há anos, tinha até esquecido dele, que diz: “Eu não sofro de insanidade, eu aproveito cada minuto dela”
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(1) A voz da louca, a voz da Outra – Cíntia Schwantes.
Pintura e escultura: Auto-Retrado de Frida Kahlo e Profundo Pensar de Camille Claudel.