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O que eu faço da vida…

Leia mais sobre Trabalho.
Publicado na Wednesday, 17 November 2004

amamentacao.jpgJá fazia tempo que eu pensava em escrever sobre meu trabalho, mas sempre deixava pra depois, por duas razões. Uma é que pode parecer pretensioso demais (até pra mim… hehehe…) falar de tudo que já fiz. Segundo porque não dá pra escrever em poucas linhas, a história é longa, pode ficar chato… mas, como continuo recebendo pedidos pra que eu conte sobre o Origem resolvi deixar minha modéstia de lado e contar um pouquinho dos meus últimos 15 anos de trabalho pra vocês… tá looooongo, mas foi o mais resumido que pude fazer, então, vocês podem ler um pouquinho agora e depois voltar outro dia pra ler o resto ;)

Formação

Bom, eu comecei três universidades, duas vezes Sociologia (83 e 95), na Federal e uma vez Jornalismo (84), na Católica. Como era (e ainda sou), uma rebelde (atenção, de boazinha e santinha não tenho nada!), nunca tive paciência pra terminar nenhuma delas.

Já trabalhava e militava em movimentos sociais e a faculdade tomava muito tempo. Achava que eu tinha muito mais a contribuir botando a mão na massa.

Primeiras experiências de trabalho

Movimento sindical

Quando ainda estava estudando Jornalismo, comecei a trabalhar como “foca”, ou estagiária, em uma ONG chamada Ecos (Equipe de Comunicação Sindical), onde conheci meu primeiro marido. Foi uma época efervescente, pro movimento. 1984. Nós trabalhávamos, principalmente com o sindicato dos metalúrgicos, mas com outras categorias também, todas ligadas à CUT.

Foi quando larguei a universidade. Trabalhando com o movimento sindical, fazendo jornaizinhos, releases, campanhas salariais, participando dos congressos de trabalhadores, aprendi muita coisa. Muito mais que aprenderia nas salas de aula. Participei de entrevistas com Lula, Jair meneghelli e outras estrelas do movimento.

A ECOS também assessorava o movimento popular, a igreja ligada à Teologia da Libertação. Foi aí que eu aprendi a escrever uma matéria, a fazer um jornal e a respeitar a força que a organização social pode ter. Eu tinha uns 18, 20 anos.

“O Pequeno Príncipe”

diagramacao.jpg
(diagramando o jornal, no único momento da vida
em que tive cabelinho curto. Very 80s)

No início dos anos 80, o Recife tinha um jornal famoso chamado “O Rei da Notícia”. Em 1985 lançamos “O Pequeno Príncipe”, que tinha a proposta de ser uma versão para jovens.

Eu dirigia o jornal e tínhamos uma equipe formada por jovens estudantes de jornalismo geniais, que se transformaram depois em super jornalistas.

Um é o Xico Sá, que tá na Folha de São Paulo e tem até uma comunidade no Orkut (da qual eu faço parte), chamada “Eu Adoro Xico Sá” hehehe… tinha também Ana Santa Cruz, outra jornalista maravilhosa, que também está em SP, no Portal AOL e Verônica Figueiredo, outra super jornalista, que está em Brasilia e trabalha com a Funai. Além de outros colaboradores, como meu irmão, H.D.Mabuse, que, aos 12 anos de idade já era super cult (depois veio a fazer parte do Movimento Mangue e hoje é uma estrela no mundo cyber).

Esse jornalzinho fez história, tinha anunciantes e era distribuido gratuitamente nas portas das escolas e universidades. Nós faziamos tudo, diagramação, programação visual, finalização (sem computador, na mão mesmo!) e falávamos de música, cinema, artes plásticas, política, movimentos sociais etc. Um tempo divertidíssimo na minha vida. Foi nele que eu descobri Win Wanders e Jim Jarmusch, Gui… acho que tinha uns 21, 22 anos.

Grupo Origem

Mas, aos 22 anos, as coisas foram mudando. Eu fiquei grávida. E fiquei apaixonadíssima pela gravidez, barriga, parto, tudo relacionado a essa mudança fantástica na minha vida. Tínhamos um grupo pequeno de mulheres grávidas, que se reunia pra falar sobre isso.

O Origem nasceu desse grupo, em 1987. Como eu sempre puxava tudo que eu fazia pra o lado dos movimentos sociais, tive a idéia de formar o Origem, com uma dessas amigas, Ana Coeli, para trabalhar com mulheres de comunidades carentes.

A partir daí as coisas foram rolando e a história ficaria muito longa (vai estar no livro “Amamentação – bases científicas para a prática profissional”) pra contar tudo aqui.

Mas, resumindo muito, desde 1989 temos um projeto que se chama Via Láctea, de formação e acompanhamento de grupos comunitários de apoio à amamentação.

Desde o seu início até hoje, temos apoio financeiro de uma instituição chamada Trócaire (da Irlanda) e desde 1994, temos apoio da Cordaid (da Holanda). Durante 10 anos, tivemos, ainda apoio da SCIAF (Escócia). Também tivemos apoios eventuais do Unicef, Save the Children, Cese, Memisa e vários outras instituições.

A qualidade do nosso trabalho pode ser observada pela quantidade de tempo que nossos principais financiadores nos apóiam, todos mais de 10 anos. Ninguém doaria grandes recursos a uma instituição que não fosse séria e com sucesso no trabalho, por tanto tempo. Temos séde própria, auditorias externas e avaliações externas periódicas.

Os grupos comuniitários (onze grupos, no momento), são formados por mulheres que se reúnem ou visitam outras mulheres das próprias comunidades, apoiando-as nas dificuldades que podem ter em amamentação. Pra isso, elas são capacitadas pelo Origem, que também fornece material educativo pras reuniões e visitas.

Essas mulheres são maravilhosas. Inteligentes, dinâmicas, cheias de garra. As chamamos de “promotoras da amamentação”.

grupao.jpg

Nesse link, vocês poderam ver centenas de fotos e alguns textos sobre esse trabalho comunitário, que é belíssimo!

Principalmente, não deixem de ver essas fotos lindíssimas do nosso ultimo Encontro Anual, que reuniu mais de 100 mulheres das comunidades, no final do ano passado. E eu estava lá! :)

Materiais educativos e site

Produzimos, no Origem, cartilhas, folhetos e vídeos. Nossos vídeos são lindos e usados em maternidades do Brasil inteiro. temos um, especialmente, que eu adoro, porque tem um depoimento emocionante da Malu Mader sobre o que foi amamentar, pra ela. Eu escrevi o roteiro e dirigi quase todos os vídeos.

O site Amamentação Online, é um sucesso. Comecei a fazer sozinha em 1996, quando ainda tinha que fazer tudo no HTML, sem ter feito curso, apenas adivinhando os códigos, e sem ajuda de ninguém…

site.jpgDesde que surgiu, é super visitado, tem um Fórum de Discussões onde as pessoas se encontram pra trocar figurinhas sobre o tema, tem uma Galeria de Arte da Amamentação, com mais de 300 imagens, uma sala de bate-papo, papel de parede, salva telas, cartões virtuais, página do pai… enfim, um mundo de coisas, ou quase tudo que você pode querer saber sobre amamentação e como trabalhar o tema.

Ainda pode-se imprimir todas as nossas cartilhas e capturar músicas em MP3, sobre amamentação.

Modéstia à parte, tudo isso foi idéia minha e feito por mim, e depois de algum tempo contando com o apoio de Luciana Peregrino, já que o grupo é muito pequeno e a maioria do pessoal trabalha direto na comunidade.

Como tinha de ser, esse site, feito com tanto amor e carinho, foi super premiado. Ganhamos dois primeiros lugares no IBEST e vários outros Top 3.

Nosso trabalho com crianças

Sempre buscamos trabalhar com crianças, a questão da amamentação. Em 1999, eu criei, com ajuda de Bia, minha filha, uma cartilhinha eletrônica, que era mais uma brincadeira: “Mamíferos??? O que é isso?”, … fez tanto sucesso que foi traduzida para inglês, chinês, japonês, espanhol e italiano.

Também temos um software que produzimos com paulo Santos, meu ex-marido, pra trabalhar com crianças, chamado “Amamentar é um Ato Ecológico” e que foi produzido também como uma cartilha eletrônica em inglês, holandês e italiano.

Pode-se ver a cartilha eletrônica em português nesse link ou fazer o download, gratuitamente, da versão em Português, do software aqui.

Ação junto às Redes Internacionais

filipinas.jpg
Trabalhamos diretamente com a IBFAN (International Baby Food Action Network) e WABA (World Alliance for Breastfeeding Action).

No Brasil, junto a rede IBFAN, trabalhamos monitorando constantemente o cumprimento de uma lei que proíbe a propaganda de alimentos dirigidos a beb~es, assim como mamadeiras e bicos.

Participei de lobby contra a indústria de alimentos infantis, em eventos na ONU, NY; encontros preparatórios da Conferência da Mulher em Beijing; encontros preparatórios pra conferência Mundial sobre Direitos da Criança, e mais dezenas de congressos, seminários, oficinas internacionais, pelo mundo afora.

Durante o período de 1992 a 1998, coordenei a WABA no Brasil, sendo a pessoa responsável pela introdução, no país, da Semana Mundial da Amamentação. É muito legal saber notícias da SMAM, no Jornal Nacional, hoje em dia, e lembrar os esforços que tive e o quanto valeram a pena.

floripa.jpgEsse trabalho foi reconhecido nacionalmente, na foto ao lado, estou sendo homenageada, entre outras pessoas, pelo governo de Florianópolis, pelo trabalho com essa campanha.

Graças a esse sucesso do meu trabalho, no Brasil (em 1993, apenas 30 cidades comemoraram a SMAM, em 1994 mais de 400, até chegar a quase 5.000 municípios, coordenados pela WABA Brasil, em 1997), fui convidada, em final de 1996, a coordenar essa campanha em nível mundial.

Organizei algumas oficinas regionais para discutir a melhor forma de disseminar a campanha pelo mundo. Uma em Washington, para America do Norte; uma em Florença, Italia, para os paises europeus; uma em Caracas, Venezuela, para America do Sul.

Lancei cartazes coordenados ao folder de ação (não eram feitos dessa forma anteriormente). Toda a programação visual dos materiais da Semana Mundial da Amamentação era produzido em Recife, pela nossa equipe, de 1997 a 2001 (você podem ver esses cartazes nesse link). Esse material era feito por a gente e enviado por email para ser impresso na Malásia.

Me comunicava por email com pessoas do mundo todo, Arabia Saudita, India, Zimbabwe, incentivando a promover a Semana Mundial da Amamentação, que é celebrada, oficialmente em 01 e 08 de agosto, mas no Brasil, foi transferida pra outubro.

Enfim, foi um lindo trabalho que eu fiz, tanto no Brasil, como em nível internacional. Tenho muito orgulho dele.

Por causa do sucesso nesse trabalho, fui eleita, em votação direta, para fazer parte da diretoria da WABA, representando a America latina, uma posição que ocupei entre 1999 e 2002.

Considerem tudo isso, levando em conta que não sou médica nem profissional de saúde. Ou seja, a luta para ser reconhecida e respeitada foi sempre muito maior do que seria para uma pediatra, por exemplo.

Conferências internacionais na Internet

smooch.jpgEm 1996, a WABA estava organizando o Fórum Mundial da Amamentação, na Tailândia. Claro que era difícil para todos militantes ir à tailândia, então fiz um projeto, que foi aprovado pela SIDA (Agência de cooperação sueca – vejam há quantos anos tenho história com a Suécia) para que eu, com ajuda de uma amiga uruguaia, Cecília Muxi, colocássemos esse Fórum Mundial, quase que em tempo real, na internet.

Foi uma das primeiras experiências do tipo, na história dos movimentos sociais na Internet, em todo mundo. Diariamente, mandávamos fotos e textos para uma equipe no Brasil, que fazia o HTML e colocava na internet tudo que estava acontecendo em Bangkok. O site ainda pode ser visto aqui.

Posteriormente, em 1998, fiz a mesma coisa, no Seminário sobre Amamentação, Mulher e Trabalho: dos Direitos Humanos a Soluções criativas“, que estava acontecendo nas Filipnas. Diariamente colocava fotos e textos, documentos do Seminário, só que, dessa vez, tudo foi feito no local. Esse site, também, ainda está disponível aqui.

Atualmente, não posso ter o mesmo tipo de atuação internacional porque, com a mudança para um pais novo, não posso viajar tanto e deixar Bia sozinha por muito tempo. Mas continuo ligada em tudo que está acontecendo.

Stockholm Challenge

Se vocês escreverem “Denise Arcoverde Stockholm” no Google, o último link vai ser para o prêmio “Stockholm Challenge“, que reúne as melhores experiências de todo o mundo em uso da Internet para melhorar as condições de vida no planeta. O site, feito por mim, para a WABA, foi escolhido como um entre os 10 melhores na categoria Saúde e Qualidade de Vida. Site do prêmio. (Mais uma vez, a Suécia aparece na minha história, mesmo antes de eu pensar em morar lá…)

Alfabetização Digital no Origem – Netpop

oficnadigital.jpgDevido a todo esse interesse, nosso, por tecnologia da informação, o Origem foi buscar parcerias para capacitar as mulheres da comunidade nas quais trabalhamos, em uso da informática. Veja nesse link as fotos das mulheres na sua primeira oficina de inclusão digital, no prédio do Origem.

Quase todas as mais de 100 mulheres da rede Via Láctea foram capacitadas em conhecimentos básicos de internet e computação.

Tivemos tanto sucesso, que o curso foi ampliado e hoje, ele já capacitou, gratuitamente, mais de 20 mil pessoas de baixa renda e pouca escolaridade, em diversas áreas de informática, incluindo também, aula sobre cidadania, além de noções de português e matemática.

Essa semana, eu estava ajudando o pessoal da equipe do Netpop a terminar um relatório. Acabamos de treinar mais 334 jovens, que vão sair à procura do primeiro emprego. Pra fazer esse trabalho contamos com uma estrutura de mais de 100 computadores, num prédio de dois andares.

Minha mãe, Telma Arcoverde, coordena com extrema competência esse projetom, com o apoio de Iza Varejão e Rosa Maria, também excelentes profisisonais.

O Netpop anda paralelo ao projeto de amamentação e segurança alimentar e sempre que possível, realizamos ações conjuntas.

(Aliás, no comecinho da Internet, dei várias palestras e coordenei oficinas sobre o uso da Internet nos movimentos sociais, tentando difundir essa prática entre as ONGs.)

O que eu faço agora

Continuo vinculada ao Origem, recebendo meu salário como consultora (pois é, não sou e nunca fui sustentada por meu marido, como dizem umas linguinhas invejosas e venenosas).

Hoje, eu ajudo as duas equipes, de saúde (amamentação e segurança alimentar) e alfabetização digital (cursos de informática) no planejamento de atividades, elaboração de relatórios e projetos, realização de eventos o no que mais eu puder ajudar à distância. Duas vezes por ano vou lá e fazemos reuniões e oficinas.

Em setembro, o Origem fez 15 anos e nós realizamos o “Seminário sobre Saúde, Cultura e Políticas Públicas em Amamentação”, que foi coordenado por mim, daqui dos EUA, em plena mudança…

Tenho um enorme orgulho de ter feito esse trabalho, porque participaram mais de 300 pessoas e conseguimos levar nomes interessantíssimos da amamentação, no Brasil, além de uma representante da WABA, daqui dos EUA e, juntos, elaboramos um documento que diz o que queremos para ter uma cidade “Amiga da Amamentação”.

Esse documento foi entregue aos candidatos às prefeituras de Pernambuco e está à disposição no site do Seminário (que também tem muitas fotos).

No momento, nosso maior desafio é a continuidade do Origem. Alguns projetos vão acabar, porque as instituições estão saindo do Brasil e alocando todos os recursos para a Africa. Eu estou ajudando a identificar novos financiadores e, estarei no Brasil, no final do ano, pra elaborar com a equipe do Origem, novos projetos que busquem recursos pra entidade.

A equipe do projeto de amamentação – formada por Juliana Florêncio, Graça Oliveira, Regina Souza, Fred e a atual coordenadora do Origem, Luciana Peregrino – é extremamente competente e tenho certeza que vamos encontrar uma saída.

Aliás, tudo que eu consegui, não seria possível se eu não tivesse contado, sempre com gente muito iluminada pelo caminho!

Esqueci de comentar que, desde que sai do Brasil, além de coordenar esse Encontro para 300 pessoas, escrever projetos e elaborar alguns relatórios, ainda teve mais…

Eu escrevi o roteiro e dirigi um vídeo (quando estava lá, nas férias de agosto) teatralizado, sobre amamentação, e que foi editado pelas minhas colegas, quando voltei pra Suécia. Esse vídeo ficou lindo e foi usado na Semana Mundial da Amamentação desse ano, em todo o Brasil.

Pra quem “só faz o blog”, até que eu tenho produzido outras coisas muito interessantes, hein???

Conclusão

Eu tenho certeza qua a minha filha tem muito orgulho de tudo que eu fiz, até hoje. Isso é a coisa mais importante do mundo pra mim. Dar um bom exemplo pra ela.

serra.jpgDia desses, a Dri comentou que viu meu nome num livro de amamentação. Pois é. Eu participei dessa história que está mudando os quadros de desnutrição e mortalidade infantil, no Brasil e tenho muito orgulho disso.

Essa foto ao lado foi tirada numa cerimônia, no Ministério da Saúde, com o Ministro José Serra, quando essas pessoas foram homenageadas pela sua contribuição ao aleitamento materno no Brasil. (Eu, como sempre com as minhas sainhas curtinhas, que já foram devidamente aposentadas… hehehe… e meu querido amigo Marcus Renato de Carvalho, do lado)

Me sinto desconfortável escreevndo tanto sobre as coisas que EU fiz, parece personalista mas, como tenho sido tão atacada e questionada (não sei com que direito), em relação ao que eu “faço da vida”, achei por bem deixar bem claro qual o meu papel nisso tudo.

Eu estou aqui, feliz da vida, dando minha contribuição, à distância, com a certeza de que, depois de tudo que eu já fiz na vida , não preciso mais dar satisfação a ninguém…

O que vou fazer, aqui, no futuro??? não estou nem um pouco preocupada com isso, sempre tive experiências criativas e desafiantes, não vai ser agora que vai ser diferente!!! tenho meus planos, mas esses não posso contar agora… dá azar… hehehe…

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