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    visitantes, desde
    setembro de 2003.

    Disco de Vinícius e Drummond – Poesia

    Denise | Literatura,Poesia | Wednesday, 08 April 2009

    Desculpem o sumiço. Ando muito cansada. Volto em breve.

    Baixe os discos:

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    Torquato Neto

    Denise | Literatura,Poesia | Wednesday, 18 March 2009

    Coisa mais linda nesse mundo
    É sair por um segundo
    E te encontrar por aí
    E ficar sem compromisso
    Pra fazer festa ou comício
    Com você perto de mim

    Na cidade em que me perco
    Na praça em que me resolvo
    Na noite da noite escura
    É lindo ter junto ao corpo
    Ternura de um corpo manso
    Na noite da noite escura

    A coisa mais linda que existe
    É ter você perto de mim

    O apartamento, o jornal
    O pensamento, a navalha
    A sorte que o vento espalha
    Essa alegria, o perigo
    Eu quero tudo contigo
    Com você perto de mim

    Torquato Neto

    Pintura: Reading In A Red Dress – Karen Cooper.

    ________________________________________________________

    Pra relaxar, estava arrumando todas as poesias aqui do blog em uma categoria única, enquanto isso, ia lendo, uma por uma. Tanta coisa linda, mas essa daí, pede pra ser re-editada. É maravilhosa!

    E a foto sobre a qual o pessoal tava falando nos comentarios e’ essa ao lado.

    Fiz esse post no dia 13 de maio de 2005, Ted tinha viajado pra India e eu fui encontra-lo por la’, depois. Mas ja’ tava com saudades  :-)

    Mas agora, quando postei de novo, quis colocar uma imagem diferente. Achei essa pintura, la’ em cima, bem contemporanea e adoro as cores.

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    Haikai

    Denise | Literatura,Poesia | Tuesday, 17 March 2009

    agenda2006.jpg

    Haja hoje
    para tanto
    ontem.

    Paulo Leminski

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Literatura,Poesia | Monday, 24 March 2008

    Mário Quintana

    lendo_2008_.jpg

    Se tu me amas,
    ama-me baixinho.
    Não o grites de cima dos telhados,
    deixa em paz os passarinhos.
    Deixa em paz a mim!
    Se me queres,
    enfim,
    tem de ser bem devagarinho,
    amada,
    que a vida é breve,
    e o amor
    mais breve ainda.

    Pintura: Reading on the Park Bench, Sally Rosenbaum.

    lendo_2008_1.jpg

    Que esta minha paz e este meu amado silêncio
    Não iludam a ninguém
    Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
    Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
    Acho-me relativamente feliz
    Porque nada de exterior me acontece…
    Mas,
    Em mim, na minha alma,
    Pressinto que vou ter um terremoto!

    Pintura: Woman Reading, Malcolm Liepke.

    lendo_2008_4.jpg

    Amar: Fechei os olhos para não te ver
    e a minha boca para não dizer…
    E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
    e da minha boca fechada nasceram sussurros
    e palavras mudas que te dediquei…

    O amor é quando a gente mora um no outro

    Pintura: Woman Reading, Victoria Stusiak, 2007

    lendo_2008_3.jpg

    A vida é tão bela que chega a dar medo.

    Não o medo que paralisa e gela,
    estátua súbita,
    mas
    esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
    o jovem felino seguir para frente farejando o vento
    ao sair, a primeira vez, da gruta.

    Medo que ofusca: luz!

    Cumplicemente,
    as folhas contam-te um segredo
    velho como o mundo:

    Adolescente, olha! A vida é nova…
    A vida é nova e anda nua
    – vestida apenas com o teu desejo!

    Foto: Girl reading, Julia Margaret Cameron, 1867.

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Literatura,Música,Pernambuco,Poesia | Monday, 01 October 2007

    aisesesse.jpg

    Ai! Se Sêsse!
    Zé da Luz

    Ouça aqui, com o Cordel do Fogo Encantado.

    “A gente vem lá do Sertão de Pernambuco, cidade chamada Arcoverde.
    O poeta Zé da Luz, do início do século, escreveu uma poesia porque disseram pra ele que pra falar de amor era necessário um português correto, aí Zé da Luz escreveu uma poesia chamada ‘Ai se Sesse…’,
    que diz assim:

    Se um dia nós se gostasse
    Se um dia nós se queresse
    Se nós dos se impariásse
    Se juntim nós dois vivesse!
    Se juntim nós dois morasse
    Se juntim nós dois drumisse
    Se juntim nós dois morresse!
    Se pro céu nós assubisse?
    Mas porém, se acontecesse
    de São Pêdo não abrisse
    a porta do céu e fosse
    te dizê qualqué tulice?
    E se eu me arriminasse
    e tu com eu insistisse
    prá qui eu me arrezorvesse
    e a minha faca puxasse
    e o buxo do céu furasse?…
    Tarvez qui nós dois ficasse
    tarvez qui nós dois caísse
    e o céu furado arriasse
    e as virge toda fugisse!!!

    Pintura: Mei-Yim Low

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Artes Plásticas,Literatura,Poesia | Monday, 10 September 2007

    Paulo Leminski

    lendo9.jpg

    e amor é troca
    ou entrega louca
    discutem os sábios
    entre os pequenos
    e os grandes lábios

    no primeiro caso
    onde começa o acaso
    e onde acaba o propósito
    se tudo o que fazemos
    é menos que amor
    mas ainda não é ódio?

    a tese segunda
    evapora em pergunta
    que entrega é tão louca
    que toda espera é pouca?
    qual dos cindo mil sentidos
    está livre de mal-entendidos?

    Pintura: Reading Woman, circa 1900, Pierre-Auguste Renoir.

    lendo10.jpg

    nunca sei ao certo
    se sou um menino de dúvidas
    ou um homem de fé

    certezas o vento leva
    só dúvidas ficam de pé

    Pintura: Young Woman Reading a Letter, Jean Raoux.

    lendo11.jpg

    moinho de versos
    movido a vento
    em noites de boemia

    vai vir o dia
    quando tudo que eu diga
    seja poesia

    Pintura: Liseuse à l’ombrelle, 1921, Matisse.

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Literatura,Poesia | Monday, 03 September 2007

    Porque há desejo em mim, é tudo cintilância
    Hilda Hilst

    vintage_reading_1.jpg

    Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
    Antes, o cotidiano era um pensar alturas
    buscando Aquele Outro decantado
    Surdo à minha humana ladradura.
    Visgo e suor, pois nunca se faziam.
    Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
    tomas-me o corpo. E que descanso me dás
    Depois das lidas. Sonhei penhascos
    Quando havia o jardim aqui ao lado
    Pensei subidas onde não havia rastros.
    Extasiada, fodo contigo
    ao invés de ganir diante do Nada.

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Literatura,Poesia | Monday, 20 August 2007

    Amor e seu Tempo
    Carlos Drummond de Andrade

    lendo4.jpg

    Amor é privilégio de maduros
    estendidos na mais estreita cama,
    que se torna a mais larga e mais relvosa,
    roçando, em cada poro, o céu do corpo.

    É isto, amor: o ganho não previsto,
    o prêmio subterrâneo e coruscante,
    leitura de relâmpago cifrado,
    que, decifrado, nada mais existe

    valendo a pena e o preço do terrestre,
    salvo o minuto de ouro no relógio
    minúsculo, vibrando no crepúsculo.

    Amor é o que se aprende no limite,
    depois de se arquivar toda a ciência
    herdada, ouvida. Amor começa tarde.

    Mulher andando nua pela casa
    Carlos Drummond de Andrade

    lendo2.jpg

    Mulher andando nua pela casa
    envolve a gente de tamanha paz.
    Não é nudez datada, provocante.
    É um andar vestida de nudez,
    inocência de irmã e copo d’água.

    O corpo nem sequer é percebido
    pelo ritmo que o leva.
    Transitam curvas em estado de pureza,
    dando este nome à vida: castidade.

    Pêlos que fascinavam não perturbam.
    Seios, nádegas (tácito armistício)
    repousam de guerra. Também eu repouso.

    À meia-noite, pelo telefone
    Carlos Drummond de Andrade

    lendo1.jpg

    À meia-noite, pelo telefone,
    conta-me que é fulva a mata do seu púbis.
    Outras notícias
    do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
    Fecha-se em copas:
    “Se você não vem depressa até aqui
    nem eu posso correr à sua casa,
    que seria de mim até o amanhecer?”
    Concordo, calo-me.

    Pintura: “Uma garota lendo”, Pierre-Auguste Renoir, 1891.

    O mundo é grande
    Carlos Drummond de Andrade

    lendo6.jpg

    O mundo é grande e cabe
    nesta janela sobre o mar.
    O mar é grande e cabe
    na cama e no colchão de amar.
    O amor é grande e cabe
    no breve espaço de beijar.

    Pintura: “Jovem lendo na janela”, Delphin Enjolras.

    Hipótese
    Carlos Drummond de Andrade

    lendo7.jpg

    E se Deus é canhoto
    e criou com a mão esquerda?
    Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

    Ilustração: Punchstock.

    _______________________________________

    Se quiser, deixe uma poesia, também, pra gente começar bem a semana…

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Literatura,Poesia | Monday, 16 July 2007

    mulher_lendo_6.jpg

    Morte e Vida Severina
    João Cabral de Melo Neto

    () Antes de sair de casa
    aprendi a ladainha
    das vilas que vou passar
    na minha longa descida.
    Sei que há muitas vilas grandes,
    cidades que elas são ditas;
    sei que há simples arruados,
    sei que há vilas pequeninas,
    todas formando um rosário
    cujas contas fossem vilas,
    todas formando um rosário
    de que a estrada fosse a linha.
    Devo rezar tal rosário
    até o mar onde termina,
    saltando de conta em conta,
    passando de vila em vila.
    Vejo agora: não é fácil
    seguir essa ladainha;
    entre uma conta e outra conta,
    entre uma a outra ave-maria,
    há certas paragens brancas,
    de planta e bicho vazias,
    vazias até de donos,
    e onde o pé se descaminha.()

    Foto: Jovem lendo, Ron Ogle, 2002.

    mulher_lendo_2.jpg

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Manuel Bandeira

    () E como farei ginástica
    Andarei de bicicleta
    Montarei em burro brabo
    Subirei no pau-de-sebo
    Tomarei banhos de mar!
    E quando estiver cansado
    Deito na beira do rio
    Mando chamar a mãe-d’água
    Pra me contar as histórias
    Que no tempo de eu menino
    Rosa vinha me contar
    Vou-me embora pra Pasárgada ()

    Pintura: Mulher lendo, Seikichi Izawa, data desconhecida.

    mulher_lendo_1.jpg

    O Chope
    Carlos Pena Filho

    Na avenida Guararapes,
    o Recife vai marchando.
    O bairro de Santo Antônio,
    tanto se foi transformando
    Que, agora, às cinco da tarde
    mais se assemelha a um festim,
    O refrão tem sido assim:
    são trinta copos de chope,
    são trinta homens sentados,
    trezentos desejos presos,
    trinta mil sonhos frustrados.

    Pintura: Café na Calçada, Terry Miura, 2007.

    ____________________________________________

    Você conhece alguma poesia da sua cidade ou estado de origem ou de coração? deixa aqui pra gente… (se não tiver na poesia, não esqueçam de mandar o nome da cidade ou estado)

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Artes Plásticas,Literatura,Poesia | Monday, 11 June 2007

    Joseph%20Cornell.jpg

    Primeiro eu quero falar de amor
    Chacal

    Meu amor se esparrama na grama
    Meu amor se esparrama na cama
    Meu amor se espreguiça
    Meu amor deita e rola no planeta.

    Pintura: Sem título, Joseph Cornell.

    Robert%20DELAUNAY.jpg

    Este Livro
    Ana Cristina César

    Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
    coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
    total, tilintar de verdade que você seduz,
    charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
    carapuça.
    E cante.
    Puro açúcar branco e blue.

    Pintura: Mulher nua lendo, Robert Delaunay, 1915.

    Theodore%20Roussel.jpg

    Cogito
    Torquato Neto

    eu sou como eu sou
    pronome
    pessoal intransferível
    do homem que iniciei
    na medida do impossível

    eu sou como eu sou
    agora
    sem grandes segredos dantes
    sem novos secretos dentes
    nesta hora

    eu sou como eu sou
    presente
    desferrolhado indecente
    feito um pedaço de mim

    eu sou como eu sou
    vidente
    e vivo tranqüilamente
    todas as horas do fim.

    Pintura: “The Reading Girl”, Théodore Roussel, 1886.

    gansz.jpg

    Poema ao mais Recente Amor
    Leila Míccolis

    Estar entre teus pêlos e dedos,
    entre tua densidade,
    neste transpirar sob medida
    aos teus gemidos.
    Estar entre teus trópicos,
    entre o teu desejo e o meu prazer,
    beber parte de teus líquens e teus rios
    percorrendo-te da foz até a origem,
    e pura a cada amor partir mais virgem.

    Pintura: Jovem Mulher Lendo, Valerie Gansz,

    Atenção: Continua o debate sobre amamentação em público, no post aí abaixo, você pode continuar dando a sua contribuição.

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Artes Plásticas,Literatura,Poesia | Monday, 04 June 2007

    justin_clayton.jpg

    O Amor no Éter

    Adélia Prado

    Há dentro de mim uma paisagem
    entre meio-dia e duas horas da tarde.
    Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
    entram e não neste lugar de memória,
    uma lagoa rasa com caniço na margem.
    Habito nele, quando os desejos do corpo,
    a metafísica, exclamam:
    como és bonito!
    Quero escrever-te até encontrar
    onde segregas tanto sentimento.
    Pensas em mim, teu meio-riso secreto
    atravessa mar e montanha,
    me sobressalta em arrepios,
    o amor sobre o natural.
    O corpo é leve como a alma,
    os minerais voam como borboletas.
    Tudo deste lugar
    entre meio-dia e duas horas da tarde.

    Pintura: Girl Reading, Justin Clayton.

    Tem uma poesia que você adora? deixe aqui pra gente, também…

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Artes Plásticas,Literatura,Poesia | Monday, 28 May 2007

    Charles_Perugini.jpg

    Se
    Alice Ruiz

    se por acaso
    a gente se cruzasse
    ia ser um caso sério
    você ia rir até amanhecer
    eu ia ir até acontecer
    de dia um improviso
    de noite uma farra
    a gente ia viver
    com garra

    eu ia tirar de ouvido
    todos os sentidos
    ia ser tão divertido
    tocar um solo em dueto

    ia ser um riso
    ia ser um gozo
    ia ser todo dia
    a mesma folia
    até deixar de ser poesia
    e virar tédio
    e nem o meu melhor vestido
    era remédio

    daí vá ficando por aí
    eu vou ficando por aqui
    evitando
    desviando
    sempre pensando
    se por acaso
    a gente se cruzasse..

    Pintura: Charles Perugini

    laura_den_hertog.jpg

    A Alma Buscada
    Dorothy Parker

    Quando peso os prós e os contras
    das coisas que meu amor encontra
    uma boca curva, um punho de fogo
    um cenho interrogativo, um belo jogo
    de palavras tão batido quanto o pecado
    uma orelha pontuda, um queixo rachado
    membros longos, agudos e olhos oblíquos
    nem frios, nem meigos, nem escurecidos
    Quando então pondero usando a razão
    nas superficialidades que satisfazem meu coração
    sou surpreendida com tal banalidade
    me maravilho com a minha normalidade.

    Pintura: Laura den Hertog

    Joesph_Alleman.jpg

    Dez chamamentos ao amigo
    Hilda Hilst

    Se te pareço noturna e imperfeita
    Olha-me de novo. Porque esta noite
    Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
    E era como se a água
    Desejasse

    Escapar de sua casa que é o rio
    E deslizando apenas, nem tocar a margem.

    Te olhei. E há tanto tempo
    Entendo que sou terra. Há tanto tempo
    Espero
    Que o teu corpo de água mais fraterno
    Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

    Olha-me de novo. Com menos altivez.
    E mais atento.

    Pintura: Joseph Alleman

    ruth_franklin.jpg

    Teu corpo seja brasa
    Leila Mícollis

    teu corpo seja brasa
    e o meu a casa
    que se consome no fogo
    um incêndio basta
    pra consumar esse jogo
    uma fogueira chega
    pra eu brincar de novo

    Pintura: Ruth Franklin
    ___________________________________

    Deixe uma poesia (ou prosa) também…

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    Segunda com Poesia de Primeira

    Denise | Artes Plásticas,Literatura,Poesia | Monday, 21 May 2007

    readijng_blue.jpgLevei um puxão de orelha da Lorenna, que escreveu reclamando que a nossa “seção de literatura” anda meio abandonada e ela queria ver, principalmente, mais poesia.

    Eu também ando sentindo falta de mais arte no blog. Quero escrever sobre alguns livros que li (e outros que estou lendo), mas todos eles são de “não ficção”, geralmente sobre gênero e etnia. Fica pra depois.

    Por enquanto, vou tentar, toda segunda-feira, postar uma ou mais poesia ou prosa que eu gosto.

    E que tal cada um(a) de vocês ajudar a mim e a Lorenna, deixando aqui, na página de comentários, uma poesia, crônica ou prosa (curta) que vocês também gostam? Será uma ótima forma de compartilharmos um pouco de beleza e começar a semana com mais leveza… ou profundidade.

    Não esqueçam de colocar o nome do autor(a) do poema e, se possível, a data. Vamos lá, participem.

    Ana Cristina Cesar (expatriada, em Londres)

    homer_reading.jpg

    Segunda história rápida sobre a felicidade –
    descendo a colina ao escurecer – meu amor ficou
    longe, com seu ar de não ter dúvida, e dizia: meus
    pais… – não posso mais duvidar dos meus
    passinhos, neste sítio – você agora fala até mais
    baixo, delicada que eu reparo mais que os outros
    depois de um tempo fora – é como voltar e achar as
    crianças crescidas, e sentar na varanda para trocar
    pensamentos e memórias de um tempo que passou –
    mas quando eu fui (aquele dia no aeroporto) ainda
    havia ares de mistério – agora, é agora, descendo
    esta colina, sem nenhum, que eu conto então do
    amor distante, e não imito a minha nostalgia, mas a
    delicadeza, a sua, assim feliz.

    Pintura: “Garota lendo embaixo de um Carvalho”,
    Winslow Homer, 1879.

    Alice Ruiz

    vilma_reading.jpg

    vontade de ficar sozinha
    só para saber
    se você ia
    ou vinha
    quando deixou
    esse bagaço
    no meu peito
    pedaço estreito
    defeito na mercadoria
    do jeito que você queria

    Pintura: “Vilma lendo no Sofá”, TF Simon, 1911.

    Mario Quintana

    reading_white.jpg

    A verdadeira arte de viajar

    A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
    Como se estivessem abertos diante de nós
    todos os caminhos do mundo.
    Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…
    Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

    Foto: Getty Images.

    Vinícius de Moraes

    fragonard_reading.jpg

    Amor nos três pavimentos

    Eu não sei tocar, mas se você pedir
    Eu toco violino fagote trombone saxofone.
    Eu não sei cantar, mas se você pedir
    Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
    Pra cantar melhor.
    Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
    Eu faço tudo que você quiser.

    Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
    Que eu te arranjo logo.
    Você quer fazer verso? É tão simples!… você assina
    Ninguém vai saber.
    Se você me pedir, eu trabalho dobrado
    Só pra te agradar.

    Se você quisesse!… até na morte eu ia
    Descobrir poesia.
    Te recitava as Pombas, tirava modinhas
    Pra te adormecer.
    Até um gurizinho, se você deixar
    Eu dou pra você…

    Pintura: “Jovem lendo”, de Jean-Honoré Fragonard, 1776.

    Charles Baudelaire

    embriaguemse.jpg

    Embriaquem-se!

    É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

    Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
    Mas embriaguem-se.

    E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

    ______________________________________

    Primeira pintura: “A Leitora Azul”, Macke August, 1914

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    O Haver

    Denise | Literatura,Poesia | Thursday, 22 March 2007

    vina.jpg

    O “Vídeo do Dia” de hoje tem Vinícius de Moraes declamando a poesia mais bonita do mundo, pra mim.

    Eu já postei “O Haver” duas vezes e agora vou postar de novo, só porque achei o vídeo, com a voz do mestre (e o violão e vocal de Edu Lobo), muito lindo, de arrepiar…

    O Haver

    Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
    Essa intimidade perfeita com o silêncio
    Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
    – Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido…

    Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
    Essa mão que tateia antes de ter
    Esse medo de ferir tocando, essa forte mão de homem
    Cheia de mansidão para com tudo que existe

    Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
    Essa inércia cada vez maior diante do infinito
    Essa gagueira infantil de quem quer abalbuciar o inexprimível
    Essa irredutível recusa à poesia não vivida

    Resta essa comunhão com os sons
    Esse sentimento da matéria em repouso
    Essa angústia da simultaneidade do tempo
    Essa lenta decomposição poética
    Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinícius

    Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas
    Essa tristeza diante do cotidiano
    Eu essa súbita alegria ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória

    Resta essa vontade de chorar diante da beleza
    Essa cólera cega em face da injustiça e do malentendido
    Essa imensa piedade de si mesmo
    Essa imensa piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil

    Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado de pequenos absurdos
    Essa tola capacidade de rir à toa
    Esse ridículo desejo de ser útil
    E essa coragem de comprometer-se sem necessidade

    Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
    De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
    E ao mesmo tempo esse desejo de servir
    Essa contemporaneidade com o amanhã
    Dos que não têm ontem nem hoje

    Resta essa faculdade incoercível de sonhar de transfigurar a realidade
    Dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
    E essa visão ampla dos acontecimentos

    E essa impressionante e desnecessária presciência
    E essa memória anterior de mundos inexistentes
    E esse heroísmo estático, e essa pequenina luz indecifrável
    A que às vezes os poetas dão o nome de esperança

    Resta essa obstinação de não fugir do labirinto
    Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
    E essa coragem indizível diante do grande medo
    E ao mesmo tempo, esse terrível medo
    De renascer dentro da treva

    Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
    De refletir-se em olhares, sem curiosidade e sem história
    Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
    De não querer ser príncipe senão do seu reino

    Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
    Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
    Resta esse eterno morrer na cruz dos seus braços
    E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado

    Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
    Pelo momento a vir, quando, emocionada
    Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
    Sem saber que é a minha mais nova namorada.

    Minha antologia poetica de Vinicius de Moraes.

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    Meu post é sobre a loucura da mulher…

    Denise | Blogagem Coletiva,Feminismo,Literatura,Poesia | Thursday, 08 March 2007

    fkhalo8marco.jpg

    Leia o post ouvindo e Feeling Good, com Nina Simone.

    Nessa blogagem coletiva do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, me vi com um problema. Escrevo tanto sobre os direitos das mulheres nesse blog que hoje já nem sabia mais o que escrever (sem contar que estou passando o dia atualizando a lista de participantes da blogagem, que cresce a cada minuto). Como ando muito “poética”, vou falar um pouquinho sobre algo que tenho pensado, ao invés de fazer uma denúncia.

    A questão é a famosa “loucura feminina”, que me veio à mente ao ver a Marta, de Páginas da Vida, acabar a novela (a pior de todos os tempos, diga-se de passagem), completamente louca. Sem falar na Alice, botando fogo, literalmente, nas coisas, ou Carmem tentando matar o marido e a amante. As mulheres “más” tem sempre a loucura ou o desequilíbrio emocional (mais que o “normal”) como castigo.

    Mas isso não é novidade, vimos esse recurso em muitas novelas e esses autores, tão sem imaginação, beberam em fontes antigas. Desde o século XVIII, a literatura ocidental se refastela em mulheres enlouquecidas. Essa é a forma mais simples de se castigar as mulheres “más”, mas também de justificar as mulheres “difíceis”, aquelas que não se calam, que não se submetem.


    “Em uma sociedade patriarcal que depende do silenciamento do outro para se manter funcional, os espaços de expressão pessoal reservados às mulheres são escassos e restritos. Assim, não chega a ser surpresa que tantos personagens dentro da ficção criada por mulheres enlouquecem de alguma maneira, em alguma medida.

    Tampouco chega a surpreender que as mulheres loucas, na literatura como na vida, são extremamente perturbadoras. Elas o são não apenas pelo fato da loucura em si, mas porque lançam dúvidas sobre nossos conceitos de feminilidade.

    Loucas não se comportam dentro do padrão de decência, pudor, inocência e doçura que é socialmente esperado de pessoas do sexo feminino, e assim as personagens – elas são, freqüentemente, violentas, lascivas, descontroladas. Seu comportamento é, então, explicado nos termos de sua patologia – medida necessária para que nossas certezas sobre a natureza das mulheres permaneçam intactas.” (1)

    E a gente introjeta essa idéia. Eu lembro de, desde muito novinha, repetir “gente, eu sou muito louca”. Isso, significando que eu não me conformo, não me submeto, não obedeço, estou sempre procurando alguma coisa, tenho uma energia que não acaba nunca e corro riscos, muitos riscos, de todo tipo.

    8marco_claudel.jpgClaro que existe a loucura real, biológica, a depressão que acomete mais as mulheres, maiores vítimas de pressões sociais, de responsabilidades para criar os filhos, de prover a família enquanto o marido vai beber no boteco da esquina os últimos trocados que seria pra comida das crianças. Trabalhando em comunidades carentes ouvi muitos relatos de mulheres que enlouqueceram por não aguentar não ter o que dar de comer aos filhos.

    Mas, a “loucura” da qual estou falando é aquele impingida às mulheres, especialmente por um tipo de homem (não sao todos, ainda bem!), inseguro e imbecil que tem como insultos favoritos: louca, descompensada, desquilibrada, tá precisando de um homem para se acalmar…

    Sim, porque no pobre imaginário machista, um pênis é tudo que a mulher precisa para sair do seu estado constante de loucura, histeria e desespero. Claro que acham que seria o pênis deles (bom, ainda que isso fosse remédio pra alguma coisa, os deles nunca funcionariam, porque os machistas costumam ser de uma incompetêcia brutal nesses assuntos…).

    Acontece que, se os homens fazem o que querem são “audaciosos”, mas se as mulheres fazem (ou dizem) o que querem é porque são “loucas”.

    Por isso, amigas, minha mensagem para o 8 de março é: enlouqueçam!

    Não desistam. Dêem-se ao direito de fazer sandices; de rir sem motivo; de viajar sem dinheiro; de mudar de profissão, se não estiverem felizes… ainda que isso pareça, vocês sabem… loucura…

    Amem muito, quem você quiserem, quantas vezes quiserem, como e onde vocês quiserem (inclusive e principalmente dentro do mar, numa praia que nem precisa ser na Espanha).

    Vistam-se como lhes aprouver, independente da idade; raspem a cabeça ou pintem o cabelo de azul. Amadureçam ou sejam eternas adolescentes, se assim sentir. Façam coisas sem planejar, saiam de casa e mudem seu roteiro no caminho, não temam o inesperado.

    Mas, principalmente, nunca deixem a “pecha” de louca impedir vocês de fazer coisa alguma. Não precisamos ser o que esperam que a gente seja nem aos 20, nem aos 30, 40, 50, 60, 70, 80 anos.

    Por fim, de presente para vocês, algumas mulheres maravilhosas que nos darão a benção da sua “loucura”, no dia de hoje (eu já li e reli, e não canso da lucidez dessas mulheres):

    Anais Nin

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    Loucura

    O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim
    Que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.
    A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa.
    Mas não quero viver comigo mesma.
    Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
    Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos,
    Beber um Benedictine ardente.
    Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas.
    Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.
    Eu estava esperando.
    Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
    Todo o resto foi uma preparação.
    A verdade é que sou inconstante,
    Com estímulos sensuais em muitas direcções.
    Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
    E entrei em erupção sem avisar.

    Florbela Espanca

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    Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
    Como sabes ser doce e desgraçada!
    Como sabes fingir quando em teu peito
    A tua alma se torce amargurada!

    Quantas morrem saudosa duma imagem.
    Adorada que amaram doidamente!
    Quantas e quantas almas endoidecem
    Enquanto a boca ri alegremente!

    Quanta paixão e amor às vezes têm
    Sem nunca o confessarem a ninguém
    Doce alma de dor e sofrimento!

    Paixão que faria a felicidade.
    Dum rei; amor de sonho e de saudade,
    Que se esvai e que foge num lamento!

    Alice Ruiz

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    já estou daquele jeito
    que não tem mais concerto
    ou levo você pra cama
    ou desperto

    *

    à beira do insuportável
    essa qualidade rara
    ser insubordinável

    *

    que importa o sentido
    se tudo vibra?

    Dorothy Parker

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    Por que será que quando estou em Roma
    daria tudo para estar em casa na redoma
    mas se estou na minha terra americana
    minha alma deseja a cidade italiana?

    E quando com você, meu amor, meu remédio,
    fico espetacularmente cheia de tédio
    Mas se você se levantar e me deixar
    Grito para você voltar?

    Patricia Galvão (Pagu)

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    Hoje me falaram em virtude
    Tudo muito rito, muito rígido
    Com coisinhas assim mais ou menos
    Sentimentais.

    Clarice Lispector

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    Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente, tudo se esclarece.

    *
    Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais

    *

    Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

    *

    Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

    Ana Cristina Cesar

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    Pergunto se sou louca
    Quem quem saberá dizer
    Pergunto mais, se sou sã
    E ainda mais se sou eu

    *

    Te acalma, minha loucura!
    Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
    Este som de serra de afiar facas
    não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías…

    *

    Não sou idêntica a mim mesmo
    sou e não sou ao mesmo tempo,
    no mesmo lugar e sob o mesmo ponto de vista
    Não sou divina, não tenho causa
    Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
    Ou a própria lógica curcundante

    Sylvia Plath

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    Canção de Amor de uma Jovem Louca

    Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
    Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
    (Acho que te criei no interior da minha mente)

    Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
    Entra a galope a arbitrária escuridão:
    Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

    Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
    Cantaste-me para a loucura;
    Beijaste-me para a insanidade.

    (Acho que te criei no interior de minha mente)

    Tomba Deus das alturas;
    Abranda-se o fogo do inferno:
    Retiram-se os serafins e os homens de Satã:

    Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

    Imaginei que voltarias como prometeste
    Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
    (Acho que te criei no interior de minha mente)

    Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
    Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo

    Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
    (Acho que te criei no interior de minha mente)


    Hilda Hilst

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    Do Desejo

    E por que haverias de querer minha alma
    Na tua cama?
    Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
    Obscenas, porque era assim que gostávamos.
    Mas não menti gozo prazer lascívia
    Nem omiti que a alma está além, buscando
    Aquele Outro. E te repito: por que haverias
    De querer minha alma na tua cama?
    Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
    Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

    ________________________________________

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    Eu fui pegar uma coisa na geladeira e vi esse ímã, que comprei na Suécia, há anos, tinha até esquecido dele, que diz: “Eu não sofro de insanidade, eu aproveito cada minuto dela” ;-)

    ________________________________________

    (1) A voz da louca, a voz da Outra – Cíntia Schwantes.

    Pintura e escultura: Auto-Retrado de Frida Kahlo e Profundo Pensar de Camille Claudel.

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