Esse assunto rende muito e devia deixar pra escrever num dia, sem TPM e dor de cabeça, mas não não consigo controlar a vontade de comentar esse assunto…
Como muita gente já sabe, eu ADORO a Angelina Jolie… absolutamente perfeita! linda, poderosa e muito bem intencionada. Adoro o trabalho que vem fazendo como embaixadora das Nações Unidas.
Dia desses vi um programa mais que absurdo que se chama “As 100 maiores gafes no tapete vermelho” (claro que era divertidíssimo). Mas, entre os 100 micos, o que consideraram número 1, o pior de todos, foi Angelina Jolie e o então marido Billy Bob Thornton, se agarrando no tapete vermelho, a frente das câmeras!!! incrível… isso é o puritanismo americano!
Enfim, a última que saiu, em todas as revistas e programinhas de fofoca, foi que Angelina Jolie andou dizendo por aí que “detesta estar grávida”…
Parece que ela está tendo enjôos terríveis e nem um pouco satisfeta com a idéia de já acordar vomitando. Eu sei bem o que é isso, enjoei de Bia durante oito meses, todos os dias, sem nem uma folgazinha. Ela nasceu um mês antes e no dia do parto, eu ainda estava enjoando e vomitando. Acreditem, não é nada agradável.
Bom, lendo sobre a Angie, fiquei pensando nessa idealização que se faz da maternidade, gravidez, amamentação… e que eu acho extremamente desagradável.
Dia desses, quase morro de rir com a Adri, cujo blog eu adoro, comentando a entrevista da Ligia Fagundes Telles à TPM, nesse post aqui:
“Sério, em geral elas ficam muito muito xaropes e pentelham todo mundo com os ultrasons, ecografias e outras xaropices como quantos chutes o bebê já deu. Parece que o mundo todo se converte numa maternidade gigantesca e que nenhum outro assunto tem importância. E o que é a tortura dos enfadonhos chás de fraldas? Putz, é uma das piores invenções. Tem até um episódio bem divertido de Sex & the city sobre o baby shower e a “seita das mães”. Gravidez é mais um fato “natural” como alimentação, fazer sexo e morrer. Não tem motivo pra tanto alarde.”
Genial, Adriana! bem, não concordo em tudo com ela, acho lindo ver uma mulher exibindo a barrigona… hehehe… mas acho que é verdade que ficamos meio bobas mesmo.
Saber que estamos gerando uma vida é, sempre, emocionante e deixa a gente descompensada. Mas, também acho que embarcamos num “modelo de mãe” que é criado a partir de uma idealização… algo do tipo “mãe que é mãe-boa tem que se comportar assim” e lá vamos nós… aí quando vem uma Jolie da vida mostrando como ficar grávida também é um saco, ficam todos chocados.
Infelizmente, pra quase todas as mulheres, esse ideal de maternidade vem carregado de culpas. É culpa pra mulheres que não querem ter filhos, não podem, não rolou, não estão interessadas ainda, não encontraram um pai que valesse a pena… ou, simplesmente, culpa para aquelas que engravidaram, pariram e não estão curtindo a maternidade por mil razões, que vão de não gostar de acordar de madrugada, de serem imaturas pra assumir a responsabilidade, de não contar com apoio do pai da criança, ou até por razões clínicas, como a depressão pós-parto.
Pra começar, queridas, nem todo mundo precisa ser mãe. Esse deveria, antes de tudo, ser um dos nossos mantras absolutos. E ninguém é menos mulher ou mais “do mal” por não querer assumir a maternidade.
Li, há anos, esse livrinho, que deveria ser leitura educativa para mulheres após os 20: “Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno”, da Elisabeth Badinter. Nele, Badinter mostra como o “amor materno” não é um sentimento inato, mas que vai se desenvolvendo (ou não) de acordo com as variações e pressões socio-econômicas da história.
Nem sempre as mulheres viram a maternidade com a mesma doçura e lirismo. Não faz tanto tempo assim que as crianças eram entregues a amas de leite ou abandonadas nas “rodas”.
Em Florença, na Italia, visitamos o Instituto de Innocenti, que ainda tem, em exposição, uma “Roda dos Inocentes” (foto), que era um local onde as mulheres abandonavam seus filhos para serem criados no orfanato de uma instituicao religiosa.
Na sua tese, “A Conquista da Amamentação: O Olhar da Mulher” (Leia na íntegra aqui), minha querida amiga Marcia Machado, fantástica profissional de Fortaleza, fala da Roda dos Expostos, um “dispositivo bastante difundido em Portugal, que consistia num cilindro que unia a rua ao interior da Casa de Misericórdia”.
Segundo ela, no Brasil, Salvador, Recife e Rio de Janeiro também tinham as tais Rodas no período colonial. A Roda funcionava dia e noite, e qualquer um, furtivamente ou não, podia deixar um bebê no cilindro sem ser notado ou muito menos incomodado.
Apenas lá pelo último terço do século XVIII, a imagem da mãe modifica-se, radicalmente, e surge uma enorme quantidade de livros ensinando às mulheres a necessidade de cuidar dos seus filhos.
Essa mudança acontece a partir de uma necessidade de garantir a sobrevivência das crianças, numa época de altíssimos índices de mortalidade infantil. “Para operar esse salvamento, era preciso convencer as mães a se aplicarem às tarefas esquecidas”, como afirma Elizabeth Badinter.
Na verdade, esse padrão não é linear e nem foi o mesmo em todos os cantos do mundo, mas varia em cada sociedade.
Eu adoro minha filha e adoro ser mãe, mas não é tudo um mar de rosas. Apesar de saber disso, confesso que não escapo a esse padrão “ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração dos filhos”. Mas me esforço.
Atualmente, também influenciadas pelo discurso psicanalítico, ser mãe (ou não) é como carregar, eternamente, um enorme balaio de culpas. Nunca somos suficientemente boas. Especialmente nós, mães latinas… hehehe…
E o pior é que, vamos, também, passando culpas umas às outras. Quem, depois de alguns anos de casada, sem filhos, nunca ouviu aquela perguntinha fatídica: “E aí? quando vão engravidar?”. Ou, para as que já tem filhos, sempre aparecem amigas ou colegas de listas de discussão querendo ensinar como criar seus filhos.
Acho isso tudo um saco. Jamais vocês vão me ver perguntar a alguém quando ela vai engravidar. Até porque, pensem nisso, se a pessoa tiver algum problema clínico, é doloroso ouvir essa cobrança eterna. Se não, é no mínimo desagradável ter que ficar se explicando. Portanto, sugestão minha… nunca, em hipótese nenhuma, pergunte a uma mulher quando ela vai engravidar… nem mesmo à sua irmã, ou melhor amiga!
Estive, recentemente, com uma amiga que vai fazer 40 e não tem filhos. Claro que a gente tem alguma curiosidade sobre o assunto, mas fiquei quietinha, até que ela me disse que está decidida a engravidar, aí, conversamos muito sobre o assunto, mas, eu lembrei a ela que filho é bom, mas não é tudo na vida, não quero contribuir para gerar uma tensão adicional, já que, nem sempre é fácil engravidar depois dos 35.
Ao mesmo tempo, também estou por aqui, tentando exorcizar as culpas da minha própria maternidade. Sempre digo que fiz o possível pela minha filha, acertei e errei. Mas, não sou eu a única responsável pelos seus sucessos e fracassos, até porque isso iria reduzir a filha a um ser sem personalidade própria.
Quanto à amamentação nem preciso dizer que eu acho que é, sem sombra de dúvidas, a melhor coisa que uma mãe pode fazer por seu filho ou filha. Mas, quando trabalhava com esse tema, tentava, assim como minhas colegas do Origem, nunca ter uma postura de cobrança.
Amamentar ou não é uma decisão exclusiva da mulher, nem o pai da criança pode ter nada a ver com isso, porque o leite é produzido no corpo dela e somente ela pode saber se sente-se disponível a essa doação, ou não. Além do mais, amamentar, dá trabalho, sim, e é um ato que se aprende, não é puro instinto.
Enfim, se a Angelina Jolie disse mesmo que ficar grávida é um saco (não dá pra acreditar muito nessas revistas), a admiro ainda mais por isso. E pelo seu modelito de grávida preto e justinho, e pela sua tatuagem na barriga. Mas, especialmente, por, mais uma vez, ultrapassar os limites e puxar outras mulheres com ela.
Não tem problema nenhum achar chato carregar a barriga gigantesca e pesada (ainda que, eu sei, na maioria das vezes é só prazer!). Também não devem ser acusadas de ser mães desnaturadas as que não se sentem disponíveis pra amamentar ou as que têm vontade de sumir ao acordar pela milésima vez, pra botar o bebê de volta pra dormir. Como dizia Angela Rô Rô, “Você antes de mãe é uma mulher”…
Principalmente, não é desvio de personalidade não querer ser mãe. Já lutamos, diariamente, com tanta pressão na vida, pra que infligir mais essa, umas às outras?! se todas nós respeitássemos os ritmos, as possibilidades e os desejos das outras seríamos, todas, muito mais felizes.
A Tatuagem da Angelina: “Quod Me Nutrit Me Destruit” ou algo como “O que me nutre, me destrói”, em latim… U-AU… prato cheio pros psicanalistas de plantão…
Observação: Antes que falem alguma coisa, deixa dizer que não estou afirmando que engravidar é um saco. Eu adorei, curti, me senti linda, maravilhosa, e exibi muito a barriga… apenas acho que não é tudo simples assim e somente bom, tem as horas difíceis, também e não somos menos mães por sentir isso.
Mamãe Coragem

Com Gal Costa
De Caetano Veloso e Torquato Neto (Tropicália)
Ouça aqui.
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo, eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo, eu quero mesmo é isto aqui
Mamãe, mamãe não chore
Pegue uns panos pra lavar, leia um romance
Veja as contas do mercado, pague as prestações
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos
Seja feliz, seja feliz
Mamãe, mamãe não chore
Eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz, Mamãe, seja feliz
Mamãe, mamãe não chore
Não chore nunca mais, não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta
Braço de ouro vale 10 milhões
Eu tenho corações fora peito
Mamãe, não chore, não tem jeito
Pegue uns panos pra lavar leia um romance
Leia “Elzira, a morta virgem”, “O Grande Industrial”
Eu por aqui vou indo muito bem, de vez em quando brinco carnaval
E vou vivendo assim, felicidade, na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.
A história da Yara
Gente, escrevi esse post sem saber, ainda, da história da menininha que foi encontrada dentro de um saco plástico, no lago da Pampulha. A imagem foi terrível e todo mundo se pergunta: “como uma mãe pode fazer isso?”…
Como bem disse o Flavio, não existe mais o abandono institucionalizado pelas “Rodas”, mas as mães continuam largando os filhos pelo mundo afora. Quando não os matam, como vemos, de vez em quando.
A gente pode acreditar que são pessoas desequilibradas… e muitas vezes, elas são mesmo, especialmente quando se chega a um ponto de matar ou maltratar fisicamente um bebê, geralmente, vítimas de depressão pós parto, que tem de ser tratada com medicamentos e terapia. Mas, às vezes, essas mães “descuidadas”, apenas confirmam que não existe esse “amor natural materno”, ele é algo que se constrói, social e internamente, e nunca vai existir para algumas pessoas.
Quantas de nós conhecemos casos de mães que não dão atenção aos filhos, os maltratam ou abandonam? definitivamente, nem todas mulheres nasceram pra ser mães. Casos como os da menininha Yara diminuiram se tivéssemos acesso à contracepção gratuita e segura, se o aborto fosse legal e diminuisse a pressão da sociedade pela maternidade.