Estava refletindo sobre as questões que meus últimos posts, sobre idade, beleza e Camilla, levantaram aqui. Aí pensei que, antes de tudo, não gostaria que ficasse a impressão de que sou “perfeitinha”, porque eu já tive – e até tenho – os meus preconceitos, já que o que a gente aprende ao longo da vida é muito difícil mudar completamente…
No entanto, é obrigação da gente, na minha opinião, refletir, aprender e crescer com as experiências, senão não terão valido de nada.
Vou contar três historinhas pra você, bem “demonstrativas” e, pelas quais, vocês já podem até ter passado (eu adoraria saber!). Elas mostram o quanto eu também já valorizei a juventude e beleza, acima de tudo.
Carentes de Atenção
Há muitos anos, acho que em 1992, fui com uma amiga pra um congresso, no Rio de Janeiro. Numa das noites, eu, minha amiga e mais umas duas moças, caimos na balada do Baixo Leblon (quente, na época). Éramos três mulheres produzidíssimas e uma que seria o que se chama, aqui nos EUA, “tomb-boy”, cabelo curtinho, magrinha, roupa sem graça, mais super divertida, inteligente, esperta. Confesso que tinha pena dela, por ser tão desengonçada.
Chegamos num bar e conhecemos um rapaz e mais um casal bem divertidos. Eu e minha amiga estávamos casadíssimas e super apaixonadas, portanto, registre-se que não queríamos nenhum “affair”.
Mas, sabe como mulher pode ser, né? quer chamar atenção! De repente, o cara esquece que nós – lindas e maravilhosas – existimos e se encanta pela que a gente achava tão sem graça… “mas, como asim???”… ninguém entendia nada. No final, ela saiu com o telefone dele, e os dois não se desgrudaram mais.
Garotas Ameaçadoras
Há alguns anos, estávamos, eu e Ted, em um Congresso de Aleitamento Materno, como palestrantes. Ele, por vir da Suécia e ter um trabalho fantástico, era o palestrante principal do evento. Mais de 1200 pessoas assistiram à palestra dele deslumbradas. Como nosso público é formado, principalmente por pessoal de enfermagem, nutrição e medicina pediátrica, eu diria que uns 97% eram mulheres.
Numa das noites, tivemos a famosa festa de confraternização. Quem foi pra congressos sabe como é com palestrante principal… como cantava o saudoso Adoniran Barbosa “Eu sou a lâmpida e as mulher é as mariposa”. Todas aquelas menininhas, estudantes, lindas e uns 10 anos mais novas que eu, praticamente avançaram em Ted. O “poder” é afrodisíaco, já dizia Ulisses Guimarães.
Nós ficamos sentados na primeira fileira de mesas, de frente pro salão de danças, e eu olhando o povo rebolar… aí fui percebendo que as meninas estavam fazendo tudo que podiam pra chamar a atenção de Ted.
Dançavam na boquinha da garrafa, rebolavam o tchan e olhavam pra ele pra ver a reação… claro que eu, no começo quase morro de ciúmes (como boa latina de sangue quentíssimo!). Até que eu percebi que ele não tinha olhado pra elas uma única vez (juro por Deus!) e todos os olhos eram somente pra mim. “Mas, como assim???”… não é essa a lógica…
A Namorada Misteriosa
No finalzinho de 2001, por eu já ter dito a Ted que não mudava do Brasil de jeito nenhum, pelo menos não naquele momento (e já estava claro que não funcionaria pra ele viver em Olinda), não vimos outra saída a não ser acabar nosso relacionamento.
Em setembro de 2002, nos re-encontramos no Fórum Mundial de Amamentação, em Arusha, Africa. Ele me disse que estava com uma namorada, há apenas dois meses, que ela estava no evento, mas não podia me dizer quem era, porque ela não queria.
Gente, imagina a curiosidade. Passei a tentar descobrir, entre as centenas de pessoas do evento, quem seria a tal namorada misteriosa. Ele tinha passado os ultimos dois meses trabalhando em um país específico e a lógica seria que ela fosse de lá.
Minha primeira reação foi, ter certeza que era uma garotinha super esperta, americana, de uns 20 e poucos anos, linda, loirinha de olhos azuis, que era voluntária na instituição. Ela parecia ser meio estranha comigo, sei lá porque (sabe quando a paranóia bate?)… então, tinha que ser ela…
Pra piorar, um dia, eu ia passando e ela me ofereceu um pedaço de “chocolate sueco”, com uma cara maliciosa e provocativa (que estava só na minha cabeça, claro). Fiquei furiosa e, pro espanto total da menina eu disse “querida, já comi tanto desse chocolate que enjooei… faça bom proveito dele, agora”. Ela, atônita, respondeu: “OK!”… hahahahahaha…
Enfim, pra resumir, depois de pagar vários micos desses, acabei descobrindo que a mulher com quem ele estava namorando tinha 46 anos, portanto 8 anos a mais que eu, na época, estava longe de ser bonita pelos padrões tradicionais e o pior, era minha melhor amiga!
“Mas, como assim???”… isso não se encaixava na minha lógica brasileiríssima. Ninguém “troca” uma mulher por outra mais velha e “mais feia”… ou não?!
Enfim, o final da história vocês já sabem, redescobrimos que não podíamos viver separados e esse susto me fez decidir mudar, de vez, pra Suécia ou qualquer lugar onde ele estivesse. Rimos muito das minhas previsões furadas… e ele nunca conseguiu entender como eu achava que ele iria se interessar por aquela menininha… (sou brasileira, meu caro!)
Conclusão
Leva tempo pra gente superar nossos pré-conceitos. Eles estão arraigados demais, são parte da nossa história e são lembrados à gente a cada dia, pelos meios de comunicação, pelos amigos e até pela família. A gente não tem culpa de ter conceitos equivocados, mas isso não é motivo pra não querer crescer, melhorar e aprender.
Portanto, não tenho, com esses posts, nenhuma intenção de criticar ninguém, mas apenas levantar uma discussão, fazer pensar. Rever os conceitos.
Imagens: Capas de Livro “Pulp Fiction”.
Pulp Fiction: literatura barata, publicada em papel vagabundo, nos EUA entre os anos 1920 – 1955 e que virou cult depois do filme de Tarantino.
A realidade, às vezes, parece Pulp Fiction.