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Cesáreas sobem de 27,7% para 45,2% em 22 anos

Leia mais sobre Maternidade.
Publicado na Tuesday, 04 November 2008

Deu na Folha de São Paulo, de hoje
FLÁVIA MANTOVANI

Em pouco mais de duas décadas, passou de 27,7% para 45,2% o índice de cesarianas. E o número de partos induzidos (apressados com remédios) subiu de 2,5% para 11,1%. Os resultados são de uma pesquisa brasileira que acompanhou mais de 15 mil nascimentos entre 1982 e 2004.

Trata-se de um dos maiores estudos epidemiológicos do país, que acompanhou, em 1982, em 1993 e em 2004, todos os nascimentos da zona urbana de Pelotas (RS). Foram 4.287 bebês em 2004. As crianças continuam sendo estudadas ao longo da vida.

Esse e outros dados sobre saúde materno-infantil coletados na pesquisa foram publicados numa edição especial dos ” Cadernos de Saúde Pública “, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Para Aluísio Barros, professor do departamento de medicina social da Universidade Federal de Pelotas e um dos coordenadores da coorte (grupo de nascimentos acompanhado) de 2004, o aumento nas cesarianas é preocupante porque tem a ver com uma maior opção pelo método por parte dos médicos ou das mães, muitas vezes desnecessariamente. “Escolhe-se a cesárea porque é mais prática, dá para marcar dia e hora, escolher o signo da criança. O obstetra consegue se programar. E há quem perceba a cesárea como algo mais seguro por envolver tecnologia, o que é falso. Sabe-se que [o aumento no número de cesáreas] acontece no país inteiro, e vem aumentando ano a ano”, diz. O índice é bem maior no serviço privado (82,4%) do que no público (34,1%).

Ele afirma que, apesar de o estudo ser feito só em Pelotas, os dados podem ser extrapolados para outros lugares do Brasil. “Pelos indicadores do censo, Pelotas se comporta de uma maneira muito parecida com a média nacional. As tendências que se observam aqui se refletem no país.”

Segundo Marcos Ymayo, ginecologista e obstetra do Hospital Santa Marcelina, há indicações médicas para a cesárea, como quando o bebê está sentado ou não passa pela estrutura óssea da mulher. Mas ele diz que o procedimento não deve ser banalizado, pois aumenta o risco, por exemplo, de hemorragia, infecção e de complicações no pós-operatório em relação ao parto normal.

Ele conta que um demógrafo americano que pesquisou o fenômeno em capitais brasileiras mostrou que as mulheres acabam optando pela cesárea porque são culturalmente induzidas. “A vizinha, a irmã, a atriz famosa fazem.

Os hospitais têm hotelaria voltada para cesárea, os médicos optam por uma questão de comodidade da agenda. Há a famosa síndrome da “cesárea do fim de semana”, quando o médico marca as cesarianas para quinta para ficar livre no sábado e no domingo”, diz. Ymayo lembra ainda que é mais vantajoso financeiramente para o médico fazer cesarianas, o que leva muitos a optarem pela cirurgia.

Prematuridade

Outro dado encontrado pelos pesquisadores -o aumento no número de crianças prematuras, de 6,3% em 1982 para 14,7% em 2004- pode ter uma relação com o maior índice de cesáreas e partos induzidos.

Ao realizarem cesarianas antes de a mulher entrar em trabalho de parto, muitas vezes os médicos acabam tirando o bebê antes de ele completar 37 semanas, limite até o qual ele é considerado prematuro. “Não é só culpa da cesárea, mas é uma hipótese. Muitas vezes o obstetra estima a idade gestacional pelo ultra-som, mas o exame tem um índice de erro relativamente grande, e a criança pode nascer antes”, diz Barros.

Ele diz que nota uma medicalização geral do parto, que pode ajudar a explicar o aumento.
“Nossa sensação é que o obstetra confia muito na UTI neonatal cheia de tecnologia e, se a criança tem qualquer problema, prefere interromper a gravidez e fazê-la nascer a monitorá-la
dentro da barriga”, afirma.

(Colaborou RACHEL BOTELHO, da Reportagem Local)

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