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Casando com estrangeiros

Leia mais sobre Comportamento, Vida de Imigrante.
Publicado na Thursday, 08 July 2004

wedding20p.jpgAtendendo a pedidos (via enquete! hehehe) vou tecer algumas considerações sobre o que eu acho que é a vida de casada com um estrangeiro…

Como vocês percebem, sou muito feliz com Ted. Mas, somos mais velhos, mais pacientes, estamos no segundo casamento, isso tudo pesa muito. Não temos problemas pelas nossas diferenças culturais porque aprendemos a lidar com elas. Partimos do princípio de que temos que ter respeito total e absoluto pela cultura um do outro, mesmo que sejam coisas que possam nos parecer absurdas e exdrúxulas.

Já pras meninas, em geral muito novas, que se casam com gringos, não deve ser fácil. Se eu tivesse encontrado Ted aos 20 anos as chances de dar certo seriam muito menores. Os hormônios em ebulição a as diferenças culturais enormes, devem causar algumas crises, e eu só diria pra ter paciência e muito respeito um pelo outro, com o tempo as coisas se acalmam.

Mas tudo isso a gente aguenta. O que incomoda mesmo, a mim e a todas as meninas que eu conheço (aí não tem diferença de idade), são os preconceitos de que somos vítimas!

Eu me apaixonei por Ted pelo que ele é, independente da sua nacionalidade. Porque temos muitas afinidades; gostamos (mais ou menos) das mesmas coisas; trabalhamos, os dois, com amamentação; a base do nosso casamento é o encontro de dois seres humanos, independentes de onde nascemos.

aline.jpgNo entanto, uma coisa que a gente aprende ao casar com um estrangeiro é que as bases de julgamento das pessoas, em muitos casos, se dão exclusivamente pelo fato de termos nascidos em países diferentes. No caso, nós em um país “pobre” e eles em países “ricos”.

Não interessa se foi amor à primeira vista, se existem afinidades, se existe toda uma história que as pessoas desconhecem. Também não importa se, muitas vezes, nós costumávamos ter um padrão de vida bem melhor ou mais fácil (eu, por exemplo, tinha motorista, empregada, secretária), no Brasil. Ou que tenhamos o mesmo nível educacional ou profissional dos nossos companheiros.

Somos sempre as “aproveitadoras”. As que estavam procurando se dar bem e “pegaram um gringo idiota”. E eles são os gringos que estavam procurando uma “latina caliente”. Eles são rotulados pela sua suposta “riqueza” e nós somos rotuladas pela nossa suposta “competência na cama” ou nossa “subserviência”.

O pior é que esse preconceito existe, não apenas lá fora, mas mesmo no Brasil. Conheci uma brasileira, na Suécia, negra e linda, que morre de medo de voltar pra sua cidade, porque lá o comentário era que ela estava fazendo programa a 10 dólares a hora! Ela está muito bem, com um namorado que gosta muito dela e cuja familia a trata com todo respeito. Mas, por ser negra e, talvez, com condições financeiras não tão boas, era essa a imagem dela no seu próprio país.

Mesmo que não se chegue, sempre, a extremos como esse, todas nós já percebemos um olhar meio atravessado, no Brasil ou no país que escolhemos para viver.

ennomi.jpgTed já teve amigos dizendo, num tom malicioso, como ele é sortudo por ter casado com uma brasileira. Eu nunca experimentei nada direto, mas já vi homens fazerem um arzinho “estranho” (do tipo “se deu bem”) ao saber que casei com um estrangeiro.

Existe uma crença, no Brasil, de que casar com um gringo é “acertar na loteria”. Isso não podia estar mais longe da verdade. Muitas vezes, as meninas vão viver, com seus namorados, na Europa, uma vida muito mais difícil do que tinham no Brasil.

A vida, na Suécia, por exemplo, é muito austera. Ninguém passa fome, é verdade, mas ninguém esbanja dinheiro, também. Os salários costumam ser baixos pro altíssimo custo de vida e juntar dinheiro pra viajar, por exemplo, pode ser muito difícil. O Estado garante o básico pra você, mas você tem que se acostumar a manter um padrão de vida bem mais baixo que muita gente de classe média tem no Brasil.

Ainda tem a saudade, adaptação ao clima e às pessoas, a luta para conseguir emprego, estudar a língua. Não tem nada de glamuroso, nessa nova vida, não.

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Se você é casada com um estrangeiro e quiser deixar sua visão desse tema, nos “comentários”, vamos adorar! e não esqueça de deixar a nacionalidade do seu companheiro, OK?

Temos uma comunidade no Orkut: Casado(a) com estrangeiro. Junte-se a nós!

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Comentários dos comentários

Basílio Medeiros, obrigada por, com seu comentário, me dar a oportunidade de comentar mais um ponto importante. Todo mundo questiona porque fomos nós que abrimos mão de viver em nosso país, da nossa profissão, etc. para “viver um grande amor”. Sobre isso, quero dizer o seguinte:

1. Primeiro, muitas vezes são eles que mudam-se para o Brasil.

2. No meu caso, assim como no de muitas outras mulheres, pesou a questão segurança. Passamos alguns anos tentando decidir onde morar, mas ter um gringo vivendo no Brasil é como andar com um “alvo ambulante”. Ele seria vítima preferencial da violência nas ruas.

3. As possibilidades deles conseguirem começar tudo, de novo, no Brasil (um país em recessão, com os altos índices de desemprego que nós conhecemos) é MUITO menor que a nossa possibilidade de conseguir um emprego nos países de onde eles vêem (apesar de não ser fácil, também).

4. Você escreveu: “Para as mulheres que eram bem sucedidas no Brasil e resolveram largar tudo para “viver um grande amor”: a idéia que tenho é que o “tudo” não era assim tão importante, e o grande amor vai estar sempre na frente”.

Olha, o “tudo” que deixamos, no Brasil, é muito, mas muito importante pra gente, sim. E só nós sabemos como não é fácil conviver com a nossa escolha. Mas é que, nós, mulheres, temos muita fibra, somos corajosas e enfrentamos o que for necessário para ser felizes. Sofremos no início, mas depois de algum tempo, conquistamos tudo novamente…

5. Além do mais, nossos homens valem muito a pena. Isso, eu estou deixando para o próximo post, mas nossos “estrangeiros” são, em sua maioria, homens que nos respeitam, nos tratam com igualdade, dividem as tarefas da casa, participam da criação dos filhos. Infelizmente, é preciso encontrar homens em outros países que façam isso, porque os daqui, mal lavam seus próprios pratos.

6. Sim, o Brasil vive numa sociedade patriarcal. E não somos nós que dizemos isso. É história. Mas, não estamos reclamando, não. Para isso existem mulheres – e homens – que tentam mudar a sociedade brasileira, porque do jeito que está, não vai dar pra ficar muito tempo. É medieval.

Janaína, claro que nem todos os homens brasileiros são machistas, mas como você mesma disse, é uma questão de educação e ambiente em que se vive e, infelizmente, a maioria ainda é educado para ser o “chefe” da família e acredita que a mulher deve seguir o caminho que ele traça para a família.

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Fotos: Denise e Ted (EUA), Aline e Chris (França) e Michelle e Enno (Alemanha)

81 Comentários

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