O risco de ser mulher na India
Viajar não é só apreciar as belezas de um lugar exótico, mas uma oportunidade de aprender muito mais sobre o povo. Sempre que viajo, procuro ler sobre o país e entender além do que é mostrado pelos guias.
Acho que porque tenho uma filha que eu adoro, sempre me aproximei mais das meninas. As amigas de Bia sempre me adoraram e fui confidente de muitas delas.
As meninas indianas são lindas, meigas e espertíssimas e conquistam a gente com aqueles olhos enormes. Tentei estabelecer algum contato com as meninas que fotografei, mesmo com o bloqueio da língua e elas são inesquecíveis.
Sendo assim, procurei entender mais o que é a vida de uma indiana e, ainda que eu já soubesse muito disso, fiquei chocada com tudo que ouvi de alguns indianos com quem conversei (guia turístico, motoristas de taxi, funcionários do hotel) e pesquisando, na Internet, nas minhas madrugadas insones em Delhi.
Esse é o lado triste e feio da história, que eu também precisava mostrar aqui.
Aborto seletivo
A India tem um dos menores índices de nascimento de mulheres do mundo. Segundo o censo de 2001, nascem apenas 927 mulheres para cada 1000 homens. No Estado de Haryana esse índice cai para 782 mulheres, enquanto que, em outros países, a estatística média é de nascimento de 1050 mulheres para cada 1000 homens. E, na India, essa diferença está aumentando a cada ano.
São os “avanços da tecnologia” e suas consequências inesperadas. A diminuição do nascimento de meninas, na India, deve-se à proliferação de empresas clandestinas, em qualquer cidadezinha mais remota da India, que fazem ultrassom por apenas 10 dólares e, com uma taxa adicional, fazem um aborto, se o feto for do sexo feminino.
A situação é tão grave que o governo proibiu a realização de ultrassom, com o objetivo de saber o sexo do bebê. Mas o apelo dessas empresas e a realidade social falam mais alto.
Propagandas dessas clínicas afirmam: “pague 500 rupees agora e economize 50.000 no futuro”, numa referência ao dote que o pai da noiva precisa dar à família do noivo, no casamento.
Infanticídio, descaso e suicídio de meninas
Dos 15 milhões de meninas nascidas anualmente na India, cerca de 25% não vai sobreviver até seu aniversário de 15 anos.
A prática de infanticídio ainda existe em algumas regiões da India. Bebês do sexo feminino são mortos através do consumo de arroz e leite envenenados, geralmente oferecidos pelo homem mais velho da família.
Quando as meninas escapam de ser assassinadas, no primeiro ano de vida, são vítimas de um assassinato gradual. Não são enviadas à escola, trabalham duro em casa e morrem de desnutrição ou total abandono de cuidados de saúde.
Os índices de suicídio, entre as meninas, são assustadoramente maior que entre os meninos. Estudo publicado no reconhecido jornal científico britânico The Lancet mostrou que o índice de suicídio entre as meninas, entre 10 e 19 anos é de 148 para cada 100.000 enquanto que entre os meninos esse número cai para 58 em cada 100.000.
A média mundial é de 14.5 suiciídios para cada 100.000 meninos e meninas. Sendo que em países ocidentais, ao contrário da India, o índice de meninos que cometem suicídio pode ser até 3 vezes maior que de meninas.
O fenômeno “Bride-Burning”
Se a menina sobreviver a tudo isso, e conseguir que a família arranje um casamento, ela ainda estará correndo risco de ser queimada viva, no que se convencionou chamar de “bride-burning”, e que poderia ser traduzido por “queima da noiva”.
Como vocês vão ler no meu próximo post, sobre o casamento na India, a família da noiva é obrigada a dar um dote e vários presentes para a família do noivo.
Em muitos casos, quando a “fonte de dinheiro” se esgota, o noivo e sua mãe passam a considerar aquela noiva indesejável. E a matam, para que o noivo possa casar-se novamente e começar todo o processo de presentes de novo.
O termo “bride-burning” começou a ser usado porque essas mulheres, geralmente, são mortas na cozinha, enquanto estão preparando a refeição da família, alguém joga querosene, outro acende um fósforo e a morte é reportada como “acidente doméstico” com o fogão a lenha.
Dados oficiais do Governo da India apontam 7.000 mortes por “Bride-Burning”, por ano, ONGs afirmam que é o dobro. Um artigo chega a falar em 25 mil.
Além da prática de assassinato das noivas, cujas famílias não dão a quantidade de dinheiro e presentes solicitada, é comum a tortura dessas mulheres, que apanham tanto da família do noivo que tornam-se portadoras de deficiências físicas, com ainda mais dificuldade para trabalhar duramente, como espera-se que faça.
Muitas vezes, mesmo sabendo que corre risco de vida, a noiva não tem para onde ir. Os pais não a querem de volta e os abrigos governamentais não oferecem condições de moradia e é difícil conseguir uma vaga.
Outros dados sobre as mulheres, na India:
- Altíssimos índices de desnutrição, porque a tradição é que as mulheres se alimentem por último e menos que o resto da família, mesmo que esteja gravida ou amamentando. Mães desnutridas dão a luz à bebês desnutridos, perpetuando o ciclo.
- Mulheres recebem menos cuidados de saúde que os homens, muitas vezes são forçadas a ter vários filhos, até um ser homem, não recebem cuidados adequados durante a gestação e saúde reprodutiva.
- Para cada 100 mil nascimentos, morrem 540 mulheres indianas no parto ou em decorrência de complicações da gravidez. Muitos desses casos são consequencia de abortos ilegais. No Brasil, o índice de mortalidade materna é de 160 para cada 100.000 nascimentos. Na Suécia o índice é de apenas 5 mulheres para cada 100.000 nascimentos.
- As meninas recebem muito menos educação formal que os meninos, são tiradas da escola para ajudar em casa ou por medo da violência.
- Em termos de quantidade, a India tem um dos maiores índices de participação da mulher no mercado de trabalho. As mulheres trabalham mais horas e em tarefas mais árduas que os homens. Ainda assim, seu trabalho não é reconhecido.
- Em lugares onde a vida da mulher vale tão pouco, é normal que o estupro não seja considerado crime grave e tenha índices altíssimos, especialmente nas cidades grandes, como Delhi.
- Ainda que existam leis que protegem a mulher, elas não são cumpridas. Mulheres nunca têm direito à herança.
Mas, porque isso tudo acontece? porque é tão arriscado ser mulher nesse país? é sobre isso que vou escrever no meu próximo post.
Artigos e sites pesquisados:
- Artigos sobre “Sex Selection”
- India Together
- Concern over Indias Vanishing Girls
- A murderous arithmetic
Chronic Hunger and the Status of Women in India- Study says S. India has highest young suicide rate
- Female Infanticide in Tamil Nadu, India : From Recognition Back to Denial?
- The Sixth International Conference on Dowry, Bride-Burning and Son-Preference
- Are our sisters and daughters for sale?
- Nation Master
Foto: feita por mim no Taj Mahal. As mulheres costumam esconder o rosto com o sari. Ela já tinha o rosto coberto quando fotografei, não foi um reflexo para se esconder da cãmera.





Novos álbuns de fotos:
Ao mesmo tempo que esses beijos podem chocar, no Nepal (e aqui na India), cansei de ver homens andando de mãozinhas dadas (e ainda balançando as mãozinhas, sabe como é?) .
É um país de carolas religiosas e, praticamente, não existem templos budistas ou hindus, apenas igrejas católicas de arquitetura espanhola, e as pessoas se vestem mais ou menos como as atrizes de Cría Cuervos, do Saura (sobre o qual falei aqui, dia desses).
Como a Malásia (Ilha de Penang) foi o país que visitei mais vezes e onde fiquei mais tempo, foi também, onde tive as experiências mais fantásticas.
Desde ontem estou batendo pernas, vendo as coisas mais lindas, mais impressionantes de Delhi.
Fomos para Old Delhi. Primeiro, visitamos
Dois detalhes interessantes nesse local. Primeiro,
Resolvi reconquistar minha independência. Sou rebelde demais para excursões. Ontem, percebi que, na frente do forte tinha um templo interessantíssimo, além de uma rua absurda, cheia de gente e carros. Voltei lá, sozinha.
A Liana me escreveu dizendo que vem pra india e perguntando sobre a segurança aqui, porque algumas pessoas a estão desencorajando a vir.
Hoje, pela primeira vez, consegui começar o dia cedinho.
Saindo de lá, eu monto uma estratégia e engano meu amigo taxista dizendo que quero ir pra rua tal, sem dizer o porquê… ao chegar na rua tal, pulo do taxi e corro pra o Palika Bazar, super popular (algo como uma mistura do Mercado de São José com Atacado dos Presentes) sob protestos do taxista que me acompanha até a entrada do bazar (que é subtrerrâneo!) jurando que eu ia ser assaltada ou esfaqueada…
Assim, prechinchando muito, hoje, comprei coisas bem bonitinhas e com precinho ótimo, a(o)s curiosa(o)s podem ver as fotos lá no álbum.
Ao chegar lá, confiscaram minha câmera e meus sapatos (não se pode entrar em nenhum templo hindu de sapatos).
Servem uma comidinha incrível – arroz, dal (lentilha), sobji (vegetais com curry), arroz branco e naan (esse pãozinho maravilhoso), mais uma entrada na qual nunca nem tocamos, por apenas UM dólar.
Esse jet lag tá me matando. Ontem, consegui não dormir durante o dia. Fui pra cama umas 10 da noite. De repente acordo toda animada, pensando que já era de manhãzinha… e eram 11 e meia da noite!!
Como ainda não encarava a culinaria local, nessa primeira vez, em Bangkok, perdi 12 quilos em 18 dias. Comia exclusivamente melancia, enquanto trabalhava como uma louca, na primeira semana.
Mas, não é só a comida que é maravilhosa, por aqui. A gente é muito boa.



Dilli Haat e’ um aglomerado de lojinhas. Logo na entrada tem um cartaz avisando que essa e’ uma area “plastic free”, onde tudo e’ artesanal e tambem nao tolera-se “comportamento indecente”… considerando as diferencas culturais, precisei controlar meus “beijinhos sem ter fim”…
Como ja’ tenho um bom numero de roupas “bohemian”, que nao uso nunca, fiquei somente com uma saia maravilhosa, envelope, longa e bem larga que custou cinco dolares (somente porque o calor estava muito grande pra barganhar), uma bolsinha vermelha, cheia de espelhinhos por dois e umas pulserias amarelas (bangles), pra usar com meu sari, por 2 dolares. Gastei menos de 10 dolares!!!
Tambem compramos presentes lindos, uns bloquinhos de notas “pintados” com pedras semi-preciosas (gemstone painting) e feitos de papel reciclado, com uma canetinha dourada. Mas, nao posso dar o preco desses dai, porque vai ter futur@ presentead@ lendo, ne? hehehe…
Delhi esta’ em alerta vermelho depois que duas bombas foram detonadas em dois cinemas da cidade ha’ algumas horas atras, ferindo gravemente 50 pessoas, incluindo uma crianca e matando, ate’ o momento, oito.
Saindo, completamente, do assunto… tinha que escrever aqui que um dos meus cineastas favoritos, Jim Jarmusch