Então, como muita gente que visita o blog já sabe, estamos (eu e meu marido) vivendo na Coreia do Sul há quase dois anos.
O que não quer dizer muita coisa, porque tem gente que consegue captar a essência e cultura do povo em poucos meses, enquanto que outra vive 20 anos num país e sai de lá sem entender nada.
Enfim, isso pra lembrar que, obviamente, não sou especialista em questões coreanas, menos ainda de segurança nacional, ainda assim, vou escrever (atendendo a pedidos) sobre o que eu tenho lido, ouvido, observado e as minhas reflexões sobre a possibilidade de uma guerra entre as duas Coreias.
Como o assunto é complicado, não vou falar sobre tudo de uma vez só e, pra começar, vou contar um pouquinho do pouco que eu sei sobre a história mais ou menos recente do país que acabou dividido.
História
Geopoliticamente falando, a Coréia é um país relativamente pequeno, que deu o azar de estar situado numa região cercada de poderosos: Russia, Japão e China e, por isso, sempre precisou lutar por sua independência.
Essa situação deixou impressões profundas no “código genético” coreano. É um povo desconfiado, com um forte senso de nacionalismo (muitas vezes visto como xenofobia pelos estrangeiros) e que tá acostumado a brigar para garantir sua autonomia,
A Coreia esteve sob o julgo chinês, japonês, e até franceses andaram por aqui e, vamos ser sinceros, nem todo mundo fica satisfeito com a contínua presença das tropas americanas, desde a Guerra da Coreia.
A história da Coreia pré-divisão é fascinante, mas vou ficar apenas na história mais recente, que é a mais importante pra tentar entender um pouco das notícias que nós lemos nos jornais.
Domínio japonês

A fronteira que divide as Coreias – e que fica a apenas cerca de meia hora aqui de Seul – já tinha sido usada no começo do século passado, quando Japão e Russia brigavam entre si pelo controle da região e o Japão propôs que os russos limitassem sua área de atuação ao norte dessa “linha imaginária”. Acabaram sem chegar a um acordo e o Japão tomou conta de toda a Coreia, anexando-a em 1910.
Teve aí o início de um período de massacre cultural. Apesar de ter feito algumas melhorias, como estradas e pontes, os japoneses sugaram o que puderam da Coreia, usando seu povo como mão de obra quase escrava. Para mantê-los sob controle, os invasores fizeram de tudo para destruir sua cultura, ao ponto de, em 1937, o idioma coreano e o ensino da sua história ter sido proibido nas escolas.
Foto: Yoo Gwan-Soon,importante heroína coreana da resistência contra o imperialismo japonês. Aos 16 anos, comandou um levante em sua cidade e não conseguiu libertar seu povo, mas lutou até a morte e é inspiração e orgulho, principalmente para mulheres e jovens, até hoje.
Divisão das Coreias
Em 1945, com o fim da II Guerra Mundial e a rendição incondicional japonesa, a União Soviética tomou conta do norte e os EUA controlaram o sul da Coréia, usando aquela linha (paralelo 38) da qual já falei aí acima, como limite de fronteira.
Em 1948, no lado Norte, foi proclamada a independência da República Democrática Popular da Coréia e as tropas soviéticas retiraram-se do país. Kim Il-sung (pai do atual “querido líder”), assumiu a presidência, criando sua própria doutrina, conhecida como Juche (ou marxismo-leninismo-kimilsonguismo ).
Em coreano, Juche significa “auto-estima” e é uma ideologia que cultua personalidades, é altamente militarizada e propõe uma total auto-suficiência, em todos aspectos da vida.
Guerra da Coreia
Dois anos depois de assumir o poder, querendo forçar uma reunificação, Kim Il-sung atacou o Sul, de surpresa e chegou a controlar quase toda a região, tendo Busan, bem ao sul, como foco de resistência.
Foi a chamada Guerra da Coréia, na qual o Norte tinha apoio dos comunistas União Soviética e China, enquanto que o Sul contou principalmente com os EUA (que ainda mantém uma base aqui, com 28 mil soldados).
Na foto, Paul, o tio de Ted, enquanto lutava na Guerra da Coreia. Ele é gente muito boa, mas vocês não acham que a pose tem um certo ar de “estou aqui para salvar os pobres coreanos”? pra mim, ela mostra bem o espírito americano e porquê alguns coreanos resistem a eles, hoje em dia. (Mas, sobre isso, vou escrever mais em outro post)
Cessar-fogo
Em 1953, depois de mais de um milhão de mortos, foi assinado um “cessar fogo” entre a ONU e EUA e a Coreia do Norte, mas até hoje não existe um tratado de paz e, oficialmente, as Coreias continuam em guerra.

(Assinatura do cessar-fogo que interrompeu os ataques. Gen. Harrison, pelos EUA e ONU, na mesa da esquerda e o Gen. Nam II, na mesa da direita, assinando pela Coreia do Norte. 23 de Julho de 1953.)
Nos anos 60 e 70, o Norte até que viu alguma prosperidade graças ao apoio soviético mas, no final dos anos 80, com o colapso do comunismo, foram-se os parceiros e, enquanto países ex-comunistas buscavam alternativas e reformas econômicas, a Coréia do Norte manteve-se rígida em seus preceitos, com uma população faminta e totalmente desinformada em relação ao que acontece fora do país.
Veja no site da BBC uma “Linha do tempo” que dá detalhes do que aconteceu até 2002. Também vale a pena dar uma olhada nesse infográfico (clique no link e veja lá embaixo da página).
Continua no próximo post…
Fotos: (1) Soldado norte-coreano, pela Agência de Noticias Yonhap, (2) Yoo Gwan-Soon, no Axis History Forum, (3) mãe e tanque de guerra, foto histórica da US Army, (4) Paul Greiner, tio de Ted, quando servia na Guerra da Coreia e (5) cessar-fogo, US Army Korea.
Fontes: Comecei a fazer esse post há exatamente um ano (26 de maio de 2009!), quando a Coreia do Norte ameaçava invadir o Sul (podem ver que é anual =). A essa altura, não tenho as referências, mas conversei com coreanos, visitei alguns sites e tirei informações de alguns livros sobre história coreana.