
A princípio, a idéia da exposição, divulgada pela TPM, parecia boa: mostrar a cara das mulheres brasileiras que vivem na Inglaterra. Olhando a galeria de fotos, direitinho, percebi que, estranhamente, só tem uma negra (loira) e a maioria das que “venceram fora do Brasil” é formada por brancas, lindas e jovens. Nada contra as moças que foram fotografadas, claro, a maioria parece gente boa mesmo. Mas, será essa a cara da brasileira na Inglaterra e em outros países?
Lendo a matéria, a coisa pareceu ainda pior. Num festival de preconceitos, a jornalista Erika Sallum afirma:
“Não fazem parte da mostra fotos de imigrantes ‘cucarachas’ sofridas que só pensam em juntar dinheiro e voltar para o Brasil. O fotógrafo mineiro Luiz Fernando Gomes, que mora em Londres desde 2004, quis fugir dos estereótipos negativos que rondam a imagem dos brasileiros no exterior.”
Eu não tenho nenhum problema em me identificar com “imigrantes ‘cucarachas’ sofridas”, muito pelo contrário. Tenho um orgulho danado dessas mulheres brasileiras, salvadorenhas, mexicanas, que estão ralando pra sustentar suas famílias. Eu não preciso lavar pratos pra garantir minha sobrevivência por que sou uma pessoa privilegiada, sempre tive sorte na vida (ou vocês acham que nascer numa família que têm possibilidades de lhe colocar nas melhores escolas não é puramente uma questão de sorte?), mas não sou nem um pouco melhor que elas.
Também não acho que é indigno pensar em “juntar dinheiro e voltar pro Brasil”. Pra começar, muitas delas nem teriam saído de lá se tivessem tido as mesmas oportunidades que eu e muitas de nós tivemos. E se pensam em voltar é porque não se sentem integradas, sendo marginalizadas, não somente pelos americanos, mas pelos próprios brasileiros que vivem aqui.

Parece que, para o tal fotógrafo brasileiro, sinônimo de estar de bem com a vida, é ter dinheiro, posição social e frequentar os lugares descolados da capital londrina.
Tenho amigas que vivem em favelas, no Brasil, e posso garantir que têm lá os seus momentos de muita felicidade, quando vão pra o pagode ou quando se reúnem com a família. Uma delas, que vive num lugar barra pesadíssima, é a mulher mais feliz que eu conheço, com todas as dificuldades que enfrenta, estando desempregada e sem muita perspectiva de melhorar de vida.
Da mesma forma, aqui nos EUA, também, as “cucarachas sofridas” são mulheres batalhadoras, que também têm seus momentos de estar “de bem com a vida” e que podem ser consideradas tão vitoriosas quanto (ou muito mais) a “patricinha” que estuda Artes em Londres.
Ainda assim, vejo muita brasileira, fugindo dessas “pobres coitadas” como quem foge da cruz. É o medo de ser contaminadas pelo estigma de pobreza e ilegalidade.
A Ana Lúcia abordou isso muito bem nesse post:
“Infelizmente, uma vez tendo imigrado na França (devem existir outros exemplos em relação a quem esteja na Alemanha ou outros países europeus), o brasileiro reproduz em solo ‘estrangeiro’ o mesmo comportamento que teria diante do morador da favela que está ali debaixo do seu nariz.”
O problema é que, basta pisar em solo estrangeiro e alguns brasileiros, privilegiados, fazem tudo pra se diferenciar dos que não são “vitoriosos”. Dia desses, o Leo, que também vive em Montreal, como a Ana Lúcia, perguntava porque a gente não vê brasileiros nas passeatas de protesto de imigrantes por aqui.
É que aqui, os favelados e nordestinos são os brasileiros que não tem documentos legais e os outros latinos, especialmente salvadorenhos, mexicanos, bolivianos, peruanos. “Não somos latinos, somos brasileiros”. Sei…
Com certeza, é isso que a jornalista pensa, quando diz:
“Se você estiver a caminho de Londres não deixe de dar uma espiada lá. Não é sempre que a gente se orgulha de ser brasileiro quando está fora do país.”
“A gente” quem, cara pálida? não preciso ver foto de brasileira auditora da Ernest & Young na Inglaterra pra ter orgulho do meu povo.
Enfim, acho isso tudo muito, muito triste e vergonhoso. Aqui em Washington, DC, a quantidade de latinos é enorme. No meu prédio tem uma senhorinha pernambucana que trabalha como doméstica na casa de uma americana bem velhinha. Tem 70 anos e está aqui há 30.
Ela fala pouco inglês, porque sempre viveu cercada de brasileiros e nunca pôde estudar, porque precisava trabalhar o dia todo. Mas é uma batalhadora que conseguiu uma vida digna e a quem eu admiro muito, adoro conversar com ela, sem medo nenhum de que os americanos esnobes do meu prédio me “confundam” com uma “cucaracha sofrida”.
Também me divirto muito, batendo papo com essas mulheres “invisíveis” que fazem limpeza, que nos servem nos restaurantes, que cuidam das velhinhas no meu prédio, que fazem a faxina nos banheiros dos shopping centers… “Hablo en portuñol” e adoro arrancar muitos risos delas com minha pronúncia infame.
Essas, sim, são as verdadeiras vitoriosas e só temos a aprender com elas, com sua força e sua coragem…
“Shame on you, Mr. Gomes, shame on you!”
PS.: Além de tudo isso, a jornalista que fez matéria deu uma mancada inacreditável, ela diz: “Atualmente, cerca de 100 mil brasileiros vivem legal ou ilegamente somente em Londres e seus arredores. Trata-se do país com o mais número de brasileiros em todo o mundo.” É piada, né? Somente aqui, na região que a embaixada brasileira de DC tem jurisdição, são mais de 60 mil brasileiros registrados, fora todos os ilegais. A TPM já foi melhor…