
A gente vive fugindo desse assunto. Pra nós, ocidentais, lidar com a morte é de uma dor insuportável. Quem mora fora do Brasil sabe que esse é nosso maior medo. A morte de uma pessoa querida, sem que a gente esteja por perto, dá arrepio só de pensar.
E quando a morte acontece com pessoas que a gente conhece apenas virtualmente? me deparei com alguns sites de pessoas que se foram e deixaram suas últimas palavras e isso me deixou muito impressionada. É uma outra forma de dor, com a perda, que vai começar a surgir numa época em que a gente estabelece tantos laços à distância.
Eu conheci a Roberta quando mudei pra Suécia, ela é de Olinda, e mora em Skövde. Tinha criado o blog Brasil-Suécia e foi uma das primeiras pessoas que eu conheci na blogosfera. Ficava sempre encantada com seus posts cheios de alegria, descobrindo (como eu), uma nova vida com seu companheiro lá naquelas terras lindas e geladas.
Mas, aí a Roberta sumiu. Depois de algum tempo, passou aqui pra contar que estava grávida e fiquei muito feliz por ela. Depois ela sumiu de novo, mas não saiu da minha cabeça e sempre pensava: “onde andará a Roberta?”.
Há dois meses recebi um email dela contando sua história muito triste e como seu bebê morreu logo após o nascimento. A mensagem dela me comoveu demais. A gente não consegue nem imaginar a dor da morte de um filho.
Conversamos um pouco por email e ela foi me contando da importância do apoio que tem recebido e me pediu pra divulgar a existência do Grupo Apoio Mãe, cujo site é: http://www.apoiomae.blogger.com.br/, para ajudar as mães que perderam seus filhos a suportar a dor e continuar a vida.
Roberta escreveu esse texto abaixo para um grupo de discussão sobre o tema e quer compartilhar com vocês, para que possa ajudar as mulheres que também sofreram uma perda tão dolorosa.
Sou Mãe de um Anjo
Sobre mim
Me chamo Roberta, tenho 29 anos, sou casada com um homem maravilhoso a 2 anos e meio e resido na Suécia, país de origem do meu esposo. Sou também mãe de um anjo que se chama VIKTOR, meu primeiro, amado e único filho.
Gravidez
Depois de quase um ano tentando engravidar, em setembro/04 recebi a bênção de uma gravidez, que foi cheia de problemas a começar da semana 8, quando tive um pequeno sangramento. Quase todos os meses eu parava no hospital por conta de sangramentos leves mas os exames não acusavam nada de errado com o bebê e eu saía do hospital sempre sem explicacões concretas.
Embora a felicidade por saber que estava esperando um bebê fosse grande, não consegui curtir a gravidez da forma desejada, pois estava sempre com medo de que algo desse errado.
Em novembro fui socorrida por conta de uma hemorragia e foi constatado o descolamento parcial da placenta. Fiquei de repouso durante quase um mês seguindo as orientacões médicas, e fazendo ultrassonografia para acompanhar o tamanho do hematoma a cada 15 dias. Na última ultra foi constatado o desaparecimento do hematoma e fui liberada para voltar às minhas atividades normais, porém com mais cuidado.
Quando conseguimos finalmente relaxar, pensando que tudo está correndo bem, tenho uma grande hemorragia em 24/01/05, às 05h da manhã. Acordei meu marido e ele, muito nervoso, ligou para o hospital. Uma ambulância chegou à nossa casa cerca de 10 minutos depois da ligacão e eu fui levada às pressas ao hospital da cidade onde resido. A bolsa d’água havia rompido e eu tinha fortes dores abdominais , além de hemorragia. Passei por uma batalha de exames e foi constatado que estava com uma infeccão no útero por conta do “oligohidramnio grave”, que significa em outras palavras uma grande perda do líquido amníótico.
Por conta disto tive que ser internada e três dias depois transferida para um hospital maior que tinha um neonatal mais avançado para bebês nascidos nesse período de gestacão (eu estava na semana 22). Gotemburgo, cidade onde fui internada, fica a 2h de onde vivo e por isso não recebia visitas tão frequentemente; Meu marido tinha que trabalhar e só ia ao hospital semanalmente, onde passava 3 dias comigo. Eu chorava muito pois sentia muita falta de companhia e, principalmente, da minha mãe que reside no Brasil.
Os primeiros dias foram cheios de tristeza, solidão e medo do que podia acontecer com o nosso filho, mas as semanas foram se passando e Viktor ia crescendo, dando sinais de muito vigor e energia dentro do meu ventre, mesmo quase sem líquido amniótico. Cada grama que ele ganhava e cada pulsar de seu coracão era para nós alegria e esperanca, então passei a agradecer à Deus e ficar feliz por cada dia de internação, pois cada um deles era fundamental para o desenvolvimento do nosso esperado filho. Além disso, fui muito bem assistida pelos médicos e enfermeiras tanto no aspecto físico como mental. Quando eu estava triste logo vinha uma enfermeira e passava às vezes meia hora conversando comigo. Elas foram meus anjos naquele hospital.
Os médicos falavam sempre dos problemas que a falta do líquido amniótico podia causar, dentre eles: má formação dos pulmões e dos membros do bebê, etc., porém eu estava certa de que isso não iria acontecer com o nosso filho.
O parto
Depois de 31 dias de internação, na madrugada do dia 23/02/05, fui ao banheiro e vi sair um enorme coágulo de sangue. Nervosa, apertei no botão para chamar a enfermeira e em seguida fui levada para a sala de parto para controle. Gracas à Deus meu marido estava lá nesse dia. Na sala de parto fiquei durante toda a madrugada, manhã e tarde sentindo contracões e com uma forte hemorragia, porém o coração de Viktor pulsava com a força dos guerreiros, adiando o seu nascimento; Até que a médica fez o toque e disse que o colo do útero havia dilatado e que uma cesária de urgência teria que ser feita, já que Viktor estava em posicão pélvica.
Enquanto eles me preparavam para a cirurgia, liguei aos prantos para minha mãe para informá-la que iria em breve dar à luz; Meu marido estava comigo o tempo todo, super nervoso mas tentando sempre me passar tranqüilidade.
Na sala de operacão havia uma equipe enorme, todos muito gentis e sempre tentando me tranquilizar. Às 16h30 nasce o nosso menino. Eu não escuto o seu choro e os médicos o levam imediatamente para a sala ao lado, onde uma equipe de pediatras o esperam. Eu então peço à Bengt, meu marido, para ir vê-lo. Depois de alguns minutos Bengt volta com um sorriso estampado no rosto dizendo que era um menino e que os médicos haviam tido muita dificuldade para oxigená-lo mas que conseguiram e que o nosso Viktor estava bem. Mais alguns minutos se passaram e os médicos passaram com o nosso menino rapidamente para que eu pudesse vê-lo e acariciá-lo. Foi um encontro curto, mas de uma felicidade imensurával. Eu estava mais que feliz, estava em estado de êxtase.
Fui então levada para a sala de recuperacão e estava ansiosa para que Bengt fosse na unidade neonatal para saber notícias de Viktor e para tirar fotos dele. A partir dali eu sabia que seria uma longa jornada, que Viktor ficaria alguns meses internado mas tinha a certeza de que passaríamos por tudo isso e voltaríamos os 3 juntos para casa.
A má notícia
Mas aí chegou o médico pediatra à sala e a angústia tomou conta de mim; Ele disse que Viktor não havia conseguido, seus pulmões não agüentaram e ele teve uma parada cardíca. Meu mundo caiu, eu não acreditava no que estava ouvindo. Nenhuma lágrima caía, eu estava em estado de choque. O médico perguntou então se queríamos ficar com Viktor e nós dissemos que sim.
Enquanto o médico não voltava com o nosso menino, tudo o que vivi durante minha gravidez passou em minutos como um filme em minha mente. Eu não parava de chorar. O médico chegou então com Viktor e o entregou em meus bracos. Ele ainda estava quentinho, parecia um anjinho dormindo. Eu o beijei, o abracei e o acalentei. Foram momentos de muita dor mas ao mesmo tempo de muita felicidade. Ele era lindo, perfeito. Nasceu com 35 cm e 1,160kg. Tinha uma carinha linda, era o menino mais lindo que eu já tinha visto.
A enfermeira chegou e nos levou para o nosso quarto. Ela disse que podíamos ficar com Viktor o tempo que quiséssemos. No quarto ela nos entregou um folheto dirigido aos pais que haviam perdido seus bebês. Eu peguei e li enquanto Bengt segurava Viktor no colo. Lá falava sobre o quanto foi importante para outros pais guardar recordações do seu filho, como por exemplo tirar fotos, tirar as impressões dos pés e mãozinhas, etc. Que nada era errado e que muitos pais que não fizeram isso se arrependiam depois.
Passamos a noite com o nosso filho no colo olhando cada detalhe de seu corpo para gravarmos em nossa mente e jamais esquecê-lo. Tiramos foto dele e foto de nós três, pois uma família havia se formado. No final da noite entregamos nosso filho à enfermeira, pois ele já estava ficando friozinho e roxinho e queríamos guardar em nossa memória aquela imagem linda do nosso bebê papudo, rosadinho e sereno. Foi difícil!
Seis dias depois fui liberada do hospital e na capela de lá velamos o nosso Viktor. Eu troquei suas roupinhas, forrei seu caixãozinho com o lençol que eu havia bordado durante o período de internação e coloquei meu bebê junto com seu ursinho e duas rosas, uma do papai e outra minha. Que dor meu Deus!!! Eu colocando meu filhinho num caixão quando eu sonhava em colocá-lo em seu bercinho… Bengt fez uma oração linda e fechamos o caixão. Esse adeus foi difícil, muito difícil…
Seguimos então para a minha cidade levando o caixão com um casal de amigos que foi nos buscar. Deixamos Viktor na capela do cemitério onde uma semana depois seria sepultado.
Voltando para casa
O retorno para casa depois de quase 40 dias de internação era muito temido por mim, mas Deus me deu uma força fora no normal, surpreendente. No mesmo dia em que cheguei, entrei no quarto de Viktor e guardei todas as suas coisinhas dentro do guarda-roupa. Tantas coisas ele tinha e ao mesmo tempo não, afinal não temos nada aqui na terra e daqui nada levamos. Até mesmo Viktor não era meu, foi apenas um anjo que Deus me emprestou por pouco tempo. Ele veio para nos ensinar e ensinar a tantas pessoas muita coisa sobre a vida e sobre a eternidade. Veio para nos mostrar que o amor transcende a vida terrena e que a morte e a vida são irmãs gêmeas, que nascer e morrer é quase a mesma coisa…trocamos apenas de lado.
O enterro
Diferentemente da cultura brasileira, aqui o enterro é realizado alguns dias depois do falecimento. Viktor, por exemplo, foi sepultado no dia 09/03, 14 dias depois da sua partida. Eu e Bengt fizemos tudo: informamos às pessoas, conversamos com o pastor e escolhemos as músicas a serem tocadas no culto antes do seu sepultamento, etc.
O culto começou com uma música sueca que se chama Jag fick låna en ängel que significa Eu tomei um anjo emprestado. O pastor fez uma pregação linda e depois leu uma carta que fizemos para o nosso filho. O culto foi encerrado com a música Tears in heaven, ou seja, Lágrimas no céu (as letras das músicas bem como sua tradução seguem no final deste texto).
A causa da ruptura da bolsa dágua
Tudo indica que o que causou a ruptura da bolsa e as deformidades na placenta foi uma bactéria (estreptococos B). Para uma próxima gravidez terei que fazer um controle mais rígido todos os meses para detectar a presenca da bactéria e combatê-la com um antibiótico.
A cultura sueca e a nossa recuperação
Tenho que confessar que a cultura sueca, que nos incentivou a fazer tantas coisas que provavelmente não faríamos sem um apoio (como por exemplo tirar fotos, trocar suas roupinhas e colocá-lo no caixão, etc.), tem ajudado muito na nossa recuperação. Tenho certeza que teria me arrependido caso não tivesse feito o que fizemos. Afinal, o nosso tempo com Viktor foi tão curto que foram esses poucos momentos que tivemos com ele o nosso maior tesouro e a nossa melhor lembrança. Nos sentimos bem em termos sido nós, os pais dele, que cuidamos de todos os detalhes para o sepultamento dele, por exemplo. Pode parecer loucura, mas o enterro dele foi o mais lindo e ao mesmo tempo o mais doloroso que fui em toda minha vida.
Viktor e a dor da saudade
Meu filho agora é um anjo, está vivo e pula e brinca com os outros anjinhos; Entrou em estado de graça e êxtase total na presença de Deus, ganhou um novo nome, tem a consciência de que passou por aqui e foi muito, muito amado por nós; Ele não nos escuta nem nos vê mais, mas falo com ele em Deus por que Ele sente por mim o que sinto por meu filhinho. A dor da saudade é hoje grande e profunda, choro todos os dias. Olhar as fotos de Viktor e ir ao cemitério cuidar de seu jazigo é doloroso mas ao mesmo tempo confortante. A certeza da ressurreicão em Cristo é a única coisa que me conforta e me dá forcas para prosseguir.
No momento meus passos ainda são curtos porque a dor e o vazio são grandes, mas espero um dia, quem sabe com a chegada de um novo filho, ver a vida com um pouco mais de alegria. Sei que outro filho jamais substituirá o lugarzinho do meu Viktor, mas trará um pouco mais de alegria a este coracão vazio.

Não canso de me surpreender com as sincronicidades do mundo virtual. Esperei dois meses pra colocar o depoimento e o fiz exatamente no dia em que fazia quatro meses que Viktor se foi, sem prestar atenção nenhuma na data, até porque não tive coragem de reler o depoimento da Roberta, quando postei, ontem.
A Roberta acabou de deixar essa mensagem pra gente. Queria sugerir que todo mundo, que puder, visite o blog que ela criou pro Viktor, e deixe uma mensagem. Eu sinto que ela está precisando muito desse apoio:
“Deni minha querida, obrigada! Não poderia receber presente melhor na passagem dos 4 meses sem Viktor. Fiquei (estou) muito emocionada. Queria agradecer também à todos que se sensibilizaram com meu depoimento e que deixaram mensagens tão carinhosas. OBRIGADA! Criei um blog que se chama “Um anjo chamado Viktor” como uma forma de expressar minha dor e meu amor pelo meu filho. Hoje postei a primeira mensagem. Espero receber a visita de vocês. Um beijo muito especial, Roberta”