Atenção: Antes que outras pessoas venham torrar minha pouca paciência, informo que não escrevi esse post com o objetivo de justificar meu voto na Dilma, para isso fiz esse outro post aqui. Apesar de admirar sua militância durante a resistência à ditadura, obviamente, não é por isso que voto nela.


Mesmo nunca tendo sido vítima direta (nem eu, nem familiares), minhas história está indelevelmente marcada pela ditadura militar no Brasil.
Tudo começou antes da escuridão tomar conta do país. Era uma vez, dois jovens que se conheceram no começo dos anos 60, eram fãs de João Goulart e Maria Tereza (que meu pai jurava, era a cara da minha mãe), ouviam bossa nova, se apaixonaram e casaram em 63, cheios de esperança no Brasil do futuro.

Minha mãe vivia em Triunfo, sertão de Pernambuco, para onde meu pai mudou de motocicleta e loirinho, de olhos azuis e um cabelo mais ou menos inspirado em James Dean, fascinando a estudante de licenciatura, cujo pai tinha um sítio e vivia pra cima e pra baixo, fazendo campanha política para Miguel Arraes.

Com poucos meses de gravidez, na foto acima, meus pais provavelmente ainda não tinham muito clara a idéia do quanto o Brasil que eles amavam iria mudar. Cinco meses antes do meu nascimento, o Brasil afundava numa ditadura que viria a ser truculenta, criminosa e impressionantemente sádica.
Meu pai era um idealista, um poeta, e eu cresci ouvindo a história da minha mãe com a barriga enorme, queimando os livros “comprometedores” do meu pai e tentando apagar os rastros de um bancário que nunca foi militante político, mas que nunca tinha medo de falar e falava muito. Coisa perigosa em tempos de repressão… e que ainda iria piorar muito.

Eu nasci em 14 de agosto de 1964. Meu pai cantava:
“Mulher, vou dizer quanto eu te amo
Cantando a flor
Que nós plantamos
Que veio a tempo
Nesse tempo que carece
Dum carinho, duma prece
Dum sorriso, dum encanto“
(Chico Buarque de Holanda)
Minha primeira música e meu nome (homenagem à filha de João Goulart) anunciavam os tempos em que eu ia crescer.
Eu ainda estava no berço e as meninas de 16 anos preferiam ir pra bailinhos dançar ao som de Celly Campelo, quando Dilma Roussef, garota privilegiada financeiramente, entrava na organização socialista POLOP – Política Operária e começava uma história de resistência, da qual eu me sinto devedora.
Minhas lembranças de crescer numa ditadura militar são confusas. Não lembro de palavras, mas de sensações. Do medo da minha mãe, da raiva do meu pai, da angústia dos vizinhos barbados e sempre sérios, que ouviam Raul Seixas e sumiam, de vez em quando. Lembro de um clima pesado, triste, solene. É um sensação que, aparentemente, as novas gerações não conseguem entender.

Lembro das intermináveis aulas de Moral e Cívica, de ter que cantar o hino e hastear a bandeira em fila, todos os dias antes da aula, caindo de sono e das fotos anuais, cercada de símbolos patrióticos. Também lembro da minha mãe, nervosa, me proibindo de repetir a piada que eu tinha ouvido: “Como mede-se um burro?” =)

Mas, a imagem mais marcante da ditadura, pra mim, foi um dia, passando num ponto de ônibus, quando vi um cartaz cheio de fotinhas pequenas de moças e rapazes e perguntei quem eles eram, minha mãe deu uma resposta atravessada, eram pessoas procuradas pela polícia. Então, deviam ser perigosas. Medo.
Enquanto a censura escondia, como dava, da minha família e de todo Brasil o que estava acontendo, essa sensação de angústia e peso, que percebia nas músicas e que rondou minha infância tinha suas razões. Vivíamos tempos de muita dor.
Hoje, eu fico muito, muito triste ao ver as pessoas “acusando” a Dilma de ser uma “terrorista”, “assassina”, “assaltante de banco.
Não é pena da Dilma, que essa vai ser eleita presidenta do Brasil. Essa já tem o crédito de mais de 40% dos brasileiros e a gratidão de milhões de pessoas que, como eu, reconhecem o papel que ela e outras meninas e meninos tiveram na história do Brasil, para que possamos hoje viver numa democracia.
Tenho pena das pessoas que não conseguem (ou não querem) entender o que foi viver em época de ditadura, tendo sonhos de liberdade. Pena de ver a história sendo deturpada e incompreendida. Parece que as pessoas perderam a dimensão do que foi essa ditadura sádica e que matou quase 300 pessoas que tinham uma vida inteira pela frente, destruindo suas famílias e deixando muitas mães órfãs.
Não, esses “guerrilheiros” não eram perfeitos, nem tinha como ser. Muitos eram quase crianças. Imaginem os meninos de menos de vinte anos, hoje, tendo que lutar contra uma repressão brutal. Eles viviam numa pressão e num contexto de não ver saída e, ainda assim, não querer entregar o Brasil aos militares assassinos. Deram a vida, passaram anos presos, foram torturados.
Sim, eu tenho muito orgulho de ter uma presidenta que lutou contra essa ditadura. E, agora, ainda mais. O termo “guerrilheira” ganha outra dimensão, após a tentativa da mídia golpista de usar esse período da sua história para derrubá-la nas eleições. Dilma era uma “guerrilla girl” como está escrito em minha camisa e eu me arrepio ao vê-la falar do que foi ter de mentir, sob tortura, para salvar os companheiros.
Não voto em Dilma porque sou petista, nunca fui nem tão militante ativa. Também não voto em Dilma porque ela é candidata de Lula. Voto em Dilma com toda a convicção de que ela é a mulher que eu quero ver presidenta do Brasil. Como não poderia deixar de ser, não é perfeita. Mas ninguém é e faz parte do aprendizado de tolerância, aceitar uma imperfeição aqui, outra ali.
Eu acredito que Dilma será uma presidenta tão boa quanto foi Lula e a sua história só demonstra o quanto ela tem garra e princípios.
E, para quem não sabe – ou esqueceu – veja um pouco, no link abaixo, o que era viver num período de ditadura e ser submetid@ a torturas, por pensar diferente e querer outros caminhos para o Brasil. Assaltar um banco não é nada, perto da selvageria que a ditadura militar implantou. Não é terrorismo, é reação, é luta pela sobrevivência.

“Você corta um verso / Eu escrevo outro
Você me prende vivo / Eu escapo morto
De repente / olha eu de novo
Perturbando a paz /Exigindo o troco.”
(Pesadelo – Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

(Sônia Maria Lopes de Moraes, morta em 73, encontrada no DOPS/SP)
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