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Maria Mariana e os problemas com seu castelinho de areia

Leia mais sobre Amamentação,Literatura,Maternidade.
Publicado na Wednesday, 13 May 2009

Quando eu vi a entrevista na Folha, tentei ignorar porque, pra mim, as barbaridades que essa moça diz e escreve são só jogada de marketing pra vender livro. Tudo muito bem planejado pra polemizar e ter seu nomezinho esquecido de novo na mídia. Me deu muita preguiça e vontade nenhuma de botar mais água no feijão.

Mas depois eu  recebi a entrevista que ela deu à Época (que tem o título “Deus quer o homem no leme”) numa lista de discussão sobre amamentação (e via email, de muitas amigas, obrigada, queridas) e percebi que muita gente estava incrivelmente bem impressionada com o que ela disse.

Aí, a coisa muda, eu não dou a mínima pra o fato de estar “promovendo” o livrinho irresponsável em questão, a gente tem de parar pra pensar e discutir o que significa o que ela disse. Sei que muita gente boa já fez isso (veja links abaixo), mas agora eu também quero dar meu pitaco. Desculpem o longuíssimo texto, talvez um dos meus posts mais longos, mas eu poderia ficar aqui escrevendo sobre isso por dias…

O problema das bobagens que a Maria Mariana disse não está nos detalhes, não é a cueca jogada no chão (aqui quem deixa a calcinha sou eu e é Ted quem apanha, na boa), isso não tem importância, mas é a monumental arrogância de mulher privilegiada financeiramente que se acha no direito de dizer o que as outras devem fazer e a defesa de uma filosofia de vida arcaica, que não pode trazer nada de bom pra ninguém, nem pra mulher, nem pra os filhos, nem pro seu companheiro.

Claro que é fundamental, acima de tudo, que toda mulher tenha direito de decidir o que é melhor pra ela e, sem dúvidas, parar de trabalhar e ficar em casa, cuidando dos filhos, é uma opção que deve ser respeitada. Adoro ver blogs de mães com bebês pequenos e lembrar dessa época. Francamente, no primeiro ano de Bia, nada, NADA, me interessava mais que ela. E foi muito bom. Mas é uma fase.

Acho que a entrevista dela faz tanto sucesso, em alguns meios, porque existe mesmo uma certa falta de compromisso de algumas pessoas (pais e mães) na criação dos filhos. Não vou escrever sobre isso agora, mas existe uma tendência a procurar o caminho mais fácil para a paternidade e maternidade. O problema é que a solução que a Maria Mariana oferece é retrógrada e coloca toda a responsabilidade nas costas da mulher.  Quem ganha alguma coisa com isso, além dela que está vendendo seu livrinho?

Ficar em casa por dez anos pra cuidar dos filhos pode até ser uma opção, mas enquanto OPÇÃO, ela existe apenas para poucas mulheres  que não precisam trabalhar pra sustentar a casa. Outra realidade, é a de mulheres que tiveram pouca oportunidade para estudar ou se desenvolver profissionalmente e acabam “optando” por ficar em casa porque não podem ter um emprego que compense sua ausência e os custos que ela traz. Isso não é opção, é contingência.

Seja como for, acho muito importante que seja uma opção (ou condição) muito bem informada, é preciso avisar às mães que essa decisão tem um custo e que ele pode ser muito alto. Claro que ficar em casa cuidando dos filhos pode ser bom, pode ter seus prazeres. A foto da Mariana rodeada de crianças é linda, mas atenção,  fofas, esse conto-de-fadas não dura pra sempre.

Parar tudo para ser somente mãe, como opção, é colocar nas mãos dos filhos o seu rumo, a sua felicidade e isso é injusto e um peso que eles não pediram. Mesmo sem ter um trabalho formal, eu diria às mães que nunca desistam de buscar essa tal “realização”, paralelamente, seguindo outros caminhos além da maternidade. Dia desses, vi uma entrevista com uma mãe americana dizendo que chorou três meses, sem parar, quando o filho foi pra faculdade. Virou um zumbi, não sabia o que fazer, não tinha identidade que não fosse ser mãe. Sentiram o drama? nem posso imaginar o que é isso.

Escrevo como uma mãe que teve a filha aos 22 anos e que aos 44 se vê morando muito longe dela e vivendo o que os americanos denominaram de “síndrome do ninho vazio”. Pois bem, graças ao meu constante compromisso comigo mesma, com meus desejos e minhas necessidades, meu ninho não está nada vazio e minha filha não precisa carregar o peso de ter uma mãe que não sabe o que fazer da vida, por ter parado tudo pra se dedicar exclusivamente a ela. Estamos quites, fiz (e continuo fazendo) tudo que era necessário pra ela ser uma mulher bacana e feliz, dei (e continuo dando) todo carinho do mundo, mas sem sacrifícios, ela não me deve nada e ela não está me deixando pra trás, estamos as duas seguindo em frente.

A postura da Maria Mariana é irresponsável por vender um “paraíso” que só existe para poucas e que, mesmo pra essas, é um belo de um castelo de areia. Definir sua existência através da maternidade é uma armadilha em que muitas mulheres caem e eu diria até que quase todas nós, por um certo espaço de tempo, mas as mais espertas conseguem escapar, para o bem dos seus filhinhos.

Enquanto seus companheiros estão construindo algo de sólido para eles próprios – uma carreira profissional, mantendo interesses individuais – elas investem em uma condição que lhes dá a embriaguês de ter um poder absoluto, afinal, quem mais poderosa que a mãe daquele bebezinho totalmente dependente? mas essa é uma sensação passageira e depois vem a ressaca.

Se tudo der certo, aquele filho a quem você se dedicava, exclusivamente, vai se afastar cada vez mais de você. Vai até lhe rejeitar, em algum momento, para poder se afirmar como indivíduo. E você tem de deixar ele ir, mesmo sofrendo com isso. Com o tempo, ele até volta, mas para estabelecer uma relação em outras bases. A gente vai ser sempre mãe, mas se você investiu sua vida em se afirmar através da maternidade, ao chegar esse momento, você está perdida.

Quem acompanha o blog sabe que eu adoro ser mãe. Nada é mais importante pra mim que Bia e, por isso mesmo, porque eu quero que ela seja uma mulher segura, tranquila, forte, eu nunca fiz nada que fosse cobrar dela depois.

H0uve um período em que viajei muito, pelo mundo todo, a trabalho, e sei que era difícil pra ela, que tinha cerca de 10, 11 anos. Mas sempre conversamos muito e ela sabia que eu precisava fazer isso. Talvez até sinta um pouco de culpa, bem no fundo, porque a nossa criação católica nos leva a isso, mas não me arrependo de nada, porque agora ela está solta no mundo e minhas oportunidades não voltariam, jamais.

Não acho que a minha filha – e todas nossas meninas – devem aprender a importância de ser independentes e lutar por direitos iguais  porque acho o feminismo “muderno”, ou para que elas possam “competir com os homens”, mas porque  essa é a única forma delas se sentirem fortes o suficiente para não aceitar a violência na primeira briga ou para deixar um relacionamento com um homem que está sendo abusivo, ou para construir sua história segurando as rédeas, sem precisar de alguém no leme. Isso não é óbvio?

Esse é o problema com a Maria Mariana, ela reforça o que pode ser mais danoso para nossas meninas, ao mesmo tempo colocando nas costas delas o peso do mundo.

“Ser mãe é um trabalho social, o maior deles. É um esforço para garantir a criação de indivíduos de valor, mentalmente sadios, que contribuam para o bem geral.”
A criação de filhos é um trabalho com função social, sim, o problema em relação ao que ela afirma é que esse é um trabalho que tem de ser compartilhado pela mãe e o pai da criança.
Claro que muitas crianças são criadas apenas pela mãe (ou somente o pai) e são pessoas bacanas, mas na minha opinião, essa criação deve ser compartilhada, seja com pai e mãe ou, como bem lembrou a Marina, dois pais, ou duas mães. Mas nenhuma mulher deveria ser forçada a ser a única a carregar o peso de dessa tal função social.  Tem um provérbio nigeriano que diz “é preciso uma vila (ou cidade ou comunidade) para se formar uma criança” (Ora na azu nwa).
“Respeito a história da maternidade de cada mulher (cof, cof, cof). Mas, depois que tive o parto normal, vi que é uma vivência fundamental. Se a mulher parir naturalmente, será uma mãe melhor. Todos falam do nascimento do bebê, mas esquecem que a mãe também nasce naquela hora.”
Será que todas as mulheres que estão deslumbradas com essa moça não conseguem perceber a monumental arrogância e burrice do que ela está dizendo?  então, ela mesma foi uma mãe pior porque teve uma cesariana no primeiro parto? é verdade que a mulher enquanto mãe nasce com a criança, mas, por favor, a forma como a criança sai de dentro dela pode até ter um impacto inicial, mas não vai ter nenhuma  influência no que ela vai se tornar como mãe. Tem muita mãe negligente que pariu de forma natural e muita que fez cesariana e é responsável e carinhosa.
Isso me cheira a oportunismo, a conversa mole pra conquistar as pessoas que lutam, seriamente, pelo direito da mulher a um parto normal. Me engana, que eu gosto, Mariana…

“Amamentar não é um detalhe, é para a mãe que merece.”

Se algum dia, Maria Mariana aparecer fazendo campanhas pró-amamentação vai ser o maior atestado de incompetência do nosso movimento, porque, pra mim, o que ela está propagando com esse livro é muito pior para nossa imagem do que aquela declaração da modelo gostosa de que não quer amamentar por vaidade.

Apesar de considerar uma pena, eu defendo o direito de toda mulher a não amamentar, se não quiser, seja pela razão que for, inclusive pelas mais egoístas.  Não somos maquininhas de produzir leite e o nosso papel, enquanto defensores da amamentação não é o de julgar uma a uma, mas de defender a construção de uma sociedade que estimule e apoie as mães a amamentar. Isso sim, faz diferença.

O que a Maria Mariana disse é o oposto disso, é um retrocesso, muitos passos atrás num caminho que eu comecei a percorrer há 20 anos. Amamentar não tem nada a ver com merecimento, com sacrifício e eu detestaria pensar que passei todos esses anos defendendo a amamentação para que algumas privilegiadas se sentissem “especiais” por amamentar.

“Há mulheres que passam nove meses no shopping, comprando roupinhas, aí depois marcam a cesárea e pronto. Acabou o processo. Aí sabe o que acontece? Elas têm depressão pós-parto.”

Ai, nem vou comentar muito, né? só falta ela pular no divã de Ana Maria Braga. Pirou de vez, dondoca??? é só mais arrogância e desprezo pelas dores humanas bem reais, coisa de quem vive em castelo de areia mesmo.  Saiu do castelo do pai, pro dos filhos. Amigas, que tiveram depressão pós-parto, nem levem isso em conta, ela não tem nem idéia do que está falando.

“Não acredito na igualdade entre homens e mulheres. Todos merecem respeito, espaço. Mas o homem tem uma função no mundo e a mulher tem outra. São habilidades diferentes. Penso nesta imagem: homem e mulher estão no mesmo barco, no mesmo mar. Há ondas, tempestades, maremotos. Alguém precisa estar com o leme na mão. Os dois, não dá. Deus preparou o homem para estar com o leme na mão. Porque ele é mais forte, tem raciocínio mais frio. A mulher tem mais capacidade de olhar em volta, ver o todo e desenvolver a sensibilidade para aconselhar. A mulher pode dirigir tudo, mas o lugar dela não é com o leme.

Dá até preguiça de comentar, precisa? deixo pra vocês, porque tô ficando cansada… digamos que ela estivesse certa (Deus me livre!), mas e quando o cara abandonasse o leme? ela ia ter de aprender a dirigir, ia procurar outro comandante ou ia ficar à deriva? é isso que eu falo de castelo de areia… tenho muita pena das filhas dessa mulher.

(sobre o movimento feminista) “Teve seu momento, foi fundamental para abrir espaços, possibilidades. Mas as necessidades hoje são outras. Precisamos unir a geração de nossas avós com a de nossas mães para chegar a um equilíbrio feminino. Eu não sou dona da verdade.”

Sei… a lunática, perdida no seu “mundo-de-faz-de-contas” acha que o movimento feminista já teve seu tempo, “abriu espaços, possibilidades”, agora tá tudo muito bem, né?  não interessa a quantidade de mulheres vítimas de violência doméstica, todos os dias, inclusive ali no seu quintal, em Macaé… afinal, pra Maria Mariana, a vida é cor-de-rosa.

“Quero dizer às jovens do mundo de hoje que existe uma pressão para que elas sejam autossuficientes profissionalmente, sejam mulher e homem ao mesmo tempo, como se fosse a única forma de realização.”

Tudo que ela diz é tão caricato. Desde quando ter autossuficienbcia profissional (seja lá o que for isso) é coisa de “homem”?

Existem várias formas de se sentir realizada. E elas mudam, ao decorrer da vida, e são simultâneas, e são diferentes de pessoa pra pessoa, não tem regra. Mas tem apenas uma coisa que as “jovens do mundo de hoje” precisam ouvir de mulheres mais velhas, o caminho mais seguro é a independência financeira e isso não tem a ver com pressão por sucesso, por riqueza, nem exclui a possibilidade de, em algum momento da vida, ter menos dinheiro que o companheiro, ou parar de trabalhar um tempo para cuidar dos filhos. Mas se eu não ensinar essa regra básica pra minha filha -  procure a sua independência – estarei sendo completamente irresponsável.

“Para isso, elas têm de desenvolver agressividade, frieza – sentimentos que não têm a ver com o que é ser mãe. O valor básico da maternidade é cuidar do outro, doar, servir. Nada a ver com o mundo competitivo. Maternidade é tirar seu ego do centro.”

Na minha opinião, como sempre, tá tudo errado no que ela disse. Ninguém precisa ser fria e agressiva pra ser “profissionalmente autossuficiente”. E nenhuma mãe pode sobreviver sem nem um pingo de agressividade (para defender sua cria, quando necessário) e frieza (para saber dizer não aos filhos, quando precisa). Como sempre, conversa furada, sem substância, para defender o indefensável.  E nem vou lembrar a enorme competitividade que existe entre mãe e filha, entre irmãos, tudo aprendizado pro mundo real, bem diferente do preconizado pela neo-conservadora.

Casamento é um degrau que a pessoa tem para caminhar para a frente. Quem opta por ficar sozinho não desenvolve aprendizados que o casamento dá. Apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. As pessoas pensam em união apenas como o espaço da alegria, do conforto. Casamento é embate, negociação e paciência. É preciso insistir e vencer. Saber que não se muda o outro. É preciso mudar a nós mesmos.

Eu posso ver a excitação nos olhinhos claros da moça, ao dizer isso, só contabilizando as moedas que irá embolsar de venda do livro, ao ter um mundo de gente polemizando e reclamando da aberração que ela disse.  Promoção barata de quem precisa fazer papel de idiota para ressuscitar uma carreira enterrada não pela maternidade, mas por falta de coragem e talento.

E por que estou escrevendo sobre isso? porque não dou a mínima para o quanto ela vende e o que ganha com isso, mas me incomoda muito que as pessoas leiam tudo sem analisar, sem perceber a crueldade do que foi dito nessa entrevista, em relação a outras mulheres, sem perceber que ela não está fazendo nenhum bem aos movimento de defesa da amamentação ou de parto natural, pelo contrário, ela está nos constrangendo ao defender nossas bandeiras de forma autoritária, arrogante,  irresponsável e inconsequente, apenas com o objetivo de vender seu livrinho vagabundo e sustentar sua vida de dondoca num castelo de areia, prestes a ruir.

Adendo

A Kathy, lá no blog Mamíferas, leu o livro e apesar de ter gostado, cita mais umas bobagens dita pela Mariana que eu não sabia,

“Em certos momentos, porém, Mariana parece “ditar regras”, o que me incomoda um pouco. Diz, por exemplo, que a idade ideal para ser mãe é entre 20 e 30 anos de idade “Antes é cedo e depois é tarde”.”

A própria autora respondeu, lá mesmo:

“A idade certa para ser mãe é estabelecida pelo nosso proprio organismo, não fui eu que inventei!”

Tá certo, D.Maria. Já vi que eu ia era ter muita raiva se fosse obrigada a ler esse livro.

Também escreveram sobre o assunto:

  • As confissões de Maria Mariana sobre maternidade e cuecas sujas – Escreva Lola Escreva
  • As confissões de Maria Mariana – Cynthia Semiramis
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  • Dando Milhos aos Pombos – Inconfidência Mineira
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  • Polêmicas confissões? ou Polêmicas Reações? – Futuro do Presente
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