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Eu voto em Dilma!

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Nina Simone

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  • .@alexcastrolll foi GRANDE mancada de Dilma dizer q quem "ñ cria os filhos no BR" ñ é confiável, mas político morando em Miami, ñ dá mesmo. 2 days ago
  • Passageiro é preso ao ofender atendente negra em aeroporto de Belém http://bit.ly/9V2aDS 3 days ago
  • Impressionante o vermelhidão pelo Brasil afora, mostrado no infográfico: http://ow.ly/2wKab É Dilma em quase todo país! #ondavermelha 3 days ago
  • Um tutorial fantástico (mas em inglês) sobre como fotografar coisas miúdas (como artesanatos, bijoux etc.) http://ow.ly/2wJd9 Muito bom! 3 days ago
  • Modern Family: mericidíssimo! é muito, muito, muito divertido e inteligente, mal posso esperar pela próxima temporada \o/ 3 days ago
  • Eu gosto de Mad Men, mas não me empolga. Vou tentar ver com mais atenção. Prefiria Breaking Bad. #emmy 3 days ago
  • Estou impressionada com o ódio de algumas pessoas de classe média contra Lula e o PT e o desprezo contra o povo que "não sabe votar" =0 3 days ago
  • Nessas horas prefiro mesmo estar longe do Brasil, imagino como deve ser aguentar esse povo no pé do ouvido, todo dia... que pena. 3 days ago
  • Algum stream do #emmyawards funcionando aí? 3 days ago
  • Sério que Jack (Lost) achou que tinha alguma chance de levar o prêmio, no meio daquelas feras? #delusional #emmy 3 days ago
  • Se amantes de séries tinham dúvida em assistir Breaking Bad: os dois atores, principal e coadjuvante levaram o Emmy. E eles arrasam mesmo. 3 days ago
  • Tô percebendo que nós vemos MUITAS séries aqui em casa =) Breaking Bad é genial. Para baixar: http://ow.ly/2wuCt #emmyawards 3 days ago
  • Em Pernambuco, Dilma tem 71% contra 17% de Serra. Lembrando que Jarbas é um dos poucos que não esconde Serra na campanha (Via @maria_fro) 3 days ago
  • Tô pronta pra yoga e não consegui sair pra ficar vendo o #emmyawards eu sei, uma perda de tempo, mas é tão divertido pra quem vê as séries!. 3 days ago
  • #emmyawards YES! adorei! Ela está divina em Nurse Jackie. Se vocês não assistem, baixem todos episódios! =) 3 days ago
  • #emmyawards queria Edie Falco, Collete já ganhou ano passado =) 3 days ago
  • Bazzzingaaaaaaaaa!!! adorei o Sheldon levando o prêmio. Adoro Big Bang Theory e ele é o melhor =) #emmyawards 3 days ago
  • Obrigada @gloriafperez @anunci @VLSaT @its_reis @janlamour @Leticiabon @malu_mad @marinamts Já estou vendo também =) 3 days ago
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E você?

Denise | Me myself and I | Wednesday, 31 August 2005

listeningliechtenstein.jpg

Ouvindo: “The hunter gets captured by the game” com Massive Attack e Tracey Thorn.

A Marilia escreveu assim:

“Não sei bordar, não sei costurar, não sei tricotar, não sei fazer crochê, gostaria de saber pintar, gosto de desenhar – geralmente rostos, danço do meu jeito. Canto no carro, no quarto,acompanhando a música que estiver tocando,queria aprender a tocar violão e piano.Adoro artes em geral. Gosto muito de fotografia. Adoro ler. Louca por cheiros, sabores e sensações – sou ariana… Sou desorganizada mas acabo me arrumando.Gosto de alguns animais, plantas e algumas pessoas. Cabelos sempre curtos e nunca acima do peso, mesmo sem fazer dieta. Sorrindo por fora e chorando por dentro. Me viro na cozinha e não sou de comer muito. Não tenho conselhos para dar e tampouco dinheiro. Já amei mais, não pise nos meus calos que viro uma fera.. Gosto de frio, de chuva, de praia, da noite, da Europa, da Oceânia… Não vivo onde gostaria mas sobrevivo dia após dia. Devo, não nego, pago quando puder. Adoro receber presentes e elogios, recebo mais do que dou. Cobro atenção e boa educação. Cuidado,posso morder. E você? “

E eu digo que:

“Não sei bordar, não sei tricotar, não sei fazer crochê, não sei desenhar nem pintar. Mas sabia costurar um pouquinho. Danço muito, qualquer coisa, adoro dançar. Adoro música alta. Não sei tocar nada e canto muito mal, mas canto no banheiro. Adoro fotografar e ler e ver muita arte. Adoro cheiros. E cheiros. Sou leonina, passional e leal. Dragão no chinês, mais passionalidade. Gosto muito mais de pessoas do que de animais e plantas. Cabelos sempre longos e vivo de dieta. Não cozinho quase nada, apenas arroz com dal. Se pudesse comia muito, principalmente bolo de milho. Vivo rindo. Adoro dar e receber conselhos. Dinheiro, não tenho e nunca juntei. Amo demais. Mas só se valer a pena. Antigamente, se pisassem nos meus calos, virava uma fera, hoje em dia, seguro mais a onda. Não sou rancorosa. Perdôo fácil, mas demoro a esquecer. Mas não fico com pé atrás. Gosto de frio, de desertos, de montanhas e de cavernas. Amo a Asia. O melhor lugar do mundo é aqui e agora. Só devo dinheiro à minha mãe. Pago quando puder. Adoro presentes cuidadosamente escolhidos. O preço não importa. Gosto mais de dar, do que receber. Detesto grosseria. Sou sensível demais. Adoro mordidinhas… no pescoço. Mordo também…”

E você???

Imagem: Roy Lichtenstein, 1963-1964, Grafite e lápis de cor no papel, 3 7/8 x 4 3/4 polegadas.

A brincadeira começou aqui.
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Algumas pessoas perguntaram e CLARO que podem – e devem – continuar a brincadeira em seus blogs… a idéia é essa mesma!!! beijos e estou a-d-o-r-a-n-d-o ler mais sobre vocês! coisas surpreendentes estão aparecendo por aqui… hehehe ;)

Uma coisa que percebi e que adorei, nas respostas colocadas aí na página de comentários, é a nossa enorme diversidade… como podemos ser tão diferentes e ainda assim encontrar tantas afinidades! Adoro isso! E as respostas dos meninos que entraram na brincadeira: César e Renato, foram deliciosas… hehehe…

Sem o Retrato de Dorian Gray

Denise | Me myself and I | Wednesday, 31 August 2005

doriangray.jpgEu estava atualizando as minhas fotos aos 40, do album ali do lado, e pensando que, se tudo correr como eu espero, vou continuar fazendo esse blog por muitos e muitos anos e vocês vão me ver envelhecer… vou entrar nos 50s, depois 60s, depois 70s… hummmmm… é uma idéia bela e assustadora… hehehe…

O que eu estou ouvindo nesse momento

Denise | Música | Wednesday, 31 August 2005

lastfmbig.gifEstou adorando um brinquedinho virtual novo. Tinha feito o Audioscrobbler há tempos, mas nunca tinha funcionado. Agora, reformatei o computador e instalei tudo novamente… funcionou…

É o seguinte, clicando aqui, vocês vão ver uma lista com as 10 últimas músicas que ouvi no meu Winamp e uma lista com as músicas e artistas que mais tocam por aqui. Ainda não descobri qual utilidade pode ter uma coisa dessas, mas tô achando engraçado ter um quadro das minhas preferências, além do mais eu adoro ver o que os outros estão ouvindo, também. É mais uma forma de interatividade.

Como morro de preguiça de organizar playlists, vou ouvindo tudo aleatoriamente, o que vai ser engraçado perceber lá no Last-FM. Outra coisa é que sou compulsiva e ouço a mesma música again and again and again and again… hehehe…

E por falar em música… o Cotonete, site português onde tinha feito a Radio Sindrome de Estocolmo, ressuscitou, então, vocês já vão poder acessar a rádio através do link que fica ali na coluna da esquerda. Nesse momento, ouvindo Cazuza, na Radio, cantar “Faz Parte do Meu Show”.

Basta clicar no Cotonete!

Denise | Literatura | Wednesday, 31 August 2005

Antes de mais nada, deixa eu dizer que eu não conhecia essa crônica de Clarice Lispector, quem me mandou, mais uma vez, foi o Ivo Yonamine, que está se tornando meu grande amigo literário :)

Eu sempre soube que a Clarice entendia tudo sobre a “solidão de não pertencer” mas nunca que tinha escrito tão claramente sobre isso. Obrigada mais uma vez, Ivo!

camilleclaudelescultura1.jpg

Pertencer (Clarice Lispector)

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.
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Escultura: De Camille Claudel, uma moça que soube muito bem o que é ser “impertencente”…

Denise | Literatura | Wednesday, 31 August 2005

Antes de mais nada, deixa eu dizer que eu não conhecia essa crônica de Clarice Lispector, quem me mandou, mais uma vez, foi o Ivo Yonamine, que está se tornando meu grande amigo literário :)

Eu sempre soube que a Clarice entendia tudo sobre a “solidão de não pertencer” mas nunca que tinha escrito tão claramente sobre isso. Obrigada mais uma vez, Ivo!

camilleclaudelescultura1.jpg

Pertencer (Clarice Lispector)

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.
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Escultura: De Camille Claudel, uma moça que soube muito bem o que é ser “impertencente”…

Denise | Literatura | Wednesday, 31 August 2005

Antes de mais nada, deixa eu dizer que eu não conhecia essa crônica de Clarice Lispector, quem me mandou, mais uma vez, foi o Ivo Yonamine, que está se tornando meu grande amigo literário :)

Eu sempre soube que a Clarice entendia tudo sobre a “solidão de não pertencer” mas nunca que tinha escrito tão claramente sobre isso. Obrigada mais uma vez, Ivo!

camilleclaudelescultura1.jpg

Pertencer (Clarice Lispector)

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.
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Escultura: De Camille Claudel, uma moça que soube muito bem o que é ser “impertencente”…

Impertencência

Denise | Comportamento | Monday, 29 August 2005

hopperimpertencencia1.jpgNem pretendia postar, hoje, mas acabei de ler o Bandeiras, do Flavio Prada, e esse assunto, sobre o qual já pensei muito antes, me voltou à mente, pedindo pra virar um post.

Por mais que eu me adapte muito bem em qualquer lugar que eu estiver, sempre tive uma sensação de “impertencência”. Não é inadequação, porque me adequo bem aos lugares e às pessoas, mas é a sensação de não pertencer a nada daquilo. Vai ver que é isso que me faz viver tão bem fora do Brasil, porque tanto lá, como aqui, não me sinto “pertencente” de nada.

Sempre fui assim. Lembro claramente dessa sensação quando era muito pequenininha, na hora do recreio, na escola; depois isso me acompanhou na adolescência; na faculdade; no trabalho e nos movimentos sociais de que participei…

Sempre tive amigos, me integrei, atuei, participei, mas com a sensação de que estava fazendo tudo isso um pouco como observadora. Não tive muitas turmas na adolescência, mas também nunca pertenci a panelinhas na vida adulta.

Tive a época de invejar aquelas fotos de matéria da Revista Nova, sabe como é? a mulher linda e maravilhosa, de vestido vermelho, batonzão, no meio de um grupo animado, todos rindo de taça na mão. Onde acontecem essas festas?

Talvez tenha complicado ter casado aos 20 anos, ter amadurecido rapido demais, a gente cresce, tem estudo, filhos, marido, trabalho, como manter essa famosa (e tão almejada) vida social? nunca soube como fazer isso.

hopperimpertencencia2.jpgContraditoriamente, sempre fui excelente em criar pontes entre as pessoas, criar redes. Afinal, esse acabou sendo meu trabalho principal. Fundei uma rede nacional que foi um grande sucesso, atuei ativamente em redes internacionais.

O blog não deixa de ser, também, uma grande rede, uma comunidade onde as pessoas se encontram e se relacionam comigo e entre elas… pensando bem, talvez seja o lugar mais próximo a “pertencente” que já encontrei :)

Não sou individualista, sempre penso em termos de coletivo; não sou egoísta, sempre penso nas outras pessoas; mas ao mesmo tempo, é como se eu tivesse uma consciência muito profunda da solidão absoluta do que nós somos. Quando não tem ninguém por perto, sobra você e você mesma. Mais nada. Por isso adoro Clarice, Caio Fernando e Ana Cristina Cesar, eles sabem bem do que estou falando.

Essa sensação de não fazer parte das coisas me incomodou quando era mais jovem, mas com o amadurecimento, me sinto muito mais tranquila. Acho que existe uma cobrança muito grande de se viver em grupos, como se isso fosse o “natural”, e eu detesto ser cobrada de qualquer coisa…

Pensei em escrever sobre isso porque sei que não sou a única assim e, às vezes, perdemos um bom tempo até perceber que não tem nada de errado com a gente. Tem gente que pertence a todo lugar e tem gente que não pertence a lugar nenhum.

Então, depois de tantos anos de confusão, comecei a perceber que a conclusão não é negativa, não. Talvez, não pertencer a lugar nenhum dê uma vantagem, porque assim somos livres pra SER em qualquer lugar.

PS.: Devo reconhecer, no meio disso tudo, Ted é um lindo e calmo porto seguro, onde me sinto completamente “pertencente”.

Escrevi ouvindo:

Don’t Panic
Coldplay*

hopperimpertencencia4.jpg

Ouça aqui.

Bones, sinking like stones,
All that we fought for,
Homes, places we’ve grown,
All of us are done for.

And we live in a beautiful world,
Yeah we do, yeah we do,
We live in a beautiful world,

Oh, all that I know,
There’s nothing here to run from,
‘Cause everybody here’s got somebody to lean on.

* Da trilha sonora do filme Garden State.

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Imagens: (1) The Night Window, 1928, (2) Summertime e (3) Cape Cod Morning, 1950, todas de Edward Hopper que foi, pra mim, um dos artistas que melhor conseguiu expressar essa “impertencência”, de que estou falando. E Basquiat foi um dos que, mesmo metido nas festinhas de Nova York, conseguiu vivê-la mais intensamente.

PS.: Poucas vezes encontrei uma pintura que fosse tão perfeita, para a conclusão do post e para a música, como essa última.

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Comentários comentados

Minha balada de ontem…

Denise | Carpe Diem,Cinema,Literatura | Sunday, 28 August 2005

dresedtokill.jpgCom Ted na Africa e Bia trabalhando, o sábado à noite, em casa, não estava prometendo muito… especialmente no auge da minha TPM.

Então resolvi me animar (e nem o óleo de prímula é melhor que uma boa produção pra aliviar a TPM). O clima já estava dando pra usar um blazerzinho mais elegante, caprichei no batonzinho e gloss, um colarzinho pra completar e fui pra minha balada. No caminho, uma mulher me parou pra elogiar minha cabeleira. Adorei.

A tal “balada” consistiu num passeio até um cineminha, que fica a 10 minutinhos caminhando da minha casa. Na ida, passei numa “bakery” maravilhosa e tomei uma sopinha de tomate com pãozinho fresco, dei uma volta rápida no Shopping onde fica o cinema, comprei o ingresso e fui fazer hora numa livraria enorme que fica bem na frente.

Afogada em livros…

istanbullivro.jpgLá eu escolhi mil livros, mas fui desistindo porque o dinheiro não dá pra levar tudo que eu quero. Fiquei louca por esse livro de Andy Warhol, que custava “simplesmente” 85 dólares e esse de Basquiat que custava 65! nem pensar!

Então, acabei ficando com um livrão manual de fotografia, que estava numa super promoção por 3 dólares(!!) e fiquei apaixonada pelo “Istambul – Memorias e a Cidade” do escritor turco Orhan Pamuk, que tem um texto delicioso e fotos de arquivo pessoal, da cidade que eu visitei e adorei (um dia volto).

Acontece que, quando estava procurando o link pra botar aqui pra vocês, percebi que eu paguei quase 26.95 dólares pelo livro que está sendo vendido na Amazon.com por 17.79!!! ou seja, vou lá agorinha mesmo devolver… (a livraria fica do lado da minha academia de ginsástica)

É a segunda vez que compro um livro e volto pra devolver porque descubro que na Amazon.com custa muito menos. Isso é uma pena, porque acaba com nosso prazer de ir à livraria, fuçar os livros e encontrar coisinhas interessantes… sempre fico achando que vou ser enrolada…

Finalmente o cinema…

andydepilando.jpgEstava em dúvida entre dois filmes, o Broken Flowers do Jim Jarmusch, com Bil Murray e o 40 Year Old Virgin. Ouvi falar que o povo sai do cinema aos prantos no “Broken Flowers” e isso era tudo que não queria.

Então, escolhi o 40 Year Old Virgin, que, além de tudo, era pertinho de mim. Gente, o filme é MARAVILHOSO! antes de sair li ótimas críticas e concordo com todas… é hilário.

Parece uma versão daqueles filmes bem besteirol dos anos 80 (Porky’s) ou um American Pie, mais recente, sendo que pra adultos.

A história é simples, um “nerd” de 40 anos que vai se dando mal em suas experiências amorosas e acaba chegando a essa idade virgem. Ele trabalha numa loja de equipamentos eletrônicos e coleciona bonequinhos de filmes (ooops… eu também!) e super heróis.

Os colegas descobrem que ele é virgem e resolvem ajudá-lo a sair dessa situação. Pode parecer bobo, mas os dialogos são inteligentes, as situações hilárias e os atores muito bons. (para os fãs de Friends: um dos amigos é o namorado da Phoebes, fofíssimo).

Num momento, hilário, eles ficam provocando um ao outro com aquele papo de homem: “Quer saber como eu sei que você é gay? você ouve o Coldplay.” hehehehe… Pra mim, parece “filme de homem”, sem porrada e corrida de carro, mas no sentido de que tem todos aqueles códigos masculinos, coisas que homem fala quando se junta pra tomar cerveja. Delicioso pra quem que entender a alma desses meninos “tão sensíveis”… hehehehe…

Foi o filme mais visto dos EUA no último fim de semana e estréia aí, no Brasil, dia 23. Imperdível. (Lembrei que, numa referência mais anos 90, parece os filmes de Kevin Smith, que eu gosto muito, tipo Chasing Ammy, Clerks ou Mallrats.)

Escrevi esse post ouvindo: Age of Aquarius… quem assistir vai entender o motivo, ri tanto nessa cena que tive dor de estômago.

Minha pequena aventura de volta…

medopulpfiction.jpgNa volta me senti como uma heroína de literatura pulp fiction… saí do cinema meia noite e meia, a região onde eu vivo é super segura e nunca se ouve nem falar em criminalidade, é bem vigiada, mas brasileira é brasileira, o medo já é atávico…

Inventei de pegar um trecho mais curto, mas estava super escuro, tinha somente uma construção de um lado e um predio comercial (vazio, claro) do outro… vim literalmente correndo a metade do caminho… e olhando pra trás pra garantir que ninguém tava me seguindo… melhor prevenir, né?

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Zero Grau de Libra (Caio Fernando Abreu)

Denise | Literatura | Sunday, 28 August 2005

caiofernando_libra.jpgOuvindo Moon Over Bourbon Street, do Sting.

Sobre todos aqueles que continuam tentando,
Deus, derrama teu Sol
mais luminoso.
Caio Fernando Abreu

O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé – e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.

Nesse zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: “você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete? – e outro grunhe em resposta.

Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.

Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto- olha por todos aqueles que queria ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.

Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.

Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio – Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.

Caio Fernando Abreu, n’O Estado de S. Paulo, 24/09/86.

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Eu recebi essa crônica do Caio Fernando ontem. Quem me mandou foi o Ivo Yonamine porque, segundo ele, “esta sua fase mais ‘astrológica’ me lembra ‘Zero Grau de Libra’, do Caio Fernando Abreu, que é clariceano confesso”.

Foi mais um desses lindos presentes que eu ganhei de pessoas maravilhosas, que conheci através do blog. Muito obrigada, I. e que as “preces” do Caio sejam ouvidas e “para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir”, seja enviado o Sol mais luminoso. Beijo.

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Moon Over Bourbon Street

Denise | Música | Sunday, 28 August 2005

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Sting

Ouça aqui.

There’s a moon over bourbon street tonight
I see faces as they pass beneath the pale lamplight
I’ve no choice but to follow that call
The bright lights, the people, and the moon and all
I pray everyday to be strong
For I know what I do must be wrong
Oh you’ll never see my shade or hear the sound of my feet
While there’s a moon over bourbon street

It was many years ago that I became what I am
I was trapped in this life like an innocent lamb
Now I can never show my face at noon
And you’ll only see me walking by the light of the moon
The brim of my hat hides the eye of a beast
I’ve the face of a sinner but the hands of a priest
Oh you’ll never see my shade or hear the sound of my feet
While there’s a moon over bourbon street

She walks everyday through the streets of new orleans
She’s innocent and young from a family of means
I have stood many times outside her window at night
To struggle with my instinct in the pale moon light
How could I be this way when I pray to God above
I must love what I destroy and destroy the thing I love
Oh you’ll never see my shade or hear the sound of my feet
While there’s a moon over bourbon street

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