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    w00t!!!!!!!!!

    Denise | Jóias e bijouterias | Monday, 21 January 2008

    6_detalhe.jpg

    (Atualização: gente, calma! recebi pedidos demais, ainda estou tentando responder todo os emails. Estão quase todos vendidos, mas vou responder a todo mundo e estou fazendo mais brincos, tem pra quem quer :-)

    Aproveitando o embalo das bolsas (veja aí abaixo!)… resolvi mostrar também os brincos que acabei de fazer, com prata, pedras semi-preciosas, cristal Swarovski ou vidro de Murano e que estão à venda lá no Flickr. Precinhos de lançamento (não vai durar muito!), com frete grátis.

    Todas as pedras são originais (Ted estudou Geologia, se o fornecedor entrega algo questionável, nós devolvemos), nada contém níquel, tudo material de qualidade e feito com o carinho de sempre (não quero mais fazer nada da vida!).

    Quem tiver interesse, por favor, não deixe recado no Flickr, mas escreva pra sdeestocolmo@gmail.com.

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    As bolsas… finalmente!

    Denise | Bolsas | Sunday, 20 January 2008

    Ufa! demorou, mas consegui mandar umas bolsinhas pro Brasil. Como já disse aqui, mil vezes, é tudo feito com muito, muito carinho, muito cuidado com os detalhes, tudo feito por mim e mais ninguém! os tecidos são especialíssimos e quase nunca compro mais de 2 yards (a única exceção são os tecidos de Frida, que tenho em grande quantidade), portanto, a chance de ter duas bolsas iguais é mínima.

    Apesar de todo meu material ser comprado em dólar, não só tecido, mas linha, entretela, agulha (cada agulha custa um dolar!!! e já cheguei a quebrar cinco em uma bolsa só!), estou tentando fazer um preço brasileiro (para produtos desse nível, não made in china, claro!).

    Os preços estão todos lá, achei nmelhor assim, porque além de dar trabalho a quem tem que escrever perguntado, acho que às vezes é meio constrangedor escrever prguntando o preço de várias bolsas pora descobrir que não vai poder ficar com nenhuma. |Mas percebi que quase ninguém coloca preço nas bolsas no Flickr, alguém sabe o motivo? será que não é permitido? percebi isso em blogs também… será que estou fazendo algo não aconselhável?

    Enfim, mandei as bolsas pra casa da minha mãe e uma amiga, que é artista e trabalha com produção artesanal, fez uma avaliação e sugeriu os preços de cada uma delas. Ainda tirei um pouquinho de cada uma :-)

    Infelizmente, não tive tempo de fazer boas fotos, nem tive uma modelo por aqui (Bia tá sempre ocupada, e depois foi pro Brasil!). Mas espero que dê pra vocês terem uma boa idéia de como as bolsas são. Coloquei uma descrição e medida de cada uma delas.

    Estou preparando o site da minha “marca” (conto o nome em breve), mas resolvi botar pra vender essas aí, logo. Já dá pra ver as fotos, descrição e preços das bolsas nesse site do Flickr.

    Sejam benvind@s e espero que gostem, foram feitas com muito carinho :-)

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    Contra a Mutilação Genital Feminina

    Denise | Corpo & Saúde,Discriminção,Feminismo | Saturday, 19 January 2008

    genitalmutilation.jpg

    Campanha da Anistia Internacional sueca, para conscientização contra a mutilação genital. Com uma enorme emigração de países como Somãlia, onde a extirpação do clítoris é cultural, esse é um grave problema de saúde pública e é um procedimento ilegal no país.Muitas famílias levam as meninas para fora do país pra mutilá-las.

    Achei a foto linda, delicada e a campanha tem toda a sutileza e elegância do design sueco.

    Via Adland.

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    Tutorial da sexta-feira

    Denise | Crafts | Friday, 18 January 2008

    lavander_baby_tutorial.jpgUma coisa de que me arrependo, é de não ter recomeçado a costurar antes e nunca ter feito isso com Bia.

    Claro que fazíamos mil atividades juntas e sempre fomos bem criativas, houve até uma época em que Bia criou uma “empresa” pra vender coisinhas feitas com palitos de picolé, vendia pra família inteira heheheh…

    Mas costurar é tão bom, e nunca fizemos nada do tipo juntas. Espero poder faezr isso com os netos – meninos e meninas!

    Vi esse tutorial e pensei em dividir com vocês. Super fácil de fazer, uma ótima opção pra passar o tempo com as crianças, que vão adorar. Aqui, passo a passo, em fotos. Tá em inglês, mas dá pra entender.

    _________________________________

    A partir de agora, toda sexta-feira (quando puder!) vou postar um tutorial que ensine a faezr algum trabalho manual (já tenho uma lista enorme em mente!).

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    Semana Mundial da Amamentação 2008 – Concurso de fotografia

    Denise | Amamentação | Wednesday, 16 January 2008

    sam_enzo.jpg
    Samantha amamentando Giorgio com apoio de Enzo

    Exponha suas fotos amamentando seu bebê no Folheto de Ação deste ano!

    A WABA – Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno – está organizando um concurso mundial de fotos sobre aleitamento materno para a SMAM 2008. Dez fotos vencedoras serão escolhidas e os proprietários das fotos mostradas no Folheto de Ação receberão 100 dólares por foto publicada.

    O que nós procuramos?

    Precisamos de histórias que exemplifiquem o apoio à amamentação. Procuramos qualquer fotografia que NARRE UMA HISTÓRIA de apoio. Pode ser uma pessoa, um evento, um local! Pode ser você a pessoa que apoiou ou quem recebeu apoio. Ilustre o tipo de apoio oferecido ou recebido com uma fotografia. Ao tirar as fotos, pense global e localmente.

    Nós estamos incentivando o envio de fotos que reflitam etnias diferentes e incluam crianças amamentadas, desde recém-nascidos até crianças com 2 anos de idade ou mais. O apoio pode se oferecido em diferentes ambientes; o apoio que você ofereceu pode ter ocorrido numa casa, num museu, no mercado público ou no campo.

    O tema desse concurso de fotos baseia-se no tema de SMAM 2008 – “Apoio às Mães: Em Busca do Ouro”.

    Para sua referência, procure mostrar:

  • incentivo e ajuda consistente
  • ajuda e apoio via computador e internet
  • apoio por meio de telefone, TV, revista, jornal
  • um grupo de mães ou uma pessoa com quem foram partilhadas preocupações e alegrias
  • estímulo de um profissional da saúde ou outro para o início do aleitamento materno ou para sua manutenção
  • um membro da família que realizou as tarefas domésticas
  • um colaborador que ajudou na criação de uma sala de aleitamento materno numa fábrica.

    Mais informações e download do formulário do concurso em:
    http://www.worldbreastfeedingweek.org/

    Tradução: Regina Garcez (revisto por Tereza Toma)

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    E você coleciona o quê?

    Denise | Sweet Home | Monday, 14 January 2008

    maquininha.jpg

    Minha mãe coleciona elefantes – tem quase 2.000, muitos deles trazidos por mim de várias partes do mundo. Minha cunhada coleciona gatinhos e eu já tentei colecionar várias coisinhas, mas nunca funcionou. Lembram da minha coleção de figuras de filme? está guardada numa caixa porque ocupa muito espaço e acumula poeira, talvez um dia volte pra alguma estante, por enquanto, fica guardadinha.

    caixinhas_colecao_1.jpgPor um tempo, também colecionei caixinhas, mas cheguei à conclusão que tem caixinha demais no mundo, fica fácil demais achar sempre mais uma peça pra coleção e aí perde um pouco a graça.

    Além do mais, elas ocupam muito espaço em casa. Dei boa parte delas e fiquei com as que tinham um significado maior pra mim, adquiridas em viagens, presentes. Veja foto das caixinhas ampliada

    Também coleciono alguns cavalo-marinho, mas esa coleção não tem crescido muito…

    Agora, estou empolgada e decidi o que vou colecionar… mini-máquina de costura ou acessórios, que representam a minha atual paixão.

    Aqui, é possível encontrar mini-maquininhas, a maioria de brinquedo, antigas, lindas de morrer. Infelizmente, a maioria custa muito caro pro meu orçamento, mas quem sabe? podem ser bons presentes de aniversário ou natal, já avisei ao marido.

    maquininha2.jpgEssa da foto ao lado é um brinquedo do começo dos anos 50 (adorei a cor!), é um pouco grandinha (18 centímetros), mas valeu a pena, me apaixonei na hora! Já essa pequenininha, na foto lá em cima, tem somente 3X2 cm, não é fofésima?

    Se vocês têm miniaturas ou maquininhas de costura de brinquedo, me avisem, OK? estou aceitando doações :-) ou, talvez, eu possa até comprar. (dicas de onde posso encontrar algumas também são benvindas).

    Também estou colecionando dedais, almofadinhas (especiais, de preferência antigas) de alfinete, acessórios de costura antigos.

    (Quem diria, hein? hehehehe… uma amiga antiga disse que eu não paro de surpreender ;-)

    Eu cresci vendo essa caixinha de costura de palha (fotos acima), que foi presente de meu pai à minha mãe, em 1963, pouco mais de um ano antes de eu nascer. Ela já estava bem velhinha, mas eu queria guardar como lembrança de família.

    Pedi a minha mãe e ela me mandou, como um dos meus presentes de natal, há alguns dias. Mas não sem antes reformá-la, mudando os tecidos, mas preservando o padrão. Adorei. Estrou louca por coisinhas de costura vintage e essa tem uma história bem especial pra mim!

    E voces? colecionam alguma coisa?

    _________________________________

    Novidades…

    brinco1.jpg

    Meninas, como sou muito ansiosa e a Flávia falou que “coleciona” ferramentas e pedras pra produzir jóias, tinha que mostrar a vocês meu primeiro brinco… isso mesmo, nem é o primeiro par, porque o outro eu estou fazendo agora, mas nem queria esperar terminar pra mostrar os dois.

    Além de fazer bolsas, estou a-pai-xo-na-da pela produççao de jóias com prata, pedras semi-preciosas e cristal. Esse brinco tem pedras de vidro, pedrinhas de cristal swarovski, duas contas de prata (alguém sabe como se traduz sterling silver?) e uma pedra maior de topázio azul. Gostaram?

    Gente, isso dá muito trabalho, mas estou adorando criar as peças e já tenho mil idéias de brincos que vão combinar lindamente com minhas bolsas :-)

    E, Flavia, sim, a gente fica viciada em comprar pedras e quer usar todas! ainda estou descobrindo, as ferramentas mas é incrível perceber a diferença que faz mexer com a prata usando um bom instrumento!

    Descolecionando

    Como muitas de vocês, também estou, por outro lado, “descolecionando”, limpando a casa, seguindo a linha “menos é mais”. Estou até pensando em fazer um “bazar virtual”. Tenho um mundo de coisas que fui comprando pelo mundo afora. Estou pensando em vender tudo. Inicialmente pensei em eBay, mas acho tão impessoal, quero saber que minhas coisas vão pra alguém que vai valorizá-las. Por tanto, aguardem, que em breve, vai ter “brechó” por aqui :-)

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    Au Revoir Simone

    Denise | Música,POP,Vídeo | Sunday, 13 January 2008

    Comecei a ler sobre o Au Revoir Simone em blogs feministas ou blogs de crafters. Achei engraçado quando vi uma cena (no vídeo acima) de uma dela costurando no meio da natureza. Entendo ainda mais a paixão das “crafty bloggers” por elas.

    Eu gosto de mulher cantando. Entre Chet Baker e Billie Holiday, sempre preferi Billie Holiday, Nina Simone, Bessie Smith. Além de muitas outras, também gosto de Marianne Faithful, Aimee Mann, Laurie Anderson, Dido, Cardigans, Cranberries, Amy Winehouse, Norah Jones, e, claro, a deusa Madonna.

    Essas meninas do Brooklyn são muito fofas. Uma coisa meio melancólia, etérea, com toques de música eletrônica. Bom de ouvir.

    Veja mais:

  • Dark Halls
  • Sad Song
  • Stay Golden
  • Aqui, uma performance com David Lynch e Au Revoir Simone.
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    Top Five Records

    Denise | Cinema,Música,POP | Friday, 11 January 2008

    high_fidelity.jpg

    Quem ainda não viu? essa semana passou várias vezes na TV e todas as vezes que liguei e Cusack estava fazendo suas listinhas, parei pra ver um pouco mais. Junto com Annie Hall deve ser o filme que mais vi na vida. E ainda não enjoei. Alta Fidelidade.

    Top Cinco Músicas pra um final de semana cheio de amor pra dar

  • Sexual Healing (À capella) – Marvin Gaye.
  • Feeling Good – Nina Simone.
  • Je T’aime Moi Non Plus – Jane Birkin & Serge Gainsbourg.
  • I’m Your Man – Leonard Cohen.
  • Love Is A Losing Game – Amy Winehouse.
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    Breve Introdução Histórica ao Malleus Maleficarum

    Denise | Diversos | Friday, 11 January 2008

    ROSE MARIE MURARO

    Para compreendermos a importância do Malleus é preciso termos uma visão ao menos mínima da história da mulher no interior da história humana em geral.

    Segundo a maioria dos antropólogos, o ser humano habita este planeta há mais de dois milhões de anos. Mais de três quartos deste tempo a nossa espécie passou nas culturas de coleta e caça aos pequenos animais. Nessas sociedades não havia necessidade de força física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar central.

    Em nosso tempo ainda existem remanescentes dessas culturas, tais como os grupos mahoris (Indonésia), pigmeus e bosquímanos (África Central). Estes são os grupos mais primitivos que existem e ainda sobrevivem da coleta dos frutos da terra e da pequena caça ou pesca. Nesses grupos, a mulher ainda é considerada um ser sagrado, porque pode dar a vida e, portanto, ajudar a fertilidade da terra e dos animais. Nesses grupos, o princípio masculino e o feminino governam o mundo juntos. Havia divisão de trabalho entre os sexos, mas não havia desigualdade. A vida corria mansa e paradisíaca.

    Nas sociedades de caça aos grandes animais, que sucedem a essas mais primitivas, em que a força física é essencial, é que se inicia a supremacia masculina. Mas nem nas sociedades de coleta nem nas de caça se conhecia função masculina na procriação. Também nas sociedades de caça a mulher era considerada um ser sagrado, que possuía o privilégio dado pelos deuses de reproduzir a espécie. Os homens se sentiam marginalizados nesse processo e invejavam as mulheres. Essa primitiva “inveja do útero” dos homens é a antepassada da moderna “inveja do pênis” que sentem as mulheres nas culturas patriarcais mais recentes.

    A inveja do útero dava origem a dois ritos universalmente encontrados nas sociedades de caça pelos antropólogos e observados em partes opostas do mundo, como Brasil e Oceania. O primeiro é o fenômeno da couvade, em que a mulher começa a trabalhar dois dias depois de parir e o homem fica de resguardo com o recém-nascido, recebendo visitas e presentes… O segundo é a iniciação dos homens. Na adolescência, a mulher tem sinais exteriores que marcam o limiar da sua entrada no mundo adulto. A menstruação a torna apta à maternidade e representa um novo patamar em sua vida. Mas os adolescentes homens não possuem esse sinal tão óbvio. Por isso, na puberdade eles são arrancados pelos homens às suas mães, para serem iniciados na “casa dos homens”. Em quase todas essas iniciações, o ritual é semelhante: é a imitação cerimonial do parto com objetos de madeira e instrumentos musicais. E nenhuma mulher ou criança pode se aproximar da casa dos homens, sob pena de morte. Desse dia em diante o homem pode “parir” ritualmente e, portanto, tomar seu lugar na cadeia das gerações…

    Ao contrário da mulher, que possuía o “poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida que a tecnologia foi avançando. Enquanto as sociedades eram de coleta, as mulheres mantinham uma espécie de poder, mas diferente das culturas patriarcais. Essas culturas primitivas tinham de ser cooperativas, para poder sobreviver em condições hostis, e portanto não havia coerção ou centralização, mas rodízio de lideranças, e as relações entre homens e mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades patriarcais.

    Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da herança, por isso a liberdade em termos sexuais era maior. Por outro lado, quase não existia guerra, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.

    É só nas regiões em que a coleta é escassa, ou onde vão se esgotando os recursos naturais vegetais e os pequenos animais, que se inicia a caça sistemática aos grandes animais. E aí começam a se instalar a supremacia masculina e a competitividade entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviver, as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As guerras se tornam constantes e passam a ser mitificadas. Os homens mais valorizados são os heróis guerreiros. Começa a se romper a harmonia que ligava a espécie humana à natureza. Mas ainda não se instala definitivamente a lei do mais forte. O homem ainda não conhece com precisão a sua função reprodutora e crê que a mulher fica grávida dos deuses. Por isso ela ainda conserva poder de decisão. Nas culturas que vivem da caça, já existe estratificação social e sexual, mas não é completa como nas sociedades que se lhes seguem.

    É no decorrer do neolítico que, em algum momento, o homem começa a dominar a sua função biológica reprodutora, e, podendo controlá-la, pode também controlar a sexualidade feminina. Aparece então o casamento como o conhecemos hoje, em que a mulher é propriedade do homem e a herança se transmite através da descendência masculina. Já acontece assim, por exemplo, nas sociedades pastoris descritas na Bíblia. Nessa época, o homem já tinha aprendido a fundir metais. Essa descoberta acontece por volta de 10000 ou 8000 a.C. E, à medida que essa tecnologia se aperfeiçoa, começam a ser fabricadas não só armas mais sofisticadas como também instrumentos que permitem cultivar melhor a terra (o arado, por ex.).

    Hoje há consenso entre os antropólogos de que os primeiros humanos a descobrir os ciclos da natureza foram as mulheres, porque podiam compará-los com o ciclo do próprio corpo. Mulheres também devem ter sido as primeiras plantadoras e as primeiras ceramistas, mas foram os homens que, a partir da invenção do arado, sistematizaram as atividades agrícolas, iniciando uma nova era, a era agrária, e com ela a história em que vivemos hoje.

    Para poder arar a terra, os grupamentos humanos deixam de ser nômades. São obrigados a se tornar sedentários. Dividem a terra e formam as primeiras plantações. Começam a se estabelecer as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estado, os primeiros Estados e os impérios, no sentido antigo do termo. As sociedades, então, se tornam patriarcais, isto é, os portadores dos valores e da sua transmissão são os homens. Já não são mais os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas, sim, a lei do mais forte. A comida era primeiro para o dono da terra, sua família, seus escravos e seus soldados. Até ser escravo era privilégio. Só os párias nômades, os sem-terra, é que pereciam no primeiro inverno ou na primeira escassez.

    Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata para arar a terra. As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher era obrigada a sair virgem das mãos do pai para as mãos do marido. Qualquer ruptura desta norma podia significar a morte. Assim também o adultério: um filho de outro homem viria ameaçar a transmissão da herança que se fazia através da descendência da mulher. A mulher fica, então, reduzida ao âmbito doméstico. Perde qualquer capacidade de decisão no domínio público, que fica inteiramente reservado ao homem. A dicotomia entre o privado e o público torna-se, então, a origem da dependência econômica da mulher, e esta dependência, por sua vez, gera, no decorrer das gerações, uma submissão psicológica que dura até hoje.

    É nesse contexto que transcorre todo o período histórico até os dias de hoje. De matricêntrica, a cultura humana passa a patriarcal.

    E o Verbo Veio Depois

    “No princípio era a Mãe, o Verbo veio depois.” É assim que Marilyn French, uma das maiores pensadoras feministas americanas, começa o seu livro Beyond Power (Summit Books, Nova York, 1985). E não é sem razão, pois podemos retraçar os caminhos da espécie através da sucessão dos seus mitos. Um mitólogo americano, em seu livro The Masks of God Occidental Mythology (Nova York, 1970), citado por French, divide em quatro grupos todos os mitos conhecidos da criação. E, surpreendentemente, esses grupos correspondem às etapas cronológicas da história humana.

    Na primeira etapa, o mundo é criado por uma deusa mãe sem auxílio de ninguém. Na segunda, ele é criado por um deus andrógino ou um casal criador. Na terceira, um deus macho ou toma o poder da deusa ou cria o mundo sobre o corpo da deusa primordial. Finalmente, na quarta etapa, um deus macho cria o mundo sozinho.

    Essas quatro etapas que se sucedem também cronologicamente são testemunhas eternas da transição da etapa matricêntrica da humanidade para sua fase patriarcal, e é esta sucessão que dá veracidade à frase já citada de Marilyn French.

    Alguns exemplos nos farão entender as diversas etapas e a frase de French. O primeiro e mais importante exemplo da primeira etapa em que a Grande Mãe cria o universo sozinha é o próprio mito grego. Nele a criadora primária é Geia, a Mãe Terra. Dela nascem todos as protodeuses: Urano, os Titãs e as protodeusas, entre as quais Réia, que virá a ser a mãe do futuro dominador do Olimpo, Zeus. Há também o caso do mito Nagô, que vem dar origem ao candomblé. Neste mito africano, é Nana Buruquê que dá à luz todos os orixás, sem auxílio de ninguém.

    Exemplos do segundo caso são o deus andrógino que gera todos os deuses, no hinduísmo, e o yin e o yang, o princípio feminino e o masculino que governam juntos na mitologia chinesa.

    Exemplos do terceiro caso são as mitologias nas quais reinam em primeiro lugar deusas mulheres, que são, depois, destronadas por deuses masculinos. Entre essas mitologias está a sumeriana, em que primitivamente a deusa Siduri reinava num jardim de delícias e cujo poder foi usurpado por um deus solar. Mais tarde, na epopéia de Gilgamesh, ela é descrita como simples serva. Ainda, os mitos primitivos dos astecas falam de um mundo perdido, de um jardim paradisíaco governado por Xoxiquetzl, a Mãe Terra. Dela nasceram os Huitzuhuahua, que são os Titãs e os Quatrocentos Habitantes do Sul (as estrelas). Mais tarde, seus filhos se revoltam contra ela e ela dá à luz o deus que iria governar a todos, Huitzilopochtli.

    A partir do segundo milênio a.C., contudo, raramente se registram mitos em que a divindade primária seja mulher. Em muitos deles, estas são substituídas por um deus macho que cria o mundo a partir de si mesmo, tais como os mitos persa, meda e, principalmente e acima de todos, o nosso mito cristão, que é o que será enfocado aqui.

    Javé é deus único todo-poderoso, onipresente, e controla todos os seres humanos em todos os momentos da sua vida. Cria sozinho o mundo em sete dias e, no final, cria o homem. E só depois cria a mulher, assim mesmo a partir do homem. E coloca ambos no Jardim das Delícias onde o alimento é abundante e colhido sem trabalho. Mas, graças à sedução da mulher, o homem cede à tentação da serpente e o casal é expulso do paraíso.

    Antes de prosseguir, procuremos analisar o que já se tem até aqui em relação à mulher. Em primeiro lugar, ao contrário das culturas primitivas, Javé é deus único, centralizador, dita rígidas regras de comportamento cuja transgressão é sempre punida. Nas primitivas mitologias, ao contrário, a Grande Mãe é permissiva, amorosa e não-coercitiva. E como todos os mitos fundantes das grandes culturas tendem a sacralizar os seus principais valores, Javé representa bem a transformação do matricentrismo em patriarcado.

    O Jardim das Delícias é a lembrança arquetípica da antiga harmonia entre o ser humano e a natureza. Nas culturas de coleta não se trabalhava sistematicamente. Por isso os controles eram frouxos e podia se viver mais prazerosamente. Quando o homem começa a dominar a natureza, ele começa a se separar dessa mesma natureza em que até então vivia imerso.

    Como o trabalho é penoso, necessita agora de poder central que imponha controles mais rígidos e punição para a transgressão. É preciso usar a coerção e a violência para que os homens sejam obrigados a trabalhar, e essa coerção é localizada no corpo, na repressão da sexualidade e do prazer. Por isso o pecado original, a culpa máxima, na Bíblia, é colocado no ato sexual (é assim que, desde milênios, popular -mente se interpreta a transgressão dos primeiros humanos).

    É por isso que a árvore do conhecimento é também a árvore do bem e do mal. O progresso do conhecimento gera o trabalho e por isso o corpo tem de ser amaldiçoado, porque o trabalho é bom. Mas é interessante notar que o homem só consegue conhecimento do bem e do mal transgredindo a lei do Pai. O sexo (o prazer) doravante é mau e, portanto, proibido. Praticá-lo é transgredir a lei. Ele é, portanto, limitado apenas às funções procriativas, e mesmo assim é uma culpa.

    Daí a divisão entre sexo e afeto, entre corpo e alma, apanágio das civilizações agrárias e fonte de todas as divisões e fragmentações do homem e da mulher, da razão e da emoção, das classes…

    Tomam aí sentido as punições de Javé. Uma vez adquirido o conhecimento, o homem tem que sofrer. O trabalho o escraviza. E por isso o homem escraviza a mulher. A relação homem-mulher-natureza não é mais de integração e, sim, de dominação. O desejo dominante agora é o do homem. O desejo da mulher será para sempre carência, e é esta paixão que será o seu castigo. Daí em diante, ela será definida por sua sexualidade, e o homem, pelo seu trabalho.

    Mas o interessante é que os primeiros capítulos do Gênesis podem ser mais bem entendidos à luz das modernas teorias psicológicas, especialmente a psicanálise. Em cada menino nascido no sistema patriarcal repete-se, em nível simbólico, a tragédia primordial. Nos primeiros tempos de sua vida, eles estão imersos no Jardim das Delícias, em que todos os seus desejos são satisfeitos. E isto lhes faz buscar o prazer que lhes dá o contato com a mãe, a única mulher a que têm acesso. Mas a lei do pai proíbe ao menino a posse da mãe. E o menino é expulso do mundo do amor, para assumir a sua autonomia e, com ela, a sua maturidade. Principalmente, a sua nudez, a sua fraqueza, os seus limites. É à medida que o homem se cinde do Jardim das Delícias proporcionadas pela mulher-mãe que ele assume a sua condição masculina.

    E para que possa se tornar homem em termos simbólicos, ele precisa passar pela punição maior que é a ameaça de morte pelo pai. Como Adão, o menino quer matar o pai e este o pune, deixando-o só.

    Assim, aquilo que se verifica no decorrer dos séculos, isto é, a transição das culturas de coleta para a civilização agrária mais avançada, é relembrado simbolicamente na vida de cada um dos homens do mundo de hoje. Mas duas observações devem ser feitas. A primeira é que o pivô das duas tragédias, a individual e a coletiva, é a mulher; e a segunda, que o conhecimento condenado não é o conhecimento dissociado e abstrato que daí por diante será o conhecimento dominante, mas sim o conhecimento do bem e do mal, que.vem da experiência concreta do prazer e da sexualidade, o conhecimento totalizante que integra inteligência e emoção, corpo e alma, enfim, aquele conhecimento que é, especificamente na cultura patriarcal, o conhecimento feminino por excelência.

    Freud dizia que a natureza tinha sido madrasta para a mulher porque ela não era capaz de simbolizar tão perfeitamente como o homem. De fato, para podermos entender a misoginia que daí por diante caracterizará a cultura patriarcal, é preciso analisar a maneira como as ciências psicológicas mais atuais apontam para uma estrutura psíquica feminina bem diferente da masculina.

    A mesma idade em que o menino conhece a tragédia da castração imaginária, a menina resolve de outra maneira o conflito que a conduzirá à maturidade. Porque já vem castrada, isto é, porque não tem pênis (o símbolo do poder e do prazer, no patriarcado), quando seu desejo a leva para o pai ela não entra em conflito com a mãe de maneira tão trágica e aguda como o menino entra com o pai por causa da mãe. Porque já vem castrada, não tem nada a perder. E a sua identificação com a mãe se resolve sem grandes traumas. Ela não se desliga inteiramente das fontes arcaicas do prazer (o corpo da mãe). Por isso, também, não se divide de si mesma como se divide o homem, nem de suas emoções. Para o resto da sua vida, conhecimento e prazer, emoção e inteligência são mais integrados na mulher do que no homem e, por isso, são perigosos e desestabilizadores de um sistema que repousa inteiramente no controle, no poder e, portanto, no conhecimento dissociado da emoção e, por isso mesmo, abstraio.

    De agora em diante, poder, competitividade, conhecimento, controle, manipulação, abstração e violência vêm juntos. O amor, a integração com o meio ambiente e com as próprias emoções são os elementos mais desestabilizadores da ordem vigente. Por isso é preciso precaver-se de todas as maneiras contra a mulher, impedi-la de interferir nos processos decisórios, fazer com que ela introjete uma ideologia que a convença de sua própria inferioridade em relação ao homem.

    E não espanta que na própria Bíblia encontremos o primeiro indício desta desigualdade entre homens e mulheres. Quando Deus cria o homem, Ele o cria só e apenas depois tira a companheira da costela deste. Em outras palavras: o primeiro homem dá à luz (pare) a primeira mulher. Esse fenômeno psicológico de deslocamento é um mecanismo de defesa conhecido por todos aqueles que lidam com a psique humana e serve para revelar escondendo. Tirar da costela é menos violento do que tirar do próprio ventre, mas, em outras palavras, aponta para a mesma direção. Agora, parir é ato que não está mais ligado ao sagrado e é, antes, uma vulnerabilidade do que uma força. A mulher se inferioriza pelo próprio fato de parir, que outrora lhe assegurava a grandeza. A grandeza agora pertence ao homem, que trabalha e domina a natureza.

    Já não é mais o homem que inveja a mulher. Agora é a mulher que inveja o homem e é dependente dele. Carente, vulnerável, seu desejo é o centro da sua punição. Ela passa a se ver com os olhos do homem, isto é, sua identidade não está mais nela mesma e sim em outro. O homem é autônomo e a mulher é reflexa. Daqui em diante, como o pobre se vê com os olhos do rico, a mulher se vê pelo homem.

    Da época em que foi escrito o Gênesis até os nossos dias, isto é, de alguns milênios para cá, essa narrativa básica da nossa cultura patriarcal tem servido ininterruptamente para manter a mulher em seu devido lugar. E, aliás, com muita eficiência. A partir desse texto, a mulher é vista como a tentadora do homem, aquela que perturba a sua relação com a transcendência e também aquela que conflitua as relações entre os homens. Ela é ligada à natureza, à carne, ao sexo e ao prazer, domínios que têm de ser rigorosamente normalizados: a serpente, que nas eras matricêntricas era o símbolo da fertilidade e tida na mais alta estima como símbolo máximo da sabedoria, se transforma no demônio, no tentador, na fonte de todo pecado. E ao demônio é alceado o pecado por excelência, o pecado da carne. Coloca-se no sexo o pecado supremo e, assim, o poder fica imune à crítica. Apenas nos tempos modernos está se tentando deslocar o pecado da sexualidade para o poder. Isto é, até hoje não só o homem como as classes dominantes tiveram seu status sacralizado porque a mulher e a sexualidade foram penalizadas como causa máxima da degradação humana.

    O Malleus como Continuação do Gênesis

    Enquanto se escrevia o Gênesis no Oriente Médio, as grandes culturas patriarcais iam se sucedendo. Na Grécia, o status da mulher foi extremamente degradado. O homossexualismo era prática comum entre os homens e as mulheres ficavam exclusivamente reduzidas às suas funções de mãe, prostituta ou cortesã. Em Roma, embora durante certo período tivessem bastante liberdade sexual, jamais chegaram a ter poder de decisão no Império. Quando o Cristianismo se torna a religião oficial dos romanos no século IV, tem início a Idade Média. Algo novo acontece. E aqui nos deteremos porque é o período que mais nos interessa.

    Do terceiro ao décimo séculos, alonga-se um período em que o Cristianismo se sedimenta entre as tribos bárbaras da Europa. Nesse período de conflito de valores, é muito confusa a situação da mulher. Contudo, ela tende a ocupar lugar de destaque no mundo das decisões, porque os homens se ausentavam muito e morriam nos períodos de guerra. Em poucas palavras: as mulheres eram jogadas para o domínio público quando havia escassez de homens e voltavam para o domínio privado quando os homens reassumiam o seu lugar na cultura.

    Na alta Idade Média, a condição das mulheres floresce. Elas têm acesso às artes, às ciências, à literatura. Uma monja, por exemplo, Hrosvitha de Gandersheim, foi o único poeta da Europa durante cinco séculos. Isso acontece durante as cruzadas, período em que não só a Igreja alcança seu maior poder temporal como, também, o mundo se prepara para as grandes transformações que viriam séculos mais tarde, com a Renascença.

    E é logo depois dessa época, no período que vai do fim do século XIV até meados do século XVIII que aconteceu o fenômeno generalizado em toda a Europa: a repressão sistemática do feminino. Estamos nos referindo aos quatro séculos de “caça às bruxas”.

    Deirdre English e Barbara Ehrenreich, em seu livro Witches, Nurses and Midwives (The Feminist Press, 1973), nos dão estatísticas aterradoras do que foi a queima de mulheres feiticeiras em fogueiras durante esses quatro séculos. “A extensão da caça às bruxas é espantosa. No fim do século XV e no começo do século XVI, houve milhares e milhares de execuções – usualmente eram queimadas vivas na fogueira – na Alemanha, na Itália e em outros países. A partir de meados do século XVI, o terror se espalhou por toda a Europa, começando pela França e pela Inglaterra. Um escritor estimou o número de execuções em seiscentas por ano para certas cidades, uma média de duas por dia, ‘exceto aos domingos’. Novecentas bruxas foram executadas num único ano na área de Wertzberg, e cerca de mil na diocese de Como. Em Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num único dia; no arcebispado de Trier, em 1585, duas aldeias foram deixadas apenas com duas mulheres moradoras cada uma. Muitos escritores estimaram que o número total de mulheres executadas subia à casa dos milhões, e as mulheres constituíam 85% de todos os bruxos e bruxas que foram executados.”

    Outros cálculos levantados por Marilyn French, em seu já citado livro, mostram que o número mínimo de mulheres queimadas vivas é de cem mil.

    E Por Que Tudo Isso?

    Desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração. Em muitas tribos primitivas eram elas as xamãs. Na Idade Média, seu saber se intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres não tinham como cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres tão camponesas e tão pobres quanto elas. Elas (as curadoras) eram as cultivadoras ancestrais das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores anatomistas do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia em aldeia, e as médicas populares para todas as doenças.

    Mais tarde elas vieram a representar uma ameaça. Em primeiro lugar, ao poder médico, que vinha tomando corpo através das universidades no interior do sistema feudal. Em segundo, porque formavam organizações pontuais (comunidades) que, ao se juntarem, formavam vastas confrarias, as quais trocavam entre si os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma. Mais tarde, ainda, essas mulheres vieram a participar das revoltas camponesas que precederam a centralização dos feudos, os quais, posteriormente, dariam origem às futuras nações.

    O poder disperso e frouxo do sistema feudal para sobreviver é obrigado, a partir do fim do século XIII, a centralizar, a hierarquizar e a se organizar com métodos políticos e ideológicos mais modernos. A noção de pátria aparece, mesmo nessa época (Klausevitz).

    A religião católica e, mais tarde, a protestante contribuem de maneira decisiva para essa centralização do poder. E o fizeram através dos tribunais da Inquisição que varreram a Europa de norte a sul, leste e oeste, torturando e assassinando em massa aqueles que eram julgados heréticos ou bruxos.

    Este “expurgo” visava recolocar dentro de regras de comportamento dominante as massas camponesas submetidas muitas vezes aos mais ferozes excessos dos seus senhores, expostas à fome, à peste e à guerra e que se rebelavam. E principalmente as mulheres.

    Era essencial para o sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade, conforme constata a obra de Michel Foucault, História da Sexualidade. Começa a se construir ali o corpo dócil do futuro trabalhador que vai ser alienado do seu trabalho e não se rebelará. A partir do século XVII, os controles atingem profundidade e obsessividade tais que os menores, os mínimos detalhes e gestos são normatizados.

    Todos, homens e mulheres, passam a ser, então, os próprios controladores de si mesmos a partir do mais íntimo de suas mentes. É assim que se instala o puritanismo, do qual se origina, segundo Tawnwy e Max Weber, o capitalismo avançado anglo-saxão. Mas até chegar a esse ponto foi preciso usar de muita violência. Até meados da Idade Média, as regras morais do Cristianismo ainda não tinham penetrado a fundo nas massas populares. Ainda existiam muitos núcleos de “paganismo” e, mesmo entre os cristãos, os controles eram frouxos.

    As regras convencionais só eram válidas para as mulheres e homens das classes dominantes através dos quais se transmitiam o poder e a herança. Assim, os quatro séculos de perseguição às bruxas e aos heréticos nada tinham de histeria coletiva, mas, ao contrário, foram uma perseguição muito bem calculada e planejada pelas classes dominantes, para chegar a maior centralização e poder.

    Num mundo teocrático, a transgressão da fé era também transgressão política. Mais ainda, a transgressão sexual que grassava solta entre as massas populares. Assim, os inquisidores tiveram a sabedoria de ligar a transgressão sexual à transgressão da fé. E punir as mulheres por tudo isso. As grandes teses que permitiram esse expurgo do feminino e que são as teses centrais do Malleus Maleficarum são as seguintes:

    1) O demônio, com a permissão de Deus, procura fazer o máximo de mal aos homens a fim de apropriar-se do maior número possível de almas.

    2) E este mal é feito prioritariamente através do corpo, único “lugar” onde o demônio pode entrar, pois “o espírito [do homem] é governado por Deus, a vontade por um anjo e o corpo pelas estrelas” (Parte I, Questão I). E porque as estrelas são inferiores aos espíritos e o demônio é um espírito superior, só lhe resta o corpo para dominar.

    3) E este domínio lhe vem através do controle e da manipulação dos atos sexuais. Pela sexualidade o demônio pode apropriar-se do corpo e da alma dos homens. Foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens.

    4) E como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se tornam as agentes por excelência do demônio (as feiticeiras). E as mulheres têm mais conivência com o demônio “porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser reta” (1,6).

    5) A primeira e maior característica, aquela que dá todo o poder às feiticeiras, é copular com o demônio. Satã é, portanto, o senhor do prazer.

    6) Uma vez obtida a intimidade com o demônio, as feiticeiras são capazes de desencadear todos os males, especialmente a impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se de paixões desordenadas, abortos, oferendas de crianças a Satanás, estrago das colheitas, doenças nos animais etc.

    7) E esses pecados eram mais hediondos do que os próprios pecados de Lúcifer quando da rebelião dos anjos e dos primeiros pais por ocasião da queda, porque agora as bruxas pecam contra Deus e o Redentor (Cristo), e portanto este crime é imperdoável e por isso só pode ser resgatado com a tortura e a morte.

    Vemos assim que na mesma época em que o mundo está entrando na Renascença, que virá a dar na Idade das Luzes, processa-se a mais delirante perseguição às mulheres e ao prazer. Tudo aquilo que já estava em embrião no Segundo Capítulo do Gênesis torna-se agora sinistramente concreto. Se nas culturas de coleta as mulheres eram quase sagradas por poderem ser férteis e, portanto, eram as grandes estimuladoras da fecundidade da natureza, agora elas são, por sua capacidade orgástica, as causadoras de todos os flagelos a essa mesma natureza. Sim, porque as feiticeiras se encontram apenas entre as mulheres orgásticas e ambiciosas (I, 6), isto é, aquelas que não tinham a sexualidade ainda normalizada e procuravam impor-se no domínio público, exclusivo dos homens.

    Assim, o Malleus Maleficarum, por ser a continuação popular do Segundo Capítulo do Gênesis, torna-se a testemunha mais importante da estrutura do patriarcado e de como esta estrutura funciona concretamente sobre a repressão da mulher e do prazer.

    De doadora da vida, símbolo da fertilidade para as colheitas e os animais, agora a situação se inverte: a mulher é a primeira e a maior pecadora, a origem de todas as ações nocivas ao homem, à natureza e aos animais.

    Durante três séculos o Malleus foi a bíblia dos Inquisidores e esteve na banca de todos os julgamentos. Quando cessou a caça às bruxas, no século XVIII, houve grande transformação na condição feminina. A sexualidade se normaliza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do diabo e, portanto, passível de punição. Reduzem-se exclusivamente ao âmbito doméstico, pois sua ambição também era passível de castigo. O saber feminino popular cai na clandestinidade, quando não é assimilado como próprio pelo poder médico masculino já solidificado. As mulheres não têm mais acesso ao estudo como na Idade Média e passam a transmitir voluntariamente a seus filhos valores patriarcais já então totalmente introjetados por elas.

    É com a caça às bruxas que se normaliza o comportamento de homens e mulheres europeus, tanto na área pública como no domínio do privado.

    E assim se passam os séculos.

    A sociedade de classes que já está construída nos fins do século XVIII é composta de trabalhadores dóceis que não questionam o sistema.

    As Bruxas do Século XX

    Agora, mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos ter uma noção das suas dimensões. Neste final de século e de milênio, o que se nos apresenta como avaliação da sociedade industrial? Dois terços da humanidade passam fome para o terço restante superalimentar-se; além disto há a possibilidade concreta da destruição instantânea do planeta pelo arsenal nuclear já colocado e, principalmente, a destruição lenta mas contínua do meio ambiente, já chegando ao ponto do não-retorno. A aceleração tecnológica mostra-se, portanto, muito mais louca do que o mais louco dos inquisidores.

    Ainda neste fim de século outro fenômeno está acontecendo: na mesma jovem rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no mundo público e a procura do prazer sem repressão. A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina.

    Assim, hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas que não podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na história do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva.

    Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas!

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    O que estamos vendo agora

    Denise | Música,POP,Vídeo | Thursday, 10 January 2008

    Totally addicted.

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    Mulher negra na mídia: Predadora sexual ou mãe de santo

    Denise | Racismo | Tuesday, 08 January 2008

    fantastico_modelos_negras.jpgVocês viram uma matéria no Fantástico sobre modelos negros no mercado brasileiro de moda?

    Quem não viu, pode dar uma olhada, clicando na foto ao lado, não precisa de senha.

    Estava mesmo pensando nessa exploração da sexualidade negra, ao ver alguns capítulos da PA-VO-RO-SA novela Duas Caras (olha que sou noveleira, assisto quase tudo, mas essa está na lista das absolutamente insuportáveis).

    A tal novelinha, entre muitos outros preconceitos de arrepiar (professores, universitários e qualquer pessoa que tenha lutado contra a ditadura militar são mostrados como canalhas, oportunistas ou figuras ridículas) acaba sendo um bom exemplo do que é o imaginário brasileiro em relação às mulheres negras, segundo o qual, só existem duas opções na vida para elas.

    fantastico_modelos_negras_2.jpgElas são jovens, gostosas, predadoras sexuais: a empregada que quer ser madrinha de bateria; a empregada
    que vive levando cantada do filho do patrão (foto e video ao lado… o sonho do Barretinho) ou duas amigas que só pensam em arrumar um namorado nos condomínios da barra.

    E se envelhecem, elas viram mães de santo (que já se encarregaram de matar, pra ser substituída pela jovem gostosona, vejam foto e vídeo lá embaixo) e empregadas “de confiança” da mocinha branca e desamparada.

    Se quase toda mulher de meia idade, no Brasil, já é descartada dos meios de comunicação, imagine as negras, são completamente invisíveis. Enquanto elas são over-sexualizadas na juventude, depois de uma certa idade, são tratadas como seres assexuais e desaparecem das novelas e filmes. Até voltar, como velhas sábias ou empregadas de confiança.

    Atrizes brancas têm sempre um papel garantido, independente da idade, tem lugar pra Renata Sorrah, Suzana Vieira, Marilia Pera, Beth Faria e até Maríiia Gabriela. Pobres ou ricas, são personagens que têm um mínimo de complexidade ou alguma história.

    fantastico_modelos_negras_4.jpg
    Ah… mas tem a condessa negra que quer fundar uma ONG na Portelinha (!!!). Claro que ela era prostituta na Itália e ficou rica depois que casou com um conde. Afinal, as mulheres brancas até enriquecem com heranças ou encontrando baús cheios de moedas de ouro (!!!), mas negra pra ficar rica, só casando com gringo milionário…

    Ahhhhhhhh… para o mundo que eu quero descer…

    Aí, vem um monte de gente (branca, na maioria) dizer que são contra as ações afirmativas porque isso iria “insuflar o racismo no Brasil”… Hellooooo???!! fala sério, alguém ainda acredita que não existe racismo nesse país?

    Estou lendo o livro “Whitewashing Race: The Myth of a Color-Blind Society”, nele tem uma citação de Chris Rock, comediante negro americano:

    “Não existe um homem branco nessa sala que gostaria de trocar de lugar comigo. E eu sou rico. Isso mostra o quanto é bom ser branco”

    Discordo da teoria, repetida no Brasil como disco emperrado, de que o que existe em nosso país é desigualdade social, não racial. Claro que existem os dois, mas não é aceitável diminuir a brutalidade do racismo, porque é óbvio que as mulheres brancas pobres têm muito mais chance de mudar sua situação financeira, que as negras, por exemplo.

    fantastico_modelos_negras_5.jpgBasta ver que, com 184 milhões de habitantes e 40% negros, quem entra no Brasil e liga a televisão, olha uma revista ou vai a um desfile de moda, jura que está num país com imensa maioria branca, até mesmo com um forte acento europeu.

    Enquanto que, aqui nos EUA, onde existe esse racismo tão temido, os negros são cerca de 13%, mas juro que pensei que fosse muito mais. Ainda que esteja muito longe de ter igualdade racial e as diferenças sociais sejam profundas, aqui o negro tem visibilidade e espaço na vida pública (vide Obama!).

    Por isso, vivendo nesse país, acredito que o modelo americano de cotas e ações afirmativas funcionou, sim. Claro que ainda tem muita coisa a se fazer, como disse no post abaixo, os bairros de concentração afro-americana ainda são os mais pobres com piores índices sociais, mas existem avanços inegáveis e os negros não são varridos pra debaixo do tapete.

    E lembrem que, proporcionalmente, aqui eles não são nem a metade do que representam populacionalmente no Brasil.

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    Comentários comentados

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    The Best… ever!

    Denise | MPB,Música | Tuesday, 08 January 2008

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    Eu e a Brisa

    Denise | MPB,Música,Vídeo | Tuesday, 08 January 2008

    Com: Caetano Veloso
    De: Johnny Alf

    Ah, se a juventude que esta brisa canta
    Ficasse aqui comigo mais um pouco
    Eu poderia esquecer a dor
    De ser tão só pra ser um sonho
    Daí então quem sabe alguém chegasse
    Buscando um sonho em forma de desejo
    Felicidade então pra nós seria
    E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
    Se o amor chegasse eu não resistiria
    E a madrugada acalentaria a nossa paz
    Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe
    O inesperado faça uma surpresa
    E traga alguém que queira te escutar
    E junto a mim queira ficar

    E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
    Se o amor chegasse eu não resistiria
    E a madrugada acalentaria a nossa paz
    Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe
    O inesperado faça uma surpresa
    E traga alguém que queira te escutar
    E junto a mim queira ficar
    E junto a mim queira ficar

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    Ana em DC

    Denise | Amig@s,Washington, dc | Sunday, 06 January 2008

    Ana Lúcia é uma das amigas que eu fiz na blogosfera, que nunca tinha encontrado, mas de quem eu já gostava como se tivesse conhecido “ao vivo”, há anos.

    Ela está aqui, pra um congresso, e nós marcamos um encontro na sexta-feira, mas como não somos figurinhas fáceis, tinha que ter dado alguma complicação. Combinamos de nos encontrar no elevador do metro do zoológico. Só que eu fiquei esperando lá embaixo e ela lá em cima, na calçada, congelando. Quando subi pra dar uma olhada, ela já não estava mais lá.

    Até que – uma hora depois da combinada – liguei pra Ted, pedi pra ele entrar no meu email e tinha uma mensagem da Ana dizendo “Cadê você?” hehehehe…

    Mas ontem, sábado, finalmente nos encontramos no metrô Dupont Circle e tudo deu certo. Tão certo que passamos sete horas conversando… sete horas!

    Ana é linda e inteligente, exatamente como eu já imaginava. Temos muitos interesses em comum, já trocamos muitas figurinhas por email, por isso, desde o primeiro momento, nos sentimos como se não fosse a primeira vez que nos víamos, totalmente confortáveis uma com a outra.

    Nos encontramos às 11:30h e pegamos logo um metrô e um ônibus (lembrem, não tenho carro, nem sei dirigir!) e fomos pra Anacostia, o bairro mais pobre de Washington, com a maioria de habitantes formada pela comunidade de afro-descendentes.

    Fomos lá visitar o Museu Comunitário de Anacostia, que tinha um exibição contando a história da região (fotos 1 a 3). Apesar de pequeno, o museu é bem organizado e a exposição tinha fotos maravilhosas. Sem falar que fomos atendidos por uma senhorinha que era a “coisa mais querida” (como diz a gaúcha Ana Lúcia). Andamos um pouquinho pelos arredores, onde encontramos essa galeria (foto 4), uma loja que tinha uma fachada bem colorida, mas não estava aberta.

    Eu sempre quis ir a Anacostia, mas eu e Ted acabamos ficando mesmo pelos museus mais próximos de casa, então, quando soube que Ana vinha pra cá, achei que era uma oportunidade de ver um pouco do outro lado da cidade, onde os índices de mortalidade infantil e expectativa de vida são mais próximos de países africanos.

    De lá, pegamos o metrô e seguimos pra U Street, que é o meu lugar preferido na cidade.

    U Street é um bairro de belas casas vitorianas onde, no período de segregação racial, a comunidade afro-americana se concentrou e fez história e por onde andaram Billie Holiday, Nina Simone, Dizzie Gillespie, Martin Luther King e outras feras. Já escrevi sobre o bairro e alguns dos seus prédios mais importantes aqui. Apear do processo de gentrificação, que empurra os históricos moradores pra fora da área, ainda é uma região importante pra comunidade afro e afro-descendente.

    Paramos em um dos vários fantásticos restaurantes etíopes e tivemos um super almoço, que durou algumas horas de ótima conversa sobre a vida real e virtual. De lá, ainda andamos pelos arredores – onde Ana fotografou o Memorial construido para lembrar os soldados afro-descendentes que lutaram na guerra civil.

    O papo continuava ótimo e essa cidade tem coisa demais pra se ver, pra gente ir pra casa cedo… então pegamos o metrô pra Chinatown, onde a gente deu uma olhada rápida na rua – inclusive no arco chinês, que estava lindo à noite, e paramos na descolada Urban Outfitters, onde tudo nos pareceu muito “veranil” pra época. Seguimos pro Museu de Arte Americana, que só fecha às 19 horas (e, como quase todos os outros, tem entrada gratuita).

    Lá, nos concentramos na interessantíssima sala de folk art. Passeamos por todo o primeiro andar do Museu (que é enorme, com três andares), mas, a essa altura – 18:30h – já fazia sete horas que a gente tava batendo perna e Ana tinha que terminar a apresentação que ia fazer hoje de manhã.

    Nos despedimos no metrô, já com saudades, porque foi um dia agradabilíssimo e, ainda que o papo por email seja bom, nada como um encontro assim, cara a cara.

    ps.: A segunda foto, com um arranjo de frutas é um dos símbolos do Kwanza, uma forma de celebração do natal africano, fotografado no Museu Comunitário de Anacostia.

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    Jogo dos 11 erros

    Denise | Auto Estima,Photoshop | Friday, 04 January 2008

    A cantora country Faith Hill transformada em boneca de cera. Vejam as photoshopadas aqui

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