
Artigo no jornal francês Le Monde de hoje (via UOL):
Um operário, uma mulher. Pela segunda vez, a democracia brasileira, outrora violentada, hoje vibrante, inova com felicidade. No sábado, 1º de janeiro, o ex-metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva cederá sua poltrona a sua sucessora, Dilma Rousseff, a ex-guerrilheira que se tornou economista e tecnocrata, eleita há dois meses a primeira mulher presidente do Brasil.
Dilma, como todos a chamam, chega ao cargo supremo em um contexto bem mais invejável que o de 2002. Não tem necessidade, como então, de acalmar os meios empresariais que o sindicalista barbudo ainda assustava, apesar de suas promessas tranquilizadoras. Graças ao pragmatismo de Lula, nunca desmentido em oito anos, os capitais hoje afluem à Bolsa de São Paulo, para se investir ou especular.
A nova presidente se beneficia da herança de seu antecessor. Uma democracia consolidada, livre da inflação, com uma riqueza multiplicada pelo aumento da cotação das matérias-primas. Crescimento, emprego, consumo, moeda: os grandes indicadores do Brasil estão com sinal verde. Principalmente com um fabuloso tesouro petrolífero que dorme ao largo de suas costas.
Ao realismo econômico acrescenta-se uma relativa ousadia social. Graças ao ambiente de dinamismo e a uma série de ajudas familiares, 15 milhões de brasileiros nos últimos oito anos escaparam do desemprego, integraram a economia formal e deixaram de ser pobres ou muito pobres. Eles se uniram ao crescente exército das classes médias, ávidas por possuir, consumir e viver melhor.
Como todo empreendimento inacabado, o de Lula inclui sua parte sombria, onde Dilma Rousseff enfrentará seus maiores desafios. A educação continua medíocre e desigual. O sistema de saúde funciona em duas velocidades. A violência e a insegurança gangrenam as metrópoles. A corrupção e o nepotismo corroem a vida pública em um país onde a política é muitas vezes vista como um simples meio de enriquecer. As infraestruturas exigem um rápido desenvolvimento para enfrentar principalmente o desafio da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016.
Lula deixa para a nova presidente um país escutado e respeitado na arena internacional. O Brasil tornou-se um ator maior, que atrai muitos elogios e já algumas críticas, por exemplo sobre sua aproximação do regime de Teerã. Nesse campo, Dilma começou a fazer ouvir sua diferença, exprimindo com força sua preocupação pelos direitos humanos, em particular os das mulheres, no Irã e em outros lugares.
Rousseff deve seu destino glorioso ao apoio inflexível de seu mentor, do qual ela não possui nem o carisma nem os dons de tribuno, realmente ímpares. Ela terá sem dúvida intenção de emancipar-se aos poucos dessa tutela benfazeja. Professor de otimismo, Lula inflamou o moral da nação. Essa confiança coletiva beneficia sua protegida. Mais de quatro em cada cinco brasileiros preveem que Dilma governará tão bem quanto ou melhor que o presidente mais popular da história do Brasil. Cabe a ela não os decepcionar.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves