Por que Lituânia?
Já falei bastante sobre a Lituânia, mas queria só contar, um pouquinho, porque decidi visitar esse país.
Quando eu tinha 16 anos, li o livro Os 10 Dias que Abalaram o Mundo (lançado na série pocket da LPM), de John Reed, que inspirou o filme Reds com Diane Keaton e Warren Beatty (foto).
Ele conta a história de um jornalista americano e sua esposa, que estão na Rússia em 1917, durante a revolução bolchevique e vêem o evento com o idealismo, que esperam trazer pros EUA. A história é linda, épica, misturando tudo que uma garotinha de 16 anos pode querer: idealismo, esperanças, dramas sentimentais.
Assisti a Reds no belissimo cine São Luis, gazeando aula do colégio e em companhia de um militante do MR-8 por quem eu era apaixonadíssima, na época. Muito novinha, me imaginava naquelas reuniões comunistas bolchevique e era totalmente deslumbrada com a revolução do proletariado.
Achava que os países que faziam parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, entre eles a Lituânia, estavam reunidos por livre e espontânea vontade, como forma de defender o comunismo.
Aos poucos, claro, minha ilusão foi se dissipando e eu fui entendendo a relação de poder e violência da Russia em relação aos países da USSR, acompanhei a queda do comunismo no Leste Europeu (a Lituânia foi o primeiro país a se insurgir contra a Russia). Por isso, sempre tive curiosidade de conhecer um pouco o resultado de uma história que foi parte importante da minha adolescência.
Um pouco da história
Desde o início da sua história, lá pelo século XI, a Lituânia tem sido vítima de invasões pela Suécia, Polônia, Alemanha e a Russia, e sempre lutou por sua autonomia, tendo poucos anos de independência. Isso resultou em pobreza e, claro, tem relação com a falta de belas construções, como existe em Estocolmo, por exemplo. Somente o centro histórico de Kaunas, foi destruido e reconstruido 13 vezes.
Essa foto ao lado, mostra o Gates of Dawn, que é um local de peregrinação de católicos do Leste Europeu. Vilnius tinha nove portões, que foram destruídos. Esse se manteve, integralmente, porque acredita-se que Santa Maria apareceu aqui e, por ser um local sagrado, nenhum inimigo se atreveu a destruí-lo. Foi construido em 1503-1522.
Em 39, Hitler e Stalin dividiam o controle da Lituânia, através do pacto Molotov-Ribbentropp. Entre 41 e 44, mataram 200 mil judeus, 94% de toda a comunidade judaica da Lituânia. A partir de 7 de julho de 1944, a Lituânia foi reincorporada à USSR. No período em que esteve subjugada à União Soviética, um quarto de sua população foi enviada para os Gulags da Sibéria.
Diz-se que, no dia 23 de agosto de 1989 um número estimado de dois milhões de lituanos, estonios e letões deram-se as mãos, numa corrente humana de 650km que ia de Tallin (capital da Estonia) a Vilnius (capital da Lituânia), num protesto ao 50o aniversário do pacto Molotov-Ribbentropp.
No dia 11 de março de 1990, a Lituânia foi o primeiro país a declarar independência da União Soviética. As últimas tropas partiram em 93, mas Moscou impôs um boicote econômico à Lituânia, que tinha sido, até então, totalmente dependente da União Soviética e teve que enfrentar a pobreza e a reconstrução da sua estrutura econômica.
Em 91, o país foi reconhecido pelas Nações Unidas e em 2004, foi integrado à União Européia, mas foi o primeiro país a ter negado o direito de adotar o euro, por ainda ter uma inflação elevada para os padrões da UE.
A situação atual

Apesar do crescimento econômico pós-União Soviética, a pobreza, do país é visível por todos os lados, não apenas nos subúrbios, mas mesmo no centro histórico (que foi reconehcido patrimônio histórico da humanidade, pela Unesco). Visitando alguns foruns de discussão sobre a Lituânia (antes de viajar), percebi algumas similaridades com o que se fala do Brasil.
As lindas mulheres lituanas são, muitas vezes, vistas pelos outros europeus como “caça-gringos”. Num desses fóruns um imbecil britânico (pois é, não é apenas por aqui, não), dizia que as mulheres lituanas são fáceis e fazem o que eles querem, mas que os rapazes devem tomar cuidado, porque o que elas querem é arrumar alguém que as tire do país e leve para um lugar mais “rico”. Triste de ler e um conceito bem familiar à gente.
Enfim, é um país em reconstrução, são apenas 15 anos de independência, não é nada em termos históricos. Estou torcendo por eles.
Algumas curiosidades sobre a Lituânia:

Karaliaus (pronuncia-se Karalhos) significa REI em lituano… hehehehe… (Pintura: Karaliaus Mindaugo)
Ainda assim, é o pais do mundo com maior índice de suicídio masculino 81.9 para cada 100.000 pessoas (Brasil tem 4.6 por cada 100 mil).
Numa dessas pesquisas esquisitas sobre níveis de felicidade, a Lituânia é o quarto mais mais infeliz (antes dele apenas Letônia, em “primeiro lugar”, seguido de Slovakia e Estonia. Segundo essa pesquisa maluca, o Brasil é 27o país mais feliz e o mais feliz é a Venezuela…
Fotos de cima para baixo, da esquerda para direita:
1. Subačiaus vartai. Um dos portões medievais da cidade.
2. Adoro essas plaquinhas de algumas lojas de cidades européias.
3. Reflexo da torre de uma igreja, na janela do Gates of Dawn.
4. Mais uma igreja
5. Carimbos-Arte, por toda parte
6. Belíssimo colar com âmbar e pedras locais.
7. Cepelinai (Zepellin), prato típico da Lituania, duas bolinhas de batata, recheadas com carne com molho de queijo, manteiga, especiarias, pedacinhos de bacon. Como diz a Cris, é de comer rezando. No melhor restaurante da cidade, no centro histórico, custou 10 litas, ou cerca de 8 reais.
8. Adorei essa figa, estrategicamente colocada uma das janelas de uma casa do centro histórico, onde todo mundo dá uma espiada quando passa.
9. Eu, no centrão histórico.
10. Essa estátua é linda e tem um estilo que lembra as estátuas do realismo soviético, fica do llado de mais uma igreja (sorry, não guardei o nome de nenhuma delas), por onde eu passava todos dias, vindo do ou para o hotel.
11. Como falei, os carros são velhos e coloridésimos. Destaque pro Lada (russo) verde limão.
12. Feirinha de artesanato com lindos colares de âmbar (o produto mais típico da região) é o que não falta. Comprei um pra mim e um pra mammys.
13. As ruas têm muitos arcos como esses, que dão para outras ruas, o que faz um belo labirinto.
14. Vista panorâmica de parte da cidade, do Subačiaus vartai, que fica numa colina.
15. Muita pobreza. Essa casa me lembrou as favelas brasileiras, e não são raras construções como essa, que encontrei entrando por um desses arcos, em pleno centro histórico. Imagine essas casas de madeira, num frio de -24, sem aquecedor.
16. E a rainha Elizabeth, da Inglaterra, também esteve em Vilnius, pela primeira vez, no mesmo dia que eu. Vi seu chapelão, de longe, mas nada de fotos. O povo estava todo nas ruas. Como tinha show de Seal no mesmo dia, ao chegar na praça principal, pensei que podia ser ele até perceber bandeirinhas britânicas por toda parte. A cidade tava uma alegria só. A rainha estava nos países báticos lançando um prêmio internacional para jovens.
17. Fofo esse menininho tocando (mal) nas ruas por umas moedas, coisa comum por toda Europa. Adoro.
18. Bom, e essa é a foto mais esperada por algumas amigas. Essa é a famosa rua onde ficava meu hotel. Como vocês podem ver, do lado direito, tem uma fábrica enorme, desativada, com portas e janelas quebradas e abertas. Do outro lado, um matagal. Nenhuma luz. E eu, voltando pra casa com tanto medo que quase tenho um ataque de tanto correr, sem conseguir nem respirar direito. Preciso melhorar minha forma física urgentemente.
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Os Porões da KGB

O Museu das Vítimas de Genocídio foi o momento mais emocionante da viagem a Vilnius. Fica num prédio onde, entre 1940 e 1991, se encontrava a KGB, a famosa polícia soviética e nos seus porões, entramos em celas onde os prisioneiros políticos e judeus eram torturados e executados. É de arrepiar.
Nas fotos, algumas coisas que me chamaram mais atenção.
1. As roupas de camuflagem branca (por causa da neve), feitas pelos próprios soldados lituanos, que tentavam lutar contra a invasão russa e alemã. Na foto maior, de fundo, um casal de soldados lituanos brinca. Morreram poucos dias depois, em batalha.
2. Várias mulheres lutavam no front.
3. Um oficial, posando com uma flor, na chegada da primavera, em plena guerra… “sem perder a ternura jamais”.
4. Uma farda.
5. Uma das mulheres lutando na resistência.
6. Já no porão, as celas, com portas abertas. Essa primeira é impressionante, vocês podem ver que tem um alcochoado amarronzado na porta, ele cobre toda a parede da cela, que era usada para as torturas quando o prisioneiro ou prisioneira gritava muito, para impedir que se ouvisse seus gritos.
7. Cela para quatro prisioneiros. Francamente, não pude evitar a comparação com as prisões brasileiras. Essa aí é um hotel cinco estrelas, se comparado com as nossas prisões. Uma cela dessa teria, no mínimo 10 vezes mais gente.
8. Cela com a farda do prisioneiro e seus utensílios para se alimentar.
9. Fotos de prisioneiros mortos nesse local.
10. Câmara de execução, onde mais de 100 pessoas foram executadas, um terço dessas pessoas por resistirem à ocupação soviética.

Prédio durante a ocupação soviética |

Rosário feito de pão, num campo de concentração
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PS.: Aproveite, e dê uma olhadinha nas fotos que eu fiz no Museu da Ocupação da Letônia, que fiz em Riga, ano passado. Segundo o Museu, a Letônia perdeu 550 mil pessoas durante a ocupação alemã e soviética, um terço da população.