
Depois de um bom tempo sem escrever nenhum post mais elaborado, resolvi caprichar nos detalhes dessa história. Desculpem, o post é longo, mas não tinha como ser de outra maneira.
A Origem de Tudo
Resumindo uma história longa, que conta a origem do meu interesse pelos movimento sociais e, consequentemente, a origem do Origem… em 1984, eu tinha 20 anos, estudava jornalismo e fui trabalhar como “foca” na ECOS – Equipe de Comunicação Sindical, uma ONG que dava assessoria à CUT, Sindicato dos Metalúrgicos (onde militava o operário, que seria prefeito do Recife, João Paulo), Sindicato dos Professores, Ação Católica Operária etc.
(Tem um detalhe engraçado… recebi um convite para trabalhar lá por parte de um amigo. Antes de começar, fui a uma palestra sobre “arte alternativa” com Braulio Tavares na faculdade onde estudava e lá eu vi um cara encostado na parede e pensei… “que cara lindo, esse é pra casar!”. Dias depois, ao chegar no novo trabalho, descobri que o “gato” era meu novo patrão. Três meses depois, estávamos casados e ele é o pai da Bia, que nasceu dois anos depois.)
Como não da´pra trabalhar com marido, saí de lá e fundei um jornal pra estudantes com gente como Xico Sá, Ana Santa Cruz, Verônica Figueiredo, Fred Jordão, Renato L e H D Mabuse, entre outros. Uma época bem divertida.
Larguei o curso de jornalismo, por rebeldia mesmo. Detestava as aulas e achava que ninguém devia ser obrigado a fazer faculdade de jornalismo pra escrever pra jornal… Aí, comecei a me interessar muito pela militância “na base”, queria fazer algum trabalho comunitário.
Como surgiu o Origem
A idéia de fundar o Grupo Origem surgiu em 86 quando engravidei da minha Bia. Passei a encontrar algumas mulheres grávidas, conversar, trocar idéias, ler sobre parto natural, yoga etc. Um dos grupos comunitários, a Vila dos Milagres, que tinha contato com a ECOS pediu pra gente ir lá fazer algumas reuniões com as grávidas da comunidade e foi assim que tudo começou.
Mas, enfim… estávamos grávidas e era a preparação e o momento do parto o que mais nos agregava,não pensávcamos em amamentação. Aí, começamos a parir e nos afastamos por um tempo. Durante alguns meses cada uma viveu a experiência da maternidade com suas famílias e não tínhamos muito contato. Éramos novinhas (eu tinha 22 anos quando ela nasceu!) e cuidar do primeiro bebê era mais do que podíamos dar conta.
Amamentando Bia
Na época, pouquíssimo se falava de amamentação. Minha mãe costumava dizer que “a nossa família não tem leite”. Eu não tinha lido nada sobre o assunto e nem sequer sabia que a amamentação era tão importante. Lembrem, isso foi há 22 anos atrás.
Mas, sabe que, quando Bia nasceu, ela pegou o peito e não queria largar mais… como eu não tinha pressão nenhuma e minha disponibilidade pra amamentar era total (não estava trabalhando), ela mamava, literalmente, o dia todo. E eu tinha muito, MUITO leite. Claro, a equação é simples: Quanto mais o bebê mama = mais leite a mãe produz.
Mas, logo, logo, começaram os problemas. Vou enumerar alguns deles aqui:
1. Na maternidade, me deram um algodãozinho que eu deveria manter num copo cheio d’água e “lavar”o seio antes da mamada. Ou seja, toda a proteção natural da aréola e mamilo iam embora na hora que era mais necessária, o seio ressecava etc…
2. Bia nasceu de oito meses e foi pra incubadora por umas 9 horas e de lá pra o berçário. Quando veio pra mim, tinha contraído “sapinho”, que não apareceu logo, ninguém percebeu, mas com alguns dias, a boquinha dela e meu mamilo estavam como em “carne viva” e a dor para amamentar era quase insuportável. Todo mundo continuava dizendo que era “assim mesmo”, “amamentar dói” e somente quando não aguentava mais procurei um médico que passou a famosa “violeta genciana” (ainda se usa?) e uma pomada e as coisas melhoraram. Mas o estrago tava feito…
3. Na visita ao pediatra, no segundo mês, ele disse que estava mais do que na hora dela tomar “chazinho” e “suquinho” e era pra dar naquela chuquinha que tem um bico bem molinho, sabe como é? “pra que ela não tivesse nem que fazer força…”
Bom, a essa altura, juntando todas essas orientações completamente equivocadas e mais dando de mamar numa posição inadequada (lembrem eu nunca tinha nemvisto alguém amamentar!), ela começou a ter dificuldade pra pegar o peito, consequentemente, ele ficava cada vez mais cheio de leite (engurgitado) e eu, na minha total ignorância, achava que era sinal de que “tinha muito leite” e ADORAVA ver aquele peitão enorme, com a pele hiper esticada, afinal, deveria significar que eu tinha muito leite, não?
Na verdade, significava que o leite estava se acumulando, o peito grande demais, a aréola e mamilo “achatados” de tanto leite e a boquinha dela não conseguia mais puxar de jeito nenhum… resumindo, depois de muita dor, com três meses ela já não estava mamando quase nada. No quarto mês, ela tava totalmente desmamada.
Fiquei triste, sim, porque eu adorava dar de mamar, adorava tê-la grudada em mim, adorava ver o leite saindo… e por um momento me pareceu que ia ser tudo tão tranquilo. Eu e ela começamosbem, mas fomos vítimas de falta de orientação e de informação. Amamentar pode ser um ato natural, espontâneo, mas existe uma sabedoria que senão for passada à frente, se for perdida, pode ter consequências desastrosas para amamentação.
Retomando o Origem
Quando Bia fez uns sete, oito meses, voltamos – as ex-gestantes, agora mães – a nos encontrar e pensar como dar continuidade ao trabalho comunitário. Ana Coeli, que começou o Origem comigo e continuou por vários anos, estava amamentando Clarinha super bem. Todo mundo na família dela tinha amamentado, foi uma consequência natural e ela viveu uma experiência completamente diferente da minha.
Voltamos à Vila dos Milagres. E aí aconteceu uma coisa bem interessante. As mães que acompanhávamos grávidas por lá, também tinham tido seus filhos, algumas estavam amamentando, outras não e decidimos fazer uma oficina sobre esse tema. O sucesso foi tão grande, que fizemos outra e outra e outra e começamos a ser convidadas para fazer oficinas com gestantes de outras comunidades.
A amamentação para essas mulheres, que vivem em situação de extrema pobreza, era quase como a única chance de sobrevivência pras crianças. Quem dava mamadeira, tinha poucas condições de higienização (não tinha água encanada, nem saneamento básico) e o leite (líquido, de saquinho, ainda era oferecido em mamadeiras extremamente diluídas em água, para render mais). Elas também estavam sendo vítimas do declínio e desinformação sobre o aleitamento e queriam ajuda.
Assim começou o Grupo Origem. Seria impossível contar tudo que fizemos nesses 15 anos de história, mas prometo escrever outros posts e, um dia, explico porque o grupo, finalmente, acabou, há uns dois anos.
Hoje, quis escrever esse post mais pra falar da minha experiência pessoal e o começo do Origem.
Não vou dizer que nunca me senti culpada por não amamentar. Cada vez que leio sobre novas descobertas sobre a enorme diferença que faz pra criança ser amamentada, dá uma ponta de tristeza porque acho que toda mãe quer o melhor pros filhos, né?
Mas, nunca me senti menos autorizada para trabalhar promovendo a amamentação por não ter vivenciado isso da forma ideal. Ao contrário, sempre usei minha história como exemplo e conversava como s grupos sobre:
1. O quanto a pressão para amamentar, a tensão, a culpa, podem atrapalhar o processo, bloquear o reflexo de ejeção do leite. Eu tinha TANTO leite e amamentei tão tranquilamente, no começo, porque estava totalmente livre de pressões (afinal, minha família “não tinha leite mesmo” – ironia, hein?!). Meu marido e minhas amigas não tinham nenhuma expectativa, eu não TINHA de amamentar…aí, o leite jorrava como fonte…
Pressionar a mulher a amamentar é o primeiro passo pra que ela se sinta insegura e a coisa desande, deixa tudo rolar naturalmente. Por isso, nunca visitei amiga recém parida pra falar de amamentação… falava, se ela perguntasse.
2. Saber “o que fazer” faz toda diferença. Se dependesse de mim e de Bia, a gente tinha mantido a amamentação por alguns anos. Tudo que aconteceu foi provocado por intervenções desastradas de outras pessoas, geralmente profissionais de saúde que, na época, eram totalmente desinformados (aliás, a Nestlé teve seu papel nessa “deseducação dos profissionais de saúde”.)
Movimento de amamentação e a internet hoje
Hoje em dia, visito blogs de mães e nutrizes, comunidades no Orkut, Facebook e fico rindo sozinha (juro!), tão feliz de ver o que a internet pode fazer por essas mulheres, em termos de empoderamento, de informação, de compartilhamento de experiências.
Claro que pode ter um exagero aqui ou ali, mas a essa altura,todo mundo já sabe filtrar as informações e ter cuidado pra não se sentir também pressionada nessa comunidade virtual. Na minha opinião, o risco da haver uma “culpabilização da mulher que não amamenta” é menor que a gigantesca importãncia dessa rede de informações.
Além do mais, leio por aqui sobre os grupos e campanhas “nazi-pró-amamentação”, mas queria que me desse exemplos concretos. Apesar de estar fora do Brasil há vários anos,mantenho contato com o movimento e acho que conheço todos os grupos de amamentação e nunca vejo essa postura “extremista”, entre eles.
O movimento de amamentação no Brasil é um exemplo para o mundo. Somos MUITO bons, competentes e sempre discutimos em todos os grandes encontros nacionais essa questão da “culpabilização da mulher”. De uma forma geral, quem promove a amamentação sabe que a decisão de amamentar e atépor questões físicas, biológicas, seria estúpido pressioná-las a amamentar. O leite não desce à força e a gente sabe disso.
Agora, o que não dá é querer que a gente pare de falar da indiscutível vantagem da amamentação em relação à alimentação infantil por mamadeira. Algumas vezes,o que as mulheres querem é que a gente dê uma justificativa que as convença que “uma mamadeira com amor é melhor”. Não vamos dizer isso.
Claro que se cria de todo jeito. Bia se criou sem amamentação, é linda, inteligente, maravilhosa. Mas eu tenho certeza que ela teria tido menos doencinhas na infância; teria sid0 muito mais prático pra mim não acordar de madrugada pra fazer mamadeira, lavar etc; aamamentação teria a acalmado em horas que era preciso e, de uma forma geral, nós duas teríamnos tido proteções de saúde adicionais. Não deu e não me culpo por isso. Mas nunca vou dizer que não fez diferença.
Há alguns anos, ao sair do Brasil, me afastei um pouco do movimento. Queria experimentar outras coisas, vivi intensamente demais a amamentação, por muito tempo, e nem sempre foi fácil.
Queria aprender novas coisas, ter outros interesses, conviver com outras pessoas, outras causas e foi uma ótima decisão. Mas continuo ETERNAMENTE APAIXONADA pela amamentação, porque a complexidade do ato – que envolve não só mãe e bebê, mas a sociedade, mídia, questões de gênero, trabalhistas, de ética médica, de marketing predatório, meio ambiente e tanta coisa mais – faz com que esse tema seja interminável e sempre emocionante.
Sugiro a todo mundo que nessa semana – 01 a 07 de agosto – procure saber mais sobre amamentação. Escreva sobre o tema, ou divulgue apenas com uma foto, uma obra de arte, uma música… tem tanta coisa a ser descoberta e tanto a se fazer.
Compartilhe essa paixão comigo.
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Aqui já são quase uma e meia da manhã. Vou dormir, amanhã faço a lista de quem postou sobre a SMAM. Lembrem que vale a semana toda, até o dia 07… então, ainda dá tempo, pode ir deixando seu link no post abaixo :-)