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Eu NÃO GOSTO de Bush – Eu GOSTO dos EUA

Denise | EUA | Wednesday, 30 June 2004

pie.jpgEles têm Bush, eles têm Ku Klux Khan, eles têm Colin Powel, eles têm gente racista, preconceituosa e burra… Mas, eles também têm Gore Vidal, eles têm Susan Sontag, eles têm gente brilhante e legal, eles têm Michael Moore e têm movimentos de resistência a tudo isso ai acima…

Eu estava deixando pra escrever sobre isso quando mudasse pra Washington, mas esse movimento anti-americano do Orkut me deu vontade de escrever agora.

Conheço muita gente legal e inteligente que afirma seu ódio aos EUA. Nunca entendi isso. Me desculpem, mas eu acho que é uma visão estreita e preconceituosa. Tem a mesma dose de intolerância que a gente tanto reclama por parte dos EUA e acho que é um desrespeito com todo um povo que não é homogêneo. Não tem somente gente bacana no Brasil, não tem somente cretinos nos EUA.

Ted é americano, mas vive há 25 anos na Suécia. Quando o conheci ele quase tinha vergonha de dizer que era americano. Fui puxando de volta, pra ele, suas lembranças. Ele nasceu em St. Louis, mas viveu desde pequeno em Chicago e mais outros lugares.

Eu achava muito triste a resistência que ele tinha em reconhecer suas origens. Agora, estamos mudando pra Washington, e tenho certeza que vai ser bom pra ele “voltar pra casa” e eu e Bia encontraremos nosso caminho por lá.

Tenho grandes amigos americanos. Pessoas inteligentes, gentis, tolerantes, que lutam em movimentos sociais, sem nenhum preconceito e com muita vergonha da classe dominante americana. Portanto, acho extremamente injusto colocar todo mundo num pacote e odiar um país.

O próprio país é, como o Brasil, enorme e com grandes diferenças culturais. Conheco Chicago, Los Angeles, Memphis, Washington, Nova York, Houston, além de uma pequena cidade no Colorado e várias outras cidades pequenas ao redor desses lugares e posso garantir que cada um, tem as suas características próprias. Com pessoas mais ou menos conservadoras, com maior ou menos resistência a Bush, mas em todas elas, tem gente legal, também.

Diz-se que “os americanos não têm cultura”. Uma bobagem enorme. Têm uma industria cultural pesada, que empurra seus produtos-lixo goela abaixo da gente, é verdade, mas também têm coisa muito boa… têm a pop art de Andy Warhol, têm o blues divino de John Lee Hocker, têm a poesia de John Donne, têm Martin Scorcese e têm Madonna, que AMO…

Dizem que eles não conhecem nada além das suas fronteiras e ficam irritados porque eles dizem que a nossa capital é Buenos Aires…. É verdade, mas quantos brasileiros podem dizer qual a capital dos EUA ou Canadá? (e vale informar que já encontrei suecos que também pensam que Buenos Aires é a nossa capital!).

Também não me deslumbro, nada, com os EUA, reconheço todos os problemas que têm, detesto seu “american way of life”, baseado em puro consumismo e o “estado mínimo” que resulta em poucos benefícios sociais, pouco espírito de coletivismo… tudo o oposto da Suécia, mas acho que o país não é somente isso e encontro, sempre, os dois lados…

As pessoas que mais falam em tolerância costumam ser as que são mais intolerantes em relação aos EUA. Pra mim, isso é contraditório e muito triste…

Ps.: Acabei de ler que foi criada uma comunidade, no Orkut, chamada: “Odeio baianos”… tsc, tsc, tsc… uma intolerância leva a outra… deprimente, e são essas pessoas que reclamam que são discriminadas pelos americanos…

Brasileiros no Orkut

Denise | Orkut | Sunday, 27 June 2004

orkutpaises.jpgA fogueira tá queimando ali no arraial, bombas na Turquia, explosões em Bagdá e eu passei a noite lendo sobre a invasão brasileira no Orkut, um mundo virtual que também tá pegando fogo…

Desde a sua criação, há 5 meses, pelo engenheiro alemao-turco, Orkut Buyukkokten, que vive nos EUA, essa “Rede de Relacionamentos” vem crescendo e já conta com mais de meio milhão de pessoas.

E no último dia 24, os brasileiros passaram a ser a comunidade mais populosa do Orkut! Vejam no gráfico ao lado!

Foi um momento histórico. Claro que isso não significa nem que temos algum controle sob o Orkut (que continua administrado pelos americanos), mas demonstra a nossa capacidade de mobilização. Primeiro “invadimos” o Fotolog, que tem uma presença maciça de brasileiros. Agora o Orkut.

Não vou divagar, aqui, sobre as razões disso, já li palpites que apontam como causa o nosso exibicionismo, nossa capacidade de mobilização, espírito gregário, alegria, companheirismo etc.

Somos mesmo um povo com muita criatividade e capacidade de mobilização!

Acho muito bom que os brasileiros ocupem a Internet e, principalmente o Orkut, não como vigança infantil contra os ianques, mas para mostrar que tem vida (muito) inteligente aqui no hemisfério sul, e estimular outros povos a seguir nosso caminho.

Mas, infelizmente, não é bem isso que está acontecendo. O comportamento de parte dos brazucas no Orkut e na Internet não tem nos dado nenhum orgulho! Num misto de xenofobia e anti-americanismo desbragado, brasileiros têm demonstrado preconceito e arrogância.

Queria lembrar que o Brasil é um país com mais de 30 milhões de miseráveis, onde apenas 8,31% da população, em 2001, tinha tido acesso à Internet, segundo dados do Mapa da Exclusão Digital, traçado pela Fundação Getúlio Vargas. Dados mais recentes indicam cerca de 11%. Para se ter uma idéia do nível de escolaridade desses internautas, dê uma olhada no gráfico abaixo.

graficodeescolaridade.jpg

Segundo esses dados, são pouquíssimos os que acessam a Internet e têm nível escolar abaixo do colegial completo. Conclusão: a Internet, no Brasil, é elitista. Portanto, não dá pra se justificar a má educação e grosseria de alguns (muitos) internautas brasileiros como resultado da nossa eterna pobreza e dificuldades de país em desenvolvimento. (Detesto essa choradeira.)

As pessoas que estão achincalhando a imagem dos brasileiros no Orkut, Fotolog e outras áreas da Rede, são pessoas que, provavelmente, estudaram em colégio pago, tiveram algum contato com o idioma inglês e oportunidades de desenvolvimento, que não aproveitaram.

O Orkut é uma proposta de rede internacional de relacionamentos. Acho ótimo que os brasileiros mostrem seu poder de mobilização e participação, mas eu – e um monte de gente – tá achando muito chato que queiram “tomar conta” da Rede e homogeneizar o Orkut. Aí, a brincadeira perde a graça.

Com a chegada ao topo na lista de países com mais membros inscritos, existe quase que um delírio patriótico, com propostas de se institucionalizar o idioma português como o “oficial” da rede, sob o pretexto de que somos maioria.

O mais engraçado é que visitei, no próprio Orkut, o perfil dessas pessoas que querem “divulgar a nossa cultura e idioma” à força e quase todas suas preferências musicais, por exemplo, são de bandas que cantam em inglês e muitos até têm seu perfil detalhado em inglês. Contraditório, né?

Só pra dar um exemplo, faço parte de uma comunidade criada para falar sobre o escritor Charles Bukowski e, recentemente, um norueguês questionou a invasão brasileira, afirmando que todos os tópicos estavam sendo escrito em Português, o que impedia quase todo o resto do mundo de participar das discussões. Ok, o cara foi um babaca, mas as respostas foram muito piores. O que seguiu-se foi um festival inpublicável de grosserias e palavrões.

Bom, eu acho o seguinte:

slv012.jpg1. Temos mesmo que “invadir” o Orkut, mas não pra avacalhar ou se fechar no nosso mundinho, acusando todo mundo de “conspirações pró-americanas” mas sim porque “tá na hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”.

2. Não se trata de render-se apenas ao inglês. Vamos criar mais comunidades em português e até torres de babel, com idiomas de todos os países, numa super brincadeira… mas, na minha opinião, devemos respeitar quando se solicita que se escreva em inglês em uma comunidade. Tá achando ruim? crie a sua, paralela, é super fácil. Eu criei uma para Oscar Wilde porque me senti incapacitada para discutir sua literatura em inglês. Simples assim!

3. Existe uma quantidade enorme de comunidades em Português, portanto, ninguém precisa ter medo de entrar, tem espaço pra todo mundo. Não precisa saber inglês pra entrar no Orkut!!!

4. Apóio, incondicionalmente, um movimento para se solicitar a tradução da interface do Orkut, não só por Português, mas também outros idiomas. Isso ajudaria muita gente a participar. É uma ótima idéia.

5. O cara que citei lá em cima (da comunidade de Bukowsiki), Øyvind, informou que a comunidade criada por eles, sobre a Noruega, escolheu escrever em inglês (ao invés de norueguês), como forma de incluir mais pessoas na comunidade (que, ele mesmo diz, é pra lá de chata) e ninguém sentiu-se ofendido por isso.

6. Não se espante com essa confusão toda. O Orkut é uma brincadeira muito divertida e eu aconselho todo mundo que está lendo esse blog, hoje, a entrar na farra… seja minha (meu) convidada (o)… se quiser entrar no Orkut, basta deixar seu nome completo e email e terei prazer em enviar um convite.

7. Agora, entrando no Orkut, use sempre as palavrinhas mágicas: respeito, respeito e respeito.

É isso ai. Eu acho que saber usar todos os maravilhosos instrumentos de comunicação oferecidos na Internet faz parte de um aprendizado para se exercer integralmente e com respeito a cidadania no ciberespaço.

Ainda não entendeu o que é o Orkut? tente esses textos abaixo:

Orkut – Uma Rede de Relacionamentos

Se jogue na rede!!! Dicas de como usar o Orkut

Clique no link abaixo para ler o Manifesto “Tamo Invadino Geral” e acessar links de artigos e comunidades relacionadas com o tema.

(Continue lendo aqui)

Encontro de internautas, em Recife, vira festa junina!

Denise | Blogosfera | Saturday, 26 June 2004

bandeiras.gif
blogrecife2.jpg
Janine, Isa, Carol, eu, mamãe, Evelynne, Megy, Dulce e Tell.

“Quando eu entro numa farra.
Não quero sair mais não…
Eu vou até quebrar a barra,
E pegar o sol com a mão…”
Luis Gonzaga

Gente, o nosso encontro de internautas em Recife, virou festa junina e foi o máximo, só faltou quadrilha e forró!

Nos reunimos no apartamento maravilhoso da Isa, que é uma pessoa incrível e super engraçada, a quem eu quero agradecer muito, publicamente! Foi maravilhoso conhecer (ao vivo) essas mulheres, leitoras assíduas do Síndrome de Estocolmo, interessantes, inteligentes, divertidas, poderosas!!!

Tivemos uma ótima tarde, rimos muito, contamos histórias, lembramos momentos, aqui do blog, e viramos amigas “de infância”… hehehe… Esse blog tem trazido grandes “presentes”, desde que comecei, há menos de um ano!

blogrecife3.jpg

Só pra torturar vocês mais um pouquinho… olha, ai acima, as coisinhas que a gente comeu no nosso encontro… milho cozido, bolo de rolo, pé de moleque, bolo Souza Leão e canjica… ai, meu Deus… regime adiado… hehehehe…

****************************

Querid@s, minha internet continua inacreditavelmente lenta… tenho tentado visitar @s amig@s, mas não dá… escrever esse post e colocar as fotos foi quase inviável… é verdade, Manoel, depois de banda larga, é duríssimo encarar a conexão discada… mas, o problema maior é a (falta de) memória desse computador mesmo! volto a deixar meus recadinhos assim que resolver esse problemão!

Midsommar

Denise | Suécia | Wednesday, 23 June 2004

sweden_mid-summer_062002.jpg

Não se pode ter tudo, né? estou feliz por estar aqui e vou me esbaldar no milho verde, pé de moleque e no bolo de macaxeira, mas sinto muito não estar presente na linda festa que é o Midsommar (meio do verão), na Suécia.

Ai, pesquisando sobre o Midsommar, pra escrever pra vocês aqui, fui percebendo as semelhanças com as festas juninas, da minha infância e adolescência, em Recife!

Na verdade, somos todos parte de um grande caldeirão cultural! nas minhas pesquisas para escrever os posts sobre as tradições suecas, nunca encontrei uma que fosse apenas sueca, todas estão presentes ou têm origem em outros países como, por exemplo, o Valborgsmässoafton, presente também na Italia, Alemanha e vários outros países europeus. Da mesma forma, o nosso São João, que parece tão “nosso”, veio com os imigrantes europeus…

maypole1.jpgA noite de Midsommar é, provavelmente, a festa mais popular da Suécia, depois do Natal. É uma celebração pagã, que existe desde a era Viking. É a grande celebração do verão e originalmente, era um rito de fertilidade, tendo o Maypole (mastro na foto ao lado) como o símbolo que “engravida a mãe terra”, numa esperança de boas colheitas no outono.

O Maypole é um mastro coberto de folhas, flores e fitas, ao redor do qual os que participam das festas dançam, ao som de danças antigas e folclóricas, e fazem jogos e brincadeiras. Muitas pessoas usam roupas típicas, mulheres e crianças colocam coroas de flores na cabeça.

Midsommar é um feriado nacional. Amigos e familiares se encontram para comer as primeiras batatas colhidas, peixes e cebolinha, morangos com creme de sobremesa e beber schnapps e cerveja. Bebe-se muuuuito, nesse período, inclusive os jovens. Ted disse que é uma data escolhida por muitos deles para inciarem-se em suas experiências sexuais… haja camisinha pra evitar toda essa fertilidade hehehe…

Nunca participei dessa festa, mas dizem que é a mais alegre da Suécia. O país está lindo, todo florido, belíssimo céu azul!

maypole.jpgVocê já deve ter ouvido falar na peça de Shakespeare, Sonhos de Uma Noite de Verão. (A Midsummer Night’s Dream), que acontece no Midsummer (ou Midsommar em sueco). Tem ainda o filme, maravilhoso, de Woody Allen: Sonho Erótico de Uma Noite de Verão.

Vale a pena dar uma olhada nos blogs de Célia e Neuma, que trazem mais informações sobre a festa!

Nosso São João

tn_bia24.jpgSem dúvidas, as nossas festas juninas têm suas raízes no Midsummer europeu.

Além do período em que as festas acontecem (ambas em torno do 21, 24 de maio), temos também as fogueiras, os fogos e o mastro de São João (que, nada mais é, que o Maypole europeu).

É sabido que os cristãos incorporaram muitos dos rituais pagãos, construindo histórias a partir deles. A fogueira, que é usada nas festas pagãs desde antes de Cristo, passou a ser um símbolo da anunciação do nascimento de João, assim como criou-se o mesmo significado para o “maypole” cristão.

No fundo, todos, do Norte e do Sul, estamos celebrando a mesma coisa, que é vida. É essa essência que devemos sempre buscar, de forma a que – respeitando as diferenças culturais – possamos ser um único povo, sem fronteiras.

*************************

Gente, vocês não tem noção do quanto foi difícil terminar esse post, pesquisar a festa, buscar fotos, em um computador com 48mb de RAM (emprestado pelo Origem) e acesso discado… leeeeeeeeeeeeeeeeeento…

Agora, vou me preparar pra ir pra reunião de internautas lá na casa da Isa!!! amanhã tem fotos pra vocês :)

Na terra da tapioca com queijo de coalho…

Denise | Pernambuco | Monday, 21 June 2004

Saí do verão sueco para o inverno olindense… mas as chuvas diminuiram e hoje já tivemos um dia de sol e o que é melhor, sem o calor insuportável de janeiro… ADORO essa época do ano no Nordeste :)

Por aqui, tudo está muito bem… tapioca, macaxeira, bolo de rolo… muito papo com mamãe e as amigas… e muito trabalho também, mas tudo coisa muito legal de se fazer, trabalho com prazer!!! apenas muita saudade de Ted – que foi pra Cidade do Vabo, Africa do Sul, ministrar um curso. Fico aqui até o dia 13 de julho.

Quarta feira de tarde teremos uma reunião com as amigas que fiz aqui no blog, Isa, Jan, Eveline, Dulce e Megy… estou adorando a idéia, vai ser maravilhoso conhecer minhas amigas virtuais!!! se você vive em Recife, visita o blog e gostaria de juntar-se ao nosso grupo, deixe uma mensagem com seu email!

Passei por aqui apenas pra dizer um “oi”, agradecer a todas as visitinhas de vocês e dizer que, pelo menos nesses primeiros dias, estou completamente sem tempo pra Internet… assim que puder, me atualizarei de tudo que vocês têm escritos blogs afora.

Beijinhos pra todo mundo, que eu vou ali na cozinha assar um queijinho de coalho!!!

Encontro de Internautas em Estocolmo!

Denise | Blogosfera,Suécia | Friday, 18 June 2004

Olá, pessoal!! em primeiríssima mão, algumas fotos do nosso maravilhoso Encontro de Internatutas! foi muito divertido.

Jantamos em Kungshallen, que é uma “praça de alimentação” multicultural, depois fomos assistir o jogo “Suécia X Italia” da Eurocopa e tomar sorvete na McDonalds (único lugar com TV!)…

Trocamos muitas figurinhas, emails e telefones… e já estamos programando o próximo para o dia 31 de julho, na Love Parade!!!!

nossoencontro1.jpg

Da esquerda para a direita: Katia e o marido, Patricia, Simone, eu, Renata, Gessi, Camila, Aline e Gisélia. Bia está tirando a foto e Ted já tinha ido embora…

nossoencontro6.jpg

Aline, Gessi e Bia

Ser imigrante e cidadão do mundo

Denise | Vida de Imigrante | Friday, 18 June 2004

maosglobo.jpg“Ser imigrante é pertencer à única espécie de seres humanos libertados das correntes do nacionalismo (sem falar de seu horrível irmão, o patriotismo). É uma liberdade difícil de carregar.”
Salman Rushdie

Apesar de não estar deixando comentários, por falta de tempo, estou visitando todos os blogs das pessoas que me escrevem e, nessas visitas, encontrei essa citação do Rushdie, no blog Cadernos da Bélgica, da Leila.

Aí, mesmo ocupada, me deu uma vontade danada de escrever uma coisinha sobre isso…como sempre, queria dizer que eu falo sobre o que eu reflito, observo e leio, mas não pretendo que seja nenhuma verdade absoluta, estou apenas compartilhando as minhas impressões com vocês.

Eu acho que fala-se muito em todas as dificuldades que os imigrantes têm e, com certeza, são muitas, mas acho que é necessário aprofundar um pouco essa questão e, ao invés de apenas reclamar, pensar em todos os matizes da questão.

Uma delas é essa “liberdade” que nós temos, esse “desterramento” que, para alguns pode ser visto como um fardo, uma dor, e aí os imigrantes podem ter uma tendência a apegar-se ao nacionalismo (que nem tinham quando viviam nos seus paises), à saudade incontrolável, à apologia ao país de origem, perdendo, muitas vezes, a sua visão crítica.

Outra forma de lidar com o vazio que fica quando não se é nem uma coisa, nem outra, é entregar-se ao mundo sem fronteiras. É ser uma expatriada, que, de certa forma, “perde” um país, mas ganha a possibilidade de ser do mundo. Essa é a liberdade que Salmon Rushdie diz que é “difícil de carregar”. Pode dar um vazio difícil de lidar, mas eu acho que tem muito mais benefícios a longo prazo.

Claro que cada experiência, de quem vive fora do Brasil, é diferente. Depende de muitas coisas… do motivo para o exílio, sua situação econômica, afetiva, etc. Mas, eu acho que paira aí uma questão que vai ter de ser enfrentada por todas as pessoas, indiscriminadamente, e é a postura que se assume enquanto imigrante.

A integração do imigrante depende, principalmente, dos instrumentos sociais que são criados no país para recebê-lo, mas depende, também da postura assumida pelo imigrante diante dessa integração. Tem, aí, dois lados envolvidos, o imigrante não é, simplesmente, “integrado” ao novo país… não é uma ação passiva. Ele também tem seu papel nessa integração.

Aqui na Suécia é muito clara a tendência, de algus grupos, em manter-se em contato apenas com pessoas das suas próprias nacionalidades, com os quais têm identidade cultural. Claro que são muitas as razões pra isso, e podemos falar nesse assunto um outro dia, mas a verdade é que é difícil falar em falta de integração desses grupos, se eles resistem a conviver com outras culturas.

De certa forma, isso acontece até com alguns latinos e brasileiros. Não acho que devemos renegar nossa essência, mas acho que, ao se escolher o caminho de imigrante, estamos nos propondo a integrar-se a uma nova cultura, que significa desgarrar-se do Brasil e cair no mundo… e é essa a liberdade que Salman Rushdie, sabiamente identifica como difícil de carregar e eu acho que é um primeiro passo para que se estabeleça em outro país.

Algumas pessoas dizem que existe um primeiro período de deslumbramento, na chegada ao novo país. Eu nunca passei por isso porque, nos ultimos dez anos, vivi uma boa parte do meu tempo viajando pelo mundo, ou seja, não era nenhuma novidade pra mim.

Mas, acho que mais danoso que o deslumbramento, é esse período de revolta, quase uma volta à adolescência, quando procurávamos problemas por todos os lados – alguns imigrantes têm a tendência de procurar discriminação em cada ato dos que nasceram no país em que se vive.

Essa fase é que eu acredito que deve ser superada o mais rápido possível, para dar lugar à verdadeira liberdade de estar em um país novo, com todas as dificuldades que isso significa. Com os pés bem fincados no chão, com o sofrimento que traz (sofrimento faz parte da vida, onde você estiver), brigando por seus direitos, sempre, mas com a mente e o coração abertos para se tornar um verdadeiro cidadão do mundo.

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Leia também:

Reflexões sobre a vida de imigrante – Parte I
Reflexões sobre a vida de imigrante – Parte II
Vivendo bem na sua segunda pátria!!!

Cearence arretada na Suécia!

Denise | Amig@s | Friday, 18 June 2004

Conheci uma baixinha arretada demais, aqui em Estocolmo. É a Célia que faz o blog “Esperança e Amor”

Célia é muito doce, muito legal e está em Estocolmo há 15 anos, muito feliz, com uma família adorável.

Nos conhecemos na última terça-feira, comemos comida indiana e falamos, sem parar, por horas… hehehe…

Ela é uma das pessoas maravilhosas que esse blog tem me proporcionado conhecer! pena que a gente não vai continuar morando pertinho, mas a amizade vai continuar pela Internet!!!

Grandes novidades

Denise | Suécia,Washington, dc | Wednesday, 16 June 2004

dc.jpgQueridos amigos, vocês devem ficar pensando como eu consigo ter sempre novidades… é que minha vida é movimentada, mesmo. Não tenho nem idéia do que é rotina. E eu adoro novidades!

Bem, a grande notícia, que eu sei vai cair como uma bomba aqui, é que estou deixando a Suécia!

É isso mesmo… eu tinha “feito a cabeça” pra ficar aqui por longo tempo, quem sabe, pra sempre (aqui perto tem uma casa de velhinhos e um cemitério, era só sair daqui pra um e depois pro outro hehehe)…

mas a vida tem muitas surpresas, né? Antes da gente mudar pra cá, Ted tinha pensado em voltar pros EUA (ele é americano). Ai, há alguns meses, alguém escreveu falando de um excelente emprego pra ele, onde poderia ganhar o dobro daqui, ter muitos outros benefícios sociais, fazer um belo trabalho (ele é nutricionista com PhD em Nutrição Internacional) e viver em Washington, que é uma cidade interessantíssima.

No início, eu e Bia ficamos um pouco reticentes, afinal, dinheiro não é tudo na vida, né? e nós adoramos a Suécia, de verdade! ainda tem uma questão ideológica, afinal estamos em um país social-democrata e os EUA têm o pior governo de todos os tempos.

Mas, o frio constante – mesmo na primavera e verão – e a quase total impossibilidade de cair na balada antes dos 21 anos (ela só tem 17!) convenceu Bia rapidinho. Eu quero o que é melhor para Bia, e acho que ela pode ser mais feliz por lá, mesmo, ela realmente detesta o frio e você não pode detestar o frio vivendo em Estocolmo.

Ted disse que só aceitaria o emprego se nós quiséssemos ir. Levei um tempinho pra me acostumar com a idéia. Vocês sabem como eu gosto desse lugar, dá pra ver pelos meus posts diarios, né? mas, por outro lado, como disse lá no começo, gosto de novidades e de desafios… e acho que sou incrivelmente adaptável em qualquer lugar que eu for.

Quanto ao blog, não pude contar a vocês antes, porque tínhamos questões burocráticas a resolver primeiro. Mas, vai ser o seguinte… por enquanto, continuo por aqui, porque estou completamente sem tempo pra nada… Assim que puder, vou criar um site sobre a Suecia, que terá o dominio: www.guiadasuecia.com. Nele, manterei tudo que escrevi sobre esse país, até hoje.

Também pretendo continuar escrevendo sobre a Suécia, nesse site. Não sobre seu dia a dia, já que não estarei aqui, mas prometo colocar sempre alguns artigos novos e refletir, à distância sobre o que acontece por aqui. Esse site será uma espécie de “portal da Suécia” para pessoas de lingua portuguesa.

E vou criar um novo blog, onde vou contando as minhas experiências lá na terra dos Cowboys… tenho certeza que não vai faltar o que contar… hehehe…Eu já fui a Washington várias vezes e ADORO a cidade! é um lugar cheio de vida, multicultural, lindo! aos poucos vocês também vão ficar sabendo de tudo de lá…

Enquanto isso, pra começar eu fiz duas listinhas…

Por que eu vou morrer de saudades da Suécia:

  • Os amigos que fiz por aqui!
  • O clima que eu, ao contrário de quase 100% dos imigrantes e 90% dos suecos (hehehe… atenção, os dados são brincadeira!) ADORO.
  • Os Kokosbolla que não vou poder comer mais… :(
  • A seriedade com que esse país trata a questão dos imigrantes, em nível governamental. Pode não estar nada resolvido, mas existe vontade política pra isso.
  • As tradições que são lindíssimas
  • O passeio em Gamla Stan
  • O meu apartamento que é perfeito, num lugar delicioso e onde eu fiz muitos planos… snif, snif…
  • A proximidade de outros países europeus e a facilidade de viajar por aqui.
  • O céu azulzissimo (ainda que raro), que deixa a cidade a coisa mais linda!
  • A beleza de Estocolmo, que é de tirar o fôlego

Mas, como gosto de ser feliz e não sou saudosista, já estou fazendo a lista do que eu gosto em Washington:

  • Os amigos que já tenho por lá!
  • O idioma, muuuuuuuuuuuito mais fácil que o sueco hehehe… A possibilidade de melhorar meu ingles
  • É uma cidade MUITO mais barata que Estocolmo, isso vai facilitar muito a minha vida
  • Será mais fácil para a minha vida profissional. Por enquanto estou ainda integrada ao Origem, mas aous poucos isso vai mudar. Em Washington, tenho muito mais possibilidades de trabalho
  • Bia vai ficar muito feliz com o clima que pode ser insuportavelmente quente no verão, mas ao menos também tem um friozinho gostoso, no inverno… e ainda pode nevar. Bom pras duas.
  • Washintgton, DC foi planejada por um francês e também é linda, claro que nem se compara com Estocolmo, mas tem sua beleza.
  • Os museus são o máximo. EM 1997 fui com Bia lá e lembro de pensar que maravilha é ter filhos numa cidade com tantos museus excelentes.
  • A vida cultural é movimentadíssima, poderemos fazer vários cursos, participar de muitas exposições, palestras etc.
  • As passeatas. Há pouco tempo, o movimento de mulheres organizou uma passeata que teve quase um milhão de pessoas!
  • Os movimentos sociais. Com certeza, me integrarei a um deles. Por ser a capital, Washington é uma cidade extremamente politizada.

É isso, ai, gente! mas, o mais importante é que estamos muito felizes. Vamos visitar, sempre, a Suécia, ao menos uma vez por ano, porque os filhos de Ted ficam por aqui.

Uma nova fase vai começar, nas nossas vidas…. Ah, mudamos no final de agosto ou começo de setembro…. torçam por a gente, OK???

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Comentários dos comentários:

Gente, super obrigada pelas mensagenzinhas tão legais! pois é, eu acho que vai ser bom pra gente, sim. Além do mais, continuarei escrevendo sobre a Suécia, também, podem ter certeza, esse pais está no meu coração… E pra turma dos EUA… o país é grande mas, olha, vou andar muito por ai, viu??? a gente vai se encontrar, sim!!! :)

Aceitar é uma opção. Respeitar é um dever

Denise | Discriminção,GLBTS,Suécia | Monday, 14 June 2004

paradagay2004.jpgÉ com muito orgulho que escrevo aqui sobre o grande sucesso que foi a “Pride parade” de São Paulo: um milhão e oitocentas mil pessoas reunidas para celebrar a diversidade!

A Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) foi uma grande festa, na maior paz e com as cores do arco íris. Essa turma sabe fazer festa, hein?

Muitos dos meus melhores amigos, em toda a vida, eram gays. Hoje, minha filha também tem grandes amigos gays. Infelizmente, ainda existe muita discriminação, no Brasil. Sou do tipo que não suporto nem piadinhas, acho que orientação sexual é algo que tem que se respeitar e pronto.

“Aceitar é uma opção. Respeitar é um dever”
Associação do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo

Na Suécia, a Pride Parade acontece no dia 31 de julho, mas vários eventos vão acontecer entre os dias 28 de julho e 01 de agosto. A festa é linda e eu vou estar lá! Vejam o site oficial da Pride Parade em Estocolmo.

O “comportamento homossexual” foi descriminalizado, na Suécia, em 1944 e a “Sociedade Civil Nacional de Homossexuais e Bisexuais” foi criada em 1950, numa época em que o homossexualismo era ignorado ou banido na maioria dos países.

Hoje, a Suécia tem algumas das leis mais progressistas sobre o tema. Claro que existem pessoas ignorantes em todo canto, não podia ser diferente por aqui, especialmente na Suécia rural. Eventualmente grupos nazi provocam gays, na rua, mas esses são uns macacos em qualquer lugar do mundo. A escória.

paradesuecia.jpgEm Estocolmo, vi várias vezes, casais de mulheres+mulheres e homens+homens passeando de mãos dadas e beijando-se em público. Ano passado, um dono de restaurante, em Estocolmo, foi indiciado e pode passar um ano na prisão, porque expulsou duas mulheres que estavam beijando-se em seu estabelecimento.

O casamento civil gay não só existe, mas também é igual ao casamento hetero, com troca de alianças e tudo. A cerimônia acontece no mesmo lugar em que Ted e eu casamos, no belíssimo prédio da prefeitura da cidade e onde é feita a cerimônia de entrega do Premio Nobel. O casamento gay foi criado em 1995.

A igreja sueca (luterana) aceita ministros gays e abençoa a união de pessoas do mesmo sexo. Agora, tem planos de criar cerimônias especiais para o casamento gay. “Nós aceitamos, oficialmente, os relacionamentos do mesmo sexo na Igreja” disse Bo Larsson, oficial de gabinete do Arcebispo K. G. Hammar, o chefe da Igreja da Suécia. “E muitos de nós estamos não apenas contentes e orgulhosos disso, mas nós queremos falar sobre o assunto. Jesus e o Gospel defendem direitos de todos à igualdade e liberdade de opressão.”

Fala-se muito que os suecos são frios e “sisudos” e o Brasil é um país tão amigável, tão alegre e tão “alto astral”. Mas isso tem dois pesos e duas medidas.

Amigável com quem? o nosso país trata as pessoas que amam pessoas do mesmo sexo com humilhação e desrespeito, em todas as classes sociais. Tenho horror a programas humorísticos que reforçam a imagem pejorativa da comunidade gay.

Francamente, nesse ponto, eu prefiro a “susidez” sueca. Podem até ser considerados frios, mas levam a sério o respeito às liberdades individuais e têm leis que garantem o exercício pleno da cidadania para todos.

bandeirape.jpgBia acabou de me lembrar que a bandeira de Pernambuco tem um arco-iris (símbolo do movimento gay). E na parada de Recife, o locutor – uma drag queen maravilhosa – lembrava o arco-íris em nossa bandeira o tempo todo, e também dizia: “Discriminação agride… eu não”!!! maravilhosa!!!!!!!!!!

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Acabei de receber um email de uma amiga contando a mais nova pérola daquela obra de arte que é “Celebridade”… uma lourinha (claro) diz: “será que todo homem agora é gay? e ainda por cima, querem casar, pode????” aaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiii meu Deus!!!!!!!!! o mal que essas novelas fazem à cabeça dos brasileiros…

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