
Bia recebendo homenagem da professora de “Estudos das Mulheres”
Que eu sou mãe super coruja não é novidade. Não falo muito na minha Bia, nem posto muitas fotos dela porque, ao contrário de mim, a moça é discretíssima. Só que, dessa vez, eu tinha que contar as novidades pra vocês (com as devidas autorizações).
Começando do começo, Bia saiu do Brasil aos 16 anos, deixou muitos amigos, muita balada, uma vida movimentadíssima, cheia de sol e tapioca em Olinda, pra mudar pra Suécia, onde não conhecia ninguém, o frio era de matar e o sol, uma raridade. Nos primeiros meses, eu era a única pessoa com quem ela conseguia se comunicar (ela não falava inglês, não conversava nem com Ted).
A mudança foi brutal. Um dos meus defeitos é a incapacidade de suportar o sofrimento da minha filha. Se ela não fosse mais forte que eu, nós já teríamos voltado. Nunca vou esquecer um dia em que, ao vê-la aos prantos, eu disse: “Bia, é melhor a gente voltar pro Brasil!”. Ela disse: “Mãe, por favor, não fala isso, porque fica mais difícil ainda, não me dê essa opção”.
Quando ela começou as aulas, no Fogelströmska Gymnasium, em Estocolmo, as coisas melhoraram um pouco, ela fez alguns amigos, começou a ter uma vida social própria. Foi uma experiência fantástica que eu contei aqui e aqui. Ela teve verdadeiras aulas de tolerância e de multiculturalidade, com colegas da Turquia, Uzbequistão, Rússia, Chile, Tailândia, Somália, Chad, Polônia, Congo e por aí vai. Mas, na prática, pra vida escolar dela, foi um ano e meio aprendendo apenas sueco, com um pouco de inglês e um pouco de matemática.
Em agosto de 2004 mudamos pra cá, pros EUA, e ela começou tudo de novo, nova escola, novos amigos. Como ela já falava um pouco de inglês e como a integração aqui é muito mais fácil, as coisas foram um pouco mais simples. Ela fez um ano de high school e se deu super bem, tendo ótimas notas e recebendo destaque por isso.
Como já estava muito “velha” pra terminar todo o high school (aqui são quatro anos), os professores sugeriram que fizesse GED, que é como uma prova de supletivo, que ela pode fazer e pular direto pra faculdade. Mas nem isso foi preciso.

Cerimônia de entrega das homenagens aos alunos e alunas
Resumindo, ela pulou o high school e já está na faculdade, estudando principalmente matérias relacionadas com sociologia e antropologia (aqui não se decide a profissão antes de começar, como no Brasil) e acabou de terminar o segundo semestre.
Eu nunca fui exigente com notas e sempre dei todo apoio a ela, independente do que acontecesse na escola. Sempre achei que ela devia ler bons livros, ver bons filmes, ler jornais, ter uma formação cultural sólida e a escola ela ia levando.
Mas, a coisa aqui é séria. Primeiro que ela precisa conseguir boas notas para tentar concorrer a uma bolsa integral. Além do mais, o ensino, na faculdade, exige muito, você precisa ler muito, escrever muito, pensar muito. Consciente disso, e sem nenhuma pressão da minha parte, ela conseguiu, até agora, tirar nota máxima A (GPA 4.0), em todos os onze cursos que fez!
No primeiro semestre nós até sugerimos que ela fizesse apenas duas ou três classes, pra ir se acostumando, afinal, não ter feito high school quase nenhum faz uma enorme diferença. Aqui, se escreve muito, e existe toda uma estrutura para esses essays que se aprende na escola e ela não tinha nem idéia de como fazer, no começo.
A falta de domínio do inglês também era uma desvantagem em relação aos outros alunos, mas ela quis bancar o máximo e eu sei bem o esforço que foi. Imaginem ler muitos livros, escrever muitos artigos, fazer muitas provas, apresentar trabalhos, tudo isso trabalhando cinco dias por semana, algumas vezes 10 horas por dia…
Alguns dias, ela saía pra faculdade oito da manhã, de lá ia pro cinema e começava a trabalhar à uma e meia da tarde e só saía do trabalho às onze e meia da noite. A vantagem é que, como ela trabahava muitas vezes no box do cinema, vendendo ingressos, levava o livro e podia estudar entre uma sessão e outra. Além disso, ao chegar em casa, foram muitas noites estudando até de madrugada…
Quem estuda duro assim, aqui nos EUA, é sempre recompensado. Nesse semestre, ela recebeu convites para participar de grupos de “honors students”, fraternidades e foi inscrita numa lista de melhores alunos, pelo diretor da faculdade, o que pode ajudar a conseguir uma bolsa de estudos.
E, pra finalizar, o motivo principal desse post é que ela recebeu, essa semana, um prêmio (um diploma, também importante pro currículo) de destaque, indicado pela sua professora de Women’s Studies (Estudos das Mulheres)… imaginam como eu estou feliz e orgulhosa??!!!
Enfim, estou mesmo, muito feliz… mas, o mais importante é o que significou pra Bia esse esforço todo. Ela acabou de fazer 20 anos, mas já é uma mulher adulta, muito, muito mais do que eu era na idade dela.
Tem muita maturidade, responsabilidade, seriedade no que faz. Como eu sempre imaginei, ela é um mulherão. E todos os méritos são dela. Eu só faço babar e me sentir totalmente realizada por ter ajudado a botar no mundo uma pessoa tão especial.
PS.: Detalhe, pra quem não sabe, a tatuagem no braço dela é um coração, com meu nome