Antes de finalizar meus post sobre os suecos, queria ressaltar que não estou fazendo nenhum julgamento sobre eles. Algumas características, que eu percebo, podem ser mais difíceis da gente se acostumar. Outras são grandes virtudes, mas ninguém é melhor, ou pior, que ninguém. Somos diferentes.
Acho difícil – e não tenho intenção de – me “assuecar”, porque sou quase a antítese da cultura sueca. Falo muito, sou extrovertida, solar, exagerada (como disse Cazuza).
Mas é como a Liza, que vive aqui há 4 anos, disse : “eu com esse coração latino e sangue italiano nas veias fica dificil me ‘encontrar’ nesse contexto. Mas como o sueco é um povo que respeita muito a individualidade de cada um, então não tenho tido problemas com meus arroubos de espontaneidade…”. Eu diria exatamente a mesma coisa!
Bom, continuando…
1. Suecos não se sentem bem recebendo elogios. Menos ainda quando são elogiados por pessoas que mal os conhece, o que pode ser considerado falsidade. Um dia, fui na escola da minha filha e fiz milhares de elogios às professoras, elas ficaram felizes por ter seu trabalho reconhecido, não acharam falsidade, não, mas dava pra ver que “queriam morrer” de vergonha. Acho que preferiam se eu tivesse ficado quieta hehehe… vivendo e aprendendo…
2. Quem assistiu filmes de Ingmar Bergman, conhece um pouco da alma sueca. Infelizmente, tenho que concordar… são um pouco melancólicos mesmo. Essa tristeza, que atinge os suecos “por causa do frio, a escuridão e os altos impostos”, como dizem aqui, é conhecida como “svårmod”. Os suecos têm uma tendência à introspecção. Como se estivessem sempre buscando respostas para o sentido da vida, sem nunca achá-las.
3. Mas, nem sempre essa introspecção é tristeza ou melancolia. De uma forma geral, os suecos são muito tímidos. Acho que essa foi a primeira coisa que me chamou a atenção aqui. Numa primeira olhada, pode-se até achar que são chatos, frios, distantes… e alguns podem até ser isso tudo, mas na maioria das vezes, isso é uma enorme timidez.
A Roberta comentou aqui no blog, há algum tempo: “Uma coisa que no início eu confundia muito era a timidez dos suecos com discriminação, mas hoje percebo o quão errada eu estava em meus julgamentos”. Ao contrário de outros países, onde a timidez é considerada uma fraqueza a ser superada, aqui a timidez é quase uma virtude, visto que as pessoas mais discretas são as mais benvistas pela sociedade.
4. Fazer amizade com um sueco não é uma tarefa tão fácil, como parece ser com os brasileiros. Os suecos são pessoas reservadas, não falarão com desconhecidos no metrô ou em lojas, mas se você falar com eles, na maioria das vezes, eles serão muito gentis podem até ficar felizes por você ter puxado o papo (ou não, eu prefiro não arriscar hehehe). Se fizer amizade com os suecos, será uma amizade profunda e duradoura.
Como os laços de família não são tão próximos como no Brasil, os amigos têm uma importância enorme e eles fazem tudo pelos amigos.
Tenho uma historinha que gosto sempre de lembrar… uma vez participei de um aniversário de 70 anos em Uppsala (Veja foto ao lado). As expectativas eram as piores possíveis… hehehe… mas nunca me diverti tanto. Todas as pessoas, sem exceção, vieram falar comigo, se apresentaram, foram super gentis. Tivemos ótimos papos. Me senti muito benvinda e tudo me pareceu muito bonito e alegre (ao jeito deles). Tava tão bom que nem queria ir embora.
Duas semanas depois, fui a uma festinha em São Paulo. Um pessoal bem interessante e “moderno”, a maioria formada por pernambucanos descolados. Conhecia poucas pessoas. Por incrível que pareça sou muito tímida… aí fui ficando por lá… ninguém, mas ninguém que eu não conhecia falou comigo. Estavam todos enturmados, não era bem o caso de eu tentar me enturmar, seria gentil se me incluissem no papo… Enfim… acho essa “amigabilidade” brasileira pode ser questionável. Se você não tem a sua turma, tem uma boa possibilidade de ficar de fora.
5. Visita é um ritual. Já ouvi falar que os suecos não se visitam muito constantemente porque dá um enorme trabalho. Isso é verdade. Não é como no Brasil, onde amigos podem aparecer, a qualquer hora.
Se você for visitar alguém na Suécia, tem que avisar com antecedência, para dar tempo de se consumar o ritual sueco da limpeza e arrumação da casa. Não é só uma arrumaçãozinha, não… é faxina pesada mesmo! E tem mais… ao eles chegarem, você deve chamá-los para “conhecer” a casa… se não chamar também pega mal, porque eles terão perdido todo o tempo pra fazer a faxina, se ninguém for “inspecionar” hahahaha… Uma loucura… Ted fica chocado porque eu chamo os brasileiros aqui, e nem me preocupo com isso!
E tem mais, você tem que retribuir uma visita recebida… o que gera mais uma pessoa fazendo a infeliz faxina…portanto, o pessoal prefere ficar em casa mesmo… Mas se, ainda assim, você decidir fazer essa visitinha na Suécia, NUNCA esqueça de levar flores, chocolates ou uma garrafa de vinho.
6. Os suecos são independentes. São criados para isso, e é quase uma “matéria” na escola. São preparados para viver sozinhos, homens e mulheres.
7. A velhice é muito respeitada. Moro perto de uma casa de idosos (financiada pelo Estado) e aqui tem uma grande quantidade deles. Pra começar, são elegantérrimos. Acho o máximo a produção das velhinhas que combinam chapeuzinho, luva e sapato, casaco maravilhoso… os homens usam gravatinha borboleta… e não são ricos, não.
A maioria, quando precisa, usa um “andador” como o dessa senhora ai acima, que os dá mais independëncia (aqui dá pra usá-los em todo canto, até no metrô, imagina em nossas calçadas esburacas e desniveladas?!). Moram nessa casa para idosos, mas fazem suas compra, pegam metrô, saem sozinhos. às vezes, vejo velhinhos andando, perto daqui de casa, que parecem ter quase 100 anos.
Aqui os filhos não são responsáveis pelos idosos. Não existe uma lei, como no Brasil (absolutamente necessária, lá, com certeza), que obriga os filhos a sustentar os pais. Essa é uma tarefa do Estado, que garante a eles todo atendimento médico e condições humanas de sobrevivëncia.
8. As mulheres são bonitas e atléticas. Tem um corpão e se conservam assim até a velhice. Na minha academia de ginástica tem mulheres de 55, 60 anos com corpo de dar inveja. Pelo menos em Estocolmo, acho que se vestem muito bem.
São, na maioria, independentes e muitas priorizam sua carreira, estudos e trabalho, antes de casar e ter filhos. Parecem auto-confiantes, mas acho que sofrem muito com a tensão entre a vida privada (familia, filhos) e a vida pública (trabalho, participação social). Essa deve ser uma das maiores causas de depressão entre as mulheres.
Tenho visto muitas mulheres com filhos, diferente do que eu imaginava. A taxa de natalidade é apenas um pouco menor que a brasileira. Mas elas me parecem, na maioria das vezes, angustiadas, por que têm o peso da importância da carreira profissional e estudos e, ao mesmo tempo, a cobrança de serem mães dedicadas.
De uma forma geral, acho que as mulheres – especialmente as mais velhas – são mais duras e até um pouco frias. Acho que, além dessa tensão, que citei, as mulheres tiveram que lutar muito pra alcançar a igualdade de gênero que têm hoje (metade do parlamento é formado por mulheres), no país. Quando lutamos por uma mudança desse tamanho no comportamento do país, temos que forçar a barra e isso tem um custo. As mulheres, especialmente aquelas da faixa de 40, 50 anos, parecem mais “áridas”.
9. Os adolescentes são mais “light”. São educados pra estudar muito, levar o futuro a sério, mas também se divertem bastante. Os índices de gravidez na adolescência é o mais baixo do mundoe eles tem total acesso a contracepção. O problema principal é alcoolismo. Apesar de todas as restrições do acesso à garotada ao álcool, eles bebem muuuuuuuuuito. É um problema de saúde pública, aqui.
Apesar de terem seus lugares para diversão, a maior reclamação é por não terem acesso a álcool e por serem barrados em muitos clubs. Na maioria deles, só podem entrar pessoas com mais de 21, 23 e até 27 anos…
Estão mudando o país, mas ainda se prendem a inúmeras tradições. Eu acho isso muito legal.
10. Os homens suecos também são muito bonitos. Eu e Bia brincamos que os nossos favoritos são os trabalhadores braçais. Uma coisa! hehehe…
Parecem ser, na sua maioria, ótimos companheiros. Especialmente a geração mais nova que foi criada em uma sociedade de direitos igualitários, entre homens e mulheres. Não acho que a maioria divide as tarefas absolutamente por igual, mas muitos o fazem e os que ajudam pouco, ajudam muito mais que os homens no Brasil e países latinos em geral.
A maioria deles têm consciência da importância da igualdade de gênero, mas reclamam da forma como é imposta pelas mulheres. Recentemente, foi publicada num dos jornais mais importantes do país, uma carta de um homem reclamando que ele é responsável por consertar o carro e outras tarefas braçais… e ainda têm que dividir 50% os trabalhos domésticos… ou seja, eles dividem sim… mas ficam indóceis… hehehehe
De qualquer forma, é muito bacana como os meninos aprendem, na escola, a costurar, bordar, cozinhar, tudo igual às meninas. São educados pra cuidar dos filhos, também. A gente vê muitos pais passeando com carrinhos de bebê na rua. Mas não vou dar detalhes porque ainda quero escrever um post sobre a relação dos homens com a casa e a patermidade, na Suécia.
11. Homens e mulheres ADORAM telefone celular, isso já virou até piada. 88.5% da poluação tem celulares no país. Eles ficam pendurados nele o tempo todo, nos metrôs, ruas, lojas… mas nunca no cinema ou teatro!
12. As crianças são as donas do país. Tudo gira em delas.
Se um pai bater em seu filho, vai preso. O Estado pretende assegurar o bem estar das crianças. Isso causa exageros. Uma amiga, uma vez reclamava que a professora da escola do seu filho estava o pressionando a contar se ela batesse nele. Ela estava furiosa com o que ele dizia ao chegar em casa, como se fosse induzido a dedurar a mãe (que não bate nele!). Mas é uma questão difícil de chegar a um meio termo. Eu, pessoalmente, sou a favor de se interferir para evitar crianças apanhando dos pais, o que eu acho uma covardia.
É engraçado como as crianças ficam quietinhas no frio. Acho que que é a amostra mais concreta do quanto o clima interfere na personalidade e comportamento das pessoas. Eles ficam durinhos, e parecem umas bonequinhas nos carrinhos, só mexem os olhos… hehehe… mas, de uma forma geral, independente do clima elas me parecem bem educadas.
13. Os suecos lidam com a morte com a mesma “introspecção” que está presente em todos os acontecimentos da vida. Do mesmo jeito que não fazem uma festa ao saber que vão ser avós, também não fazem drama com a morte. Presenciei algumas casos e é completamente diferente do nosso desespero latino. É mais uma coisa na vida que deve ser lidada com “lagom”, nem demais , nem de menos.
14. E pra terminar, deixa falar um pouquinho dos “índios”, os nativos da Escandinávia, que são os Sami (lapões). Com uma cultura própria distinta das outras culturas nórdicas, os samis formam, hoje, uma comunidade de cerca de 16 000 pessoas, que vivem bem ao Norte do país. Na linguagem deles, “Sami” significa “ser humano” e eles também se chama de “o povo do sol e do vento” .
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Comentários sobre os comentários:
Esse post vai ficar enorme, mas vou precisar comentar algumas coisas aqui, OK? infelizmente, não sobre todos os comentários, mas tenham certeza que estou dando a mesma atenção a cada palavrinha colocada aqui!
Mas, vamos lá!
Eldorarj, querida, você me lembrou uma coisa IMPORTANTÍSSIMA que eu tinha esquecido de colocar aqui. Os suecos não admitem dever nada a ninguém. Isso faz parte do conceito “lagom” que comentei ai abaixo. Nem a mais, nem a menos. Se você vai a umr estaurante, prepare a calculadora, porque o valor que cada um paga tem que ser exato. No Natal de 2002 eu estava aqui, com Ted e os dois filhos dele. Por engano, acabei comprando dois presentes pra um deles (o de 25 anos). Ele fico atônito… dava pra perceber aquela cara de “não estou entendendo, isso não era pra acontecer”… hahaha… ele me deu meu presente… No dia seguinte, veio em entregar uma caixa de chocolates! impressionante! Tem que ser tudo igual. Nem mais, nem menos…
Também concordo com a Eldorarj que os velhinhos, às vezes, parecem muito tristes e solitários. Mas, acho que a velhice é uma questão ainda não solucionada por nenhum país. Não acho que sejam mais felizes no Brasil, onde a maioria dos filhos os tratam como “fardos” porque são completamente responsáveis por eles. Ainda vou escrever sobre a velhice aqui, qualquer dia. Eu acho que é mais “digna”, é tratada com muito mais respeito.
Agora, mudando completamente de assunto, o que a Nora me perguntou, outras pessoas já quiseram saber, também… como colocar a foto do lado do texto… é o seguinte. Você precisa ir no lugar em seu editor de post do blog onde está o HTML. No meu caso, que uso Movable Type, é onde escrevo mesmo. Ai, nas especificações da foto, coloque align=”left” ou align=”right”. Só isso. Boa sorte e me avisem se conseguirem, fica bem mais legal mesmo. E lembrem de fazer as fotos pequenas, minhas fotos quase nunca ultrapassam os 300 pixels de largura.
E pra todo mundo que perguntou… minha dor de cabeça é companheira eterna. Coisa de mulher, mesmo. Mas, agora estou um pouco melhor, muito obrigada pelo interesse