
Pois é. Como eu ia dizendo, aí abaixo, eu sempre fui muito preocupada com os valores e a metodologia usada nas escolas onde Bia estudou. Faltou, apenas, dizer que o Zab tem um ensino construtivista, baseado nas idéias de Paulo Freire.
Enfim… chegamos nos EUA e fomos à procura da escola (pública). Aqui, os alunos têm que estudar numa escola próxima à sua casa, não podem ir para bairros afastados, então, decidimos onde morar, de acordo com o lugar onde tivesse a melhor escola e tivemos ótimas referências da Bethesda-Chevy Chase.
A primeira coisa foi fazer a inscrição, num lugar, tipo “secretaria de educação de Montgomery County”. Fomos super bem atendidos. Bia fez um teste pra avaliar seu inglês e tirou uma boa nota. Passou direto pro nível 3 em 5.
Aqui, nos EUA existe o programa ESOL – English for Speakers of Other Languages , que pretende ser uma transição dos alunos que estão emigando para os EUA e que ainda não têm condições de acompanhar todas as aulas na sala normal do High School.
Ao contrário da Suécia, onde os alunos ficavam num departamento completamente separado (até porque não tinham noção absolutamente nenhuma do idioma sueco, claro). Aqui eles já começam tendo algumas aulas com os americanos. A idéia de estarem misturados é boa. Bia tem amigos americanos e eles não demonstram nenhum preconceito, isso favorece a integração.
Mas o ESOL é uma coisa na teoria, outra na prática. Nos primeiros dias fiquei chocadíssima. Os alunos são jogados, de qualquer forma, nas salas de aula, sem que exista nenhuma tentativa de integrá-los, nenhuma socialização. Essa foi a nossa primeira experiência com a dura realidade do american way of life: “Cada um por si”.
O primeiro mês foi muito difícil. Ela reclamava que não tinha tempo nem pra respirar; que não conseguia fazer amigos, porque o tempo fora da sala de aula era mínimo e detestava o clima de “medo” dos alunos, em relação aos professores, dentro da escola. Os professores não tinham nenhuma atenção especial para os alunos e se tivessem dificuldades tinham que se virar sozinhos. Eu fiquei revoltada.
Mas, o que eu mais detestava, mesmo, era o clima de estímulo à competitividade, completamente contra todos meus princípios… são cartazes, espalhados pela sala, mostrando a graduação dos alunos, quem está em primeiro, segundo e terceiro lugares… o fim!
Ted foi professor de escola elementar quando era bem jovem e disse que os professores, aqui, ao contrário da Suécia, se interessam pelos bons alunos, os que têm chance de tirar boas notas, os que são “troublemaker”, que gostam de bagunça, que são difícieis de adaptar, que têm problemas de aprendizado, esses, nenhum professor quer.
Detesto isso.
Por outro lado, o ensino daqui é muito mais fácil que no Brasil. Enquanto temos uma quantidade de absurda de assuntos, em nosso currículo, aqui os professores concentram em menos, mas repetem muito mais, o que eu gosto muito.
Acho que a gente tem um currículo ridículo, completamente fora da realidade, no Brasil. Assunto demais que ninguém tem condição de absorver tudo aí vira “decoreba”, pra passar no vestibular..
Enfim… o tempo foi passando, e Bia foi se enturmando, encontrando novos amigos, compreendendo melhor como a escola funciona… e hoje, pra minha surpresa, ela tira as maiores notas que tirou em toda a vida. Está estudando tão sério que só tem A, em quase todas as matérias, especialmente matemática, onde virou assistente da professora!
Como, aqui nos EUA, o histórico escolar pesa muito na hora de entrar na faculdade, ela está indo muito bem. A professora disse que, se ela mantiver o nível de notas, atual, ela poderia entrar até em Harvard!
Outra coisa que me surpreendeu foi o quanto a escola, ao contrário do que eu imaginava, especialmente nos primeiros dias, está sempre presente e com um acompanhamento detalhado do aproveitamento do aluno, junto aos pais. Todos meses recebemos cartas dizendo como estão as notas dos alunos, se ele está fazendo as tarefas de casa ou não, e avisando se tiver faltas ou atrasos.
Tem também um site “web grade”, onde os pais podem acompanhar as notas em cada quesito (provas, quiz semanais, tarefas de casa etc.)., além de informar a média da sala e qual a posição do filho em relação aos outros. Alguns professores mandam emails pros pais avisando que, em tal dia, os alunos vão ter prova.
Cada aluno tem uma “conselheira”, com o qual pode conversar, reclamar, fazer solicitações relacionadas à escola. Eu estive, algumas vezes com a conselheira de Bia, uma pessoa muito interessante e que tem ajudado, sempre que preciso.
Enfim, fui vendo que, como todas as outras escolas, onde Bia estudou, essa também tem seu lado positivo, não são apenas reclamações…
Aí, dia desses, Bia estava aqui em casa com Sofia (uma amiga da escola, francesa) e nós conversávamos sobre esse sistema tão competitivo na escola, eu perguntei o que elas achavam. Não é que elas disseram que gostam, que acham esse sistema muito mais desafiador, que todo mundo quer tirar boas notas, se destacar, por isso elas estudam tanto…
Bom, minha cabeça deu um nó, né? não tem nada a ver com tudo que eu sempre esperei em termos de educação formal… mas só posso afirmar que Bia nunca estudou tanto na vida… continua questionadora, faz críticas coerentes aos professores, cobra deles, mas está, também, muito mais responsável e disciplinada.
Está preocupada, pela primeira vez na vida, em se preparar pra vida adulta. A escola, não é como no Brasil, onde o objetivo é decorar o máximo possível para passar no vestibular. Aqui, cada tarefa de casa que ela não faz pesa negativamente na entrada dela na universidade. O currículo tem um peso enorme.
Enfim… essa tem sido mais uma lição para que eu esteja sempre aberta a rever meus conceitos…a gente precisa, sempre, ser flexível e se adaptar às novas realidades. Temos os nossos pré-conceitos e fazemos nossas avaliações a partir deles, mas sempre é importante estar abertos para novas experiências e tirar delas o melhor.
Talvez a minha “fórmula”, acidentalmente, tenha funcionado bem… na primeira infância, quando sua personalidade estava em formação, Bia passou por uma experiência que a levou a não aceitar tudo sem pensar antes…
Hoje, talvez, esse mergulho na realidade do país onde vai viver esteja sendo o melhor que ela poderia ter. E a base que ela adquiriu há mais de 10 anos, vai ajudá-la sempre e vai ser um alicerce seguro para sua nova realidade, que ela vai incorporar e se adaptar a ela, mas sempre questionando e com uma visão crítica do mundo.
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Atualização:
Fui na escola de Bia, hoje de manhã, porque ela vai ficar mais uns dias no Brasil, e precisava justificar. Aqui, se faltar mais que 5 dias em um semestre, o aluno perde o crédito daquela matéria.
Conversei com a professora de ESOL dela (algo como professora de Inglês) e fiquei super orgulhosa… quando ela soube que eu era a mãe de Beatriz fez um carnaval… hehehe. Disse que Beatriz não é só extremamente inteligente, participativa, interessada, responsável, mas é uma garota muito especial, com uma “visão multicultural impressionante”, que sabe discutir tudo criticamente, tem o pensamento articulado e que tem muito futuro… Ai, ai… imagina se fiquei feliz????
Bia recebeu um “certificado” por ter tido um nível de notas (GPA – grade point average) acima de 3.40 (num máximo de 4), no primeiro período. Como ela nunca foi uma ótima aluna, antes, e está numa fase difícil de adaptação em mais um novo país, isso é uma grande conquista pra gente.
Amanhã, teremos uma reunião com a conselheira da escola, para planejar tudo que Bia precisa fazer, visando entrar na faculdade que deseja (Relações Internacionais). Ela perdeu dois anos, no período que estávamos na Suécia e lá só estudou sueco, então tem que correr atrás do prejuízo!
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Estou adorando ler sobre as experiências de vocês, aí nos comentários! como sempre, estão enriquecendo muito esse post!