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Os EUA, como eu vi por lá – II

Leia mais sobre EUA.
Publicado na Friday, 21 November 2008

Antes de mudar, de Washington pra Seul, comecei uma série de posts que nunca terminei (eu sei, vivo fazendo isso, sou uma blogueira indisciplinada mesmo!), mas acordei agora (à meia noite aqui na Coréia, meio dia pelo meu relógio brasileiro biológico) decidida a contar umas historinhas da terra de Obama pra vocês.

Primeiro, repito, quem pensa que tudo é bem “certinho” no (ainda) chamado país mais poderoso do mundo, está redondamente enganado.

O que nós conhecemos como jeitinho brasileiro também tem por lá, igualzinho, pro bem e pro mal. Com uma cultura de altíssima competitividade, o objetivo é fazer você consumir e pra isso, vale estratégia de todo tipo.

Um exemplo interessante desse jeitinho americano, foi o que aconteceu na minha última visita a uma loja de roupas femininas (vou evitar dizer o nome, just in case). Como passei um bom tempo por lá provando e escolhendo e ia saindo carregada de coisas pra mim e pra Bia, a moça que estava me atendendo, muito gentil, achou que eu merecia um desconto maior que os 20% já oferecido pela loja.

Comentou que, se eu abrisse um cartão de crédito da loja, ela me poderia me dar, automaticamente, mais 15% de desconto. Expliquei que estou morando fora etc mas ela disse que a gente poderia, simplesmente, dar entrada no pedido, pra que ela pudesse liberar os 15% e nem tinha importância se eu ficaria ou não com o cartão.

Como eu topo tudo, por desconto, já me animei. Mas, tinha esquecido de levar o meu número de “seguro social”, que é como o meu CPF no Brasil, e nunca consegui decorar o tal numerozinho, quando preciso, tenho que checar uns dados online. Então ela sugeriu que eu… inventasse um número qualquer e colocasse no formulário!

Como não conseguia imaginar nada, ela mesma ditou um número, aleatoriamente e bem clandestinamente, pra chefe não ouvir. Claro que a manobra não funcionou, porque o computador da loja identificou que essa pessoa com aquele nome e aquele SSN não existia.

Ainda assim , ela não desistiu e disse que, se eu quisesse, poderia pagar tudo e levar e voltar no dia seguinte, com todos os documentos, ela registraria todos os produtos como devolução e venderia, novamente, dessa vez com o desconto de 15%.

Como eu tinha que voltar mesmo, pra trocar umas roupas que ficaram grandes pra Bia e comprar outras coisinhas que ela adorou, lá fui eu no dia seguinte, com meu SSN, greencard etc. Ela fez como prometeu, retornou todas as peças e tentou passar a minha documentação.

O problema é que a máquina tinha que ler meu nome no meu cartão de crédito – onde consta Denise Arcoverde – mas ao dar o meu número de SS, o nome que está registrado é Denise Maria da Costa Arcoverde, então, era impossível fazer o cartão assim, automaticamente, porque a máquina não reconhecia meu nome, para nosso desapontamento.

Enfim, acabei passando as roupas de novo e ficando com apenas meus 20% (que já eram em cima de muitos outros descontos anteriores, deixando a roupa até 10 vezes mais barata!) e a vendedora ficou sem a comissão que eu sei que ela receberia, se eu abrisse um cartão de crédito com ela, na loja.

Toda essa manobra, é um exemplo, apenas, do quanto se tem jeitinho pra tudo nos EUA e, do mesmo jeito que pode ser um jeitinho que vai lhe beneficiar, como nesse caso, é fundamental ficar de olho, porque acontece de tudo e, quem não reclama, pode acabar pagando muito mais do que poderia. Acho que, por isso, existe essa cultura de “processar” tudo e todo, é um mecanismo de defesa legítimo, diante de tanta empresa tentando lhe emgabelar.

Depois de quatro anos nos EUA, descobrimos que, quase sempre, a gente pode pagar menos pelas contas. Pagávamos uma grana alta pela TV a cabo, até o dia em que decidimos cancelar. Bastou um telefonema pra que nos oferecessem uma proposta irrecusável, que nos deixou sentindo ainda mais otários porque, afinal, se podíamos pagar tão pouco, porque pagamos tanto, por anos?

Mesma coisa com os cartões de crédito. Uma vez me cobraram uma taxa de 40 dólares por ter extrapolado meu limite. Telefonei reclamando que nunca soube que isso seria cobrado, que eles deveriam, simplesmente, ter refutado, na hora da compra. A moça garantiu que estava no contrato e eu disse que as letras eram miúdas demais pra ler tudo. ameacei cancelar o cartão e ela perdoou, imediatamente, a tal cobrança.

Aliás, tentar cancelar cartão de crédito é um ótimo negócio (acho que em qualquer lugar do mundo). Esse é um cartão da United Airlines e, cada vez que eu tento cancelar, eles me dão mais 10 mil milhas. Eu vou ficando e aumentando minha chance de viajar.

Enfim, essa maleabilidade americana deve ter a ver, também, com o lugar em que se vive. Talvez em Utah seja mais difícil encontrar alguém como a moça da loja feminina, capaz de cometer uma irregularidade desse tamanho (forjar um número de documento!), pra ganhar uma comissãozinha a mais, mas em Washington, DC, isso foi muito mais comum do que se imagina, nos nosso 4 anos de moradia.

O pior mesmo, foi o roubo de que fui vítima, continuadamente, no correio de onde eu enviava minhas encomendas. Mas sobre isso, escrevo outro dia, senão vou perder meu sono de vez, de tanta raiva que me dá quando me lembro… aguardem!

E vocês? também já tiveram experiências desse tipo, por onde moram?

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