
A minha decisão de escrever sobre a notícia de que Mônica e José fizeram um aborto, quando estavam no exílio, não é, de forma alguma, retaliação contra as baixarias espalhadas pela campanha PSDBista contra o PT e Dilma. Não me venham falar que é ” se igualar por baixo”, porque estou tratando o tema com toda gravidade e essa é uma questão muito mais complexa do que factóide de campanha.
A essa altura, com o ataque à legalização do aborto tendo sido introduzido pelos dois – Serra e Mônica – como arma poderosa nesse campo de batalha que se transformaram as eleições, esse triste episódio na vida dos jovens da foto acima sai da esfera privada para a pública. E temos, sim, todo direito de falar nisso.
Compreendemos o quanto esse aborto deve ter sido uma experiência dolorosa para os dois, principalmente para Mônica. Tanto que, décadas depois, ela ainda citava o que aconteceu, como exemplo ao falar para suas alunas do curso de dança sobre “como marcas e traumas da vida alteram movimentos do corpo e se refletem na vida cotidiana”.
Tenho todo respeito pela sua dor, a mesma que é compartilhada por uma em cada sete mulheres brasileiras que já se viu em uma situação na qual tiveram que desistir de uma gravidez, pelos motivos mais diversos. Claro que não condeno a decisão de Mônica e do candidato José Serra de fazer um aborto – ainda que a criança não tivesse anencefalia ou a mãe estivesse correndo risco de vida – porque cada um sabe da sua história e decidir sobre seu corpo e seu futuro é direito de tod@s.
O problema é que, se torna ainda mais inaceitável que, o mesmo José Serra, que com certeza apoiou e assegurou à companheira o direito a uma intervenção cirúrgica segura de interrupção de gravidez, agora esteja lutando para que outras mulheres, que se vêem compelidas a interromper suas gestações, não tenham a mesma sorte.
E quanto a Mônica Serra, só podemos lamentar sua atitude hipócrita ao dizer a eleitores que “Dilma quer a morte de criancinhas”. Ela, ainda mais mais que eu e muitas de vocês, viveu o drama na própria pele e deveria ter a consciência de que negar às mulheres o direito legal ao aborto é condená-las à morte.
Então, como a gente fica? mulheres pobres continuam abortando sozinhas ou nas mãos de curiosas somente porque as madames – que interrompem suas gestações em clínicas seguras – querem continuar vestindo o véu da hipocrisia e manipulando a opinião pública, incitando o ódio contra o PT, para ganhar essa e outras eleições.
Ninguém é “a favor do aborto”. Nem eu, nem Dilma, nem Mônica. Mas o caso desse aborto apoiado por Serra é só uma prova para os eleitores do tucano de que a interrupção da gravidez pode, sim, ser inevitável.
Pelo menos, apesar de ter deixado marcas indeléveis em sua mente e sua história, Mônica está viva, ao contrário de milhares de mulheres que morrem todos os anos por falta de cuidados adequados, ao realizar um aborto que não deixa de ser feito, por ser ilegal.
Ps.: E a hipocrisia de Serra não para por ai. Soninha Francine, coordenadora da sua campanha na internet (e com quem, muita gente comenta, ele tem um caso amoroso) também fez um aborto e divulgou o fato à imprensa. Ela também pode.
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Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna
Reportagem publicada na Folha de São Paulo desse sábado:
Por MÔNICA BERGAMO (Colunista da Folha)
O discurso do candidato à Presidência José Serra (PSDB) de que é contra o aborto por “valores cristãos”, que impedem a interrupção da gravidez em quaisquer circunstâncias, é questionado por ex-alunas de sua mulher, Monica Serra.
Num evento no Rio, há um mês, a psicóloga teria dito a um evangélico, segundo a Agência Estado, que a candidata Dilma Rousseff (PT), que já defendeu a descriminalização do aborto, é a favor de “matar criancinhas”.
Segundo relato feito à Folha por ex-alunas de Monica no curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a então professora lhes contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido.
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