
Resumo, para quem não quiser ler o post todo:
No dia 8 de março, 2000 pessoas, na maioria mulheres do Movimento de Mulheres Camponesas, invadiram o horto florestal da empresa Aracruz Celulose, na Fazenda Barba Negra, em Barra do Ribeiro (RS). Elas foram tratadas pela imprensa como terroristas e baderneiras. Na verdade, estavam fazendo um protesto contra o “deserto verde”, que está sendo espalhado pelo monocultivo do eucalipto e pinus – que além de prejudicar o meio ambiente, empobrece a população camponesa da região – e sendo solidárias com aldeias indígenas que foram invadidas e distruidas pela mesma empresa Aracruz. Por que será que a imagem das mulheres, consideradas agitadoras do MST, foram mostradas, repetidamente, na Globo e não vimos nada sobre a destruição das aldeias indígenas, no Espírito Santo e outras ações prejudiciais ao meio ambiente, dessa empresa? Sabemos muito pouco sobre o que está acontecendo em nossas áreas rurais, mas essas mulheres precisam da nossa solidariedade.
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Todo mundo – que está no Brasil, pelo menos – deve ter visto as cenas repetidas em todos telejornais da Globo, das cerca de 2 mil mulheres, aparentemente ligadas ao MST (Movimento dos Sem Terra), invadindo a Aracruz Celulose, localizado no Rio Grande do Sul, no dia 8 de Março.
Na edição – indecente, como sempre – da Globo, as campesinas eram mostradas como predadoras, sarcásticas, que se divertiam enquanto destruíam a sagrada propriedade privada. Enquanto isso, mostravam as técnicas que trabalham nos laboratórios invadidos, aos prantos, chorando a celulose derramada.
Quase tive pena delas falando sobre a “luta” que foi construir aquele laboratório. Pensei que fosse um centro de experimentações universitário, público… acontece que a Aracruz Celulose, dona do tal laboratório “vandalizado”, é a maior produtora de celulose branqueada de eucalipto do mundo e, com o dinheiro que tem, acreditem, vai se recuperar rapidinho…
Mas a edição da Globo foi tão bem feita que até eu fiquei surpresa com a violência das mulheres trabalhadoras rurais, no local e seu descaso pela “ciência”. Mas como não sou boba nem nada e, há muitos anos, já aprendi a procurar outras fontes, saí pesquisando melhor e acabei vendo que a história, como era de se esperar, é bem diferente do que mostra a “poderosa”.
O que é a Aracruz Celulosa

Segundo matéria da Carta Maior, “As acusações contra a Aracruz são inúmeras, indo desde a destruição de 50 mil hectares de Mata Atlântica, nas décadas de 60 e 70, até o financiamento de campanhas eleitorais em troca de favores, passando por aplicação de agrotóxicos que contaminam as fontes de água de diversas comunidades, implantação de extensas áreas de monoculturas desrespeitando a legislação ambiental, poluição e desvio ilegal de rios que abastecem comunidades – apenas para garantir água suficiente para suas fábricas de celulose .”
Ainda por cima, como diz a Ana Paula Fagundes, do Grupo Defesabiogaúcha, “a celulose vai para o hemisfério norte para virar papel higiênico, folder e papelão, e no Sul é que fica a destruição. Um exemplo é a Aracruz, que exporta 98% da celulose produzida. Para que estamos entregando todas nossas terras? E que retorno há nisso? Nenhum. Só destruição ambiental”.
“A empresa Aracruz Celulose invadiu áreas indígenas em processo de demarcação e expulsou índios tupiniquins e guaranis de 40 aldeias. No norte do estado, a empresa ocupou terras quilombolas, expulsando cerca de 10 mil famílias. Atualmente restam apenas seis aldeias indígenas, que reivindicam 10.500 hectares indevidamente apropriados pela empresa, e 1.500 famílias quilombolas. Junto com pequenos agricultores, essas comunidades, mesmo tendo resistido a pressões e permanecido em suas terras, sofreram perdas enormes e hoje vivem ilhadas entre eucaliptos, sujeitas às freqüentes aplicações de agrotóxicos.” afirma Daniela Meirelles Dias de Carvalho, geógrafa e técnica da Fase.
A Aracruz não é a única, mas é a empresa desse ramo do agronegócio que mais recebeu dinheiro público. São quase R$ 2 bilhões nos últimos três anos. No entanto, uma empresa como a Aracruz gera apenas um emprego a cada 185 hectares plantados, enquanto a agricultura camponesa gera 1 emprego por hectare.
Invasão de campesinas à Aracruz celulose
Mesmo mostrando, exaustivamente, as cenas do laboratório destruído, em momento nenhum as reportagens da Globo ouviram o que as mulheres tinham a dizer. O ato foi considerado “apenas mais um vandalismo do MST”.
Na verdade, a ocupação, organizada pelo MMC – Movimento de Mulheres Camponesas, tinha um objetivo muito bem definido, que era denunciar as conseqüências sociais e ambientais do avanço do “deserto verde”, criado pelo monocultivo de eucaliptos, de onde se extrai a celulose, matéria prima para a produção de papel.
Em manifesto, o MMC afirma que: “Somos contra os desertos verdes, as enormes plantações de eucalipto, acácia e pinus para celulose, que cobrem milhares de hectares no Brasil e na América Latina. Só no estado do Rio Grande do Sul já são 200 mil hectares de eucalipto. Onde o deserto verde avança, a biodiversidade é destruída, os solos deterioram, os rios secam, sem contar a enorme poluição gerada pelas fábricas de celulose que contaminam o ar, as águas e ameaçam a saúde humana. A terra deve cumprir função social, não comercial.”
As mulheres do MMC também estavam lá em solidariedade com os povos indígenas que tiveram suas terras invadidas pela empresa Aracruz, três meses antes.
Invasão das aldeias indígenas pela Aracruz Celulose

Não sei se eu sou a única, mas não vi nenhuma reportagem sobre essa invasão da mesma Aracruz Celulose (agora no Estado do Espírito Santo), às aldeias indígenas. Se passou, teve uma repercussão infinitamente menor.
Segundo artigo de Eliana Rolemberg, do Adital, no dia 20 de janeiro de 2006, a Aracruz acionou helicópteros, bombas, armas pesadas e 120 agentes da Polícia Federal do Comando de Operações Táticas (COT), de Brasília, para destruir duas aldeias e expulsar 50 pessoas dos povos Tupiniquim e Guarani de sua terra tradicional, no município de Aracruz (ES).
Sem sequer receber uma ordem de despejo, os Tupiniquim e Guarani foram surpreendidos com o violento ataque. A ação, que resultou na prisão arbitrária de duas lideranças e deixou outras 12 pessoas feridas, teve todo o apoio logístico da empresa de celulose. Os 120 agentes da Polícia Federal receberam hospedagem e utilizaram o heliporto e os telefones da multinacional.
Durante a ação ilegal da Polícia Federal, tratores da multinacional destruíram totalmente duas aldeias e muitos indígenas não puderam sequer retirar seus pertences de dentro das casas derrubadas.
Mesmo com essas denúncias de desrespeito aos direitos indígenas e ao meio ambiente, a gigante multinacional ainda conta com vultuosos recursos do BNDES.”
Ou seja, uma empresa expulsar povos indígenas, com a violência que vemos nessas fotos, ferindo pessoas, destruindo suas casas, é legítimo. Mas o ato das mulheres campesinas é vandalismo?
Não sou a favor de violência em nenhum caso, mas quantos de nós já ouvimos falar no “deserto verde”? não nos afeta, não nos interessa. A invasão dessas mulheres foi uma tentativa de chamar a nossa atenção. De mostrar à opinião pública o drama que ela, as nossas terras e meio ambiente estão vivendo.
Pra mim, isso não é vandalismo, mesmo que alguns exageros tenham sido cometidos. A perda da Aracruz é recuperável, mas eles vão devolver os 50 mil hectares de Mata Atlântica destruidos? e as aldeias e povos desagregados?
Muitos de nós ficamos horrorizados com a violência dessa invasão, mas elas estão fazendo o “trabalho sujo” e perigoso, de se expor, para chamar a atenção da opinião pública nacional e internacional, enquanto nós estamos, confortavelmente sentados, em nossas casas, julgando seus atos…
Fontes:
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Atualização e esclarecimento importante:
Bom, enquanto o sistema de comentário não volta a funcionar, vou comentando algumas coisas por aqui mesmo.
Gente, eu sou tendenciosa, qual é a novidade?
Mas, eu não sou jornalista, não sou paga por ninguém, vocês não pagam pra ler meu blog. Quando vocês lêem a Veja ou assistem à Globo estão ou pagando pra comprar a revista ou vendo um canal de televisão que é concessão pública.
Eu apresento as coisas, do jeito que eu as vejo, que eu sinto, sem me preocupar, nem um pouco, se estou sendo “imparcial”, até porque isso seria impossível, tudo que eu não sou é “neutra”.
Claro que me incomoda o uso de violência e acho que a ação do MMC foi desastrada, mas não foi sobre isso, o meu post. Queria mostrar como as informações que nós recebemos, via grande imprensa são completamnte distorcidas. Artigos esculhambando com a mulherada já tivemos até demais, eu quis, mesmo, mostrar o outro lado.
Agora, de uma forma geral, sinto muito que as invasões do MST tenham pedido o controle. Não por causa dos “pobrezinhos dos latifundiários” que têm suas fazendas invadidas, mas por que a imagem do Movimento, eu eu sempre admirei muito, acaba sendo prejudicada, pelos exageros cometidos.
Enfim, terei todo prazer em discutir as nossas divergências de opinião na página de comentários, desde que se manetenha sempre respeito mútuo. Mas, aviso que não faz sentido nenhuma cobrança quanto à minha imparcialidade, porque nunca disse que ia ser imparcial nesse blog.
(Os comentários estão de volta!)
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Plínio de Arruda Sampaio:
“A ação das Mulheres da Via Campesina, na Aracruz, está em consonância com as ações de Gandhi e Martin Luther King Jr., mártires dos oprimidos. Elas e eles fizeram desobediência civil: desafio a leis injustas sem agredir pessoas. Como gesto extremo, querem acordar consciências anestesiadas que são cúmplices de sistemas opressivos. A não-violência de Gandhi e Luther King não diz respeito às coisas, mas, sim, às pessoas humanas”
(Folha de São Paulo, 24/03/2006, p. A3).
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Falcão – Meninos do tráfico X Mulheres Campesinas
Agora há pouco, Trocando idéias, nesse post, fiquei pensando numa coisa… o que não vale uma boa edição em horário nobre, hein?
Provavelmente, as mesmas milhares de pessoas que ficaram revoltadas contra as mulheres trabalhadoras rurais, que invadiram e destruiram o patrimônio da Aracruz Celulose, em cenas mostradas exaustivamente pela Globo, morreram de pena dos meninos do tráfico, apresentados no documentário apresentado no Fantástico…
Pela lógica, nenhuma violência se justifica, na minha opinião, ainda menos a dos meninos, que vendem drogas, feriram e mataram pessoas.
Mas existe uma simpatia quase unânime em relação às pobres crianças vítimas da sociedade (simpatia essa que eu compartilho, claro!). Não vi ninguém se declarar com raiva do menino que dizia que tinha matado e ia continuar matando. Quase todo mundo assistiu a isso com lágrimas nos olhos.
Sou capaz de apostar que o pais estaria tão comovido quanto, se fossem mostrados, no Fantástico, com a mesma dimensão e impacto, os depoimentos das mulheres do MST, contando suas vidas de privações, de abuso, de fome, de miséria, doenças, e as dificuldades pra criar seus filhos, que estão, literalmente, morrendo de fome.
Duvido que essa revolta toda contra a “violência” das mulheres do Movimento das Mulheres Camponesas contra uma empresa fdp como a Aracruz, se mantivesse. Infelizmente, é tudo uma questão de edição.
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