Uma história quase surreal, de dor, desrespeito e injustiça
Eu não tive família grande, casa cheia de primos. Os irmãos do meu pai mudaram todos pro Rio de Janeiro e meus avós, por parte de mãe, apesar de terem gerado cinco filhos, tiveram poucos netos e alguns nasceram quando eu já era adolescente.
Então, na prática, tive duas primas com quem convivi mais, Sandra e Solange (que era a mais velha). Tinha também Ricardo, mas além dele ser bem mais novo, era menino e, sabe como é, eu não tinha muita paciência pra Forte Apache. Eu era mesmo mais apegada às duas irmãs (os três estão nessa foto ao lado comigo. Depois vieram Cesar Augusto, Renata e Juliana, mas aí eu já era mocinha.)
Na infância, eu, Solange e Sandra morávamos em cidades separadas, eu em Arcoverde, elas em Caruaru. Quando nos encontrávamos, era muito especial, geralmente em aniversários e férias. Aí eu mudei pro Recife. Elas vieram depois. Sandra era uma danadinha, vivia brigando comigo e Solange era meu anjo da guarda, sempre me protegendo.
E foi um anjo pra todo mundo, a vida toda, vida curta, a dela.
Eu queria contar sua história aqui, há tempos, por ser uma história quase inacreditável, por ser uma lembrança a todos nós dos riscos que corremos e porque está engasgada, aqui, até hoje.
Pedi autorização da família, mas nunca tive coragem de escrever. Hoje, ouvindo sobre o atropelamento do menino na porta da escola, e sobre os pavorosos índices de acidentes de trânsito no Brasil, resolvi criar coragem e contar pra vocês o drama quase surreal pelo qual passamos.
Aos 30 e poucos anos, Solange morava no mesmo prédio que eu, no apartamento ao lado, numa avenida movimentadíssima de Olinda, ma já não éramos tão próximas como quando criança, porque Bia era pequena, eu tinha o maridão pra dar atenção, ela fazia faculdade, nós duas trabalhávamos muito, eu já viajava demais, a vida muda. Mas, sempre a admirei, por sua enorme generosidade e jeitinho de quem nunca quer briga com ninguém.
Uma noite, depois das 10, o namorado a trouxe em casa, e parou do outro lado da avenida. Não tinha ninguém na rua, nenhum carro, silêncio absoluto. Ela, imprudentemente, ao se despedir, decidiu dar um beijo no namorado, pela janela, no meio da rua.
Ele ouviu um barulho enorme, um carro passou em alta velocidade e ela sumiu. Assim, desapareceu. Ele desceu do carro, procurou por todo lado, nem sinal dela. E por horas ela ficou desaparecida.
O carro que tinha passado era uma caminhonete dessas pequenas (não sei nome de carro, vou perguntar à minha mãe). Na caçamba do carro, estava jogada minha prima, ainda viva. Com a pancada, ela caiu lá dentro, mas foi tudo tão rápido que nem o motorista viu. Ele percebeu que tinha batido em alguém e fugiu. Segundo ele, rodou por algum tempo desorientado e voltou pra casa.
Ele morava num apartamento, bem pertinho do nosso prédio. Subiu correndo e contou pra família que tinha atropelado alguém.
Quando eles foram pra varanda do terceiro andar, olhar o estrago que tinha sido feito no carro, viram a minha prima deitada dentro do carro. É de arrepiar, não é? parece um filme de terror, mas não é não. É a vida bem real, infelizmente.
Desceram, ela ainda estava viva, respirando. O que fizeram? levaram pra um hospital? não. Jogaram minha prima num terreno baldio, atrás de onde morávamos. Assim, sem nenhuma humanidade, sem pensar que ela tinha uma história, uma vida, uma família, que ela era a prima de alguém, com quem tinha compartilhado festinhas de aniversário, brincadeiras e planos. Pra eles, ela era um estorvo de quem tinham que se livrar.
Horas depois, alguém que morava nas redondezas percebeu que tinha alguém deitada lá, achou que fosse alguma pessoa embriagada, talvez, telefonou pra os bombeiros. Eles chegaram, ela ainda estava viva, levaram pro Hospital da Restauração, ela foi operada, mas não sobreviveu.
Em poucas horas uma família estava destruída. Minha tia nunca se recuperou, meu tio entrou em depressão até morrer, anos depois (ironicamente, eu lembro de ter crescido com ele ouvindo “Iracema, eu sempre te disse, cuidado ao ‘travessar essas ruas, eu falava, mas você não me escurtava não, Iracema, você ‘travessou contra-mão…“), a irmã, agora, filha única também sofreu por muitos anos com depressão.
Isso foi há mais de 10 anos, muitas audiências já aconteceram desde então, por isso sabemos alguns detalhes. O canalha e seus cúmplices, que cometeram um homicídio ao não só não prestar socorro, mas impedir que alguém fizesse isso, a tempo, escondendo minha prima, ainda viva numa área quase deserta nunca foram presos nem sofreram nenhuma penalidade.
Impunidade no trânsito é um dos assuntos que mais me revolta, no Brasil. Lá, quem tá no carro, pode tudo. Por isso, nunca quis dirigir, cresci ouvindo histórias escabrosas de morte e mutilamento no trânsito, passei a ver o carro como arma e nunca quis correr o risco de matar alguém. Estou bem assim.
Nessa mesma avenida, onde Solange foi assassinada, cansei de ver ou ouvir acidentes pavorosos, gritos de famílias, desespero, geralmente tarde da noite, carros em alta velocidade, pessoas embriagadas.
Bia me disse, dia desses, que eu a deixei traumatizada pra atravessar ruas de tanto que eu falava. Melhor assim, especialmente quando ela está no Brasil, todo cuidado ainda é pouquíssimo. Me apavora tanto quanto a violência armada. Como a violência, o trânsito foi uma das coisas que pesaram para que eu decidisse sar do Brasil. Era tensão demais pra mim, cada vez que Bia saia de casa, mesmo que fosse pra ir logo ali, na padaria…
Quem não tem nenhuma história de parente, amigo, conhecido, alguém que foi morto ou gravemente ferido no trânsito?
Os EUA tem milhões de problemas e defeitos, a gente vê as corridas de carro nos filmes, mas no dia a dia, as coisas são bem diferentes, por aqui. Existem acidentes, claro, como em qualquer lugar, mas as pessoas levam a prevenção a morte no trânsito muito a sério.
Eu me sinto tranquila aqui. Pra começar, ninguém dirige depois de beber. As penalidades são enormes e é infração seríssima. Casagrande diz que bebeu apenas um pouco de vinho antes do acidente que teve há poucos dias, aqui a tolerância é zero. Bia sai com os amigos e eu durmo sossegada, porque eles sabem que quem vai dirigir não bebe… nada.
Demorei até um pouco pra me acostumar com o respeito que existe em relação aos pedestres, por aqui. Como brasileira, fui condicionada a considerar que o carro “todo poderoso” teria sempre peferência. Na primeira vez que estava na Suécia e botei um pezinho na rua e todos os carros pararam levei um susto, fiquei até constrangida, atravessei correndo.
Aqui, onde eu vivo, boa parte das ruas que não têm sinal (farol) têm uma plaquinha avisando que os pedestres têm preferência, às vezes estou até longe da rua, mas o carro já pára pra esperar que eu atravesse (o que eu faço correndo, pra não atrapalhar trânsito, cacoete brasileiro…).
Esse respeito, não tem preço.
Minha família perdeu Solange, que era nosso anjo, nossa apaziguadora, a melhor de nós, a mais generosa, a mais sensível, a mais alegre, mais simples, mais especial, isso não tem reparação e marcou todo mundo pra sempre. Também não tivemos justiça e o criminoso tá aí, dirigindo seu carro, formando a família que Solange não teve nem tempo de ter, vivendo como se nada tivesse acontecido.
Infelizmente, pelo que eu ouço do Brasil, muitas famílias ainda vão sofrer o que sofremos, porque a vida parece valer tão pouco, pra esses truculentos que se consideram poderosos dentro de um veículo. Fiquei triste ao constatar pelos número, hoje, que nada mudou, e que muitas “Iracemas” ainda vão perder suas vidas no trânsito.
Como sempre, a educação começa em casa, gente, vamos pensar em como estamos educando as crianças pro trânsito, quais os exemplos elas estão tendo (vale mais que muito discurso), é tão simples, vai dirigir, não beba, respeite os outros, tenha cuidado, se todo mundo fizesse isso, tanta dor seria evitada.
Fotos: (1) Os primos juntos numa missa, Solange é a maiorzinha, as duas de vestidinho igual, lindos, feitos pela mãe, louca pelas filhas, (2) No meu batizado, eu no colo de Solange, (3) aniversário de 8 e 9 anos das duas, em Caruaru, (4) parquinho na praia de Boa Viagem e (5) Solange, feliz da vida, na frente, Rosa, uma amiga e eu ao fundo, numa festa, na casa de amigos.





“Eu quero que você saiba, em seu aniversário que eu estou pensando em você e desejando tudo de bom”



Durante o dia, geralmente, eu trabalho ouvindo a Globonews, mas não vi nada sobre isso. Acabei de ler a notícia, por acaso e, infelizmente, não posso dizer que estou surpresa. Do mesmo jeito que se diz que não existe racismo no Brasil, essa tolerância em relação aos homossexuais é falsa, superficial. .











